domingo, 31 de maio de 2009

Deontologia-botox

Só por causa desta entrevista, em que terá divulgado o que o País que conheço há muito pensa, Marinho Pinto já mereceria ser reconduzido como bastonário da Ordem dos Advogados portugueses. Entretanto, aguarda-se a sua próxima visita a uma nova loja de porcelana.

Surprise!?

MPLA defende eleição directa do Presidente da República no anteprojecto de Constituição.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sombras de Luanda

Foto de Roberto Ivens

A menos de duzentos metros do restaurante do Deana SPA, cujo nome, «Complexo Gastronómico Bay Side», já merecerá uma estrela no Guia Michelin, há um homem sepultado na sombra de uma árvore. Aparenta ter pouco mais de vinte anos e encontra-se mutilado na perna direita que lhe desaparece logo após a curva do joelho e acaba num toco mal cicatrizado e ainda com vestígios do osso e, também, nos braços picados por diversos golpes, irregulares, nítidos, mas espantosamente secos de sangue, cuja profundidade lhe consome a carne até ao limite de doer a quem a vê. Jaz ali os dias e, quiçá, as noites quase sempre deitado, arrastando-se no sentido da sombra da velha acácia quando ela acede em fazer-lhe companhia e rebolando sobre si mesmo na busca do biombo do tronco quando necessita de maior intimidade. Por todo aquele corpo perdido no empedrado do passeio esburacado da marginal e que parece repousar de uma batalha de que apenas se conhece os despojos, há crostas de uma urgente, embora muda, piedade que o cobrem da cabeça ao pé. Não se lhe percebe o que responde quando questionado, mantendo-se absorto nos mesmos gestos, na dor, na insanidade, ou tudo junto, antes parecendo mover-se num permanente estado de delírio, a remexer nas partes do corpo que lhe faltam ou a revirar a cabeça no sentido dos céus, quantas vezes rindo ou repetindo uma lenga-lenga imperceptível. A primeira vez que o vi, a meio de um jogging de fim-de-semana, lambia freneticamente com o indicador direito o que restaria de uma pequena embalagem de manteiga como as dos aperitivos dos restaurantes e, perante a garrafa de água fresca que lhe serviram, pareceu afogar-se na sofreguidão do longo gole, compulsivamente gesticulado como se ressuscitasse num solo de trompete. Interrogo-me se, do seu palco, conseguirá perceber a audiência que não pode deixar de o ver por ali, eu, os milhares de outras pessoas que lhe passam defronte, a pé ou de carro, os assistentes sociais que desconheço se Luanda possui, o pessoal das inúmeras ONG cujos nomes vejo profusamente pintados nos jipes, os pastores das imensas igrejas que por aqui florescem, os cidadãos cuja sensibilidade não se fica apenas pelas ofensas com quaisquer críticas a Angola, os políticos e governantes que se habituaram a jurar fidelidade aos seus. Receio bem que, tal como Simão Kapiangala, o homem-sombra seja apenas mais um entre os milhares de bastardos que deambulam por Luanda, completamente entregues ao Deus-dará. Com o senão de, neste cantinho do paraíso, Deus raramente dar alguma coisa aos que não farão parte do seu rebanho.

domingo, 24 de maio de 2009

Luzes de Luanda

Defronte da sanita gigante em que está actualmente transformada a baía de Luanda, encontra-se instalado o mais chique SPA de Angola, de seu nome Deana. Mais propriamente, de Ana Paula dos Santos, ex-hospedeira da TAAG e actual empresária, que acumula funções com as de Primeira Dama do país. Um destes dias, por mero acaso, fui assistente de uma sua acção de promoção na marginal, uma «maratona denominada Saúde e Bem-Estar» visando «alertar as pessoas a prestarem mais atenção ao seu estado físico e mental» como noticiaria a imprensa local. Ora o que eu vi foi um grupo de três a quatro dezenas de mulheres, de todas as idades e compleições físicas mas, seguramente, do mesmo estrato social, vestindo trajes aeróbico-desportivos donde sobressaíam t-shirts, toalhas e bonés brancos do SPA, percorrerem o passeio da marginal em pose de gesticulante folia, para espanto dos inúmeros sem-abrigo que por ali mal-acordavam de mais uma noite ao relento. Porventura, por há muito eles próprios terem deixado de prestar atenção ao seu estado físico e mental. À frente do pelotão seguia, de costas, um esfusiante pastor de aeróbica e, logo a seguir, a Primeira Dama herself. A marcha formava um compacto quadrado humano, cujos vértices eram policiados por quatro mal-disfarçados seguranças que seguiam, civilmente, com as camisas libertas por fora das calças, certamente que para assegurar que cada participante continuasse a ter «mais saúde e boa disposição para assumir as tarefas do dia-a-dia». Como complemento securitário, seguiam mais à frente na marginal um polícia de trânsito montado numa moto e uma carrinha onde ia empoleirado um grupo de militares armados. Afinal, tratava-se de guardar as costas militantes da beautiful people do regime, para quem, suspeito, o SPA Deana não passará de uma extensão do palácio presidencial. Entretanto, julgo que será de prestar atenção às próximas promoções de rua deste centro de estética, que promete vir a oferecer ao público de Luanda novos métodos de massagem, bem como a introduzir no mercado novos serviços como o «Power Jump», o «Body Balance», o «Step Dance», o «Aerodance» e o «Hidrobike». Consta que o mais aguardado de todos, numa sondagem entre os párias da marginal, será a «Tatuagem das Sobrancelhas».

Acelerar na recessão

Há quem defenda que, em época de recessão, se deve estimular a economia com medidas expansionistas, do tipo baixar as taxas de juro ou os impostos, a fim de se fomentar o investimento e relançar o produto no médio prazo. Haverá outros, no entanto, que consideram este tipo de medidas anacrónicas e de excessivo academismo e que, pelo contrário, defendem decisões que possibilitem um choque térmico imediato. Soube-se hoje de um exemplo da contribuição angolana para este debate.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A variante angolana

Um dos estudos pretensamente mais estimulantes nas escolas de gestão por esse mundo fora é o das variáveis que farão parte da «função empresarial», entendida, grosso modo, como as habilitações, mais ou menos inatas, que permitirão que um determinado indivíduo seja bem sucedido nos negócios. Habitualmente, nestas discussões, há um chorrilho de candidatas que saltam logo para a passerelle dos anfiteatros teóricos. Perspicácia, intuição, talento, criatividade, informação, formação, conhecimento, prático e teórico, especialização, racionalidade, know-how, know-what, dinamismo, proactividade, mentalidade, motivação, liberdade, competitividade, etc., etc. Curiosamente, tenho cada vez mais a percepção que, em Angola, nenhuma destas variáveis será, verdadeiramente, importante. Melhor ainda, que todas juntas não suplantarão a, solitária, variante angolana. Leia-se, a propósito, esta já velha sebenta.

