quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Post aberto à Movicel

Exmos. Senhores,

Serve o presente para protestar, se entretanto esta conexão não fôr abaixo, contra o péssimo serviço de internet oferecido pela Movicel. Ando a pagar religiosa e mudamente uma mensalidade de 50 dólares pela utilização, tantas vezes inútil, de um plástico em forma de cilindro-rectângulo a que chamam MoviNet, o qual, para além de gago, tem demonstrado ser mentiroso. Auto intitula-se High Speed mas há muito que descobri ter a velocidade de um cágado. Quantas vezes, regressado do trabalho, quero utilizá-lo para abrir um blog, por exemplo, dos meus ilustres followers e acabo por adormecer durante o loading. Ou quero escrever um post directamente neste blog e entretanto falha a conexão antes de o conseguir publicar. Ou sou proibido de me apresentar na parada diária com os meus porque o Windows Live Messenger falhou. Ou, finalmente, quero publicar uma música tirada do You Tube e tenho de esperar horas para a conseguir ouvir de princípio a fim. Meus Senhores, sei bem que a Movicel faz parte da operadora estatal Angola Telecom, a qual, pese a recente gestão chinesa, tem capitais maioritariamente nacionais e, como tal, estará prioritariamente ao serviço do povo angolano. Sem pretender, mero expatriado, ultrapassar a fila dos, certamente, milhões de utilizadores de internet que vivem nos musseques, não posso deixar de me insurgir quanto à baixíssima qualidade deste acesso. Mesmo que lhes reconheça a atenuante de que será tão desordenado, lento e confuso quanto qualquer outra espécie de trâfego em Luanda. Mas como, entretanto, a conexão foi-se mesmo abaixo, receio bem que este post nunca lhes chegue ao conhecimento. O que é uma pena. Até porque me haviam afiançado que estariam sempre comigo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

É já amanhã

Inscrições para São Silvestre de Luanda até à véspera da prova. É curioso que, no reino da gasosa, eu ainda não tenha sido contactado para perder esta corrida.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Amores,


Não foi Natal porque vocês não estiveram aqui. Fisicamente. Recebi convites de colegas para me juntar a eles, mais às famílias, na ceia e recusei. E acabei por ter dificuldades em justificar-me. Mais por eles e pela insistente cegueira da simpatia e solidariedade do que por mim. Como dizer-lhes que uma família não se substitui? Muito menos no Natal? E, bem pior, que preferi trocá-los pelo Live Messenger? A minha estreia nesta orfandade seria assim concluída numa ceia-buffet de hotel, numa bóia que acabei por partilhar com um outro náufrago igualmente perdido das graças da quadra, a mastigar um insosso bacalhau angolano da Noruega, a ruminar sobre a estranha técnica, certamente indiana ou chinesa, de fazer com que um bolo-rei saiba a pão-ralado e a ansiar, inutilmente, que o tinto do Douro conseguisse o milagre de apaziguar sabores tão falsos e a devolver-me a memória dos meus gostos. Mas, na verdade, juro-vos que nunca saí do canto de cá da longa mesa de quase 6.000 quilómetros, com epicentro na nossa sala de jantar, onde permaneci durante toda a noite, em silêncio, imóvel, a cumprir a minha pena de pai desta vez mal-comportado e a olhar sobretudo para vocês, proibido de vos tocar, ou de vos falar, mas não de me sentir próximo de certas memórias. Do vosso perfume natural, agora de jovens cada-vez-mais-mulheres, cujos cheiros por vezes imagino sentir ainda de quando bebés. Dos vossos lindos olhos azuis, estranhamente herdados em linha directa dos vossos avós, que assim decidiram perpetuar-se à nossa mesa e cuja forforescência rivaliza com a das lâmpadas chinesas que polvilham a árvore guardadora dos presentes e das memórias de todos. Da ondulação dos vossos corpos em reboliço no meu colo, que com o tempo subiu do chão para os sofás da sala, as vozes, os cabelos, os braços, as ancas, os joelhos, os pés, a crescerem mais depressa do que a minha capacidade para os segurar. Do que, enfim, acordamos os quatro passar a fazer erguer como tradição nossa, do passeio de véspera pela Santa Catarina, a divertirmo-nos com a azáfama do prendismo-obrigatório, do de antes da ceia pelo vento fresco da marginal, embalados na noção de que o mundo acaba dois passos em nosso redor, ou da fria peregrinação até à Missa-do-Galo, deixando para trás a doçura da ceia a que costumamos voltar, num semi-sacrifício concedido às tais tradições que juramos valer a pena manter. Tenho pena de não ter podido rever convosco, desta vez, alguns dos registos filmados do nosso passado, de não ter participado no nosso concurso de adivinhar quem-é-quem de vocês dentro daquela touca azul-turquesa ou daquele vestido côr-de-rosa que compramos naquela loja durante aquela viagem que fizemos todos juntos aquele sítio, ou de não ter feito parte dos sketches que depois reveremos com gosto nas reuniões seguintes. Tal como lamento não ter assistido agora ao relato dos vossos trilhos de caloiras, seguramente as mais belas, na Universidade e no teatro, mais as outras confidências de que ainda poderei ser depositário, antes da chegada do tempo em que naturalmente tenderão a afunilar-se. Talvez que depois sobrasse ainda tempo para vos falar do que me têm ensinado estas partidas da vida, e de que os sonhos existem para se perseguirem, embora com os pés bem assentes no chão, e de que, suspeito, o futuro ameaça vir a alterar-se mais rapidamente do que o fazia no passado, e de que nem sempre deveremos esperar pela onda óptima mas, antes, surfar a mais próxima, e... Talvez que então acabassem por me interromper, na vossa clarividência de teen-agers, para confirmar que o vosso velhote não terá, afinal, atributos de surfista e que talvez comece a repetir o que outros antes dele já afiançavam, numa renovação de testemunhos, temores, anseios e desejos de que o Natal será, também, feito. Gosto de acreditar que esta nossa separação, fortuita e involuntária, apenas antecipará outras que, certamente, haveremos de fazer no futuro, cada vez mais longínquas e demoradas mas, espero também, jamais definitivas. Tal como acredito que, embora por caminhos diferentes, serão sempre feitas pelos mesmos passos.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Nasce uma estrela?

Desde há cerca de duas semanas que me encontro inscrito na S. Silvestre de Luanda. Tanto quanto me apercebo, até aí ninguém se havia queixado do percurso mas, agora, certamente que depois de alguém ter difundido a minha participação na competição, já há quem considere haver necessidade de mudar o piso em várias artérias por onde a corrida irá passar. Ora venham lá convencer-me de que não haverá aqui mão de algum meu adversário repentinamente mais nervoso. Pois isto cheira-me a golpe de secretaria. Veja-se lá que até já estão a implicar com o ferro-velho dos carros abandonados nas bermas das ruas. Tornar o espaço mais fluido, dizem eles. Como se eu não percebesse que o que querem, verdadeiramente, é deixar o caminho livre para me obstarem a passagem com algum camião TIR e assim impedirem-me de chegar à vitória. Receio, medo, pavor mesmo, é o que revelam ter os meus adversários, nesta minha primeira participação em Luanda. Que será, por sinal, a minha primeira S. Silvestre. A bem dizer, também, a primeira prova de atletismo em que alguma vez entrei.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Natal de restos

Parte das famílias angolanas vive de restos. À custa do Natal e do espírito natalício, exclusivo prisioneiro desta quadra e aparentemente intranferível para outra época do ano ou da vida, há muita xaropada moral que se vai vertendo nesta época. Não irei cair nessa armadilha a propósito desta notícia. Desde logo, por não ser propriamente uma novidade para quem se habituou a vê-la cirandar por aqui. Mas não deixa de causar arrepios a permissividade que o surpreendente indicador «nível médio de pobreza» antecipa. Tal como o facto de se conseguir medi-lo. Haverá, mesmo, realidades bem mais fortes que qualquer ficção.


