Entre os títulos «Angola: eleições estão a ser "um verdadeiro desastre"», estrondosamente difundido por todos os noticiários durante o escrutínio eleitoral e «Missão europeia considera eleições em Angola como "transparentes"», timidamente divulgado após a contagem das urnas, parece ir a diferença do famoso «Prognósticos? Só depois do jogo!» segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Afinal nem tudo será assim tão feio
Entre os títulos «Angola: eleições estão a ser "um verdadeiro desastre"», estrondosamente difundido por todos os noticiários durante o escrutínio eleitoral e «Missão europeia considera eleições em Angola como "transparentes"», timidamente divulgado após a contagem das urnas, parece ir a diferença do famoso «Prognósticos? Só depois do jogo!» domingo, 7 de setembro de 2008
Memória de uma frase batida
Confesso não ter muita motivação para fazer análise sobre as eleições em Angola, estas, as próximas e as que se lhes vierem, se vierem, a seguir. Por correr o risco de não acertar com as pinceladas certas num quadro que se parece com os de Noronha da Costa. Também por ter noção de transportar no olhar, como sobre tudo o que vejo por aqui, a inevitável sombra de um certo eurocentrismo e, assim, recear não poder cumprir, como me esforço sempre por fazer, a recomendação de Mizoguchi. «Deve lavar-se os olhos entre cada olhar». Daí preferir continuar a fixar-me na paisagem emotiva do filme do meu dia-a-dia em Angola e na relação com os seus principais actores. As pessoas. Quanto às eleições angolanas, como de resto ao déjà-vu da vida política local, fazem-me sempre vir à memória uma frase batida. «O caminho faz-se caminhando». Acrescentando eu ao poema de António Machado. E ao de cada um no seu próprio ritmo.sábado, 6 de setembro de 2008
Charada do funcionalismo
Em quase tudo o que é local produtor de um serviço ou acto administrativo com o trade mark de Angola cresce o bichinho do funcionalismo. Que poderá ser definido como a tentativa de apropriação da realidade por parte dos detentores de uma determinada função pública. Trata-se de uma charada em que os próprios autores se mostram habitualmente disponíveis para esmiuçarem a racionalidade das barreiras do que eles próprios criaram, para mais facilmente depois as ultrapassarem, não raras vezes, a saltos de gasosa. O mais inocente dossier entregue numa qualquer repartição angolana, que inclua a habitual e interminável bateria de atestados, certidões, requerimentos, comprovativos, quer nas versões originais quer nas de cópias certificadas, só será finalmente aceite se lá estiverem toooodos os papéis. Se faltar um qualquer documento, haja um carimbo fora do lugar, veja-se um selo com a côr errada, note-se uma assinatura suspeita, apanhe-se um erro ortográfico, vislumbre-se uma diferente grafia qualquer, conclua-se por uma mancha invisível, volta tudo para trás. A lógica é que um processo completo a 99% continua a ser um processo incompleto. Num insofismável diktat que os guardiões do edifício burocrático angolano, aliás sustentado nos alicerces da administração que os portugueses aqui deixaram há quarenta anos atrás, não ousam sequer sonhar que se possa pôr em causa. Lembro-me da gravidade do erro cometido no meu primeiro pedido de visto para entrar em Angola. Teve como destinatário o Consulado Geral do Porto da República de Angola quando deveria ter sido dirigido ao Consulado Geral da República de Angola no Porto. Diferenças? Devolução imediata de todo o dossier de cerca de duas dezenas de documentos e mais três semanas de espera.quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Incomodados
Para lá do circunspecto das notícias sobre as eleições angolanas, que o Ocidente vigia como se estivesse em causa o último suspiro da democracia no mundo, há todo um país que deixou de trabalhar para se banhar nos comícios do último dia da campanha eleitoral. Para atingir o score dos 2 milhões na festa de encerramento do MPLA e assim cilindrar a concorrência, o governo teve de decretar tolerância de ponto. Afinal, por melhor que seja o bebício, não se ganha um comício sem os figurantes do 9 to 5. No dia seguinte, vésperas de eleições e também conhecido por período de reflexão, metade dos luandenses permaneceram em casa. «Incomodados». Que é como se justificam por aqui as faltas ao trabalho por doença. Seja lá ela qual for.domingo, 31 de agosto de 2008
Frescura
Detidos sete agentes da polícia suspeitos de "massacre do Sambizanga". Ouvi uma vez dizer a um habitante de Luanda. «Tenho mais medo dos polícias do que dos ladrões. Ambos andam armados, mas ao menos com os ladrões sabe-se o que querem.» Talvez que depois de notícias como a desta acusação se passe a saber melhor o que querem os polícias angolanos. quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Impenitente Cantinho
Férias alargadas em Portugal são ocasião propícia para as interpelações de amigos e conhecidos que mantêm a impenitência sobre Angola. «Consta que aquilo por lá é bastante inseguro, não?» Convoco todos os exemplos de insegurança que conheço, desde os miseráveis roubos de telemóveis, aos mais astutos esticões de bolsas e carteiras, os tiroteios entre gangues, as altercações entre vizinhos do mesmo bairro que são resolvidas a tiros de zagalote e shotgun, os descarados carjacking, os assaltos diários a gasolineiras, ATM’s e bancos, até a coqueluche de já se dinamitarem carrinhas de transporte de valores e respondo numa tranquilidade falsa. «Haverá sítios bem piores!» domingo, 24 de agosto de 2008
Férias de Angola III
Calcorrear em Agosto o Porto, que decidiu há tempos deixar de ser Feliz, é reencontrar os fantasmas de que persistimos em julgar ter sido salvos. Afinal, eles continuam lá. Nos bancos dos poucos jardins, nas esquinas das muitas ruelas, nas paredes de casas e muros desertos, nos abrigos imundos de lugar nenhum, a um canto dos enormes ventres urbanos que são a rotunda da Boavista, os Aliados, o Marquês, o Carregal, as Antas, os Poveiros, a Lapa, enfim, em todos os locais onde haja carros para arrumar uma moedinha. Continuam a olhar-nos com a mesma passividade adormecida de sempre, como se todos não passássemos, afinal, de algibeiras andantes que de vez em quando se lhes estacam para tilintar um remorso qualquer. Quando se lhes olha de frente percebem-se os rostos magníficos, para lá das pupilas que há muito deixaram de ver, das orelhas que já só escutam o que o vício lhes grita, das vozes roucas por tanto chamarem a liberdade que se foi, dos gestos da face que jazem mortos nas rugas, tudo assim camuflado numa penumbra de humanidade. Creio que jamais se filmou isto tão bem como aqui.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Férias de Angola II
Reentro, após alguns anos fora, no Centro Comercial Brasília e o que é que vejo? Quase vazio, de lojas e de clientes. Mas a abarrotar de pedintes nos corredores, aparentemente imperturbáveis com a falência dos lojistas ou com a fuga dos portuenses para férias sem os avisarem. Procurei, sem encontrar, o lugar onde tantas vezes almocei ao ritmo da leitura do jornal do dia, a montra que me obrigou a coleccionar camisas e gravatas, a livraria onde vira tantos títulos a que achava graça e que me obrigavam a entrar para folhear livros, jornais e revistas, o balcão onde me abastecia de after-shave, mais os cremes que as meninas me vendiam sem que eu chegasse a descobrir a que se destinavam e tantas outras lojas que durante tanto tempo me forneceram tantas coisas menos a capacidade de as guardar na memória. Dizem os entendidos nestas coisas que o velhinho Brasília, que há 30 anos atrás inaugurou o conceito no Porto, pertence à primeira geração dos shoppings e que o seu declínio é um sinal de mudança nos hábitos dos consumidores. Custa-me a acreditar. Acaso deixaram os portuenses de comer? Ou de tratar da aparência? Ou de vestir? Ou de ler? Ou de ...? Bem, afinal sempre há lá agora uma «Eros-Shop». Vá-se lá entender estes entendidos. terça-feira, 19 de agosto de 2008
Férias de Angola
«India. Menina de 10 anos assassinada por causa de um iPod.» Há uns anos atrás, para não parecer que recusávamos a prenda de aniversário oferecida à nossa filha, tivemos de telefonar para a mãe da amiga que se apresentou na festa-de-anos com um embrulho contendo um telemóvel topo-de-gama que custaria mais de seiscentos euros. Com muito pouca imaginação para justificar o que só consideramos bom-senso, o argumento decisivo para recusar o nao-faz-mal-não-me-custou-nada-pois-comprei-o-numa-promoção-leve-dois-pague-um acabaria por ser o real. Uma criança de 10 anos não precisa de um telemóvel. Ou de um i-pod. quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Engraxadores da memória