«Luanda precisa de murro na mesa»

Entrevista interessante esta do deputado-jornalista, ou jornalista-deputado?, João de Melo ao semanário «O País». Só discordo da quantidade dos murros. Talvez não fosse má ideia distribuir, também, uns quantos upercuts por debaixo da mesa.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Guerra de zeros

Habituado à orientação anglo-saxónica nestas coisas, confesso ser um recente descobridor de uma guerra que poderá ser já velha para alguns. Como se deverá ler 1.000.000.000? Um bilião? Mil milhões? Ou, como no Brasil, um bilhão? E a unidade de medida a seguir, 1.000.000.000.000? Um trilião? Um bilião? Todas estas leituras estarão correctas, daí a confusão. A qual, em Angola, tenderá a avolumar-se pela diferente origem e formação de cada leitor, resultando daí frequentes disparidades na interpretação das mesmas grandezas. Mesmo que, como esclarece Nuno Crato, a matemática até seja «uma ciência exacta».

terça-feira, 19 de maio de 2009

Investimentos rasca

Angola quer fábricas portuguesas de materiais de construção. Há uns meses, quando alguém por aqui sentenciou que a descida drástica dos preços do petróleo poderia ser benéfica para Angola, era disto que se tratava. Após o rebentar da toalha almofadada de dólares onde os governantes angolanos se estiravam enquanto decidiam o futuro airoso do país, é agora tempo de rebobinar a cassete do crescimento contínuo e sustentado e, em definitivo, assumir que o oásis poderá secar. E que, se calhar, será também tempo deste país tentar parar de importar tudo o que necessita e esforçar-se por produzir internamente o que consome. Depois desta evidência, haverá que limar outras. Como a de divulgar às famintas empresas internacionais que cá querem entrar, tugas incluídos, quais as condições para a recepção dos tão necessários investimentos. Tem de ser em joint-ventures com os locais? Mas afinal eles percebem do negócio? E como fica a distribuição do capital? Os locais terão sempre a maioria? E entram para realizar capital? Ai só entram com terrenos, licenças de construção e contratos de fornecimentos futuros? Eh pá, se calhar teremos de analisar isso melhor, porra! Restará, então, saber, se estes tugas dos materias de construção estarão tão à rasquinha para encontrar novos mercados como, aparentemente, terá estado a TV Cabo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Em busca dos posts perdidos

Nos últimos tempos este blogue tem andado aos caídos. Ao que deveria acrescentar, para mal dos meus pecados, literalmente, porque, durante todo este tempo, tenho vindo a acumular bastantes. Após o coma do Asus, tenho sido obrigado a esmolar entre amigos e conhecidos por um acesso, livre, à net. Aventura que tem tanto de penoso quanto se sabe que, por estes lados, qualquer acesso é, quase que por definição, vegetativo. Tenho, então, a comunicar que, não me agradando nada esta figurinha de blogger furtivo, que já troca descansar por descançar, assim continuarei por mais algum tempo. Até que, num muito aguardado avião da TAP, embarque quem me venha resgatar. Permitindo-me, finalmente, outra vez, dar Asus aos posts perdidos.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Diz que é uma espécie de paragem

O CR diz que quer descansar d'O Anónimo. Não acredito. Algo me diz que O Anónimo não o vai deixar em paz. Mais dia menos dia e aparecem aí os dois para darem o maior festival de escrita com carácter da blogosfera portuguesa. Até lá então, meu Caro.

Minas em desfile

Desminados mais de quatrocentos milhões de metros quadrados. É, realmente, muita mina, ódio, traição, cobardia, desprezo pela vida humana. Não apenas de angolanos, mas também de todos os que lutaram, influenciaram, envenenaram, pilharam, hipotecaram o destino deste povo. Que continua minado em si mesmo.

domingo, 10 de maio de 2009

Senescências

Acabo de me aperceber da minha senescência ao ter de parar a máquina de lavar-roupa a meio do programa para de lá retirar os calções em cujos bolsos deixei a carta-de-condução. Agora condutor bem mais clean, resta-me esperar que, em compensação, os polícias de trânsito de Luanda esqueçam também a mesada das gasosas que costumam cobrar-me.

Imprensa Nacional

Há liberdade de imprensa em Angola, afirma o porta-voz do SJA. Ora ainda bem. Espero é que isso possa incluir a liberdade dos blogues. Algo me diz, no entanto, que tal como com a outra imprensa, se defenderia também aqui «privilegiar os quadros nacionais». Saia então um Roberto Ivens e entre um Major Kanhangulo. Imediatamente!

sábado, 9 de maio de 2009

Crocodilo Dundee

Crocodilos matam nove crianças em Angola. Esta notícia, estranhamente transcrita num tom que parece vaguear entre a banalidade do acontecimento e a inevitabilidade do próprio desfecho, traz à memória documentários do National Geographic e imagens de crocodilos a banquetearem-se de gnus, impalas, zebras e outros animais que se forçam a atravessar em manada rios infestados de predadores em busca de novas pastagens. O que essas imagens terão de extraordinária demonstração de luta pela sobrevivência multiplicam-se de horror quando se imagina que as vítimas se tratam, afinal, de seres humanos. Crianças. Desgraçadamente, as dundees de um inexplicável filme macabro.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Hip hip hurrah!!!

Angola salva o ano aos vinicultores de Portugal. Encontra-se mais ou menos institucionalizado, por aqui, que haverá investimentos cujo retorno se duvida ser o verdadeiro motivo do respectivo arranque. Ora esta notícia parece demonstrar que, afinal, o axioma estará errado. E que a Merlot e a Sauvignon poderão vir a ameaçar a omnipresente Cuca no conteúdo dos copos dos angolanos do futuro. O que será uma verdadeira prova, afinal, do retorno do investimento em devido tempo feito nas quintas mwangolés do Douro.

Estádios históricos

Governante considera "histórica" edificação dos estádios. Angola ultima a organização do Campeonato Africano das Nações em futebol, a ocorrer em Janeiro de 2010. Num torneio desta envergadura, irá construir, apenas, quatro novos estádios. Muito longe, portanto, da megalomania de outros futebóis. Prova de que, pelo menos neste campo, Angola não necessitará de importar competências.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Comícios & bebícios

Conflito entre militantes do MPLA e UNITA resulta em oito feridos. Não será apenas em Portugal que as convicções de fé político-ideológica saltam para o púlpito das ruas mal os comícios viram bebícios.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um gigante desmembrado

Eis um testemunho bem mais elucidativo sobre o poder da mente do que o transcrito na literatura dos gurus de supermercado.

domingo, 3 de maio de 2009

Aleluia

Hoje é Dia da Mãe e não tenho como festejar. Porque estou órfão. Tanto de mãe como de pai. Aliás, de mães e de pais, pois tive a sorte de ter dois de cada. A todos, acompanhei-os até ao fim, numa proximidade nem sempre fácil mas que acredito ter sido a suficiente para, também, acreditarem que nunca estiveram sós. Tal como tendo a pensar que, agora, não estou. Por isso, estou órfão, não sou órfão. Também por sentir ter, por vezes, uma esquadra a vigiar-me. No parapeito de uma mesma janela corrida. Não sei muito bem onde.

sábado, 2 de maio de 2009

Flag Man

Afinal, parece que Scolari já não virá treinar a selecção de Angola. Mais do que os adeptos locais ainda não convencidos da falência do futebol-retranca de Filipão, são os comerciantes indianos e chineses que dominam o trading por aqui quem demonstra maior frustração. Pré-contratos e encomendas de contentores e paletes de bandeiras ter-se-ão desfeito no pó que nenhuma prece foi capaz de resgatar. O que será uma pena. Também eu gostaria de ver o efeito sobre Luanda, mais a sua falta de varandas, dos enfeites da bandeira negro-rubra rachada pela catana, pela semi-roldana e pela estrela dourada. Em Portugal, apesar de tudo, foi giro.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Dia do trabalhador

Hoje também faço anos, como trabalhador, pois iniciei-me a um 1º de Maio. Na verdade, dado o feriado, comecei no dia seguinte, mas é o que ficou registado no contrato. O que daria origem a algum gozo, lá em casa, por esse pormenor no arranque não abonar nada a favor da qualidade do novo trabalhador. Mais tarde, mudei uma vez de emprego num 1º de Novembro, novo feriado, o qual, para além do extra-bolso, me faria reincidir na chacota doméstica. Tantos anos entretanto passados, creio ter compensado esse absentismo precoce com muito after-hours, quantas vezes estendido aos fins-de-semana e feriados. O que, mesmo assim, jamais me deu o privilégio de poder, heroicamente, engrossar qualquer manifestação num 1º de Maio. Pelo contrário, houve sempre alguém a avisar-me de que poderia ter-me poupado ao desperdício se soubesse gerir melhor o meu tempo no trabalho. Agora, em Angola, tenho-me deparado com uma nova faceta de forçado workaholic. O que me tem trazido tanta frustração quanta infelicidade. Por não haver nada de especialmente excitante em continuar por aqui casado-com-o-trabalho.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Roupa suja

Há já vários dias que a hóspede sul-africana não falava com a empregada angolana. Também, porque não sabia português, numa ignorância contra-linguística mutuamente correspondida. Diálogo de mudas, portanto, antes do tuga, who else, meter o bedelho. Para a sul-africana, era inconcebível que a empregada lhe alterásse os programas da máquina de lavar-roupa. Para a angolana, rodar o manípulo sempre que a máquina parava visava forçá-la a retomar a lavagem. Deste lado, a ignorância sobre o funcionamento dos ciclos de uma moderna máquina de lavar-roupa. Do outro, a ignorância sobre os propósitos de uma simples ajuda, ainda que tosca. Pelo meio, recriminações mútuas de racismo. Há quem chame a isto conflito cultural. Estou mais inclinado a chamar-lhe falta de bom-senso.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O triunfo dos porcos?