Desejo, a todos os que aqui costumam ler-me, um Feliz Natal.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Gasoso espírito natalício

Ainda sou do tempo em que o adorável estafeta que entregava as prendas que eu recebia no Natal, cumprindo o trajecto da chaminé até ao sapato colocado em cima do fogão da cozinha, se chamava Menino Jesus. De que me recordo sobretudo pelo facto de não saber português e por isso nunca conseguir acertar com os pedidos que lhe escrevia. Anos mais tarde passaria a chamar-se Pai Natal, numa mudança de nome a que nunca aderi ou concordei por sempre ter desconfiado que visou sobretudo acabar com as minhas ilusões de um dia acertar com os pedidos. Tive a certeza disso quando me sugeriram que as renas que lhe puxavam o trenó se recusavam, afinal, a cortar as hastes para poderem entrar na chaminé lá de casa. Já adulto e agora a ver no barrigudo benfiquista de barbas um perigoso fomentador do consumismo infantil, capaz de transformar pacíficos chefes de família em tesoureiros compulsivos, passei a olhá-lo como uma espécie a merecer extinção. E a imaginar que, mais tarde ou mais cedo, poderia bem ser substituído por qualquer coisa parecida com a DHL. Agora, afinal, aqui, descobri que foi substituído pelo Paizinho. E que o Paizinho sou eu! Extraordinariamente eleito durante as duas últimas semanas, através de um concentracionário sufrágio de arrumadores, seguranças, polícias, engraxadores, vendedores, empregados de mesa, paquetes, indistintos passantes anónimos e outros tantos inconfessados profissionais da gasosa, todos repentinamente imbuídos de espírito natalício. Tenho agora uma multidão que me deseja, de mão estendida e voz melosa, «Boas festas, Paizinho», ficando eu sem me lembrar onde pus a lista das prendas desta gente toda, crianças grandes num mundo sem chaminés, nem fogões debaixo, nem sapatos em cima. E, desgraçadamente para eles, também sem um Paizinho generoso e sorridente a arrastar um saco vermelho cheio de kwanzas. Safa!

domingo, 21 de dezembro de 2008

Trânsito proibido

Em Angola todos os caminhos vão dar a Eduardo dos Santos. Consta que será uma verdade muito jornalística o que refere o português Jornal de Negócios. Mesmo que esta constatação de GPS há muito tivesse sido já feita pela bem menos tecnológica mas mais certeira lupa de Pepetela. Com a vantagem da sua ascendência, dada a proximidade e reconhecimento cardados nas lutas ainda no mato, perante a certamente maioria dos integrantes da actual guarda pretoriana do regime. Leia-se «Predadores» e perceba-se porque é que este livro deveria fazer parte, ao lado do boletim de vacinas e dos repelentes de mosquitos, do kit de viagem de qualquer expatriado com destino marcado para Angola. Talvez que depois se passásse a perceber melhor por que razão, pese as evidências do sentido do trâfego, aqueles caminhos continuarão a estar minados.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Faça-se luz

Já lá vai o tempo em que, quase sempre, os grandes empresários eram velhos, barrigudos, vestiam fraques coçados, usavam cartola, fumavam grandes charutos por debaixo dos bigodes espigados e divertiam-se a fazer no ar desenhos de cifrões com o fumo. Agora, os tempos são outros. Daí que uma jovem de 35 anos, licenciada em engenharia electrotécnica, reconhecidamente pouco dada a fumaças e, a avaliar pelas fotos, elegante, seja a mais importante empresária do mundo lusófono. É preciso ter galo. Ou, simplesmente, ter o pai a mandar na capoeira.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Pedagogia avaliada

Inquérito: Quase 75% dos professores mudava de profissão. Já suspeitava disto. Depois de os ver, através da RTP Internacional, em tantas manifestações, concentrações e greves. Vai-se a ver e, se calhar, 75% deles até prefeririam ser manifestantes. Ou grevistas. Ou outra coisa qualquer, desde que não fossem sujeitos a avaliações. Entretanto, deste lado do mundo, onde a grande frustração das pessoas, professores incluídos, não será propriamente o cansaço da própria profissão, existe o objectivo de se atingir um milhão de alfabetizados em 2009. Com este tipo de realidade, Angola seria certamente o local ideal para que a Plataforma Sindical dos Professores de Portugal exportasse o seu discurso. A existir, o pedagógico. Não o outro, o do coordenador sindical. O qual, pelos vistos, já serviu para desincentivar o que se julgava ser vocação.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Pink Floyd - Wish You Were Here

No meu dia preferido, a minha música favorita.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Em Roma... sê romano?

Sábado de algumas horas de praia em Cabo Ledo, como têm sido os últimos, o calor adocicantemente húmido da habitual estufa angolana, as cócegas da areia fina que finalmente se substitui às peúgas na massagem dos pés, o livro aberto sobre uma sopa de letras que por uma vez não mete números, gráficos ou uma síntese dos dois, os óculos a proteger o olhar da fulminante luminosidade dos personagens que Pepetela desfia, os mergulhos seguidos naquele mar cuja temperatura parece ter saído do mesmo sonho, tudo neste asfixiante reconforto dos fins de semana de Angola sem trabalho eight-to-eight. Certamente vindos de um dos bungalows ali existentes, em fatos de banho e toalhas a tiracolo, um casal entra na areia quente a caminho da maré. Ele é branco, ela é negra, ele bem mais velho que ela, diferença a parecer de vinte anos, certamente a idade dela, que lhe agarra a mão esquerda, onde ele transporta também uma máquina fotográfica, enquanto ele vai mantendo a direita ocupada por um cigarro nervoso. Ao passarem perto de mim, pareceu-me reconhecer, mais no vigilante e incomodado olhar dele do que no sorriso abstraído de menina dela, o enredo de muitas histórias que se contam por aqui. Chegados à maré, os inevitáveis shots seguidos disparados pela máquina digital dele sobre ela, a encher o olho daquele momento e posições para a posteridade e para o que mais for. Daí a algumas horas talvez que a foto dela já circulásse pela internet de amigos e conhecidos dele, como mais um troféu ganho com uma promessa de um fim-de-semana de revista. Vi há já muito tempo na TV um filme, que creio dos seventies, chamado «The lord of the land», cujo argumento girava em torno de um costume europeu da Idade Média conhecido por «droit de seigner», o que se traduziria por «direito à primeira noite». Na prática, um privilégio dos senhores feudais em disporem das noivas dos vassalos na noite do casamento. O que tenho depositado na memória deste filme é o drama da hesitação de um suserano, até aí apostado em acabar com esse costume, que se vê enamorado de uma aldeã durante uma visita a uma pequena povoação situada num território recentemente conquistado a um rival. Ele próprio casado, passa a debater-se com a atração pela exigência dos costumes locais mal descobre que a jovem está noiva. A mensagem do filme era afinal dada pelo noivo aldeão, que apelava à consciência do seu senhor perante os costumes da própria terra donde vinha, recordando-lhe que aquele acto seria lá considerado crime. Pois por diversas vezes me tenho lembrado deste enredo por aqui. O que está vedado nuns lados poderá muito bem ser permitido, quando não incentivado, noutros. E não me refiro aos crimes, decididamente não locais, de deitar lixo para o chão, fumar em restaurantes, ou urinar directamente para a Baía.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Quilmes é o nome

Após um recente post aqui, alguns comentaristas demonstraram estranheza por eu ter confessado ter estado na companhia de umas argentinas de que não sabia o nome. «Descarada falta de cavalheirismo», terão pensado uns. «Marialvismo tuga já com reminiscências de Angola», terão pensado outros. «Espera-o o rolo da massa», certamente todos. Pois bem, decidi assumi-las. Para que não se pense que ando por aqui a beber pela calada. Eis uma delas espraiada na foto. Só não sei se a última ou se a próxima.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Speakers corner

O oficial Jornal de Angola Online alberga no seu site um estranho espaço a que chama Discursos dos Presidentes. Os dois únicos que teve em trinta anos de independência, Agostinho Neto e Eduardo dos Santos. Ouvidos os primeiros discursos do último, à distância do futuro que é hoje, parecem proferidos de uma espécie de speakers corner, onde os espectadores tendem a parar apenas na ânsia de ouvir algumas excentricidades. E este presidencial cantinho não deixará, certamente, ninguém defraudado. A sorte dos angolanos é que estes discursos-exemplos de desdentada arqueologia ideológica são, apesar de tudo, curtos. Fossem do impedernido camarada presidente cubano e haveria que acrescentar ao site alguns hard drive extra.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Conversas de homens