Um dos mais seguros e confiáveis negócios em Luanda é o dos engraxadores de sapatos. Falta de passeios, ruas esventradas, torrentes de água e esgotos a deambularem pela arqueologia das calçadas, automóveis a pastarem em bermas de estradas de terra batida, outros a abrirem no trâfego quase sempre parado da capital, fazendo renascer redemoínhos daquela poeira avermelhada que é uma exclusividade africana, tudo permanentemente embrulhado num nevoeiro de sujidades, são as condições óptimas para o exercício desta actividade. Depois, putos ladinos e sempre atentos às biqueiras alheias dão ao ramo a agressividade comercial e a proximidade com o cliente que muitos outros sectores da economia angolana não têm. Reparei isso mesmo quando um miúdo, armado de um banquinho com um tampo do tamanho de uma caixa de sapatos e umas pernas que não mederiam mais de trinta centímetros de altura, um pedaço de pau que trazia agarrado uma meia duzia de cerdas de nylon a que ele pretendia dar o destino de escova e uma garrafa de plástico que antes teria albergado 0,25 l de água natural mas agora fora substituída por um cocktail de tinta e lama recolhida dos charcos mais próximos, apontou com ar reprovador para o lugar onde as baínhas das minhas calças tocavam num par de pálidos e outrora castanhos sapatos de vela. Comecei por rechaçá-lo com o olhar, menos porque ele não tivesse razão na acusação ou na sentença da oportunidade de negócio, mas mais pelo embaraço que me criou. De repente, apercebi-me que tinha, calçados, um par de sapatos com 10 anos de idade. O que equivaleria a dizer que estava mais velho outro tanto tempo desde que usei aqueles Rockport pela primeira vez, na Expo 98, comprados numa loja no Colombo, donde saí logo com eles nos pés para calcorrear o nosso segundo dia de vigília á exposição universal, num 10 de Junho que meteu visitas rápidas aos pavilhões do mundo exposto, mais com o intuito de sacar vistos no passaporte que ofereciam às crianças, após espera em longas filas de horas, como as quase três para conseguir almoçar hamburgers & colas no mais enlatado MacDonalds de sempre, assistir ao concerto dos Xutos & Pontapés na praça Sony, antecipadamente pago com a audição do discurso do presidente Sampaio e, sem levantar o rabo do chão, ver no ecran gigante o início do Campeonato do Mundo de Futebol de França, com o Brasil a ganhar 2-1 à Escócia. Dez anos é, realmente, muito tempo para calçarmos. E porque todo aquele tempo tivesse passado ali em pegadas de segundos, algures entre a expressão interrogativa do miúdo e a abstração do meu retorno sem passaporte ao passado, lá acedi a benzer os sapatos coçados que outrora foram castanhos com aquela água benta de tinta e lama nascida nos charcos de Luanda. quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Pescarias
A melhor imagem sobre o tipo de colonização que os portugueses fizeram em África foi-me dada, há já algum tempo atrás, por esta anedota. Um português e um inglês foram pescar na margem de um grande rio e, para os ajudar, levaram um criado africano. Durante quase todo o tempo que durou a pesca, o criado africano teve ocasião de mostrar toda a sua inabilidade para o acto. Desde os iscos que caíam dos anzóis ainda antes da linha atirada pelas canas de pesca chegarem à água, aos cortes na linha e às perdas dos anzóis pela falta de jeito em retirá-los da boca dos peixes, até à perda dos próprios peixes que escapavam ao cesto e deslizavam para o rio quando eram agarrados pelo rabo. O português, crescentemente irritado por tamanha inabilidade, descarregava a sua fúria através de um chorrilho de insultos básicos. «Malandro», «incompetente», «calaceiro», «miserável», etc. Tudo intermediado pelo conclusivo «preto». Durante este mesmo tempo, o inglês manteve-se perfeitamente mudo e impassível, aparentando ignorar a presença do criado. De repente, as águas revoltas do rio galgaram a margem e levaram o africano. Pergunta: qual dos dois pescadores se lançou de imediato à água para o salvar? segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Pornografia
Sou de um tempo em que à evidência do que era excessivo e ao excesso do que era evidente se dava o nome de pornografia. Talvez por isso, neste blogue angolano, se evite escrever sobre política. Por razões, acrescentaria, excessivamente evidentes. Mas, de vez em quando, lá vem a tentação. Como esta notícia, justificando o burburinho que tem antecipado as próximas eleições legislativas em Angola. Juro não perceber o temor de alguns. No deserto político que tem sido este país e com o exercício do poder dos actuais ministros da UNITA a demonstrar não terem qualquer diferença dos demais do MPLA, para além do NIB, será de esperar que tudo fique, evidentemente, na mesma. Ou seja, qualquer coisa como isto. Problemas ocorrerão, certamente, depois das eleições, quando o actual regime for obrigado a desmobilizar os enormes custos que vem suportando com a angariação maciça de seguranças privados e sua incorporação nas várias polícias. O que fazer no futuro com o actual excedente de patrulheiros da ordem pública, sim, será um problema. Desconfio também do discurso presidencial, de que nem «todos sem excepção consentiram sacrifícios», a avaliar pelos cerca de 25 biliões de dolares de contas angolanas em off-shores que ficaram por reclamar no aperto que as autoridades americanas fizeram no post 11 de Setembro. A sugerir que tais sacrifícios seriam facilmente compensados. Bem mais genuína, finalmente, será a confidência que um empresário estrangeiro, que construiu toda a sua vida em Angola, me fez há tempos. «Rezo todos os dias para que o presidente não abandone o poder». Convicção e expectativa que não teriam nada de anormal se não se desse o caso do empresário, indiano, ser ateu. quinta-feira, 31 de julho de 2008
Diferenças entre os 1º e 3º mundos
Cenário 1. Luanda, capital de Angola. As sete e meia daquela tarde pareceram-me uma boa hora para dar por concluído o trabalho, chamar o motorista e tomar o caminho de regresso ao hotel, num percurso que habitualmente demora cerca de um quarto de hora mas que acabaria por se estender por mais duas horas e meia, porque o presidente desta República decidiu ir visitar o centro da cidade e, já se sabe, a sua guarda pretoriana fez parar o mundo num raio de vários quilómetros terrestres, marítimos e aéreos. Como o pobre do motorista lamentásse mais um outro tempo de espera até chegar ao gindungo que, certamente, o esperaria à mesa de casa, convidei-o para jantar num restaurante perto da marginal e do meu destino. Amesentados na esplanada, numa noite inundada de motoristas esfomeados e na expectativa dos dois pregos-à-moda-da-casa, conseguiu-se uma cerveja ao fim de vinte e cinco minutos. Pão? Manteiga? Azeitonas? Nickles! Das três idas ao balcão para incentivar a cozinha, regressava-se com o infrutífero já-tá-memo-a-sair da praxe. Ao fim de mais 1h15m sai o inesperado cardápio: «Não vamos poder servir batatas fritas porque o funcionário do economato levou com ele a chave ao sair do serviço». Boa, ficamos a saber que a despensa acumulava com o economato. E então o prego-sem-batatas-fritas-mas-com-o-bife-e-o-ovo sai? Sai, mas inicia o cozinhado agora mesmo. Felizmente que Sua Excelência já havia regressado aos reais aposentos e o trâfego na marginal melhorara a olhos vistos. Bora lá então pagar o gole da cerveja e atacar já ali o primeiro ovo montado num bitoque da Portugália. Foi o que nos valeu, pilecas de fome e cansaço. Por volta da meia-noite, o motorista lá conseguiria regressar a casa, se calhar ainda a tempo de malhar no gindungo. Cenário 2. Corunha, norte da Galiza, Espanha. Passeio pelo extenso relvado sobranceiro ao mar, florido e arborizado por esculturas e estatuetas alusivas a lendas gregas. De repente, uma morrinha esfriada pelos ventos do Mar do Norte aparece com o intuto de ensopar as t-shirts daquele par de turistas que, mesmo assim, decide estoicamente prosseguir a odisseia de chegar e subir à Torre de Hércules. Mas mais meia hora de uma oblíqua e cada vez mais forte chuva fazem-nos desistir e entrar no primeiro restaurante aberto nas proximidades. Que se manja? Lo que quieren. Fica-se então pelo ensopado de mero. Enquanto se espera o cozinhado na hora, fique-se com o pão artesanal mais a indissociável mantequilla, espécie de manual de sobrevivência da restauração europeia, enquanto o polvo galego não faz a sua entrada. Entretanto, o dono acrescentaria ao repasto uma botelha de um vinho igualmente artesão, da sua quinta na fronteira com as Astúrias mas ainda com sabor a Ribeiro e que o cefalópode acabaria por também aprovar. Muy, muy bien. Logo a seguir chega o mero, a nadar num molho espesso de azeite e de tão deliciosas quão indecifráveis especiarias, tudo escoltado por pimentos verdes e vermelhos para melhor cativar os tugas. No final, uns docíssimos postres caseiros ajudariam a secar a roupa no corpo e deixaram-nos prontos, não apenas para escalar a Torre de Hércules mas igualmente, se necessário, para a conquistar. Também se vêem, assim, as diferenças entre os mundos.terça-feira, 29 de julho de 2008
Anonimatos, Gughenheim & Saravás
Sempre fui um bloguer anónimo, quer aqui quer nos outros lados por onde já vagueei, mesmo naquele onde assinava com o meu nome no fim, muito embora apenas com a inicial do apelido. Contrariamente aos que são contra os autores anónimos e que fazem questão em içar-se nos nomes próprios, em actos que sobranceiramente tendem a confundir com coragem, eu tenho-o feito pela maior liberdade e abrangência de escrita que o anonimato permite. Escrevo o que, sobre o que, e da forma que, me apetecem. Em tempos, um meu conhecido assinante de um blogue de referência confidenciou-me não ter escrito sobre um acto de violência gratuita que presenciara à porta de sua casa por recear a hostilidade do vizinho prevaricador, num exemplo de auto-censura com que, por exemplo, um anónimo não teria de se confrontar. Tal como com o risco de lhe serem relembrados os dotes de sapateiro à primeira nota dissonante no rabecão ou, quem sabe, como se a um vulgar aprendiz de pedreiro pudesse estar vedada a idealização da arquitectura do Gughenheim. Não fazendo eu, então, qualquer esforço para me anunciar a amigos e conhecidos, em tornar-me comentador assíduo e notado em blogues de referência, em ser actual nos temas escolhidos ou consensual nos comentários aos comentadores, não sofrer da sofreguidão das postagens ou dos contadores de visitas, fico, no entanto, reconhecido quando me incluem nas galerias linkadas de outros. Apercebi-me que foi o que terão feito o Diário da África e o Casa de Luanda, blogues de brasileiros e angolanos que decidiram adoptar na irmandade este diário, cada vez mais semanário, de um tuga em terras de Angola. Saravá a ambos.terça-feira, 22 de julho de 2008
Porreiro, pá!