Um casal beija-se no centro histórico da Cidade do México, com máscaras para evitar a gripe suína. Foto Alfredo Estrella/AFP - via JN


domingo, 26 de abril de 2009

Quarteirão de Abril

No 25 de Abril de 1974 estava no liceu. Os zunzuns de uma revolução em Lisboa fizeram-me temer por um irmão mais velho que nessa altura fazia recruta na base do Alfeite. Para logo depois me deixar entusiasmar pelo que me diziam ser de celebrar. De imediato, que o meu irmão já não corria o risco de ir combater para um local que diziam ser nosso mas que, lá por casa, ninguém conhecia. A seguir, fui acreditando que tudo aquilo que ia acontecendo era tão rejuvenescedor quanto o sentido do meu próprio crescimento. Depois, passei a ficar carregado de dúvidas. E até acabei por pôr os pés em África. Quanto à Revolução dos Cravos, consta que têm havido disputas entre os mordomos do Parlamento para que a flor não perca a côr original, pelo menos, no dia das comemorações anuais. E, num restaurante daqui, pareceu-me ter visto pela RPT Internacional um deputado a chorar enquanto lá discursava. Mas já não consegui perceber muito bem porquê. Se calhar foi da distância.

sábado, 25 de abril de 2009

Anopheles

Hoje, Dia Mundial da Luta contra a Malária, sei, finalmente, o nome do meu maior inimigo. Anopheles. Tem nome de guerreiro, ou filósofo, ou, simplesmente, político, grego, egípcio, talvez, também, fenício, embora toda a gente por aqui saiba que não passa de um merdas qualquer. No entanto, continua a ser o mais implacável exterminador de vidas humanas em Angola. Só em 2008 matou 9.300.

Voos ao domicílio

A TAAG está proibida de efectuar directamente voos para a Europa, pelo que tem os seus aviões tripulados por pilotos de outras companhias. O que é uma pena. Acabo de saber que tinha hipóteses de, um dia destes, ter viagem directa de Luanda para o Porto.

Pepe Loco

Após o belicismo destas imagens, fico com a certeza de que, se fosse sócio do Real Madrid, exigiria que este Pepe, dito futebolista do clube espanhol, fosse de imediato despedido da equipa. Como não sou, fico na expectativa de que, pelo menos, seja expulso da selecção nacional portuguesa.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Macas & marquesas

Brown chair - David Miller
Passadas duas semanas, aterrar em Angola é como regressar a um covil donde se espera poder continuar a disfarçar um permanente estado de infelicidade latente. A provocada pelo que, mais uma vez, se deixou para trás e a que insiste em voltar a deparar-se-nos pela frente. Algures na penumbra desta sandwich de sensações, há o barbitúrico efeito dos noticiários da RTP Internacional e dos seus cortejos de desempregados, fundo-desempregados, mal-empregados, desempregados-semi-pensionistas, colarinho-desempregados, pensionistas-empregados e toda a sorte de actuais e futuros lay-offers, numa letargia de ilustrações que jorram do ecran a conta-gotas, em news a cada dia mais velhas e menos aguadas, antes areadas como saídas de um poço prestes a secar, as quais, bem mais que o postar neste blogue, me têm ajudado a salvar da marquesa do psicanalista. Então… qual é a maca?

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Mentes brilhantes para exportação

Desde que haja construção haverá sempre desenvolvimento, declarou um obscuro director comercial e principal candidato a ministro das Obras Públicas no próximo governo português, actualmente exilado em Angola mas já a pensar no programa ministerial aquando do regresso à mãe-Pátria, o que inclui a construção do futuro TGV, do novo aeroporto de Lisboa, da terceira ponte sobre o Tejo, da quarta sobre o Douro, de meia dúzia de IP's para as moscas poderem passear ao fim-de-semana e de mais umas quantas vias de cinturas, internas, externas e assim-assim, para que o país possa golpear-se em certeiros flic-flac's de cimento rumo ao tão desejado desenvolvimento.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Vá para fora cá dentro

Em viagem recente a Cabinda, a inconveniência da recordação da frase-tipo do turismo interno português que titula este post tornou-se perceptível logo à chegada ao aeroporto doméstico de Luanda. O voo, marcado para as 10h da manhã, havia passado para o meio-dia sem qualquer aviso prévio. Uma interrogação tuga junto de cinco funcionários displicentemente alojados num cubículo que albergava também uma secretária e duas cadeiras e cujo arquitecto certamente idealizara para recolher baldes, vassouras e esfregonas, teria direito a um lacónico mas esclarecedor «porque não há avião». Em meu redor, o que momentos antes era fila para o check-in transformara-se num tranquilo amontoado de malas sentadas por passageiros esclarecidamente dispostos a ali passarem duas horas de suculento dolce far niente. No regresso a Luanda, dois dias depois, Dia do Pai e véspera da visita do Papa a Angola, o reconfirmado voo das 15h respeitaria os atrasos do costume. 15h15m. 15h30m. 15h45m. 16h. Ouvi alguém a meu lado, certamente candidato a vidente, bufar que o avião, se calhar, «atrasou-se ao sair de Luanda». 16h15m. 16h30m. Por esta altura o vidente aperfeiçoava a técnica, «se chegar aqui muito tarde pode já não levantar porque este aeroporto não tem luzes na pista». 16h45m. 17h. 17h15m. A partir daqui, as preocupações dos restantes passageiros, na sua maioria, aparentemente, peregrinos de Bento XVI, sintonizaram-se com as do vidente, estranhando que o mais moderno aeroporto regional de Angola não possuísse ainda luzes de sinalização na pista. 17h30m. 17h45m. Daí a pouco um avião da TAAG aterraria, indo desaguar mesmo junto às montras da sala de embarque, onde cerca de cento e cinquenta pares de olhos, sem contar com os das bagagens, já vigiavam as saídas dos passageiros e das malas que gostariam de revezar, entre o impaciente e o expectante de que essa muda se fizesse antes do ameaçador pôr-do-sol. Logo a seguir, como que para manter acesa a chama da esperança, os altifalantes do aeroporto alumiaram. «Senhores passageiros do voo para Luanda, queiram dirigir-se para a porta de embarque», o que rapidamente provocou a formação de uma fila... enfim, angolana. Mas o relógio pareceu continuar surdo. 18h. 18h15m. 18h30m. Um pouco antes das 18h45m surgiu à porta de entrada, vindo da pista, um sujeito a anunciar que «o avião levanta amanhã às 5h da manhã». Depois disto, aconteceu algo absolutamente extraordinário. Em menos de três minutos, 95% dos passageiros abandonaram a sala de embarque do aeroporto, não se incomodando em saber das razões para o cancelamento do voo que haviam comprado ou, sequer, em reclamar, exigir, insultar, pontapear, esmurrar, quiçá, garrotear, como antigamente se fazia e modernamente por vezes apetece, o mensageiro daquela desgraça. Seria, então, a um pequeno grupo de inconformados expatriados e quadros superiores de um ministério de Luanda que o mesmo corajoso controlador de voo do aeroporto, substituindo-se à tripulação ignorante da Convenção de Varsóvia, acabaria por justificar, ao fim de meia hora de contactos telefónicos, que «a senhora directora regional da TAAG não tinha instruções» para custear as despesas de hotel dos passageiros que teriam de pernoitar em Cabinda. Logo saltaria da tampa tuga uma sugestão de placard para o turismo interno angolano. Vá para o inferno cá dentro.