Faleceu este fim-de-semana, com 81 anos, o escritor português António Alçada Baptista. Devo tê-lo lido, seguramente, em não mais do que vinte páginas. Embora tivesse gravado o título do único livro dele que folheei. «Peregrinação Interior - Reflexões sobre Deus". Ainda hoje, se tivesse de responder a um inquérito de rua, considerá-lo-ia o mais chato de tudo o que já li. Incluindo compêndios técnicos e relatórios de trabalho. Curiosamente, no entanto, decorei-lhe uma frase de uma entrevista que deu a um jornal, julgo que no início dos anos oitenta. «Nunca tive uma conversa de homens». Depois passava a filosofar sobre isto, partindo da experiência de vida de amigas suas, que muito embora considerásse inteligentes, não percebia porque se deixavam tratar mal pelos companheiros e não se separavam deles. Lembro-me de não ter percebido o que é que o cú tinha a ver com as calças. Se calhar, a resposta estaria nas restantes seiscentas e tal páginas do livro de que apenas li menos de vinte.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Hoje há conquilhas, amanhã...

Um dos hábitos em Luanda, de que primeiro se estranha e depois se entranha, é o de nunca se saber qual a marca do próximo after-shave, sabonete, pasta-de-dentes, papel higiénico, leite ou cerveja que iremos comprar no supermercado. Sequer se haverá para a semana peras, bananas, laranjas ou maçãs, starking, fuji, golden, reineta, red delicious ou local. Depois do primeiro trimestre a beber Schweppes e do segundo uma marca com um nome polaco, os últimos tempos trouxeram a novidade de não se beber simplesmente águia tónica por falta de comparência de qualquer marca. O mesmo para os yogurtes, que tanto podem trazer aromas, sabores ou pedaços de fruta como não trazer coisa nenhuma, incluindo a embalagem. Meia dúzia de anos depois do final da guerra civil angolana, o racionamento continua válido. Como já desconfiava, as razões são estas. A Alfândega de Luanda passa por ser a mais desorganizada do mundo. 150 mil contentores, correspondente a dois meses de descargas, permanecem estacionados no interior do porto, para desespero de distribuidores famintos de cifrões e consumidores ansiosos por despachar kwanzas. Daí que me encontre há uma semana a penar na companhia de umas argentinas de que nunca decorarei o nome, dada a ausência das bem mais reconhecíveis e apetecíveis cervejas da Cuca. Pena e nostalgia muito mais pesadas quando se está de perna alçada na esplanada de um dos muitos restaurantes da ilha com vista para a entrada do porto, permanentemente engarrafado de navios prenhes de tudo, a imaginar um porão inundado de loiras descaradamente borbulhentas e húmidas de frescas.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O nosso 1º afinal é 6º

Não acredito nisto. Então um gajo que é mais velho do que eu, não será concerteza mais dinâmico e seguro do que sou, eu que já não fumo, no avião ou noutro sítio qualquer, que não tenho torcicolos e por isso até não me importo de dar o braço a torcer, que, a acreditar nas amostras da meia-maratoan de Lisboa na TV, fico bem mais elegante a correr para as camaras e vêm agora dizer-me que ficou à minha frente como o sexto homem mais elegante de 2008? Estes políticos! Pudera eu substituir os meus Massimo Dutti pelos Armani dele e não haveria demagogia que o safasse.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Vitorino | Queda do Império

Estranhamente, neste meu cosmopolitismo angolano, tem-me dado mais para ouvir música portuguesa durante os joggings matinais. Após recente fuga a Portugal, reforcei o alforje da sonoridade tuga com o grande Vitorino, certamente o mais barato músico português de sempre. O triplo «Tudo» custou-me na FNAC 9,95 euros, menos de vinte cêntimos por cada uma das cinquenta canções. Realidade pobretana quando comparada com o pimbalhão Tony Carreira, que acabo de ouvir no Telejornal da RTP Internacional ter ganho um disco de platina em apenas três dias. Os tugas preferirão «O homem que sou» à «Menina estás à janela», o que me tem deixado preocupado com o regresso. Por mim, creio que nunca alinharia num jogging na marginal com o Tony a miar-me nas orelhas. Para esgoto já bastarão os da baía de Luanda. E até acho que a bóina do Vitorino tem bem mais pinta que o manjerico do Carreira.

domingo, 30 de novembro de 2008

Judinhas

Confesso ser um distraído autor de blogue. Afinal, só agora me apercebi que o Nos Cus de Judas já fez um ano. Quem diria. Não tenho a certeza, mas creio ter batido o record da longevidade de escrita dos blogues por onde já passei. Deve ser do efeito angolano, pois por aqui tudo é muito longilíneo. Quando escrevi isto, a 4 de Novembro de 2007, não imaginava que estaria agora a justificar ter-me esquecido do primeiro aniversário. Ou que somaria entretanto 8.500 visitas ao que aqui escrevo, tudo de pessoas que não conheço pessoalmente, tirando a minha fiel Pilar. Muito menos que teria outros autores a escancararem-me a porta e a encimarem-me pretorianamente o blogue como seguidores. O que tenho considerado ter tanto de honroso quanto de inexplicável. Agora que me lembrei de me ter esquecido do aniversário, o que fazer? Até porque sou pouco dado a festins. Quando muito, como aconteceu no último, poderia fechar o blogue. Mas não desta vez, pelo menos enquanto o gozo ainda andar por aí. Então, talvez que, em época de crise, que não apenas financeira, pudesse juntar os custos da efeméride aos do mais conhecido Anónimo da blogosfera portuguesa, que fez o favor de publicar hoje um antigo texto meu. Bora lá então comemorar com uma cowboyada. Tchim tchim, Judinhas.

sábado, 29 de novembro de 2008

Ampulheta de Natal

O ano passado, por esta altura, lembro-me de já começar a acordar com a visão difusa de uma ampulheta na minha mesa de cabeceira, à qual, ainda antes de lavar os dentes, dava imaginariamente corda, virando-a do avesso para permitir que aquela nova catarata de areia ficasse a marcar-me o resto do dia. Eram vésperas do Natal mais precoce de que me lembro, após três meses em Angola e, talvez por isso, jurava estar a antecipar-se por todo o lado em meu redor, como uma sinfonia. Agora, mesmo com um mais alargado menu de relógios, de pulso, do telemóvel, do laptop, não tenho pressentido o mesmo peso no pêndulo dos dias que vão passando. Se calhar, este ano, não haverá Natal, ou havendo, apenas o angolano. O que não será, verdadeiramente, Natal. O nosso Natal. O dos meus a testemunharem-me ser também deles, o do cocktail de cheiros e sabores que já ameaçam torturar-me, o dos afectos de cuja distância certamente me farão chorar a perda, o de tantas e tantas memórias de que me recuso a despovoar, o das ausências dos que já partiram mas insistem juntar-se-nos à mesa nessa noite, o do calor gélido da ida a pé para assistir à missa-do-galo na Matriz ou, enfim, o das pequenas coisas que fomos inaugurando juntos, como o passeio de véspera pelo frio matinal da Santa Catarina, a admirar a correria consumista das pessoas cujo Natal tem de ser sempre embrulhado, ou o almoço no calor aconchegante do Abadia, como aperitivos da ceia do dia seguinte, todos juntos, como sempre estivemos até agora, mesmo os que já partiram mas insistem em juntar-se-nos nessa noite. E é por isso que, por estes dias, não tenho visto uma ampulheta na minha mesa de cabeceira, mas antes um reles vaso de vidro carregado de areia suja que me vai caindo em torrente na cabeça. Cada vez menos fina. Cada vez mais suja.

O homem dos foguetes

Presidente condiciona data das eleições presidenciais à aprovação da nova Constituição. Mais uma vez, a festa angolana está dependente do homem dos foguetes. Que não resiste a provar ser o detentor do privilégio de acender o cigarro propulsor da máxima que o celebrizou. A de ser o único a fazer a festa, atirar os foguetes e apanhar as canas. Até um dia.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Big Ricco

Depois do petróleo e dos diamantes, Angola prepara-se para iniciar a exploração de vencedores de concursos Big Brother. Crê-se que o país tem um grande futuro à frente.