Consta que terá sido por culpa dele que não consegui arranjar lugar em executiva e tive de me conformar em viajar em económica, numa benesse tão repentinamente anunciada quão lentamente custosa me foi a engolir. Basta lembrar-me dos saltos em altura que tive de fazer sobre a vizinhança da coxia em coma de sono durante todo o percurso de oito horas. Afinal, até que o homem tomou finalmente uma decisão acertada. Daí que eu já me tenha esquecido de que não me serviram o habitual champanhe à entrada, que passa perfeitamente por Möet & Chandon quando sei que é Gancia, não me trocaram os sapatos pelas super peúgas com que galhardamente costumo enfrentar os glaciares da altitude, não me perguntaram pelos alternativos dois pratos de carne ou de peixe, da autoria daqueles cozinheiros especialmente escolhidos pela TAP para tratarem das vertigens gastronómicas dos seus passageiros frequentes, não me ligaram à exibição da edição não-sei-quantas do Senhor dos Aneis, em que um chimpanzé animado insiste em morrer escalfado por causa de uma aliança e já nem sequer me lembro de ter perdido o conforto do banco rapidamente transformado em cama por efeitos da reclinada magia do Monte Velho tinto. Não. O acerto na decisão de enviar 200 professores para Angola em 2009 merece que eu esqueça o que afinal perdi por causa da coincidência de termos regressado no mesmo avião. Até porque, ao que consta, para se evitarem os seus mui temidos tremores no avião, se viajou a mais de 2 mil metros da altitude normal dos vôos de rotas comerciais comuns. As dos que não levam primeiro-ministros a bordo, já se vê. Gaste-se lá, pois, uns bidons de gasóleo a mais do que será costume e mande-se uma carta a pedir desculpas pelo abuso ao ozono, que Sócrates merece, por uma vez, a falta de sobressaltos. Porreiro, pá! domingo, 13 de julho de 2008
Contemplação do colo
As quatro paredes do dia-a-dia do meu mundo, por aqui, são feitas de materiais tão amorfos como market analysis, call report, bottom line, business case, change management, conference call, action plan e mais uma série de outras coisas com a mesma densidade de gelatina mas que o mundo que se diz civilizado há muito venera. E embora seja feita dessa matéria a arquitectura do trabalho a que me tenho devotado, desde que me levanto até que me deixo cair, não será seguramente dessa ambiência a que me ressoará Angola quando eu daqui sair. Aliás, tenho a sensação de que, quando me voltarem a falar do case study que é este país rico que se recusa a pintar a pobreza e a miséria dos musseques com a mesma côr do petróleo, eu vou lembrar-me das mães que todos os dias vejo atravessarem Luanda de uma ponta a outra a arrastarem na cabeça uma urgência de coisas para vender ao mesmo tempo que amparam com lençóis os filhos nas costas. Ou quando alguém por acaso mencionar a duvidosa possibilidade de tão cedo este país poder trilhar as boas regras do governance, eu vou lembrar-me do manjerico branco da cabeça do homem que costuma passear a sua loucura num sobretudo pela marginal e que há dias vi sentado num banco a aspergir-se de cal pelo corpo nu. E quando ouvir dizer que continuam a proliferar os contratos off-shore a um ritmo bem superior ao dos poços encontrados, turvando ainda mais a clareza das águas profundas por onde tem navegado este regime, eu vou lembrar-me da multidão de mutilados que se passeia em peditório de cadeiras de rodas ou simplesmente se arrastam no chão enquanto tentam sacudir com os nós dos dedos na chapa das portas dos carros parados nos semáforos daquele museu de guerra civil que é o largo do Kinaxixi. Também não me admirarei se ouvir alguém dizer que a sede do Clube do Empresário está instalada nos corredores da Assembleia Nacional. Nessa altura, ficar-me-ei seguramente pela memória da incansável contemplação do colo dos bebés de Angola, naquele sossego bamboleante como costumam passar por mim, a velejarem as ruas nas mantas que as mães defraldaram para eles, distraidamente agarrados ao seu dorso, abstraídos do mundo que mora fora daquele covil suspenso, pernas atracadas nas ancas, mãos livres para orientar o vento, cabeça saliente para perceber o rumo para onde os leva aquela quilha, ouvidos atentos ao borbulhar dos pulmões que arfam, olhos fixos nos outros sentidos todos aqui duplicados e o coração que, afinal, ali se fica a desejar que sejam baixos os relevos que socalcam aquele início de solitária viagem a dois. segunda-feira, 30 de junho de 2008
Atracção fatal
Ontem à noite dei pela presença de um mosquito no quarto. Passou a alguma distância dos meus olhos, levantei-me de imediato e puz-me em posição de ataque mandibular. Como planava em diferentes focos e planos de luz perdia-o frequentemente. Preferi então estancar de pé e seguir-lhe o voo com o olhar, tentando adivinhar-lhe as coordenadas e antecipar o local da aterragem, mas o meu radar visual acabaria por perdê-lo entre a selva de cores dos cortinados. Decidi então apagar as outras luzes do quarto a ver se o convencia a concentrar-se no diâmetro fosforescente de um abajour. Não deu resultado. Lembrei-me depois que alguém me avisara que afinal eles preferem os locais mais escuros e voltei a ligar todas as luzes do quarto. Procurei vagarosamente nas paredes, com método, de baixo para cima até à altura do tecto, em espaços listados de cerca de um metro, que depois passava a prescrutar sucessivamente mais à frente. Como entre os cortinados, debaixo da cama, na sapateira, ou atrás das mesas perdesse o espaço aberto necessário para a busca à lupa, limitava-me a enxotar com uma toalha. Ao fim de meia hora, como não mais lhe pus a vista em cima, desisti e tentei conformar-me com as três bisnagas de repelente que trouxera de casa e quiçá poderiam agora mostrar-se mais eficazes. Preparei-me para deitar, lavei os dentes e besuntei-me do líquido pela cabeça, cara e pescoço. Quando saí da casa-de-banho, a imaginar-me já um chupa-chupa gigante de repelente, dei com o mosquito plantado na porta do quarto, mesmo junto ao ralo do visor. Como antecipei o troar do barulho por todo aquele andar do hotel, coloquei a amortecedora mão esquerda ao lado do alvo e aprestei-me a libertar a direita para a explosão. Ostensivamente discordante da minha postura de ataque, o insecto levantou voo, internou-se na zona do pequeno hall de paredes pintadas a verde e nunca mais o vi. Ainda retomei por minutos a metodologia da busca das listas pelas paredes mas, dado o insucesso, teria apenas como resultado uma nova besuntadela antes da entrada nos lençóis, ao mesmo tempo que me interrogava sobre o que eu poderia ter de comum com a Sharon Stone. Quando acordei de manhâ, logo me lembrei de verificar a eventual violação nas côres das almofadas mas, nada, permaneciam na mesma brancas como tivera sido de neve o meu sono. Entrei na casa-de-banho com a urgência de olhar para o espelho na busca de uma picada no rosto e dou de caras com o mosquito lá colado. Como partir o espelho estava fora das regras da caçada, optei por atirar-lhe com uma toalha, mas com tão má sorte que o vento provocado pela força do lançamento tê-lo-à feito sair da zona do embate. Deixei de o ver, no espelho, na toalha ou em qualquer outra eventual zona de sinistro. Não aguentei procurar em mais sítio nenhum e atirei-me ao duche, irritado, dividido entre culpar-me pela falta de pontaria ou protestar à governanta pelo mobiliário do hotel não ser todo feito de pedra. Antes de sair do quarto ainda me lembrei de colocar o termostato do ar condicionado no mínimo possível, 16 graus, na esperança de que tal o fizesse hibernar de vez. Como dei por bem empregue o tempo passado pelo caminho a reflectir sobre o sucedido, mal cheguei ao serviço liguei para o hotel a pedir que vazassem insecticida no quarto. No final do dia, bem que poderia chegar a tempo de homenagear o mosquito com um enterro na sanita. Pois foi com esse pensamento que reentrei de novo no quarto e logo me entusiasmei pela presença de uma botija de insecticida em cima da mesinha. E nem cheguei a tirar o casaco, na ânsia de cheirar a desinfestação. Como não cheirasse a nada, comecei a temer pela fauna e a antecipar mais uma nova piada sobre o sentido de serviço dos angolanos. Aprestei-me então a desligar o frio em que permanecera o quarto durante todo o dia quando, ao lado do termostato, quem vejo eu, lampeiro de calmaria? Pois! Vai ficar ali plasmado na parede toda a noite, para servir de exemplo. Até aceito que os castigos públicos estejam fora de moda, mas estou com a sensação de que dormirei bem melhor esta madrugada. domingo, 29 de junho de 2008
Uma questão de limpeza
«Está limpo». Foi assim, sem mais, como quem anuncia a independência a um drogado ou a salvação a um condenado à morte que já cheirava o esturro, que o médico me informou que deixara de ter paludismo. Soprei mais uma valente nota no trombone da tosse seca que me acompanhava há já duas semanas e vim embora pouco convencido da limpeza, mesmo que certificada pela análise das três gotas de sangue que me haviam retirado meia hora antes. Como sempre nestas ocasiões, fui para lá com cara de enterro, próprio de quem antecipa a sugestão da entrada de uma agulha na pele, numa impressão ainda mais dolorosa do que a de passar uma barra de tijolo pelos dentes. Ahrrr. Esta coisa de ir para lá a mostrar receio pelas picadas de agulhas até que costuma ser um sucesso entre as enfermeiras, que invocam velhos adágios sobre a cobardia dos homens perante certas minudicências para logo prometerem meiguices que, nalguns belos casos, infelizmente, não cumprem. Pode até parecer mariquice, mas não consigo ultrapassar a sensação da natureza antagónica das matérias que se juntam no acto do picar de uma agulha, aço e pele, que me causam os maiores arrepios e que, mesmo que depois dali saiam rios de sangue, já não chegam a incomodar-me mais no alívio do princípio do fim da picada. Sem grandes ilusões, até por não haver enfermeiras à vista, quando entrei para o check out da malária pedi apenas que me salvassem de voltarem a picar-me na ponta do indicador, condescendendo os meus carrascos na escolha do médio. Enquanto faziam de conta que não percebiam o gesto que lhes fazia com os dedos, virei a cara para o lado, como sempre faço, fingindo apreciar os posters da publicidade médica colada nas paredes. A avaliar pela nudez daquele gabinete de enfermagem, fiquei com a impressão de que Angola não andará nos rankings mundiais dos laboratórios farmacêuticos, se calhar porque não quererão perder tempo a comissionar receituários para o fraco poder de compra das cerca de 15 mil pessoas que todos os anos por aqui morrem com a malária e o HIV. Quando saí dali, trouxe comigo a sensação de que nunca estamos verdadeiramente limpos de alguns dos lixos do mundo.sábado, 28 de junho de 2008
S. Pedrinho
Sempre apreciei minorias. Creio até que, tirando o Benfica, nunca pertenci ou militei em nada que se pudesse considerar maioria. Talvez também por isso o meu santo popular preferido seja o S. Pedro, bem menos conhecido do que os outros dois, o alfacinha António e o tripeiro João, mas cujas festas, tendo melhor e mais alargada imprensa, perdem para as do Pedro em genuinidade. Ora, o berço desta verdade-verdadinha encontra-se num minúsculo local do mundo chamado Póvoa de Varzim, onde eu muito gostaria de poder estar esta noite. Hoje acordei com a lembrança daquela anedota sobre os velhos asilados que, depois de se interrogarem sobre a frequência com que cada um ainda se ia aventurando nas lides conjugais, ficaram pasmados com a justificação para a enorme euforia do que só-lá-ia-uma-vez-por-ano. «Porque hoje é o dia!!!»terça-feira, 24 de junho de 2008
Será menino ou menina?