sábado, 11 de abril de 2009

Redacção sobre a Páscoa

Quando era miúdo detestava a Páscoa. Pelo cheiro a hóstia que parecia apoderar-se das pessoas, nas ruas mas também em casa, pela exibição non-stop de missas na TV, prolongada por transmissões directas e em latim do Vaticano, pela troca das valentes matinées de coboyadas por piedosos filmes italianos sobre os últimos dias de Jesus Cristo, em que até o carrasco chorava a meio das vergastadas, pela obrigação de comer peixe com amêndoas durante a sexta-feira santa e, basicamente, por me serem impostas nesse período regras, especiais face aos restantes dias do ano, que me eram incompreensíveis e causavam desconforto. Desde logo, a obrigação de escolher roupa nova. Agora, compreendo melhor que, vindos do Inverno, a chegada à Primavera convide à renovação de muitas coisas, inclusivè, de agasalhos. No entanto, o que poderia ter de atractiva uma ida às compras na pré-história dos shoppings dissipava-se rapidamente quando se chegava ao fatídico acto das escolhas finais. Ter dez ou doze anos e a mãe ao lado a organizar uma equipa de jurados entre os outros clientes da loja para me convencerem de que aquela camisa cheia de cornucópias e com uns colarinhos que chegavam às orelhas me ficava a matar, para além de que seria um óptimo substituto para a t-shirt coçada que levava grudada ao corpo, ainda se mantém hoje como uma recordação bem deprimente. Curiosamente, nos tempos mais recentes, finalmente tesoureiro de uma família com três mulheres, não deixo de me rever no espírito pret-a-porter da quadra, embora mantendo a azougada memória herdada da infância que me permite ser implacável a partir do terceiro ou quarto «este vestido é tão lindo, papá!» Um outro trauma vem do contexto de religiosidade bafienta em que a Páscoa se desenrolava e que originava que as duas semanas de férias de escola se transformassem quase automaticamente em frequências de igreja. A anormal concentração de missas, catequeses, confissões, vias-sacras e procissões obrigavam a uma inaudita memória para se decorar a cor das roupas dos padres ao mesmo tempo que tentava compreender como é que o meu parceiro de bilhar havia conseguido meter a preta a uma só tabela. Fugir a assistir a, pelo menos, uma via sacra durante este período era uma tarefa heróica porque as mães tendiam a julgar que só assim poderiam livrar os filhos de todos os pecados mortais originados pelos alternativos jogos de matraquilhos e snooker, pelas sangrentas e bem mais animadas matinées no cinema ou pelas futeboladas de mercurocromo jogadas no pelado de saibro do adro da igreja. Lembro-me que o castigo divino provocado pelo pecado da ausência a uma via-sacra era mais ou menos equivalente ao de apalpar as colegas durante a catequese. Mas o supremo clímax pascal dava-se após a procissão nocturna do Senhor Morto, quando o silêncio acusador de um cortejo de homens vestidos de roxo, encapuzados e armados de archotes, passando por entre filas cerradas de beatas que empunhavam terços e rezas, era interrompido pelo assustador barulho das racas de pau que me acordavam dos pesadelos onde eu me debatia com Judas Iscariotes, Pilatos, uma porrada de judeus, romanos, fariseus, escribas, centuriões e toda a sorte de demónios que tinham, nessa altura, o vício de se reunirem debaixo do meu travesseiro.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Não há duas sem três

O terceiro caso de assédio, provado, de que fui vítima em Angola ocorreu, muito provavelmente, em Cabinda, numa estadia programada para dois dias mas prolongada, por imposição da TAAG, cada vez mais agente promotor do turismo interno angolano, por mais um. Durante a noite, o tão temido barulho dos voos rasantes dos meus carrascos alados, a que costumo ripostar com cegos golpes de palma aberta sobre as orelhas atacadas, acordou-me por diversas vezes, obrigando-me a erguer da cama para encetar um bailado de pugilista sonâmbulo, a distribuir upercuts sobre todas as pintas existentes nas paredes e nos móveis que forravam o quarto do hotel. Pela manhã, bem que me pareceu notar sorrisos trocistas nos ferrões dos cadáveres dos dois pilotos que deixei esborrachados nos azulejos das paredes da casa-de-banho. Prenunciavam já, sei-o agora, mais uma noite de lasciva fecundação. «Um por campo» foi desta vez a sentença do juiz-de-bata-branca do costume, exactamente na véspera do meu regresso a Portugal. Por isso, conto agora vingar-me a dentadas de ovos cozidos em calda de cebola, devidamente salteados e pimentados, a amêndoas tiradas do arco-íris de taças que por aqui centram mesas, a vinhos que mudarão de cor e taninos consoante o que olhos e narizes pleonasticamente vêem e cheiram, a coelhos de chocolate de que não gosto mas ainda menos suporto fitarem-me firmes e hirtos nas suas enormes orelhas cobertas por papel prateado, a pão-de-ló recheado a LBV e a tudo o que saiba a exagero. No regresso a Angola, tenho a certeza de que vingarei com colesterol as próximas picadas.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Post de uma morte (não) anunciada

No dia em que escrevi e pretendia publicar isto o Asus pifou. A partir do próximo mês de Maio, previsivelmente, este blogue extingue-se. Ao contrário do início, haverá que dar sentido a este final. Que melhor alibi para a mudança de armas e bagagens, de que tanto autor quanto blogue estão necessitados, do que uma nova aventura em África? Acabar a comentar títulos de jornais tem sido o estertor de muitos blogues em asfixia de densidade e também este parece não conseguir fugir à regra. Bora lá então à mudança, aproveitando a boleia da outra. Afinal, em ocasiões mimeticamente anteriores, uma nova aventura determinou um novo blogue. Daí que, após ano e meio a murmurar escritos nesta caixinha, prevejo silenciá-la a partir de Maio. Como comunicar no futuro, irremediavelmente não longínquo, logo se verá. Para já, fica apenas a insustentável percepção do presente. Como, desde que me internei em África, estou cada vez mais crente no acaso, decidi não levar a sério o que escrevi. Conto, então, continuar neste trilho até nova mudança de humor. Minha ou do sucessor do Asus.

domingo, 5 de abril de 2009

Selagens

Sócrates queria um selo com a sua foto para deixar para a posteridade o seu mandato no Governo deste país que está de tanga. Os selos são criados, impressos e vendidos. O nosso PM fica radiante! Mas em poucos dias ele fica furioso ao ouvir reclamações de que o selo não adere aos envelopes. O Primeiro-Ministro convoca os responsáveis e ordena que investiguem o assunto. Eles pesquisam as agências dos Correios de todo o país e relatam o problema. O relatório diz:"Não há nada de errado com a qualidade dos selos. O problema é que o povo está a cuspir no lado errado."

Chegou-me agora, pelo correio. Electrónico.

sábado, 4 de abril de 2009

Pif-Asus

Depois de o ter já ameaçado, o Asus pifou mesmo. Daí que, nos últimos dez dias, algumas novidades terão passado ao lado deste blogue. Por exemplo, a terceira confirmação do meu, tão fulminante quão preocupante, sex-appeal junto das mosquitas de Angola, o anúncio antecipado, mas não publicado, da morte deste blogue e, finalmente, o regresso a Portugal mesmo a tempo de assistir a outra propalada paixão, a de Cristo. Pelo meio, passaram ainda algumas outras águas de que espero poder pontear nos próximos dias. Num outro laptop perto de mim. Finalmente.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Quem sai aos seus...