Governo sombra

Mais importante do que o anúncio dos nomes dos ministros do governo de Angola é o da composição do conselho de administração da SONANGOL. Pois foi agora anunciado. Ei-lo.

domingo, 23 de novembro de 2008

T.A.P.A.

(Para quem não saiba, um automóvel aqui conduzido por estrangeiros, que tenha estacionado num qualquer local, mesmo que ermo, sob o olhar de um indígena, mesmo que a três quilómetros de distância, passa a estar automaticamente sujeito à Tabela Angolana do Parqueamento Assistido.) Naquela noite, mal pagamos o jantar, apercebemo-nos logo do problema. A conta havia sido redonda, sem trocos, pelo que não teríamos a habitual nota de duzentos quanzas para pagar o parking, ainda por cima distante do restaurante. Chegados ao carro, a sofreguidão do nosso guarda, zarolho e com falta de três dentes na montra, logo nos lembrou do erro. Ainda basculhamos nas carteiras, a ver se conseguíamos remediar minimamente a coisa, mas não se conseguiu juntar mais do que sessenta kuanzas, muito abaixo do mínimo de cem kuanzas admitido na Tabela para um estacionamento na zona dos restaurantes da ilha de Luanda. Pôs-se o carro a trabalhar, que é como a Tabela aconselha a fazer-se para acelerar eventuais desacordos de pricing, baixou-se o vidro para pagar e adicionou-se a informação de que na próxima vez poderiam dobrar a factura. Qual quê! O homem perdeu a sofreguidão inicial e pôs-se logo a recitar uma cantilena sobre ter-estado-ali-a-trabalhar-e-não-a-brincar, que-até-nem-tinha-deixado-que-partissem-faróis-e-retrovisores e que por isso não-concordava-com-a-paga-apresentada. Sendo a cantilena tão conhecida quão a Tabela, uma e outra aliás indissociáveis da corrupção mental que lavra na Angola actual, respondeu-se-lhe com a tradução portuguesa do take it or leave it. A partir daí o zarolho pôs um ar de ofendido. Devolveu-nos as notas e avisou-nos de que poderíamos ir, mas que iria partir-nos o vidro retrovisor do jipe. E tão rápido foi a dizer isto quão a atravessar a rua para recolher um calhau do separador central. A veemência da ameaça, tanto a dita quanto a demonstrada, dera-lhe subitamente uma credibilidade que o enviezamento do olhar lhe retirava. O condutor ainda saiu do carro para tentar apaziguar ânimos com a promessa de um retorno próximo, mas o mais que conseguiu foi atrair um outro indígena arrumador, este coxo, naturalmente solidário com o colega. Fiquei a pensar que, mesmo com eventuais dirtúrbios na pontaria, duas pedras sempre teriam maior probabilidade de acertarem no vidro do jipe. E assim ficaram todos a tagarelar, durante os mais pesados cinco minutos que seguramente vivi em Luanda, até que o condutor se decidiu a pedir a intervenção de um segurança de um restaurante defronte, que assistia a tudo à distância embora sem demontsrar muita vontade de se envolver. Enquanto aguardava por uma resolução daquela assembleia-geral entre condutor, arrumadores e segurança, sentado no lugar do morto e a pensar na possibilidade de poder sê-lo no sentido literal do termo, não conseguia deixar de imaginar que só mesmo muito ceguetas e muito pernetas não conseguiriam acertar um calhau numa superfície vidrada de um metro de largura por outro meio de altura. E como já visse o vidro estilhaçado e não descortinasse os porventura maiores estragos da pedra, saí do carro com o telemóvel em punho para ameaçar o segurança de que iria chamar a polícia e protestar junto da gerência do restaurante sobre a falta de capacidade para proteger os seus clientes. Foi remédio santo. O segurança ruminou algo aos outros dois, o zarolho descobriu o sorriso mais desdentado da noite, largou o pedregulho, aceitou reverentemente os sessenta kuanzas e desejou-nos boa viagem. Saímos dali a pensar que acabáramos de ter a nossa mais importante lição sobre a T.A.P.A..

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Predadores

Comecei a ler «Predadores» de Pepetela, escritor angolano que não conhecia, muito embora já detentor de um Prémio Camões. Ao fim das primeiras vinte e sete páginas, já deu para perceber que quase tudo o que se tem escrito sobre Angola, designadamente na blogosfera, é uma perda de tempo. Porque quase tudo o que é Angola, incluindo o que se escreve na blogosfera, está lá. Esperam-me 357 páginas de eufórica gazeta ao blogue.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A lei da gasosa

Uma manhã de sábado e uma tarde de domingo a conduzir e ser parado três vezes e meia pela polícia de trânsito de Luanda será obra. Ou muito empenho na gasosa. Afinal, o que tem de especial um jipe cinzento metalizado por tantos riscos, com uma letra a querer soltar-se da matrícula, o guarda-lamas amassado a atestar tantas entradas gloriosas em rotundas e retrovisores e faróis milagrosamente en su sítio, senão o facto de ser conduzido por dois brancos com aspecto de entradotes e, quem sabe, com a carteira recheada de kuanzas, quiçá até dólares? Curiosa a forma como, nestes casos, se portam os agentes das forças-da-lei. Que é como por aqui chamam aos polícias de trânsito. Apresentam-se aos automobilistas a levar a mão enluvada até à altura da orelha, a gozar uma continência, voz e gestos lentos, a manear as ancas à John Wayne, coldre ocupado pelo livro das multas e olhar tão vago quão displicente para o exterior do automóvel, como quem procura um primeiro substantivo para iniciar o texto do relatório que precederá a multa, ou a ameaça dela por bem mais lucrativa. Os documentos da viatura, nem sei se por favor. Chatice. Não os temos, algum colega lá da empresa foi autuado antes e ter-se-á esquecido de levantar os documentos logo após a liquidação da multa. Porra e então agora? Eh pá, calma lá, se o gajo se está a atirar à gasosa vai ter de suar por ela, afinal hoje até é sábado, temos tempo, vamos lá dar-lhe uma banhada. Ah ganda tuga! Resultou. Afinal, um branco com aspecto de já entradote, com uma carrada de papéis na mão, a brami-los à vez após cada nova pergunta, acabaria por cansar o agente. E certamente a fazê-lo pensar que não faltariam outros brancos com aspecto de já entradotes a quem bem poderia depenar uma gasosa sem ser obrigado a tanto esforço para lhes tentar perceber o linguajar. À segunda paragem, durante a noite, nova lenga-lenga vitoriosa sobre uma-multa-que-já-está-paga-mas-os-documentos-só-os–podemos-levantar-na-próxima-segunda-feira, com a novidade de agora haver um farol que não acende. Ai sim? Ora diga lá qual deles? Bora lá ver então! O quê? Ai há bocado estava apagado? No domingo de manhã, certamente que após a promoção por todas as esquadras de Luanda do concurso Quem Será Capaz De Cravar Uma Gasosa Aos Dois Tugas Com Aspecto De Já Entradotes Que Andam Para Aí A Pregar Uma Lenga-Lenga Sobre Uma-Multa-Que-Já-Está-Paga-Mas-Os-Documentos-Só-Os-Podemos-Levantar-Na-Próxima-Segunda-Feira, nova paragem. Só que este, mesmo que avisado do concurso, não parecia ter tido a sapiência de ler as regras. Resultado, mais um patinho fardado. Mas logo uns quilómetros a seguir à terceira paragem, surge a meia. Só que já enebriados pela inimputabilidade ante a polícia de trânsito angolana, que calça luvinhas brancas roubadas dos cartoons da Disney, nem parámos, deixando o homenzinho de braço no ar, a bufar no apito com a sofreguidão de um asmático e finalmente a gesticular no nosso retrovisor, cada vez mais pequeno, pequenino, tão insignificante quanto a natural propensão para afundar mágoas na gasosa.

