domingo, 13 de julho de 2008

Contemplação do colo

As quatro paredes do dia-a-dia do meu mundo, por aqui, são feitas de materiais tão amorfos como market analysis, call report, bottom line, business case, change management, conference call, action plan e mais uma série de outras coisas com a mesma densidade de gelatina mas que o mundo que se diz civilizado há muito venera. E embora seja feita dessa matéria a arquitectura do trabalho a que me tenho devotado, desde que me levanto até que me deixo cair, não será seguramente dessa ambiência a que me ressoará Angola quando eu daqui sair. Aliás, tenho a sensação de que, quando me voltarem a falar do case study que é este país rico que se recusa a pintar a pobreza e a miséria dos musseques com a mesma côr do petróleo, eu vou lembrar-me das mães que todos os dias vejo atravessarem Luanda de uma ponta a outra a arrastarem na cabeça uma urgência de coisas para vender ao mesmo tempo que amparam com lençóis os filhos nas costas. Ou quando alguém por acaso mencionar a duvidosa possibilidade de tão cedo este país poder trilhar as boas regras do governance, eu vou lembrar-me do manjerico branco da cabeça do homem que costuma passear a sua loucura num sobretudo pela marginal e que há dias vi sentado num banco a aspergir-se de cal pelo corpo nu. E quando ouvir dizer que continuam a proliferar os contratos off-shore a um ritmo bem superior ao dos poços encontrados, turvando ainda mais a clareza das águas profundas por onde tem navegado este regime, eu vou lembrar-me da multidão de mutilados que se passeia em peditório de cadeiras de rodas ou simplesmente se arrastam no chão enquanto tentam sacudir com os nós dos dedos na chapa das portas dos carros parados nos semáforos daquele museu de guerra civil que é o largo do Kinaxixi. Também não me admirarei se ouvir alguém dizer que a sede do Clube do Empresário está instalada nos corredores da Assembleia Nacional. Nessa altura, ficar-me-ei seguramente pela memória da incansável contemplação do colo dos bebés de Angola, naquele sossego bamboleante como costumam passar por mim, a velejarem as ruas nas mantas que as mães defraldaram para eles, distraidamente agarrados ao seu dorso, abstraídos do mundo que mora fora daquele covil suspenso, pernas atracadas nas ancas, mãos livres para orientar o vento, cabeça saliente para perceber o rumo para onde os leva aquela quilha, ouvidos atentos ao borbulhar dos pulmões que arfam, olhos fixos nos outros sentidos todos aqui duplicados e o coração que, afinal, ali se fica a desejar que sejam baixos os relevos que socalcam aquele início de solitária viagem a dois.

2 comentários:

Júlia Moura Lopes disse...

um texto muito bom, que expressa o seu caracter humanista.

Parabéns por ele!

oui! mon amour! disse...

tenho dias, em que olho para esta imagem dando tudo para estar no lugar dessa mulher,

atravessando uma rua qualquer de Luanda, com um filho pequeno colado a mim,

e umas roupas para lavar num tanque de água fresquinha :):)