A ligeira constipação continuada de vários dias, mais o arranhado da garganta e a sensação de frio nas mãos e nos pés já o prenunciavam mas, mal o termómetro detectou febre, fugi para o médico. Foi então confirmado, por uma segunda picada, que a primeira havia tido uma incubação venenosa. Paludismo. Bora lá um saco a abarrotar de medicamentos e uns dias em casa, numa penitência de regulador de horários de toma dos remédios. No final do primeiro dia desta solitária e tortuosa espera, dou comigo refém de um anseio. Num país com maioria de mulheres, espero que pelo menos tenha sido de fêmea a picada.Kizomba
Pela primeira vez desde que cá estou assisti a uma verdadeira festa angolana, das que por aqui são consideradas de arromba, muito próximas do paraíso, porque metem jantar, bar aberto e, depois, kizomba. Saber-se que este pack do sonho local fazia parte da agenda de uma reunião de empresa, que incluía palestra de presidente e diversas apresentações de números, metas e objectivos, será dispiciendo. Tudo começou, afinal, quando os gigantescos altifalantes do recinto começaram a tremer com o som arranhado que emitiam e a ameaçar desfazerem-se ante o portento da base rítmica da primeira kizomba da noite. Ainda sentados a saborearem os primeiros whiskies post-jantar, já de pé no bar a forçarem a antecipação da festa ou em redor do enorme plasma onde uns miúdos russos cheios de garra aviavam umas estrelas holandesas a quem de repente falhara a luz, os corpos começaram por abanar-se como se um silencioso formigueiro os invadisse. Momentos depois, já todos no recinto dançavam. Todos menos este escriba, cujos dotes de dançarino, para lá de uns pré-históricos e cirúrgicos slows arrastados por discotecas às escuras, lhe deram a fama de insigne cabide dos casacos dos mais foliões. O mais impressionante da coisa ali é que toda a gente dançava com toda a gente, num ajuntamento e partilha de parceiros que tinha tanto de invulgarmente democrático quanto a minha experiência por aqui ter-me-á já demonstrado que esta sociedade será ainda mais estratificada do que qualquer uma do Ocidente que eu conheço. O motorista a dançar com a directora, a telefonista com o administrador e o presidente com todo o mulherio que se dispõe a aparecer-lhe à frente e que aproveitam o momento para lhe deixarem gravadas as impressões digitais do ondular das ancas. Aliás, os angolanos parecem preferí-las grandes, largas, bojudas e elas percebem bem isso pois são sempre as mais opulentas, de rabo, coxas, às vezes barriga e, outras tantas vezes, isto tudo junto, quem primeiramente se lança à pista, com o mesmo à-vontade de uma super-modelo no início de um desfile de Yves Saint-Laurent. E mesmo quando calha o par masculino revelar os mesmos dotes avolumados, é estranho verificar-se que nem assim eles perdem a harmonia na dança e, quer a área de 3 m2, quer os duzentos e tal quilos que ambos formam, não os impedem de se elevarem até ao nível da elegância de um pas-de-deux de um casal de bailarinos do Bolshoi. Igualmente impressionante aqui é a capacidade que todos demonstram para se transfigurarem, numa linguagem corporal que contagia todas as poses, movimentos e gestos e cujos significados são partilhados alegremente por todos, numa estranha cumplicidade que torna aquilo tudo, a meus olhos, ainda mais exótico. Todo o tipo de ajuntamentos são aqui permitidos, desde os rabos solitários que descem ao nível do chão para abanarem garrafas pousadas, passando pelas parelhas a agarrarem-se numa partilha de códigos de dança que parecem próprios, até à multidão que se movimenta a um só gesto, como se de antemão cada um soubesse exactamente o ritmo a dar a cada som que lhes chegasse. Embora juntos, cada um parece manter-se concentrado no seu próprio frenesim, num somatório que potencia exponencialmente a energia do grupo. Perante tamanha efervescência, um atento sul-africano presente não perdoaria. «Colocassem cinquenta por cento desta energia no trabalho e Angola seria o país mais produtivo do mundo». Felizmente para os kizombados, o dia seguinte era domingo.sexta-feira, 20 de junho de 2008
Grau zero do turismo
País com condições espantosas para o turismo, pelo clima ameno durante todo o ano, pelas praias treze vezes maiores do que as nossas, pela natureza viva e pelo surpreendente da mistura de paisagens diversas num só olhar, Angola está, no entanto, no grau zero do turismo. Poucos hoteis, por falta das licenças protectoras dos actuais industriais e diversos outros condicionamentos, incluindo certificações de qualidade, escolas de hotelaria, livros de reclamações, pessoal habilitado, instalações, elevadores, lençóis, água, sabonetes, toalhas, lâmpadas. Uma estadia de dois dias num hotel do Lobito deu para certificar isto mesmo. Desde logo, uma restauração corrida a 70 kwanzas o dólar, quando o oficial se tem alimentado nos 75 e, nos quartos, mesas de cabeceira com candeeiros que não podem ser ligados por ausência de tomadas próximas, modernos plasmas a parecerem-se com aquários de mosquitos e genericamente quartos grandes cheios de sofás, mesas e restantes adereços a conviverem com raquíticos espaços para WC's. Aqui, o lavatório à altura dos joelhos, a tampa de plástico maior do que o tamanho do ralo, o assento mais pequeno do que a base da sanita, ou o rolo do papel higiénico colocado na parede a dez centrímetros do chão. Salva-se a aventura do duche, tomado num poliban de canto, com dois biombos de alumínio e acrílico preparados para deixar verter a água do banho dos clientes com mais de um metro e setenta de altura, com a enorme misturadora da água á altura do queixo, mais a bisnaga do chuveiro poucos centrímetros mais acima e o colete de forças de estar de sentinela numa base de 40 por 40 cm, que proíbe a ginástica ritmica de passar o sabonete pelo corpo e obriga a desertar dos biombos para ensaboar lá fora e só regressar para o banho. No final, a água quente que pareceu ter enferrujado a abertura das portas acrílicas que fechavam o duche e que fizeram pensar, durante cinco eternos minutos, no ridículo de ficar-se prisioneiro de um poliban do Lobito. Salvam-se os vestígios da paradisíaca invenção portuguesa que foi a Restinga, ali tão perto. Etnomachismo
O etnocentrismo é tramado. De repente, a firme e hirta pirâmide de valores que costumamos mirar como a uma vaca sagrada dá uma volta de 180 graus e fica suspensa pelo cone. O que jurávamos ser sopé ameaça agora transformar-se em cume. À mesa de um restaurante, um angolano maduro, com formação superior e que facilmente poderia ser englobado na chamada elite deste país, decide atacar a irracional fidelidade europeia à monogamia. Presas fáceis, aos dois solitários tugas presentes na mesa nada mais resta de que unirem-se na cumplicidade do sorriso. Entretanto, o outro comensal não pára de degustar o seu menú de argumentos, centrando-se no prato daqueles pobres exemplares de uma cultura repressiva que limita o potencial sexual do homem porque o escraviza a uma só fidelidade. Indecisos entre o assumir da vergonhosa conduta histórica e a atenção à requentada pedagogia do conviva angolano, nenhum de nós se atreveu a interrogá-lo sobre a receita para o eventual potencial sexual da mulher angolana. Fiel ao que diz ser a cultura local, o nosso interlocutor passa a gastar a sua energia em exemplos de homens poderosos, generais, que chegam a coleccionar quatro e cinco mulheres extra e, como convirá para o receituário do rejuvenescimento, todas elas mais novas pois que para ressonar já bastará a legítima. Não querendo pôr em causa a bravura destes homens ilustres, concentrei todas as minhas forças em contar uma história que ouvi recentemente a alguém, sobre um jardineiro que foi preso depois de se saber que se habituara a tratar em segredo o negligenciado potencial sexual da legítima de um general. Remédio santo, depois deste exemplo, passamos todos a falar de sobremesas.sábado, 14 de junho de 2008
Titanic angolano