domingo, 16 de novembro de 2008

Carrinhos de choque

Desde o início da minha estadia aqui que me tenho recusado a conduzir. Por assumidamente não conseguir fazê-lo neste carrocel de carrinhos de choque que é o trânsito de Luanda. Com toda a certeza, o único local do mundo onde é proibido que os automóveis circulem sem um único risco na pintura, ou um mínimo de três amolgadelas na carroçaria, ou a falha de pelo menos um dos espelhos retrovisores, ou qualquer uma das duas chapas da matrícula, onde faltam quase sempre ou um número ou uma letra, ou o pára-brisas estilhaçado em pelo menos dez por cento da superfície, ou uma das janelas tapada por um plástico preto, ou um dos pára-choques fracturado, embora colado nas pontas por uma fita-adesiva que tem uma côr diferente da da carroçaria, ou qualquer um dos tampões das jantes, quando existam tampões, ou quando existam jantes, ou qualquer uma das luzes alaranjadas que sinalizam as travagens, quando não são as brancas da marcha-atrás, ou as dos piscas, ou quando sinalizam mudanças de direcção, quando há alguma direcção, ou quando simplesmente existam luzes, de dia ou de noite, ou desviar das motos que apitam no meio do caos, como se anunciassem a chegada de uma avalanche, quando não circulam em sentido contrário, ou quando galgam dos passeios, ou simplesmente do nada, ou estancar perante a chegada monárquica das carrinhas dos candongueiros, antênticos Hell Angels do trâfego de Angola, por onde há sempre um trilho a seguir, por isso o seguem, mesmo que por fora da estrada, ou talvez por isso mesmo, porque ainda que se diga que não encartados, seriam vencedores de qualquer rally urbano no mundo, ou, finalmente, conduzir com o braço esquerdo de fora, a reluzir o relógio ou a pulseira dourada comprados meia hora antes nos semáforos do largo do Kinaxixi, onde todos os automobilistas de Luanda se costumam reunir, geralmente ao fim da tarde, para se presentearem uns aos outros com festivos toques de buzina misturadas com carícias de pára-choques, quando não de chapas batidas, enquanto compram maços de cigarros nas tabacarias ambulantes, ou o pão fresco que ficou desde a manhã a suar nos sacos de plástico dos vendedores de rua, numa confraternização a que eu assisto, obrigado, tal como a não poder conduzir nesta Luanda.

Seguidores

Reparei recentemente que tinha dois «Followers» à porta do blogue. Como sou um old fashion nestas coisas, imaginei logo que fossem uma qualquer espécie de convite para confraternizar na internet, tipo Hi5’s e quejandos, a que tenho por hábito fulminar logo com o Delete. Mesmo que ainda continue a pensar, como o tenho feito nas duas últimas semanas, que se calhar deveria antes ter reclamado aquele prémio de quinhentas mil libras esterlinas que terei ganho por não-sei-o-quê-do-meu-e-mail. Talvez por isso, desta vez não saquei o Delete do coldre e decidi-me antes a espreitar pelo ralo de vidro do manual de instruções d'«O Que Fazer Quando Há Dois Followers À Porta Do Blogue». E quem lá vejo? Dois compinchas da blogosfera daqui, o F. da Casa de Luanda e a m.Jo. do Seguindo Adiante. Abri-lhes logo a porta. Pois sejam bem-vindos.

sábado, 15 de novembro de 2008

TORANJA - «Laços»

A monotonia dos meus joggings matinais, no cenário igualmente monótono da calçada perigosamente esburacada da marginal, dos arbustos imundos de fezes e de gente que se habituou a pernoitar num relento de garrafas vazias, das pinceladas de urina que marcam bancos e todo o outro mobiliário que há muito deixou de ser urbano, do fétido colorido dos vários esgotos que escorrem para o mar e transformam as águas da baía de Luanda no mais pestilento arco-iris que conheço, é apenas cortada pela abstração concedida pelas músicas do MP3 que insiste também em madrugar e acompanhar-me nestas caminhadas. Como esta, dos Toranja. Já agora, um nome estúpido para a mais brilhantemente efémera banda portuguesa de sempre.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

sábado, 8 de novembro de 2008

Esquisitices

Desde o início da minha estadia neste canto do mundo que à sacramental pergunta «E então ... Angola?» habituei-me a tornar proverbial a resposta «Pois ... é um sítio bem esquisito!» E basta olhar-se para as notícias dos jornais. No mesmo dia, no mesmo jornal, há um título que diz, referindo uma fonte da ONU, que «Há tropas angolanas a combater os rebeldes congoleses» e uma outra que entretanto assegura que o Governo condena uso da força para resolução da crise na RDC. Esquisito não é? Menos esquisito, apesar de tudo, de que uma outra, ainda no mesmo jornal, referindo-se ao julgamento conhecido como «Angolagate», o tal que não tem um único angolano no banco dos réus. Os milhões de Eduardo dos Santos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Cervantes 4 - Camões 2

Quatrocentos professores cubanos vão para Angola. Surpreendentemente, enquanto em S. Salvador Sócrates abria as portas do atrelado, colocava o microfone tapado com um lenço branco ao pescoço e inaugurava o primeiro lanço da noite com um promoção de um jogo de edredons na compra de um Magalhães, a vizinha Cuba preferia encher um barco de professores impacientes por pôr os candongueiros de Luanda a insultar toda a gente na língua de Cervantes. E, no jogo da influência linguística que nos fartamos de considerar decisiva para reganhar Angola, Cuba até bate Portugal por 4 a 2. Mil.

sábado, 1 de novembro de 2008

Anonimato da História

De vez em quando, por entre o caldo sufocante da rotina acelerada que é Luanda, irrompe a frescura de uma história surpreendente. Como a contada por aquele taxista, ex-electricista, de cuja cartola biográfica faz sair um personagem que parece ter fugido de um romance de Garcia Marquez. Sem demonstrar qualquer cansaço pela travessia do Atlântico e com a fulminante metralha de uma memória polvilhada de pormenores, conta ele que, durante a guerra civil angolana, teria sido raptado pela UNITA. Cujo intuito seria o de evitar a sua permanente requisição pelo MPLA para remendar os apagões que precediam os ataques dos rebeldes aos postos governamentais. O rapto duraria 15 anos. Mas, aparentemente, não lhe terá criado grande infelicidade, pois chegaria a casar-se com uma das filhas de Sabimbi. Assegura que, no entanto, teria sido capaz de abandonar o séquito do doutor ainda antes de lhe ser declarado o óbito. E enquanto continua a carregar no pedal e a empurrar a manete da caixa de velocidades como quem vai acelerando a memória de um tempo que ficou para trás, dá o testemunho de uma página do livro da História que nunca viria a ser escrita. Como a do atraso da chegada ao Andulo das bombas químicas que a UNITA teria adquirido em desespero na Ucrânia e que, se chegadas a tempo, evitariam que o MPLA vencesse a guerra. «Pelo menos tão cedo», recorda quem sabe. Imagino quantas outras folhas vividas de romances anónimos não andarão a esvoaçar por esta Angola que continua a cheirar a petróleo e diamantes.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Virtudes

Curiosamente, os bancos portugueses que recentemente premiaram o know-how dos seus parceiros angolanos com 49,9% no seu capital social, são os mesmos que agora surgem associados às transacções do Angolagate. E ainda há quem duvide que a poupança seja uma virtude.

domingo, 26 de outubro de 2008

Aeroporto Presidencial

Consta que em 2010 estará pronto um aeroporto em Luanda. Para já e como sempre nestas coisas das inaugurações, há quem tente a habitual proeza de se pôr a adivinhar-lhe o nome e o chame «Novo». Outros, igualmente pródigos em viajar nas nuvens, referem-se-lhe também como «Internacional». Confesso a minha estranheza perante o léxico utilizado. A menos que, como já me tenho interrogado com os meus botões, alguém queira assumir que já existe um aeroporto, eventualmente internacional, em Luanda. Curiosamente, os meus botões têm-se mostrado impenitentes na resposta. «Não passaria pela cabeça de ninguém», balbuciam eles pelos buracos por onde passam as linhas de coser e que eles usam como olhos mas às vezes também como bocas, «que se considerásse um aeroporto a actual pista onde atracam os aviões que chegam a Luanda». E não deixarão de ter alguma razão quando se referem ao actual 4 de Fevereiro. Daí as expectativas que o aeroporto esteja já a criar entre os estrangeiros que residem actualmente em Angola. Restará agora saber o preço dos bilhetes dos aviões nos vôos que sairão do «terminal para a presidência».