Magalhães estará a ser vendido no mercado negro. Este título, português, logo fez disparar na memória um outro, angolano, de há dois meses atrás. Livros de distribuição gratuita à venda. Certificação da latinidade dos dois povos?

quarta-feira, 25 de março de 2009

Facas na Liga

Após cinco minutos a assistir, através da RTPi, à baboseira que vai decorrendo no Prós e Contras, atirei a almofada do sofá ao chão, vaiei o comando do televisor, pontapeei um copo de plástico e saí da sala com a frustante convicção de que o melhor e mais salutar programa desportivo da televisão portuguesa é a Liga dos Últimos.

Redzinger

Bento XVI falou no tabu da corrupção. E agora? Pois, boa pergunta. Se calhar, logo seguida por uma outra, ligeiramente mais plebeia. Quem diria que este Ratzinger viria aqui armar-se em João Paulo II, o verdadeiro Papa? Quiçá seguida por um pagão acto de contrição. Vá-se lá confiar nesta gente mais na sua eclesiástica mania de protagonismo. Então, agora... vamos lá a saber quem foram os editores de jornais que se atreveram a transcrever na íntegra os discursos do Papa.

terça-feira, 24 de março de 2009

Exitosos defuntos

Um bispo sul-africano classificou como «exitosa» a organização angolana da recepção ao Papa. Suspeito que as famílias das duas jovens mortas às portas do estádio dos Coqueiros não concordarão com esta fraterna parabenização. A menos que se trate, afinal, de mais uma reedição da velha máxima católica da confissão que precede o perdão.

domingo, 22 de março de 2009

Instâncias papais

Bento XVI insta classe dirigente a pôr fim à corrupção. E instou bem, como, certamente, o mundo inteiro terá considerado. Tal como consideraria igualmente uma outra instância, a da profilaxia do preservativo, que permitiria salvar por aqui tantas criaturas de Deus. Não se conhece, entretanto, é a resposta da corrupção à afirmação papal. O que se sabe é que, para já, irá haver, amanhã, nova tolerância de ponto em Angola. A acrescentar à da sua chegada, na última sexta-feira. Desta vez, para festejar a despedida do Papa. Em mais uma prova de que a produtividade angolana há muito foi abençoada.

Compumalária

Desde a última segunda-feira que este blogue anda entupido por uma dúvida. Será que a malária também pega aos computadores? A mim, bastou-me vegetar uma tripla sessão terapêutica de dez comprimidos diários e trocar o sábado de sol e mergulhos no Cabo Ledo pelo insoso estirar no sofá de sala, a ver rugby, ténis, ciclismo e tudo o mais que recusásse fazer a pedagogia da doença. Mas aqui o Asus, o computador de Taiwan que me tem acompanhado nesta aventura africana e que me serve de muleta no blogue, parece ter ficado bem mais afectado. Começou por deixar de ver e de me mostrar nas chamadas video lá para casa, a vingar-se das sucessivas greves da Movinet com um definitivo lay-off, a não reconhecer até as pen-drives com quem costuma dormir na mala em que os transporto e, durante toda a semana, a acrescentar mazelas várias até que, ontem, finalmente, entrou em coma. A única coisa que conseguia fazer, qual soldado apanhado pelo inimigo durante uma batalha, era mostrar o próprio nome no arranque. Ainda assim, apenas a preto e branco. Hoje, estranhamente, parece ter acordado do coma. Efeitos da estadia de Bento XVI em Luanda? Bruxaria? Pelo sim pelo não, prefiro não me meter nesta conversa.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Toque a rebate

Claro que nem toda a gente terá a possibilidade de, num determinado dia, acordar, espreguiçar-se a meio do gesto de se levantar da cama, arrastar o resto do sono até à casa-de-banho, presentear o espelho com o primeiro bocejo do dia, vigiar se as olheiras da manhã anterior lá continuam, fazer tiro ao alvo na sanita, voltar ao lavatório para limpar as mãos, reconfirmar a má imagem da mesma cara de há momentos atrás, preparar-se para a aspergir com as primeiras palmas de água do dia e resmungar mentalmente qualquer coisa antes de, maquinalmente, abrir a portazinha de plástico do móvel de inox cinzento pregado na parede de azulejos verdes e brancos enquanto sentencia em voz alta «se calhar estou com febre» e retira o termómetro a pilhas, estende-o em horizontal no sovaco esquerdo e volta ao espelho para retomar o policiamento das rugas, dos olhos remelados, do cabelo cada vez mais raro, das orelhas que insistem em não encolher e do raio dos pêlos brancos que espreitam do nariz e de que me esqueço de cortar há dias, preocupado como ando sempre com o tempo de saltar para o chuveiro, enfiar-me dentro do fato, passar a correr pelo pequeno-almoço e esquecer-me de tomar o café, mas não de travar as portas do jeep antes que alguém seja mais rápido do que eu, chegar ao escritório e anunciar à primeira secretária que encontrei, no mesmo tom solenemente pardacento como costumo pedir-lhe folhas A4 em falta na fotocopiadora, «importa-se de marcar uma consulta na clínica pois desconfio que estou com malária?» Vendo bem as coisas, esta realidade é bem mais séria do que quaisquer piadinhas sobre o sexo dos mosquitos postados no blogue de um autor momentaneamente febril.

Os mosquitos tocam sempre duas vezes?

Finalmente sei o que, em malariês, quer dizer «dois por campo». As observações microscópicas sobre os diversos campos de visão numa lamela de vidro onde jaz o sangue retirado com uma guilhotina anã da ponta do meu indicador direito, urrrhh, deram conta da existência, em média, de dois bichinhos. Sendo, apesar de tudo, sinal da pouca fertilidade do solo, a leitura aqui deste lavrador é a de que houve, pelo menos, dois mosquitos que conseguiram ultrapassar a, aparentemente, vã barreira do repelente com que costumo besuntar o cocuruto, as pontas das orelhas, as costas das mãos, os braços até ao cotovelo e as mangas das camisas quando me esqueço e as desarregaço. Embora desconhecendo a longevidade média dos mosquitos angolanos, atrevo-me a considerar que não terão sido os mesmos de há nove meses atrás. Quando muito, terão sido as suas descendentes.

domingo, 15 de março de 2009

Esquecer de respirar

Um homem, conhecido por esquecido, deixou o seu bebé de nove meses dentro do carro enquanto trabalhava. Ao fim de três horas, o esquecimento transformou-se em fatalidade. À distância que esta notícia me toca, interrogo-me se também se esquecerá de sofrer.

sábado, 14 de março de 2009

O último excomungado

Menina violada abortou e a mãe foi excomungada. Queixas contra abusos do clero aumentaram. Duas notícias de sentido epistolarmente antagónico. Mas só aparentemente. Afinal, tanto um caso como o outro comungarão da mesma sagrada leitura. A de que o crime compensa. Valha-nos Deus. Pelo menos enquanto não o excomungarem também.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Estado Falhado de Sucesso

O relatório do Global Witness sobre a responsabilidade da banca mundial no empobrecimento de Angola é impressionante. Tanto due dilligence para, afinal, acabar a financiar-se mais corrupção. E 1,7 mil milhões de dólares que, todos os anos, ficam por contabilizar nas contas do Tesouro angolano, é obra. A mesma que tem falhado a este país viciado em desvios. Comparado com isto, até Madoff julgará ter atenuantes.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Um país criativo

Presidente da República pede parcerias criativas. O Presidente da República, José Eduardo dos Santos, anunciou ontem, em Lisboa, que “Angola está muito interessada em definir as parcerias com o sector privado luso que sejam criativas, que produzam resultados e que sirvam para resolver problemas dos respectivos povos”, in Jornal de Angola, hoje.