Algumas vezes, por aqui, julgo rever uma das cenas iniciais do Titanic, o filme. Quando a velha Dorothy inicia o relato das suas memórias do embarque inaugural do barco sobre as imagens dos mergulhadores a darem com o casco afundado e a objectiva da câmara entra no interior do convés para montar um longo travelling que transforma rapidamente o frio cinzento das profundezas do mar no quente colorido do grande salão de festas do apogeu do navio. Aconteceu-me isso pela primeira vez quando visitei o Lobito. Ao olhar as praias da Restinga e imaginar a beleza da marginal pedestre de outrora, com as suas casas de veraneio apontadas para o Atlântico, a relva de flores a arrastar-se por entre as pequenas dunas, prenhes de borboletas condenadas a morrer à noite contra as luzes do hotel plantado na praia, a imagem das copas das árvores pontiagudas como cedros a contornarem as pequenas enseadas que nasciam entre os pontões de pedras, quentes fiordes de uma parcela de África que os lusitanos ali deixaram como herança. Quando relatei o que realmente vira a quem vivera esse tempo ali, o som do lado de lá do telefone tornou-se turvo e as lágrimas de uma memória ferida fizeram-me ter a certeza de que se deixou por estas terras algo do eterno sonho luso de transportar o Paraíso para o lar e certamente que também muita da nossa capacidade inata para tocar os corações e as vidas dos outros, por sermos dos poucos povos capazes de nos revermos em cada um dos demais. Como já ouvi por aqui a um atento zimbabuano, na vez dos ingleses abandonarem a Rodésia até os tapetes levaram com eles. No último fim-de-semana, numa mariscada missão a Porto Amboim, fui mais uma vez forçado a revisitar o Titanic. Um local feio, pegajozo de lixo e de pó, com as ruas inundadas pelo cimento das areias armazenadas pelas chuvas e que há muito sufocaram o velho alcatrão, que tem duas estações de serviço que disputam um estranho jogo entre a falta-de-gasolina e a avaria-na-bomba, que pode derrotar por diversas horas quem lá se atreva a abastecer-se e um hospital cuja triagem de Manchester consiste em deixar os doentes enfileirarem-se nos espaços do que já foram os seus jardins. No entanto, debaixo do lodo onde tem vivido naufragado desde há trinta e cinco anos, reconhece-se em Porto Amboim Espinho, ou Matosinhos, mais as suas avenidas cortadas a régua e esquadro para mais facilmente poderem desaguar para o mar. As ruas têm a largura de Angola, com tão lindas quão poeirentas palmeiras seivadas de verde e de amarelo que continuam plantadas nos separadores a sinalizar o trâfego, algumas velhas casas coloniais que continuam a ostentar os frescos suaves dos laranjas, dos verdes e dos rosas do nosso século XIX e cujas tintas continuam a ser importadas da metrópole, as praias bordejadas pelas omnipresentes palmeiras que tanto guardam as redes do voleibol como as pedras que balizam os jogos de futebol e o grande morro que orgulhosamente mostra ao mar as entranhas de placas de ardósia enquanto vigia os miúdos que sobem ao pontão de cimento e ferro que invade o oceano para apanharem peixes com o simples arrastar de linhas com um anzol descarnado na ponta. «Nesta terra só morre de fome quem quer», recordam-me pela enésima vez desde que cá cheguei. Vista da praia, a cidade torna-se familiar, com os rebanhos de barcos a pastarem junto à entrada do porto, cuja lota se habituou a recolher o pescado dos arrastões chineses que sugam industrialmente os fundos dos mares, os pescadores de pé na praia a contorcerem-se em lanços na linha da maré, o cheiro a grelhado que chega dos restaurantes amesentados na marginal e o batuque dos talheres que se agitam nas mesas das esplanadas viradas no sentido da praia. Do comando da cozinha, cujos cheiros nos atraíram desde Luanda, trezentos quilómetros para norte, uma portuguesa sardenta e de olhos azuis serviu-nos as lagostas duplamente avermelhadas pelo grelhado. No final, apenas a conta, em dólares, tentava enganar-nos de que aquele não tinha sido um pedaço de Portugal. domingo, 8 de junho de 2008
O Gato
Um dos ídolos da minha infância de futuro-futebolista-famoso foi o Alhinho, que imitei mal vesti pela primeira vez o equipamento com as cores do clube da minha terra, calcei um par de chuteiras com pitons de borracha e passei a jogar os meus sonhos num campo pelado de saibro e sequioso de mercurocromo mas como se me encontrasse a planar nos holofotes relvados do estádio da Luz. Desse sonho vivido em inúmeras colecções de cromos de jogadores com as caras manchadas de rebuçado, usurpei o uso das meias deixadas displicentemente em baixo, mais a camisola debruçada sobre os calções e o cabelo encaracolado, no meu caso por comprido, do Alhinho, cuja forma de se antecipar aos lances lhe valeu o cognome de «Gato». Como não poderia deixar de ser, o início da minha fugaz carreira de jogador da bola, que naquela altura acumulava com a de impulsivo coleccionador de cromos, foi feita na mesma posição do campo que praticamente inventara para ele mesmo e que se chamava libero. Pois foi também livre a queda que ele fez agora, aqui, num hotel de Benguela, no fosso de um elevador que o enganou, ao dizer-lhe que subia ao 6º andar para afinal ficar estancado no rés-do-chão. Conto continuar a imitá-lo, como certamente ele faria se tivesse sobrevivido e passar a deitar a ponta do pé no chão do elevador antes de lá entrar, como se a experimentar a temperatura da água à entrada da banheira. Gato escaldado...sábado, 7 de junho de 2008
Cabinda
Desconhecia-se-lhe o verdadeiro nome, a idade, donde vinha, se tinha família, se era mesmo mudo, ou como aparecera por ali. Sabia-se, apenas, que se dava pelo nome de Cabinda. Vivia do lixo que encontrava amontoado nas traseiras dos restaurantes próximos ou do que lhe davam os comerciantes de fruta das redondezas, o que na maioria dos casos pouca diferença haveria, tinha o lar montado entre as traves enferrujadas de uma antiga cabine telefónica no que também já fora um passeio de calçada à portuguesa e, como rondava permantemente as ruas do bairro e era solícito em atender a qualquer pequeno recado, os vizinhos faziam de conta que lhes tomava conta dos carros e sustentavam-no a moedinhas de notas de kwanzas. Uma noite, um condutor embriagado saltou o passeio onde ele dormia e obrigou a vizinhança a fazer uma chamada de urgência para o hospital mais próximo. Lá chegados, não saber o nome do paciente ameaçou perigar ainda mais o que se temia ser um traumatismo craniano. Surpreendentemente, Cabinda levantou a volumosa carapinha ensanguentada da maca e soletrou o seu verdadeiro nome, anexando vários apelidos de forma tão pausada quão consciente. No dia seguinte, os que quiseram seguir este folhetim haveriam de ser informados de que, afinal, apenas sofrera algumas escoriações. E de que acordara cedo para tomar um duche, pedir que lhe fizessem a barba e emprestassem roupa lavada, matabichar o que havia para pequeno-almoço e desaparecer para nunca mais ser visto por aquelas bandas. sábado, 24 de maio de 2008
Adeus lições de trigonometria
Diz-se que as autoridades de Luanda pretendem acabar com a circulação dos candongueiros no centro da cidade e trocá-los por uma frota de autocarros. Penso que será um duro golpe para todos os que, como eu, se habituaram a olhar aqueles populares taxis colectivos, cuja lotação vi tantas vezes ser esticada dos formais nove para mais de vinte passageiros, como um dos mais fortes e genuínos ícones desta terra. Acredito que a retirada destas geralmente encarquilhadas carrinhas listadas de azul e branco, que se diz representarem 50% da frota automóvel local, venha a tornar a circulação no centro de Luanda bem mais fluente. Mas também, seguramente, muito mais chata. Com que passarei então a distrair-me se acabarem com o filme diariamente projectado nas janelas do jipe que me transporta nesta cidade? Certamente que não com a banalidade dos carros que abrandam perante os sinais de perda de prioridade que antecipam uma rotunda ou um cruzamento! Ou com os que param nos stops! Ou com os que nunca por nunca circulam pelas bermas das estradas! Sequer com os que dão prioridade aos peões nos passeios! Aliás, creio bem ser capaz de regressar a Portugal se, como ameaçado, eles deixarem de fazer parte do meu dia-a-dia em Angola. Por suspeitar não mais conseguir viver aqui sem eles, sem essa contínua emoção de sinuosos desvios de rota, sem a surpresa da condução de cotovelos na janela do condutor e de cabeças a arejar em todas as outras, do espectáculo dos coloridos bonés rasta e dos fumarentos roncos dos motores movidos a reggae e a kuduro. Então e as lições de trigonometria a que assisto todos os dias no percurso para o trabalho?! Atacar as rotundas como se estivessem vazias de trâfego, passar tangentes no espaço equivalente a três faixas de rodagem para encostar ao centro, descarregar e voltar a carregar passageiros por entre um festival de buzinas e tornar a arrancar rumo à saída imediatamente à direita como se afinal circulásse no Sahara?! Fugir a um engarrafamento e acelerar em contra-mão pela berma da faixa contrária?! Não ter quaisquer pruridos em subir passeios, com duas rodas se estreitos, com as rodas todas se suficientemente largos?! Ou em enviar para o centro da via os peões atarantados?! Não parar nos sinais de controlo de velocidade de bairros residenciais?! Não ligar ao verde para os peões sempre que não se vê nenhum no passeio?! Parar a cada momento na estrada sempre que o pica, que também faz de placard, grita um destino e alguém se candidata a aumentar a lotação?! Responder, enfim, «p'ra esquadra» sempre que a polícia os descobre sem luzes, nem espelhos retrovisores, nem guarda-lamas, nem pneu sobressalente, nem registo de propriedade, nem seguro, nem carta e os coloca entre a difícil alternativa existencial de pagar multa ou passar uma temporada entre ferros?! Por isso vou já reservar o meu bilhete de regresso. Receio bem que estas alterações sejam condição suficiente para protestar o meu contrato de trabalho por aqui. domingo, 18 de maio de 2008
Mais próximos do paraíso