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Geração jindungo

Dezenas de crianças num quarto, fechado, com uma fogueira onde era queimado Jindungo (malagueta) era um dos métodos usados para libertar do "mal" as "crianças feiticeiras" que foram resgatadas esta quinta-feira pela Polícia Nacional na capital angolana. Ao ler esta notícia, revoltante sobretudo pela ignorante selvajaria travestida de religião que decepa crianças, lembrei-me do que me dissera certa vez uma angolana muito convicta dos valores que individualizariam o seu país no contexto regional. Que o caos dos vendedores de rua que agora ocupam o centro da capital, tal como os hábitos de deitar lixo para o chão, cozinhar às portas de casa ou passear descalços pelas ruas, se devem à invasão de Luanda pelas populações vizinhas do Congo mal findou a colonização portuguesa. Não sei se isto terá sido mesmo assim mas, para alguns estratos da sociedade angolana, aparentemente, o valor do jindungo ainda ameaçará o do petróleo.

Blue Eyes

A Júlia ML, detentora dos olhos mais belos e familiares da blogosfera que conheço, distinguiu o NOS CUS DE JUDAS com um prémio cujo significado não me interessa por aí além, a não ser o próprio significado que a Júlia ML implicitamente lhe deu, i.e., ela lê-me! E isso, sim, interessa-me, desde logo porque o blogue dela é tão bonito como os olhos com que ela escreve o que lá se lê. Sendo eu avesso a confraternizações, não vou respeitar minimamente as regras do tal prémio. Fico-me, então, por um «Obrigado, Blue Eyes».

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

PEDRO ABRUNHOSA / ILUMINA-ME

Uns consideram o português, de Portugal, um língua difícil para se ouvir. Talvez porque, como dirão outros, comamos as sílabas. Uns e outros apontam assim o so-le-trar do português, de Portugal, como o maior obstáculo à difusão da nossa música. E dão o exemplo de um outro português, o do Brasil, que é, desde há muito, um sucesso à escala planetária. Por mim, desde este meu auditório privativo que são os joggings corridos a MP3 de música portuguesa na marginal da baía de Luanda, tenho descoberto que tudo isso afinal não passa de mais um logro de viciados desde o berço em negar o génio do que é português. Se não, ouça-se este Pedro Abrunhosa. Cuja luz consegue transformar o fétido da baía luandense numa ilusão da maresia que o mesmo Atlântico recupera tantos milhares de quilómetros a norte.

domingo, 19 de outubro de 2008

Charada do costume

Uma vez, no Lobito, depois de um jantar fora, chegamos ao hotel onde estávamos hospedados e parámos o carro junto de uma tabuleta que informava da proibição do estacionamento defronte, «excepto clientes do hotel». Tão óbvia me parecia a situação que saí displicentemente do lugar do morto para afastar os quatro pinos de plástico pintados às riscas vermelhas e brancas que guardavam os lugares. E não é que me sai disparado da porta do hotel um velho paquete vestido com uma jaqueta de figurante de filme épico aos berros de «Alto aí»?! Recordo o colarinho mais estrilhaçado que já vi na vida, com milhentos rios de fios a escorrerem-lhe para o peito da camisa borolenta que já há muito deixara de ser branca, uma catarata de riscos vermelhos saídos da gravata muito larga que fazia um chumaço de nódoas no lugar do que pretenderia ser um nó e que acabava num rabo de bacalhau que soçobrava muito antes de chegar ao umbigo e a encimar a figura um chapéu azul e vermelho roído nas pontas que teriam sido debroadas a dourado, num quadro cujas pinceladas lhe davam um ar de almirante que há muito perdera as graças do mar. «Quem lhe deu autorização para mexer nisso?» Com o maior dos desassombros informei-o que estávamos hospedados no hotel, aquele mesmo hotel. Qual quê!? A informação parecia não ter esmorecido minimamente a fúria fardada do homem, pelo que continuou a entoá-la numa crescente estridência de gritos e gestos. «Mas você não devia ter mexido nessas coisas, pois esse é o meu trabalho!» Após mais alguns esforços, inglórios, para criar alguma luz naquela escuridão, concluí que, não sendo um problema de língua, poderia muito bem sê-lo de linguagem e decidi então deixar o caminho aberto para a entrada naquela liça cada vez mais surrealista do meu colega, angolano, condutor do automóvel. Sem qualquer sucesso. O homem continuou a repetir até à exaustão o nonsense do refrão da sua exclusividade de guardião dos mecos, pelo que daí a minutos o carro já estava estacionado a cinquenta metros daquele local. Ainda perguntei aos funcionários da recepção, que presenciaram o incidente na rua, se havia por ali um livro de reclamações, mas olharam-me como se fosse chinês, não sei se o livro ou se a reclamação. Durante a posterior conversa no bar com o grupo de colegas que me acompanhavam, interroguei-me sobre o sentido, sociológico que fosse, do sucedido. Resquícios de algum tipo de funcionalismo? Excesso de zelo militante? Falta de formação no serviço ao cliente? Mera senilidade? Seria um angolano a decidir a charada. Uma gasosa e tudo teria ficado logo resolvido.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Pistolas de água

As anedotas continuam no julgamento do «Angolagate» em Paris. Segundo os jornais, Pierre Falcone terá argumentado que, afinal, foram «razões humanitárias» que o terão levado, mais o sócio, a guardar metade dos quase 800 milhões de dólares envolvidos no negócio da venda de armas ao regime angolano durante a guerra civil. E quem imaginava que os fornecimentos que caíam de pára-quedas no território seriam de material bélico está rotundamente enganado. Eram, afinal, de «água». Vai-se a ver e ainda se concluirá que tudo não terá passado de um simples engano de notas de encomenda.

Antípodas

Enquanto o mundo outrora conhecido por civilizado vai lambendo as feridas deixadas a nu pela selvajaria do sub-prime, Angola resiste e continua a imaginar-se a viver nos antípodas.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Coro do Judas

Uma opinião inserta num poste aqui publicado há uma semana atrás foi transcrita na blogosfera internacional. A que se diz empenhada em amplificar o que os «other media» tenderão a não altifalar. Como será o caso, refere Clara Onofre, do Angolagate. Num primeiro momento, fiquei algo receoso com os efeitos destas luzes da ribalta, principalmente com eventuais pilhas vigilantes no meu contador de visitas. Num segundo momento, olhei para os sponsors do Global Voices como quem se alivia na protecção tutorial. Desde a Harvard School, até à Fundação MacArthur e à Reuters, todos se esforçam globalmente por me assegurar de que a minha voz será ouvida. Como dizer-lhes, entretanto, que não sei cantar?

domingo, 12 de outubro de 2008

Diabinho

A força da crise na finança internacional é cada vez mais despudorada, com bancos, seguradoras e inclusivè países a declararem falência. Tal como no passado havia especialistas a explicarem a bonomia das políticas do crédito fácil e barato para todos, também há agora especialistas que explicam que a salvação do mundo está afinal na poupança. Vai-se a ver e serão os mesmos especialistas. Por mim, tudo isto fez-me descobrir que tenho um diabinho a habitar na cabeça. E que costuma passear-se algures entre a minha cada vez mais calva fronte e as traseiras da orelha esquerda. Um destes dias meteu-se à fala comigo, o estafermo. Para me dizer que, depois disto tudo, bem que queria saber como é que a nossa vizinha cabeleireira, que costuma passear-se num espada, que todas as segundas-feiras enche de amigas, igualmente suequíssimas, para comprarem pizzas congeladas no supermercado, irá continuar a pagar a renda do leasing do seu BMW.