A semana passada, ao chegar ao trabalho, verifiquei que o jipe com que nos últimos meses me tenho arrastado pelo trâfego de Luanda tinha o pneu traseiro do lado direito vazio. Depois de levado à oficina com quem mantemos uma parceria para as reparações da frota automóvel, devolveram-mo, «pronto», no próprio dia. Hoje ao fim da tarde, à chegada a casa, reparei que tinha o pneu dianteiro do lado direito vazio. Não é por nada, mas receio bem que este possa ser um exemplo das tais parcerias criativas.

terça-feira, 10 de março de 2009

Me too

Para já, algures entre a previsível boçalidade com que a blogosfera tuga que li acompanha a visita do presidente angolano a Portugal, eis o meu post preferido.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Catorzinhas

A primeira vez que ouvi falar de catorzinhas foi num obscuro jantar que reuniu uma mescla de colegas de trabalho e amigos de colegas de trabalho. Mantendo o mesmo tom de caserna em que o dito jantar decorrera, lembro-me que alguém afiançara que o «broche» de uma miúda de catorze anos seria o elixir do que considerava a juventude dos seus quase sessenta. Em diversas outras ocasiões e mais ou menos veladamente, assisti por aqui à repetição do testemunho do mesmo pretenso teen-rejuvenescimento, principalmente na versão do homem-casado que tem uma ou várias jovens namoradas-por-conta. Na opinião de um deles, profissionalmente próximo e por isso julgando-se isento de licença prévia para opinar, trata-se de um modelo familiar que exemplificará a reivindicada maior «felicidade» do homem africano face à monogâmica fidelidade ocidental. Sabendo-o pai de três filhas menores, fico sem saber se se referirá também aos genros. Já antes de ler Pepetela havia percebido que, por aqui, as jovens amantes tenderão a ser apetecíveis divisas que enfeitam lapelas, não apenas de generais e de todo o tipo de praças locais, mas também de expatriados facilmente seduzidos pela proverbial maior impunidade africana. A virilidade de cada um passa a medir-se pela quantidade de crianças que coleccionam, não havendo por isso, certamente, lugar a um grande rigor na selecção da idade de cada uma. O que poderá significar catorze, treze, doze, onze, dez, até menos anos, para estes felizardos? Porventura, passarem a ter de se preocupar com fraldas, chuchas ou barbies e a integrarem inesperados ménage à trois. Claro que nenhum destes homens felizes ignorará que se estará a aproveitar da miséria instalada e que o que estarão por aqui a praticar, facilitar ou fomentar é crime, mesmo que não penalizado em Angola. E que essa felicidade terá, afinal, um outro nome. Pedofilia. E que não adiantará justificarem-se com costumes ancestrais forjados na natural preponderância do número de fêmeas, com históricos hábitos da maior disponibilidade africana para os jogos corporais, ou ainda, aos propensos a uma intervalada maior intelectualidade, a defenderem-se nos valores culturais do país, pelo simples facto de que a essência de qualquer cultura está em colocar-se, sempre, as pessoas em primeiro lugar. Mas sabe-se também como, ao longo dos tempos, a hipocrisia sempre demonstrou ser o maior obstáculo da civilização.

domingo, 8 de março de 2009

Mulherio II

Excomunga-se uma criança de nove anos de idade por ter sido violada, toda a equipa médica que lhe fez o aborto, mas não o violador. Por isso não estar previsto nas regras da casa, segundo o homem (?) do momento no Brasil, o bispo de Olinda e Recife. E não se pode exterminá-lo?

Mulherio

Na terra das catorzinhas e da poligamia quase constitucional, o respeito pelas mulheres é tal que até o facto do seu Dia Internacional calhar a um domingo obriga a passar-se o feriado para o dia seguinte.

domingo, 1 de março de 2009

Amor,
Vejo-te na cama, a rebolar de êxtase com o Lobo Antunes que finalmente conseguiste acabar de ler, a perseguir com uma ameaçadora tesoura minúscula as unhas dos meus pés roídos de medo, a pedir que te esfregue pela enésima vez o creme nas costas salgadas pelo sol, a chamar-me para ti naqueles convites gestuais que fazes com o corpo e aos quais me habituaste a não resistir. Vejo-te sentada no pequeno cadeirão onde o Messenger permite caberem também as nossas filhas com quem continuas o jogo de confidências que diminui as distâncias, a levantar de lá o nariz com os óculos roxos de ver-ao-perto içados a meio para me lançares um comentário qualquer que facilmente esqueço por me ser sempre mais fácil fixar-te os gestos, a dobrar a minha roupa interior cada vez mais esburacada pelo queimar do sabão que dizes ter de enxaguar melhor antes de a pôr a secar. Vejo-te à janela a apreciar Luanda e a dizeres-me que pareces estar no paraíso simplesmente porque estás comigo, ouço-te calar pela jaula em que ficas todo o dia e que transformas em biblioteca até ao meu regresso ao final da tarde, sinto o conforto de me assegurares não querer depois sair à rua por não nos interessar a noite dos outros. Vejo-te a substituir-me no lavatório das peúgas e das t-shirts dos meus joggings matinais subitamente cheirosas e rejuvenescidas, no chuveiro a tomar o meu lugar a puxar a cortina de plástico para evitar que os espirros da água contaminem o chão, a segurar a emergência do toalheiro de arame que insiste em despregar-se da parede. Vejo-te em sítios de que não me lembro de te ter visto, dentro do guarda-fatos, do frigorífico, do televisor, no comando do ar-condicionado, na chaleira que deixou de ser usada, nas cruzetas das camisas que dependuravas passadas e espaçadas e que agora voltaram ao reboliço do tudo-ao-molho, vejo-te no corredor, na espera do elevador, na contagem dos degraus das escadas, nas pessoas que já não me sorriem porque tu já não as cumprimentas, vejo-te a meu lado a rir-te do trôpego do trâfego e da patética pressão dos arrumadores, a confortares com o olhar o de todos os pedintes e estropiados que nos cercam nas ruas, a alinhares comigo as pegadas na areia quente e fina do Cabo Ledo e do Mussulo, a calcorrearmos juntos as linhas da maré perante o espanto dos caranguejos que se transformam em bólides de aceleração lateral rumo à vazante, a deixarmos as ondas tirar-nos as roupas para podermos nadar nus naquela praia quase deserta, a sentir que o teu corpo continua a querer refugiar-se no meu para lá dos efeitos de todas as correntes que já atravessámos juntos e a desejar fazer amor contigo naquela barraca de canas que agora me parece um palácio.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Refinação

Banco da CGD e Totta em Angola avança em breve em parceria com a SONANGOL, decididamente, o mais refinado grupo bancário local.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Restos

Direitos Humanos: Angola apresenta pior registo entre países africanos de Língua Portuguesa. Uma das mais elevadas taxa de crescimento do PIB no mundo? Estabilidade da moeda face ao dólar? Maior produtor sub-sahariano de petróleo? Investimentos bancários no exterior? Então e o resto?

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

É Carnaval ninguém leva a mal (II)

Surto de raiva estará controlado «dentro de dias». Não se percebe como, mas o bastonário da Ordem dos Médicos de Angola decretou que a raiva, que até aqui oficialmente matou quase uma centena de crianças em Luanda, será irradicada «dentro de dias». Como esta irradicação estará a ser feita a golpes de seringa em tudo o que é canídeo vadio acusado de «mordedura», crê-se que bastarão mais algumas delações da vizinhança até se acabar com o «surto epidémico».