«É muita obra / o país está a funcionar / ainda falta andar muito / mas estamos lá a chegar». Assim legenda a golpes de batuque na TPA o Ministério das Obras Públicas do Governo de Angola as imagens freneticamente montadas de cimento, ferro, andaimes, trolhas, tractores, betoneiras, prédios, jardins, parques, escolas, hospitais, estradas, portos, carris, indústrias de cerveja, de coca cola e de papel higiénico, populações de enxada na mão a fazer covas em solos ressequidos na vizinhança de cubatas, mulheres a cegar plantações de rabo para o ar e bébés a tiracolo e o close-up de velhos aldeões entusiasmados em ressuscitar sorrisos desdentados. Fora da alegria oficial, reparei esta manhã que a ilha de areia que a força do esgoto erigiu nas marés baixas da baía de Luanda se havia transformado num campo de futebol. Duas equipas de três miúdos, rapidamente reforçada por mais alguns, chutavam uma bola para balizas de pneus e pedras, correndo de pés descalços sobre um pelado com epiderme de latas, garrafas de vidro, ferros retorcidos e outros sedimentos cortantes que o caudal do esgoto e o déficit higiénico das populações vêm fielmente depositando ali há anos. A irmandade da assistência ao prélio era tão irreal quanto as notícias da chegada à antecâmara do paraíso que os spots do regime propalavam. Desde a geral dos vagabundos que ainda estremunhavam de chapéu de pai-natal na cabeça debaixo dos arbustos que rastejam no calçadão da marginal, passando pela desusada atenção dos inúmeros guardas privados que costumam dormitar nas cadeiras de plástico que enxameam as entradas dos edifícios desta cidade, até aos camarotes dos curiosos que assomavam às varandas dos prédios defronte, cheios de cordas para secar roupa e onde, a crer em Bob Geldof, se encontram as t-shirts, as cuecas e os soutiens mais caros do mundo. Desconheço se os miúdos que pontapeavam a bola naquele oásis de areia e de sonhos teriam noção de que aquele poderia bem ser o seu último jogo ali. No local do improvisado estádio, o grupo empresarial financiador das obras da nova marginal prevê construir um casino. Na foz do esgoto, o jogo será, assim, outro. Quiçà seja esse, afinal, o sentido da mensagem do slogan oficial. «Ainda falta andar muito / mas estamos lá a chegar». sábado, 10 de maio de 2008
Política de rally
Um destes dias assisti no principal canal de televisão daqui, TPA, a uma nota de reportagem apresentada por um mulato de voz grossa, carapinha a entrar pelas patilhas e tentando imitar a histrionia do Artur Agostinho, sobre a atribuição de viaturas e subsídios pelo governo provincial de Luanda a diversos sobas. Estes líderes tribais habilitavam-se aos pópós no decurso do patriótico dever de instruirem as suas populações, muitas delas remotas, sobre os benefícios do recenseamento para as eleições legislativas de Setembro próximo. Não pude deixar de imaginar o nosso Sócrates a oferecer jipes a todos os presidentes de junta em 2009. No ecran angolano, era evidente a dificuldade dos anciãos em se equilibrarem ao mesmo tempo que miravam interrogativos os espadas dispostos à sua frente e se amparavam numa espécie de cajados que o speaker de serviço apresentava como símbolos do exercício do histórico poder tribal. Aqui, como certamente em muitos outros lados, a luta partidária parece já não se contentar em confinar-se à ideologia das camisolas, bandeiras, bonés, sacos, canetas, isqueiros, pins e todos os packs doutrinários que se habituou a distribuir em comícios e bebícios. Interroguei-me se o velho Marx não seria capaz de alterar uma sua frase batida, actualizando que também a política é o ópio do povo. E que só mesmo os seus inebriantes meandros seriam assim capazes de transformar velhos sobas em pilotos de rally. quinta-feira, 8 de maio de 2008
Post ao desafio (da Laura num comentário no último)
Consta que Bob Geldof cantou em Lisboa umas monstruosidades sobre Angola, o que desde logo provocou a recusa ad-eternum da emissão do seu visto de trabalho por aqui e pôs os banqueiros anfitriões do Banco Espírito Santo a dorir os joelhos numa prece aos «criminosos». Pudera, sendo o BESA o banco mais rentável cá do sítio, mesmo que tendo apenas a quarta maior rede de balcões, lá saberão porque tiveram de se desdobrar de imediato em desculpas pelo engano no repertório do lord & rocker britânico. Sir Bob terá então descoberto que na baía de Luanda, que todas as manhãs despeja no meu jogging os mesmos maus cheiros que pelos vistos atraem os criminosos, as casas são caríssimas e que tudo isso será culpa de uma sociedade local de empreiteiros que dará pelo nome de Eduardo dos Santos & Cª. Mais do que isso, Geldof sentiu-se mesmo ofendido com o facto da terceiro-mundista Luanda ousar pretender destronar a imperial Londres do topo das cidades mais caras do mundo. E sem pobres e criminosos, supõe-se. Mas parece que o ex-Boomtam Rat se terá confundido com os preços pois que os que este desafio me obrigou a coligir referem que o metro quadrado dos escritórios arrendados em Luanda anda à volta dos 400 dolares por ano enquanto o de Londres ronda os 1.500. Pelo meio ainda andará o Dubai. Curiosamente, o edifício mais caro cá no burgo até é propriedade da British Petroleum, que consta ter como accionistas membros da Coroa. My God, are they criminals? Há muito quem pense, não apenas por estes lados, que certos crimes bem que poderão ter sido importados. Um destes dias ouvi de um angolano que dobrava o jornal. «Mais uma má notícia para Angola: foi descoberta uma nova grande jazida de petróleo». sábado, 3 de maio de 2008
Estória de melgas
Dez dias, felizmente uteis e por isso com equivalência a mais de duas utilitárias semanas à espera de um visto de regresso a Angola, que praticamente foram usados a acampar nos menus dos restaurantes lusos. A novidade, para quem já desfalecia por temer perder a memória de alguns gostos, é que as tripas do Abadia, os rissóis do Galiza, o cabrito do António, as massadas de peixe do Praia-Mar, as empadas do Natário, os assados do Manel e toda a caça do Recanto se mantêm deliciosas. E até mesmo a Super Bock, que me desculpe a Cuca pela breve traição, mantém os seus elevados padrões de tolerância. Como sempre, no regresso, relembro a primeira chegada a Luanda. Sem os polícias de agora, à porta do aeroporto, restringindo os acessos a todo o género de melgas, principalmente aos que logo apareciam junto ao tapete rolante que faz de passerelle às malas dos recém-chegados e que se faziam de chauferes dos carrinhos de mão levando as bagagens como reféns. Há um pouco mais de seis meses atrás foi assim. Depois do autocarro nos deixar aterrados naquela sauna de gente de todas as cores, línguas e credos que procuravam saber a origem de tantas filas que se entrecruzavam para desaguar em nenhum posto visível, malas a marcar lugar enquanto se vai algures a um balcão buscar mais um impresso para provar ter as vacinas das doenças tropicais em dia não vá desvirtuar-se a pureza dos genes da malária local, voltar a procurar a fila legítima saltando por cima do bowling das bagagens, retomar a que segue um letreiro que diz Cidadãos CPLP, helàs, mas afinal inundada por uma mistura de trabalhadores russos e indianos e responder vir de Portugal como consultor de uma empresa local ao funcionário do posto de controlo de passaportes enquanto ele se mantinha vidrado no ecran do computador para logo depois sair da abstração, procurar com a mão o martelo e trespassar a folha virgem do meu passaporte com o borrão preto de um carimbo barulhento. A partir daí, virei paizinho. Que era o que me sussurrava quase ao ouvido, com o intuito de estrear em Angola os poucos dolares que eu comprara novinhos no banco, o mesmo melga da passerelle das malas, ao mesmo tempo que tentava controlar a rumo do carrinho onde eu trazia as minhas duas, mais a do laptop a tiracolo. Assumindo um semblante de vai-chamar-pai-a-outro, dispus-me a recusar a interesseira ajuda e a empurrar a minha carga dali para fora. Mas eram demasiadas as fardas fronteiriças, pelo que ainda tive de parar para mostrar o passaporte, o bilhete do avião e o tal impresso sanitário mais umas três ou quatro vezes, tantas quantos os flic-flac que tive de inventar ao convocar todos os documentos exigidos ao mesmo tempo que rechaçava as investidas do melga. Saído finalmente da área internacional do Aeroporto 4 de Fevereiro, que é o nome por que é conhecido aquele amontoado de pavilhões raquíticos e sem ar condicionado ao lado de uma pista de aviação, tentei logo verificar em que esvoaçante folha A-4 constava o meu nome junto ao da empresa responsável pela minha vinda e que ali deveria ter um motorista mais uma corrida para um outro porto mais seguro. Nada. Uma ligeira (para afastar suspeições de insegurança) reconfirmação pelos placards da suspeita da minha fraca cotação sócio-profissional por aquelas paragens fez-me decidir avançar até à esquina mais próxima. A partir desse momento, abandonei-me ao melga e acabei por deixá-lo tomar o controlo do carrinho das malas. Afinal, ele até estava a conseguir afugentar com golpes de eu-fui-o-primeiro-a-chegar outros tantos que se atropelavam para