Olho por olho, dente por dente

Consta que, esta semana, em Lisboa, alguns cidadãos angolanos em trânsito foram impedidos de entrar no País porque o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras terá desconfiado da sua capacidade de sobrevivência em Portugal. Logo de seguida, num sinal da fulminância com que a diplomacia angolana costuma actuar, foi suspensa a emissão de qualquer tipo de vistos a cidadãos portugueses com viagens marcadas para Angola. No Consulado do Porto, todos os processos, que obrigatoriamente incluíam cópias de cartões de crédito, foram recusados. Uma folha A4 colocada de urgência na porta da recepção dos pedidos passa a exigir que, a partir de agora, os candidatos a visto tenham de apresentar prova da compra de divisas, à razão de 200 USD por dia de estadia prevista em Angola. Depois da cena das cartas de condução, a dos cartões de crédito. É a imagem de marca da diplomacia angolana. Olho por olho, dente por dente.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Morais, vintages & LBV's

Logo após a divulgação da lista dos membros do novo governo angolano, fartei-me de perscrutar no Google o nome de José Pedro Morais, consagrado ministro das Finanças do elenco cessante e não reconduzido no cargo. Que lhe teria acontecido? Afinal, a circunspecta imprensa angolana limitava-se a reportar os nomes e, quando muito, os curriculuns dos novos eleitos do presidente Eduardo dos Santos e parecia esquecer os anteriores estafetas. Encontrei, agora, a justificação para a substituição de José Pedro, que passa a presidente da futura Bolsa de Valores de Luanda. Foi numa entrevista ao seu substituto, Severim, até aqui vice-ministro das Finanças. E, também, seu sobrinho. Fico a aguardar que o «génio» dos vintages angolanos se possa replicar nos LBV's.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Angolagate

«O julgamento do "Angolagate", ligado ao caso de presumível tráfico de armas para Angola nos anos 90, começa na segunda-feira num tribunal de Paris, envolvendo dezenas de políticos e empresários franceses.» Não haver neste processo um único arguido angolano não deixa de ser curioso. Que todo o material de guerra, tanques, navios, helicópteros, obuzes, minas, tivesse entrado em Angola sem que ninguém o houvesse solicitado faz pensar que, afinal, poderá ter havido uma ... invasão estrangeira?!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Poema à Mãe

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha – queres ouvir-me? –
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas – tu sabes – a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade, «Os Amantes sem Dinheiro»

domingo, 28 de setembro de 2008

Congeminações de lounge

Aeroportos. Durante muitos anos não conheci nenhum. Nunca precisei. A morar no norte de Portugal, junto ao mar, que interesse maior haveria para procurar o que quer que fosse fora dessas latitudes que me obrigasse a atravessar a fronteira? Tirando os chocolates de Tuy, o marisco de Bayona, o bacalhau de Santa Tecla, os hipers de Vigo ou as sereias de Sanxenxo e Portonovo? De repente, a coisa mudou. Não o Norte Litoral ou a Galiza, claro, apenas o sentido da minha vida. Carreira, quero dizer. Se é que carreira alguma vez seja vida. E se é que esta, também, tenha, ou faça, algum sentido. Afinal, agora, visito um aeroporto, lá fora, pelo menos, cada três meses. Se não mais. Em Angola, mais. Porque, por aqui, ninguém faz mil quilómetros de carro. Seguidos. Nem haverá gasolineira para abastecer tanta estrada. Mesmo que se conduza num dos mais renomados reinos do petróleo. É só ver as filas, às vezes de centenas de metros, aos domingos de manhã, junto à estação de abastecimento da Sonangol, na marginal de Luanda. Fora aos outros dias da semana. Para se ir da capital a Benguela, por exemplo, há que usar o avião. A menos que se queira perder quase meio dia na viagem. Como já fiz. Arriscando a vida numa curva apertada durante a subida de um monte, porque o condutor se assustou com um autocarro que lhe surgiu repentinamente na frente. «Repentinamente», justificava-se ele, mas eu bem que o senti a carregar no pedal da embraiagem, em vez do dos travões, quando o autocarro nos surgiu no final, da curva e da subida. Que foi o que nos valeu. A subida. Tivesse sido numa descida e o atravessar da estrada com o slide tipo rocket da pedalada embraiagem bem que seria o nosso fim. É o melhor que têm os aeroportos. Enquanto se espera, no privilégio do lounge com cheiro a croquete e a sovaco de turista, até que se tem tempo para congeminar sobre a morte. Mesmo se num acidente de carro.

sábado, 27 de setembro de 2008

Dulce Pontes - Fado Português

Ouvir isto por ouvidos de tuga, em África, assaltado das rotinas da distância por um longínquo nevoeiro de frames que disparam impiedosamente lembranças de cheiros, sabores, sussurros, prazeres, sensações mal amanhadas e outros signos igualmente mal decifrados, equivale a ser apanhado pela silenciosa explosão de um vulcão, que se diz ser galináceo e cuja lava se espalha deliciosamente pela epiderme. E que dura, precisamente, quatro minutos e vinte e dois segundos, num magma onde a memória dos sentidos se confunde com os sentidos da memória. Há quem chame a isto saudade. Seja. E enquanto desvio os olhos para o local onde arrumo a mala-de-cartão, apetece-me dizer, como se um magala a sonhar com rabanadas. «Adeus e até ao meu regresso.»

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

E já vão três

Em plena crise na banca internacional, com os gigantes norte-americanos a caírem como búfalos em dia de inauguração do caminho-de-ferro, Angola dá mostras da pujante saúde do seu sistema financeiro. Em apenas uma semana, os accionistas maioritários de mais dois bancos decidiram reconhecer o esforço participativo dos seus parceiros locais e convidaram-nos para reforçarem para 49,9% a sua posição. Depois do líder BFA, chegou agora a vez do Banco Totta de Angola e do Millennium. Intervenientes na operação, para além dos omnipresentes Sonangol e Isabel dos Santos, mais dois outros conhecidos empresários, já accionistas em bancos locais. Sinal de que a pirâmide da distribuição da riqueza que floresce por estas bandas se arrisca a tombar ante a magreza do sopé. Dúvidas sobre o axioma da economia angolana? That’s politics, stupid!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Génios em garrafas de vintage

Por estes dias, tenho recordado o que me disseram uma vez, um pouco antes da minha partida à descoberta de Angola. Que não deveria esperar encontrar por aqui muita «gente de qualidade», mas que, ainda assim, sempre haveria alguns «génios». Tirando o habitual exagero das sumarizações, ainda para mais vindas de um yuppie angolano que decidiu arriscar a carreira no regresso à pátria de que aparentemente não tem em grande consideração, julgo ter percebido o sentido do aviso. O de que o mais difícil desafio, por estes lados, é o de não se deixar levar pelo status reinante e prescindir de certos standards de actuação. Talvez por isso o primeiro génio de Angola possa ser José Pedro Morais, ministro das Finanças revelação e personalidade do ano em diversas apreciações internacionais. Apreciações que ele próprio não hesita em fazer em defesa, por exemplo, da lusitanidade. E talvez que o segundo génio possa ser um sul-africano, também ministro das Finanças e detentor de nome luso, Trevor Manuel, por sinal o mais antigo detentor deste cargo no mundo inteiro. Na manhã em que anunciou resignar, junto com outros dez ministros do governo do ex-presidente Mbeki, o rand desvalorizou 30 cêntimos contra o dólar e a Bolsa de Joanesburgo ameaçou cair a pique. Manuel teve então de interromper uma reunião com o FMI em Nova Iorque para esclarecer que a resignação era deste mas não do próximo governo para que tudo voltasse outra vez aos trilhos. Quem sabe se, em África, os génios não vivem, afinal, em garrafas de Porto vintage?

sábado, 20 de setembro de 2008

Globalização natural?