É Carnaval ninguém leva a mal (I)

Presidente do Partido Liberal Democrático filia-se no MPLA. O fundador, desde 1980, deste partido, anunciou agora, 29 anos depois, que, finalmente, «enchi-me de coragem» e, vai daí, passou-se para o «único partido onde perdura a democracia, liberdade e o respeito para com os militantes e cidadãos angolanos». Isto é o que se chama um acto de perseverante fidelidade ideológica.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

New Label

Numa Europa cada vez mais taralhoca, onde as esquerdas clamam pela nacionalização de tudo o que mexa, incluindo o empreendedorismo, e as direitas voltam a entoar o consabido refrão do choque fiscal, ambos insensíveis ao entendimento de que tudo terá de ser diferente daqui para a frente, uma voz parece transportar o bom-senso que tem faltado. Creio ser o caso de Gordon Brown, o até há pouco pior prime minister da história recente do Reino Unido. Acalmada a voracidade dos media perante a falta de carisma que atribuiram ao sucessor de Blair, dependerá sobretudo dele e das decisões que vier a tomar sobre o sistema bancário do país, que se diz ainda mais falido que o da Islândia, a sobrevivência da Inglaterra. Nos tempos que correm, quer-se mais gestores do que políticos. No sentido de que haverá que, sobretudo, ter a convicção de procurar ver-se para além da espuma das sondagens.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Idiosincrassias

Caritas do Cunene denuncia fome na província. Há uns meses atrás, em conversa com empresários tugas que procuravam locais para produzir citrinos como o faziam no Algarve, fiquei a saber que na província de Benguela haveria condições para fazer-se até quatro colheitas por ano. Num país assim, custa a crer que haja pessoas com fome.

Alcácer-Quibir

Ministro angolano critica 'amiguismo' no crédito bancário. Agora que Angola tomou o lugar do Brasil no preenchimento da legenda do famoso quadro da árvore das patacas, pendurado na imaginação dos que emigraram durante grande parte do século XX, convirá que os tugas que têm ameaçado invadir Luanda com três boeings diários saibam calibrar os fundamentos da economia local, bem como os anseios do empresariado com quem estarão condenados a fazer parcerias. Como este extraordinário exemplo de inconformismo de um ministro que luta contra a discriminação de que diz ter sido alvo, tendo-a saneado apenas após a chamada à liça do regulador-mor. Com a ligeireza da bagagem de alguns tugas que vejo arribar por aqui, receio bem que Angola possa vir a tornar-se no Alcácer-Quibir de muitos projectos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Capulanas

A ideia era comprar uma capulana para matar saudades a uma tuga que já fora também angolana. De imediato, as duas jovens quitandeiras largaram, sorridentes, as montanhas embrulhadas de pano que traziam à cabeça e estenderam em leque as peças pelo chão. Quanto custa cada uma? Dois mil kwanzas? É muito caro! Compramos ainda ontem uma a setecentos e cinquenta, mentimos. Um par de sorrisos, inexpugnáveis na vontade de aumentar o pecúlio da jorna ou, quiçá, apenas no desejo de se desfazerem de mais um peso na cabeça, logo desarmariam o ímpeto regateador dos compradores. Escolha, senhora, tem aí panos muito bonitos! A mil não, que foi a quanto compramos, mas logo logo se faz um desconto. Uma luta desigual estava prestes a ser travada naquele fim de tarde junto à Baía, quando uma das mulheres, finalmente livre do peso que carregava à cabeça, espreguiçou a gravidez por debaixo do longo vestido amarelo. A partir daí, já não era o marralhar do preço de um simples pano colorido, no banalíssimo propósito de recuperar o desconto da venda como se fora a um local, que passara a ofuscar-nos naquele quente e amorfo fim de tarde, como o são todos em Luanda. Então, fica mil para si e mil para o bebé. Já não me lembro das cores estampadas na capolana, que permanece dobrada tal como foi entregue, mas recordo bem o colorido dos sorrisos que deixamos para trás.

A saga continua mesmo

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Fezada de projecto

Governo projecta nova cidade a norte de Luanda. Esta projecção assenta no pressuposto de que, a continuar este ritmo de crescimento, a população da capital duplicará em vinte anos. Tal como antecipa a impossibilidade de se criarem condições para que muitos regressem aos locais donde fugiram. Também, que sectores como a agricultura, a indústria transformadora ou o turismo, serão inviáveis como absorventes de mão-de-obra a deslocar para fora de Luanda. E, finalmente, na convicção de que ainda haverá petróleo em 2030. Pois a mim parece-me que este projecto se arrisca a ser apenas uma ganda fezada.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O inferno em África

Quando leio o que se passa no actual Zimbabué, que desde Dezembro imprime notas de 10 mil milhões, que equivalem a menos de 20 dólares americanos, para tentar enganar uma hiper-galopante inflação anual estimada em mais de três triliões por cento, que aquele caixão de notas não dá para comprar mais do que quinze carcaças de pão e que 90% dos cerca de 15 milhões de habitantes está desempregada, interrogo-me se, alguma vez, um país que houvesse sido colonizado por portugueses poderia transformar-se num inferno como este.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Jungle style

Uma das consequências desta minha passagem por Angola será, seguramente, a perda da carta de condução. Em Portugal, no regresso. Por aqui, pelo contrário, espero vir a tornar-me piloto de rallye. Hoje de manhã, pela primeira vez, galguei um lancil e conduzi quase cinquenta metros por cima de um passeio com a ajuda solícita dos peões que lá se encontravam, os quais, energicamente, mo sinalizaram mal anteciparam o congestionamento provocado na estrada pelo toque entre um camião TIR e uma carrinha. Receio bem vir a viciar-me neste tipo de condução, a que alguns colegas sul-africanos vêm, certeiramente, chamando jungle style. Mas que tem a vantagem, inquestionavelmente, de injectar adrenalina logo pela matina.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Empregos em bloco

Nos dias de hoje, os políticos e os bloggers têm cada vez mais em comum. Desde logo, a necessidade de dizerem e escreverem coisas, que se esforçam por parecer novas, a fim de manterem a atenção dos respectivos fregueses. Basta uma cibernáutica e dominical leitura dos placards informativos que habitualmente utilizam para se perceber isso. Uma das técnicas, necessariamente de vendas, é apostarem em frases emblemáticas, como o fez Louçã com a dos coelhinhos reprodutores, numa figura de retórica, como bem refere Ferreira Fernandes no «Público» de hoje, de duvidosa fertilidade. Uma outra, já velha em deputados do PCP e do CDS e agora recuperada por bloggers apostados em projectar-se no universo da adivinhação, é a «de avivar a memória das pessoas». No «Delito de Opinião», por exemplo, demonstra-se que, afinal, a culpa da crise económico-financeira que abala presentemente o mundo não terá sido iniciada pelo sub-prime na América mas com uma promessa pré-eleitoral de um azougado candidato a primeiro-ministro de Portugal há quatro anos atrás. Mas, em definitivo, a baboseira da semana continua a pertencer a Louçã, professor de Economia e cada vez mais profeta nas horas vagas, que não resiste a cavalgar o que vem anunciando como a derrocada do sistema capitalista. Vai daí defende «a proibição de despedimentos em empresas que apresentem resultados positivos». O que não deixaria de ser uma excelente fórmula para criar mais empregos num Portugal bloquista. Colocava-se um comissário ao lado de cada contabilista, director financeiro ou gestor de cada empresa privada, se estas ainda fossem autorizadas a exercer a actividade, zelando para que mantivessem a todo o custo o rumo dos lucros. Numa orientação de gestão que visaria defender já não a óptica dos coelhinhos-patrões, que só pensam no lucro pelo lucro, mas a dos coelhinhos-trabalhadores e o seu legítimo direito ao emprego. E quando algum daqueles quadros propusesse investir-se numa nova linha de produção, no desenvolvimento de um novo produto ou em establecer-se num novo mercado... pimba! Recusava-se logo a proposta, dado o pernicioso dos custos associados que poderiam pôr em risco os insofismáveis lucros e o emprego de todos. Viva o Bloco do Emprego.

Não há fome que não dê em fartura?