oferecerem aqui ao paizinho diversos serviços de guarda, pessoal, das malas e certamente também da minha carteira. Finalmente apareceu-me o motorista, que inaugurou ali mesmo o refrão de uma cantilena que a memória destes meus seis meses de Angola já registaram por milhares de vezes: atrasei-me por causa do trâfego. Bagagem posta no carro, já sentado no lugar do morto, vi o motorista sair para pagar o parking deixando atrás de si a porta aberta. Foi a minha desgraça. Um grupo de assistentes, poucos momentos antes, da cerimónia de recompensa do esforçado melga condutor de carrinhos, acercou-se de mim com o claro intuito de testar a minha solidez financeira. Confesso que seis olhares famintos de liquidez, dez mãos a tocarem os vidros e duas outras já alojadas na pega da porta de trás do carro onde repousava uma das minhas malas convenceram-me. Ao motorista regressado do pagamento do ticket jamais lhe poderia ocorrer que acabara de perder a gorjeta da corrida. Chegado ao hotel, desfazer as malas e separar as roupas pelos armários do quarto ainda seriam tarefas bem sucedidas. Já a água saída para um duche a conta-gotas e shampoo retirado à toalhada, os três elevadores avariados, a frenética descida de vinte e um andares por uma escadaria rançosamente molhada e o ingresso no último minuto previsto para o horário de encerramento de um pequeno almoço continental já amesentado para almoço e por isso já só a albergar umas poucas e muito mirradas peças de fruta, sumos industriais e ovos mexidos à fartazana dariam ao meu primeiro dia de trabalho em Luanda o tom tão colorido quão pastelado com que a minha vida tem vindo a ser pintada por estas bandas do mundo. Tudo o resto será, certamente como tem sido, estória.segunda-feira, 31 de março de 2008
África Latina
Uma discussão recorrente entre angolanos é a que tem a ver com a convivência conflituosa com os sul-africanos, uma espécie de secular e inacabado tira-teimas do tipo Portugal-Espanha mas com a diferença de que a nossa Ala dos Namorados desmobilizou há mais tempo. É notória esta disputa e bem mais acentuada do lado da tribo branca, que deprecia até à exaustão qualquer naco da realidade dos angolanos que gostam de apresentar como recém-saídos das cavernas. Não há elevador de hotel avariado, empregado de mesa esquecido dos ovos escalfados, motorista atrasado pela confusão do trâfego, pedinte inconformado com a recusa de esmola, engraxador especializado em baínhas ou paquete fiel á língua local que se salvem. Da parte angolana tem restado o gozo de verem a próspera vizinha a braços, desde há alguns meses, com o maior apagão da sua história. Há quem legende este antagonismo, que os de cá devolvem com o devido troco, como uma consequência da mal sucedida invasão sul-africana após a retirada dos portugueses do território. Outros preferem justificar isto com a igualmente divergente história sócio-cultural dos dois países. Perguntava-se-me um destes dias um ex-dirigente político angolano porque razão as empresas sul-africanas, ao contrário da grande maioria das multinacionais, não conseguem ter sucesso em Angola. E como que tomando por assentimento o meu silencioso esforço para procurar um nome, bisou a sentença. Que os vizinhos do sul estariam equivocados quando tentavam comparar Angola ao mais pacífico e civilizado Moçambique, segundo ele, país de maior influência anglo-saxónica. Remate do meu interlocutor: «Nós descendemos dos portugueses, somos latinos!» Depois de ouvir isto, confesso que também eu passei a troçar da apurada organização e disciplina com que os sul-africanos têm organizado as suas filas para comprar velas.domingo, 30 de março de 2008
O Código das 3 regras
Sempre que me vejo internado neste manicómio que é o trâfego de Luanda lembro-me do meu exame do código da estrada, que preenchi com cruzinhas. Agora, por aqui, não raras vezes cruzo as mãos antecipando uma qualquer colisão, para lá de me interrogar sobre essa coisa das cartas de condução, por aqui tão old fashion quanto os telegramas na era dos SMS. Prioridade a quem vem da direita? Passadeiras para peões? Sentido único? Estacionamento proibido em segunda fila? E em terceira? Nos passeios? Circular pela faixa da direita? Ultrapassar em segurança? Ligar os piscas? Sinalizar seja lá o que fôr? Desconfio que o João Catatau, autor do Código da Estrada do meu tempo, seria atropelado logo na primeira rua à saída do aeroporto de Luanda. Pois por estes lados há uma espécie de versão sintética do best seller dos pré-encartados, ou seja, as regras de trânsito são apenas três, por isso mesmo também conhecidas por prioridades absolutas. 1ª Os taxis de Luanda, cujo cognome, candongueiros, já deveria dizer tudo e que são conduzidos por esgazeados aceleras que em vez de espelhos levam fotos de mulatas nuas nos retrovisores e que resolvem qualquer dúvida sobre prioridades com uma catana na mão. 2ª Os carros da Polícia, cuja pressa em chegarem à vizinhança de locais pródigos nos sectores da restauração e bebidas os leva a ligarem os pirilampos de luz & som como se fosse um ensaio de DJ’s nas vésperas de uma rave party. 3ª Os Volvos azuis escuros, conhecidos por serem exclusivos dos membros do governo, certamente que num derradeiro esforço da actual geração de políticos angolanos para se aproximarem do ideal sueco do Estado Providência. Neste fim-de-semana, congelado no trâfego que tentava fugir da incandescente Luanda, vi um Volvo azul escuro galgar o separador central para a outra faixa, colar-se ao tejadilho um colorido ti-no-ni e arrancar dali a toda a velocidade em contra-mão. Quem ia ao meu lado, incrédulo com o meu espanto, assegurou-me que quem correria sérios riscos seria quem se atrevesse a confrontar aquele xô ministro com uma qualquer quarta regra. sábado, 22 de março de 2008
Reciclar mentalidades precisa-se!
Tal como Londres com o Big Ben ou o novo Eye, Paris com a Torre Eiffel ou o Sacré-Coeur, Lisboa com os Jerónimos ou as sete colinas, ou ainda o Porto com os Clérigos ou as pataniscas de bacalhau do Abadia, Luanda tem no lixo o seu maior ex-libris. Aliás, o que diferenciará esta das outras capitais é a sua capacidade de replicar ex-libris por qualquer palmo de terreno, seja em terra, no mar ou, necessariamente, no ar. E, no entanto, os angolanos são um povo que nitidamente se preocupa com a aparência, só que, desgraçadamente para a camada do ozono, apenas com a pessoal, pelo que insistim em não incluir o lixo nos respectivos estojos. São assim comuns na vizinhança de quaisquer ruas, avenidas ou auto-estradas, os quadros de pestilentos esgotos a céu aberto, as visões lunares de esventramento de terras e sementeiras de poeira, a colorida sujidade das casotas humanas a que chamam bairros e a democrática decomposição de todo o tipo de carcaças de produtos, de embalagens a carros, tudo isto competindo geralmente com uma anormal qualidade nas roupas ou no calçado dos seus habitantes, quase sempre aparentemente novas e último modelo, mesmo se made in Thailand ou in Vietnam. Ao pé disto, receio até ser confrontado um destes dias com a oferta de esmola por alguém que considere andrajosa a indumentária que utilizo nos meus joggings na marginal da baía de Luanda. A mesma baía que seguramente será o maior reservatório de lixo do país, a avaliar pela quantidade de esgotos que lá desaguam continuamente, num arco-iris de torrentes nojentas que provocam tumultos nos cardumes de peixes famintos, de engodo e de oxigénio, para gáudio das pequenas e certamente cirrosas garças brancas que lá os costumam pastar. Uma outra prova desta inesgotável capacidade de Luanda para produzir detritos está nas brigadas do município que antes de qualquer festividade com presença garantida de notáveis do regime varrem sem pestanejar para o mar os cardápios de lixo que jazem na calçada, solidarizando-se com os vagabundos que por ali habitualmente pernoitam e que há muito se habituaram a esvaziar bexigas e intestinos directamente na baía. Um destes dias, a meio do meu exercício de suor matinal, passei por um militar de um quartel próximo que aproveitou a maré baixa para arrear calças ali mesmo. Vá lá alguém atrever-se a dizer-lhe que foi assim que Angola perdeu a guerra. segunda-feira, 17 de março de 2008
Continente sem lágrimas