Depois de ter passado uns dias isolado nos arredores de Joanesburgo, num lodge que pretende vender packages de horas de ensinamentos em ambiente bucólico, na vizinhança de um parque público que oferece a quem por lá anda longos espaços relvados, canteiros de flores cirurgicamente escolhidas desenhados a picotado no terreno cheio de árvores e sombras, um lago que se espraia entre pequenos diques de rochas e até uma pequena montanha que esguicha uma catarata duvidosamente natural, tudo vigiado por cisnes, patos, pássaros e patrulhas de polícias que tentam evitar o surto de violações que ocorrem naquele espaço, enfiado numa sala com outras pessoas a assistir a um curso sobre liderança de equipas, em que Alec Ferguson, o coach do Tiger Woods e o treinador da selecção sul-africana campeã de mundo de rugby eram a santíssima trindade do grupo de monitores, eles próprios a não desprezarem o sonho de chegarem a gurus de alguma coisa que lhes fizesse luzir o sorriso na capa de um best-seller exibido nas pancartas dos supermercados, passeei-me uma tarde num shopping em Eastgate, que será três a quatro vezes maior que o português Colombo e acabei a interrogar-me se a globalização não estará a matar as salutares diferenças que sempre houve entre pessoas, povos e culturas e se o que consideramos evolução natural não estará afinal a transformar-nos em rebanhos de consumidores famintos que pastam nos mesmos prados de cartão de crédito e ar condicionado das mesmas lojas que a Zara, a Nike, o MacDonalds ou o Woolworths mantêm abertas para que possamos ter a sensação de que somos livres de lá sair.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Máxima velha e relha

Dizia-se à boca cheia em alguns cantos que muita coisa iria mudar depois das eleições. Designadamente que seria o fim da mobilidade dos candongueiros no centro de Luanda, que o governo fixaria o dolar a valer bem menos que 70 kwanzas, que diversos musseques desapareceriam do mapa de um dia para o outro, que centenas de milhares das pessoas que deambulam na capital acordariam um dia bem no interior do país e que seria enfim liberalizado o mercado dos licenciamentos, desde a construção de hoteis e shoppings até à exploração mineira. Mais importante que tudo, passaria a privilegiar-se os investimentos na agricultura, facto extraordinário num país que tem tanto de deficitário de produtos e know-how nos sectores da produção alimentar quanto de superavitário em terrenos férteis não cultivados e na propaganda a slogans do tipo «em solo angolano estrangeiro não mexe» com que as autoridades vêm preferindo manter o capim a saciar a fome de tantos. Mas, afinal, o primeiro acto simbólico da anunciada mudança acabou por ser a compra de 49,9% do Banco de Fomento de Angola, líder do mercado e filial do português BPI. Nova postura do regime? Nah, trata-se da mesma velha postura parasitária de sempre. A de sugar o tutano dos investimentos rentáveis e cruciais no desenvolvimento da economia angolana e sem que os accionistas locais acrescentem verdadeiramente alguma coisa, para lá da velada ameaça da Sonangol em retirar depósitos e secar tesourarias aos renegados. Sobra então a velha e relha máxima de que não é Angola quem precisa do mundo mas, sim, este daquela.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Genocídio à hora do lanche

Os milhares de civis em fuga, na sua maioria idosos, doentes, mulheres e crianças, haviam-se refugiado naquela cidade por saberem que eles estavam lá estacionados e lhes dariam protecção e segurança. Que é precisamente o objectivo número um dos capacetes azuis das forças de manutenção de paz da Organização das Nações Unidas. No entanto, depois de um cerco cerrado de vários dias, o exército invasor exigia que o batalhão da ONU abandonásse a cidade para mais facilmente poderem desarmar o que consideravam elementos da guerrilha local infiltrados na população civil. Reforçaram a negociação dessa retirada contra a entrega de alguns soldados tomados como reféns. E os capacetes azuis fizeram-no. Concedendo aos invasores o espaço, o tempo e a liberdade para a matança de todos os homens com idades entre os 12 e os 77 anos, num total de sete mil e quinhentas vítimas. Este genocídio não ocorreu no Chade, no Ruanda, na Somália, no Darfur ou noutro qualquer lugar da África suspeita do costume, mas sim na mui europeia Bósnia e sob os olhares, televisivos de todas as refeições, da ainda mais civilizada Europa Comunitária. Hoje, pelos vistos, ilibámo-nos. O que poderá querer dizer que, no presente, tudo poderia voltar a ocorrer da mesma forma e, se calhar, continuaríamos todos a lanchar em frente ao televisor.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Regresso à normalidade

Depois da intensidade dos últimos dias, o regresso à normalidade. Um amigo meu, que conduzia sozinho o seu carro em Luanda, foi mandado parar pela polícia após ter-se internado numa rua supostamente de sentido proibido. O facto da tabuleta com a dita proibição se encontrar afinal cravada no chão do passeio, cerca de vinte centímetros acima do solo, por detrás de outros automóveis estacionados na berma e, portanto, sem ser visível a qualquer condutor, foi considerado um pormenor perfeitamente dispiciendo. Como contra-argumentar a irracionalidade de ver assim servida uma multa acaba inevitavelmente por ser o intercurso para o regateio do montante da gasosa-salvadora-de-outros-gastos-e-canseiras, o condutor decidiu-se por copiar o que se lembrava de ter já ouvido relatar a amigos e conhecidos envolvidos em semelhantes sarilhos e estendeu uma nota ao polícia. Erro crasso. A dura reprimenda da autoridade foi imediata. Ficou então este meu amigo a saber, mais os meus, concerteza que os outros dele e assim como quaisquer eventuais interessados, que a gasosa deve, preferentemente, ser servida dentro das folhas do livrete do veículo. Por mim, até concordo que não se deva ferir susceptibilidades alheias.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Afinal nem tudo será assim tão feio

Entre os títulos «Angola: eleições estão a ser "um verdadeiro desastre"», estrondosamente difundido por todos os noticiários durante o escrutínio eleitoral e «Missão europeia considera eleições em Angola como "transparentes"», timidamente divulgado após a contagem das urnas, parece ir a diferença do famoso «Prognósticos? Só depois do jogo!»

domingo, 7 de setembro de 2008

Memória de uma frase batida

Confesso não ter muita motivação para fazer análise sobre as eleições em Angola, estas, as próximas e as que se lhes vierem, se vierem, a seguir. Por correr o risco de não acertar com as pinceladas certas num quadro que se parece com os de Noronha da Costa. Também por ter noção de transportar no olhar, como sobre tudo o que vejo por aqui, a inevitável sombra de um certo eurocentrismo e, assim, recear não poder cumprir, como me esforço sempre por fazer, a recomendação de Mizoguchi. «Deve lavar-se os olhos entre cada olhar». Daí preferir continuar a fixar-me na paisagem emotiva do filme do meu dia-a-dia em Angola e na relação com os seus principais actores. As pessoas. Quanto às eleições angolanas, como de resto ao déjà-vu da vida política local, fazem-me sempre vir à memória uma frase batida. «O caminho faz-se caminhando». Acrescentando eu ao poema de António Machado. E ao de cada um no seu próprio ritmo.

sábado, 6 de setembro de 2008

Charada do funcionalismo

Em quase tudo o que é local produtor de um serviço ou acto administrativo com o trade mark de Angola cresce o bichinho do funcionalismo. Que poderá ser definido como a tentativa de apropriação da realidade por parte dos detentores de uma determinada função pública. Trata-se de uma charada em que os próprios autores se mostram habitualmente disponíveis para esmiuçarem a racionalidade das barreiras do que eles próprios criaram, para mais facilmente depois as ultrapassarem, não raras vezes, a saltos de gasosa. O mais inocente dossier entregue numa qualquer repartição angolana, que inclua a habitual e interminável bateria de atestados, certidões, requerimentos, comprovativos, quer nas versões originais quer nas de cópias certificadas, só será finalmente aceite se lá estiverem toooodos os papéis. Se faltar um qualquer documento, haja um carimbo fora do lugar, veja-se um selo com a côr errada, note-se uma assinatura suspeita, apanhe-se um erro ortográfico, vislumbre-se uma diferente grafia qualquer, conclua-se por uma mancha invisível, volta tudo para trás. A lógica é que um processo completo a 99% continua a ser um processo incompleto. Num insofismável diktat que os guardiões do edifício burocrático angolano, aliás sustentado nos alicerces da administração que os portugueses aqui deixaram há quarenta anos atrás, não ousam sequer sonhar que se possa pôr em causa. Lembro-me da gravidade do erro cometido no meu primeiro pedido de visto para entrar em Angola. Teve como destinatário o Consulado Geral do Porto da República de Angola quando deveria ter sido dirigido ao Consulado Geral da República de Angola no Porto. Diferenças? Devolução imediata de todo o dossier de cerca de duas dezenas de documentos e mais três semanas de espera.