Angola, novo Eldorado para a saída da crise. Percebe-se bem, por aqui, que os novos imigrantes são cada vez mais jovens. Com a crise a alastrar-se a Ocidente, já não serão apenas os mais maduros e experientes a conformarem-se com a inevitabilidade da mudança. E o que, dantes, poderia até parecer um desterro é, agora, encarado como uma imensa oportunidade. Que ninguém quer perder. Resta saber se esta nova e cada vez mais jovem invasão não porá em causa o propósito das autoridades angolanas em ver formados os seus próprios profissionais.

Fundamental

A Associação 25 de Abril e a RTP inauguraram um sítio na internet onde, baseado no livro acima, pretendem dar a conhecer a Guerra Colonial que decorreu entre 1961 e 1974 na Guiné, Angola e Moçambique. Absolutamente fundamental para o conhecimento deste período da História portuguesa e, também, dos novos países africanos nascidos após o final do conflito.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Provincianismo beef

O que é sobretudo irritante no soundbyte do caso Freeport não é saber se Sócrates meteu a mão na massa, se a mãe comprou o apartamento com a pensão de reforma aplicada no off-shore ou se o tio falsificou-se como testa-de-ferro do sobrinho ministro. O que é irritante é que o País inteiro se ponha de lupa em riste às ordens de uns quaisquer Bobbys de uma esquadra da polícia inglesa, tardiamente tomados por um ataque de justicialismo sobre uma ressabiada carta anónima. Que, entretanto, se encontrem outros cidadãos da União Europeia a serem pressionados para cederem aos desempregados locais os empregos que, certamente, terão sido legitimamente conquistados nas refinarias da Escócia e nas plataformas petrolíferas do Mar do Norte, já lhes parecerá uma questão de somenos. Curiosamente, esta hipocrisia tem sido replicada por tudo o que é blogue no rectângulo, confortavelmente resguardados na brisa acusadora proveniente da nobre e exemplar Inglaterra. É o regresso do raquítico provincianismo português, como certamente escreveria o blogger Fernando Pessoa.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Caos com rodas

Mais de um ano após me ter estabelecido aqui, comecei a conduzir em Luanda. E, até agora, estranhamente, tenho sobrevivido ao caos. Dos hell angels dos candongueiros mais as suas loucas investidas por todas as faixas de rodagem existentes e a existir, como os inventados corredores prioritários que convencionaram ser os dos seus Bus, na realidade, bermas e passeios que por aqui deixaram há muito de ser exclusivo dos peões. Do acompanhamento furtivo do enxame de motas e motorizadas, cuja inimputabilidade perante regras de trânsito ou qualquer sinalização existente, incluindo semáforos e sinaleiros, os transforma em invisíveis vítimas assassinas. Das regulares inversões de marcha em quaisquer ruas, ruelas, descampados ou avenidas, mesmo se apenas com um, dois, ou mais sentidos, que por aqui são os que apetecem a cada um em cada momento. Do constante assédio de arrumadores, que podem variar para seguranças, guardas, nocturnos e diurnos, polícias ou simples transeuntes, à chegada ou à saída de qualquer lugar, todos especialistas em avaliação patrimonial dos terrenos que o automóvel pisa, aqui são cem kuanzas, ali duzentos, para sair daqui nunca menos de quinhentos. A forma como tenho conduzido, confesso, em constantes relatos como se na transmissão radiofónica de um jogo de futebol, será um inferno para quem me acompanha, principalmente se no lugar-do-morto. «Cuidado!», «sai da frente, pá!» e «olha-me este caramelo!» serão dos mais simpáticos e traduzíveis momentos da antena. Os restantes mimos já serão mais do universo dos comentários de balneário.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Aviso à navegação

Alguém deu-se ao trabalho de cruzar o Atlântico pelos ares para vir pousar âncora perto de mim, pelo que nas próximas semanas este blogue ficará mais preguiçoso. Passarei, concerteza, a falar mais de mim, de ti, de nós, do que de todos os eles que costumam desfilar nestes posts. E a deixar de estar atento ao que se passa em redor, se é que se tem passado, verdadeiramente, alguma coisa por aqui. Passarei, então, a semicerrar a janela donde habitualmente espreito a vizinhança e a espreitar para dentro. Redescobrindo, como sempre suspeitei, que há bem mais vida para além do desterro.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Um problema de escassez

Governo pede cautelas na utilização dos "escassos" recursos do Estado. Talvez que não fosse má ideia que a população angolana passasse a discutir porque é que estes recursos serão, agora, assim tão escassos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A saga continua

'Angolagate': 500 mil euros gastos em acompanhantes. Podiam não saber tocar piano ou falar francês mas os gatos angolanos do Angolagate sabiam reconhecer os pergaminhos da nobre arte de servir café e chá. Daí terem premiado as meninas francesas que os ajudaram a descobrir no Louvre o prazer da observação do formalismo das linhas das esculturas etruscas do século VI a.c., a decifrar o mimetismo do túmulo de Tutankamon ou a pôr legendas nas molduras dos quadros dos velhos pintores flamengos com a oferta de automóveis e de apartamentos afiançados. Creio bem que terá sido esta sua conhecia veia artística que os livrou do banco dos réus. Chapeau.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Voto nesta

Esta petição pública chegou-me por correio electrónico. Tem-me sido difícil resistir à sua subscrição. Sobretudo por dever patriótico.

ASSUNTO: URGENTE - RAPTO DE DEPUTADOS
A Todos os PORTUGUESES
Precisamos da sua ajuda!!!
Grupo armado auto-denominado "Nortada" raptou esta manhã um grupo de deputados que se encontrava nos gabinetes da Assembleia da República (como ocorreu às 11 horas não estavam lá muitos).
Estão a exigir o pagamento de 15.000.000,00 euros em troca da sua libertação.
Se não for pago dentro de 24 horas, vão regá-los com combustível e queimá-los vivos.
É imperativo organizar uma colecta para receber ajudas !!!!
Conseguiu-se até agora:
- 1580 litros de gasolina Sem Chumbo 95- 1320 litros de gasolina Sem Chumbo 98- 1250 litros de gasoleo- 175 de gasoleo agricola- 78 caixas de fosforos- 21 isqueiros- 1000 acendalhas- 337 botijas de gás
Não mandem álcool, pois o mesmo pode vir a ser consumido pelos próprios deputados.
Aceitam-se tambem barris de pólvora.
Se você apagar esta mensagem, é porque não tem coração... Por favor, leia e ajude...
PORTUGAL PRECISA DE SI !!!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Serviços de limpeza

Tribunal Constitucional extingue formalmente vinte partidos. A democracia angolana acaba de eliminar todas as forças políticas que obtiveram menos de 0,5% dos votos nas últimas eleições. Curiosamente, a filosofia deste serviço de limpeza assenta mais nos alicerces de Darwin do que nas estacas de Marx. Numa prova de que o regime actual crê nas virtudes da evolução e aposta, assim, na selecção natural dos futuros membros.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Rtpi-análise

Do programa que acabei de ver na RTP Internacional, «As Escolhas de Marcelo», que tinha a particularidade de o ter em Luanda, retive três coisas. Que a entrevista foi pré-gravada de tarde. Que Marcelo se referiu ao regime democrático angolano como não estando «ainda consolidado». Que a energia falhou uma vez durante a transmissão. Enfim, pouca coisa para merecer um post. Azar. Logo hoje que eu me preparava para parecer um blogue de primeira linha e fazer a análise das análises do prof. Marcelo.

Um País de almirantes

De vez em quando, o Terceiro Mundo ocupa o convés de uma piroga e faz-se ao mar, seguindo em encruzilhada as correntes frias que sabe fazerem-no subir pelo Atlântico em direcção a um local cujos indígenas se habituaram a chamar Europa. De quando em vez, lá chegado, a sua conhecida capacidade de dissimulação facilmente o faz confundir-se com um seu parente afastado que, habitualmente, faz gala de uma aristocrática e falsa superioridade. Daí que não espante lerem-se títulos como este na primeira página dos jornais de Portugal. Marinha tem mais almirantes que navios.