Como quase sempre, a sauna do tempo angolano ia distendendo os gestos dos comensais no intervalo de mais um domingueiro dia de praia. As nuvens, que parecia quererem brincar à cabra-cega, iam-se interpondo sem pedir licença entre o olhar tórrido do sol e as vaporosas peles morenas que ameaçavam fugir dos bikinis deitados na areia ali próxima. Debaixo dos toldos da esplanada do restaurante, comia-se com os talheres como quem displicentemente tricoteia a malha de uma teia interminável. Na mesa ao lado, que afinal eram várias, corridas como no prolongamento de um jogo de dominó, uma família de cerca de vinte pessoas entretinha-se entre a experimentação da variedade da oferta do menu-buffet regado a cerveja e a decifração do sexo do bebé de uma das três grávidas do grupo. Pelo meio, ninguém ligava ao mais ancião no seu balbucio entredentes, nos intervalos da fumarada com cheiro a espigas que lhe saía do cachimbo e os esforços para não deixar desatarrachar a placa solta que ameaçava fugir-lhe. De repente, um bebé chorou no carrinho estacionadao entre duas das grávidas. Nada de mais banal no meio da maternidade que parecia existir debaixo daquele toldo, a não ser pelo facto de ser o primeiro choro de que me lembro ter ouvido desde que calquei terras de Angola já lá vao cinco meses. Já me haviam avisado: este é um povo que não sabe chorar. Mesmo se com a face mergulhada num vespeiro ou a barriga a destilar de fome nos ecrans da CNN. As mortes de centenas de guerrilhas internas cinicamente militantes, os milhares de desaparecidos que se esfumaram como estatística, a dor do engano da defesa de pátrias de petróleo & diamantes, enfim, a banalidade de crescer genes num continente que se diz perdido entre barris e onças. Quanto ao bebé ali mesmo ao lado, um ligeiro vôo para o segredo do colo da avó pareceu acalmá-lo do calor das peúgas de lã côr-de-rosa às bolinhas que combinavam muito bem com o vestido pintalgado da mesma côr.sábado, 8 de março de 2008
Desta cela de afectos onde tenho habitado nestes últimos tempos escrevo-te para dizer que mantenho o nosso plano de fuga. E que por mais que me tentem vergar à indigência deste dia-a-dia cego, surdo e mudo de todos os sentidos asseguro-te que jamais resvalarei para contar os nossos segredos. Os que vimos trocando há já demasiado tempo para que precisemos de os gravar. Tanto os que estão inscritos nas areias da praia das Caxinas como na de Oostende, os que porventura semeamos junto à capela de S. Felix ou à sinagoga de Tomar, os que fomos enterrando nas cercanias do desalento de S. Teotónio e julgamos reaver na euforia de Amsterdam, os que confidenciamos no aconchego de moules e pastas nas Grand Place ou entre as pulgas-do-mar das dunas de Santo André, entre o mistério enfim de tantas referências de santos e o centro do mundo que foi durante algum tempo aquele abençoado apartamento de Antwerpen. E mesmo que nos tenham visto a calcorrear as ruas de Paris, garanto-te que não conseguirão arrancar-me o código do que procuramos na Eglise de Saint Eustache. Já por mais de uma vez tentaram roubar-me a memória, a que subsiste num círculo de dois metros quadrados em teu redor, mas apenas conseguiram ficar-me com o escalpe. Preservei entretanto tudo o resto, dos teus cheiros de menina, mulher e mãe, da tua pele porosa e aveludada, das tuas mãos finas e sardentas, da sofreguidão com que costumas procurar-me, do açucarado do teu corpo quando o revelo, da calidez húmida do teu abraço que ainda hoje sinto adormecer enfaixado no meu, da sensação de que te ouço chamar-me, ora vê lá tu, aqui, nos sítios e ocasiões mais improváveis. Por precaução, deixei de trazer as tuas fotos na carteira. Não quero que te reconheçam quando olham para mim ou quando eu próprio me vejo ao espelho. Lembro-me do Bergman e daquele casal que celebrava serem cada vez mais siameses porque fecundados no óvulo de uma vida em comum, o que os revelava iguais em cada gesto, da cara, das mãos, da voz, de tudo o que partilhavam. Tenho assim enganado os meus carcereiros. Mais o árido esforço com que tentam convencer-me de que não existes porque não estás aqui, que não te sinto porque estás longe, que não te ouço porque deixaste de chamar por mim, que não te posso tocar porque não me acompanhas nos meus dias. Ignorantes. Não sabem que a cela que construímos é bem mais forte do que a deles.
sábado, 1 de março de 2008
O sorriso do motorista
Costumava conduzir-nos habitualmente com desenquadrada calma e ponderação, duas qualidades deveras desfazadas para um motorista condenado a embrenhar-se diariamente nesta sucateira de chapa batida que são as estradas de Luanda. Fazia-o quase sempre com um sorriso nos lábios, o que nos obrigava a devolvê-lo mesmo quando afiançava pelo telemóvel encontrar-se apenas a cinco minutos de distância do nosso local e afinal demorava mais trés quartos de hora até chegar. Conduzia a carrinha de nove lugares fretada pela empresa ao som de música religiosa, brasileira, com cântinhos que acompanhava entre dentes, sempre com um sorriso de Gioconda nos lábios, ao que eu me interrogava se por imitação de um dos santos do seu altar ou se deles teria recebido um qualquer segredo. Uma manhã calhou-me viajar com um grupo de informáticos recém-chegados cujo entusiasmo depressa resvalou para os refrões das músicas saídas do DVD da carrinha acabando por transformar aquela corrida numa missa celebrada por um coro Gospel. Na primeira vez que lhe comuniquei estranhar a fuga aos standard reggae, hip-hop, rap ou kuduru da sua Angola, mostrou-se um humilde DJ disponível para mudar de repertório. Perante a minha indiferença em povoar os curtos percursos com qualquer tipo de batuque, confessar-me-ia ter sido pastor evangélico numa igreja no Brasil. Há dias apanharam-no em flagrante a roubar uns dólares de uma carteira que uma colega deixara momentaneamente esquecida no carro e foi despedido. Confesso que tenho tido dificuldades em eu próprio me despedir da imagem do gesto. Como pode um pastor de almas, mesmo que de um credo eventualmente minoritário, deixar-se tentar por um punhado de dolares? Aspirará um diabólico Lincoln, Jackson ou Franklin a ser bem mais tentador que Jesus Cristo, mesmo se encarnado numa qualquer versão de professar mirabolantes esquemas de cobranças de dízimos? Pelo sim pelo não nos próximos tempos vou andar mais atento aos gostos musicais de quem me transporta. E passar a desconfiar de certo tipo de sorrisos.quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
A céu aberto
Por uma vez, consegui sair de Luanda. Rumei ao sul, passei a foz do Kuanza e desaguei o meu feriado numa enorme praia que albergava também uma pequena comunidade de pescadores. Um dia no paraíso, deitado sob a sombra das copas de uma árvore plantada a dois metros da linha da maré, sentindo o odor ocre do cardume que expirava na areia o excesso da faina, a alegria das crianças no sorriso das ondas, o cálculo sobre o local de queda da bola de futebol maltratada pelos desastrados golpes de vólei de ecléticos desportistas de fim-de-semana, o calor da água estranhamente mais quente que o do sol, o passeio pela praia por onde se estendiam barcos deitados de barriga para o ar, o reconhecimento das falésias alentejanas já a brotar casas de dois andares, as matilhas de cães atrelados às carcaças dos peixes grelhados pelo abandono, o pânico às arrecuas para as tocas dos caranguejos tementes da vibração de passos na areia, o namoro envergonhado de fuga à mão-dada de alguns tugas seniores no intervalo da construção civil com rapariguinhas que parecia sonharem-se do shopping, a salitra do mar a salgar a pele no conforto de um prazer que se julgava poder recuperar apenas daí a alguns meses. Ainda antes de chegar o final da tarde, o regresso pelas estradas vazias de trânsito, policiadas pelos troncos em figura de gente dos embondeiros e restantes comparsas de tantas ramadas que já à ida me haviam feito cegar os olhos de tanta limpidez. Mal entrei em Luanda, esse novo significado da wikipédia para selva urbana, apercebi-me que voltara ao esgoto. Que se mantém sem direito a abrir-se a qualquer céu. segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Kinaxixi
Sempre que passamos num dos acessos ao largo do Kinaxixi e somos obrigados a parar no par de semáforos seguidos que lá tentam controlar a selvajaria do tráfego automóvel, sou quase sempre assaltado pela mesma imagem. Como se fora uma explosão. Ao lado dos postes dos semáforos, ora num ora noutro, outras vezes em ambos, costumam estar duas mulheres mutiladas. Uma, mais velha, tem apenas os cotos das pernas e transporta-se numa cadeira de rodas. A outra, mais nova, tem uma das pernas serrada até um pouco abaixo do joelho. Para além do que não têm, assemelham-se por serem ambas mães de bebés. Um deles, talvez com menos de um ano, costuma acompanhar a mãe que lhe dá de mamar no duplo colo da cadeira de rodas. O outro, já maior mas ainda a arriscar os primeiros passos, só aparece de vez em quando por ali. E quando aparece, a mãe, que não deve ter mais de vinte anos, esquece o peditório e fica no passeio a brincar com ele. Vi-os, num destes dias, no local de sempre, divertindo-se a jogar às escondidas. Ela a saltitar na única perna, ziguezagueando entre os postes de ferro que sustentam a publicidade a uma companhia de seguros e ele a esbracejar de alegria na perseguição dos passos da mãe, um e outra completamente alheados do resto do mundo que se transportava mesmo ali ao lado, no tráfego de ar condicionado que insiste em atropelar as encruzilhadas do Kinaxixi. Como o semáforo estava aberto, passamos sem ter de descer o vidro do carro. No entanto, o brilho daquela imagem fugaz da brincadeira entre mãe e filho acompanhar-me-ia no resto do meu dia. E, por uma vez, não tive de me interrogar sobre a felicidade que aquela mãe haveria de comprar com uma nota de kwanzas.