segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Fim

Tal como pré-enunciado este blogue acaba aqui. Agradeço aos meus Seguidores terem-no sido. Voltarei, seguramente, à carga, num outro qualquer lugar. Copio o sábio «deve-se lavar os olhos entre cada olhar». Até lá.

A despedida

Foto Roberto Ivens
No dia em que me despedi de Luanda dei uma volta a pé pela marginal da baía, ex-libris da cidade mais cara do mundo e, durante grande parte da minha estadia por aqui, também o local donde observei Angola. Recordei os joggings musicados às seis da matina por entre o pó, os buracos no pavimento, o lixo que forra os passeios, os maus cheiros, os slalons entre os cada vez mais globais sem-abrigo a dormitarem sob árvores rasteiras regadas a urina e adubadas pelos outros detritos, as velhas palmeiras secas e desmembradas que aguardam o render da jovem guarda que há-de chegar do Dubai, os bancos de madeira há muito arrancados do chão, a intoxicação do ar provocada pela correria dos esgotos que sprintam pelos interstícios da cidade até desaguarem na meta da foz, os pescadores que alam cardumes de peixes atordoados em linhas de anzóis nús, as estranhas algas de cucas, coca-colas, blues, sumos e tudo o que boia embalado à superfície daquela água suja e lamacenta, o martelar das evasões e das recordações do que deixei para trás e que se me surgiam sem pré-aviso a cada desfalecimento, as motas que atropelam gente nos passeios quando a avenida está engarrafada, os malucos que se passerelam descalços em gabardines coloridas de nódoas e que ali teimam em desfilar-se em poses rotas e penteados sioux, as ruidosas zaragatas que de vez em quando entrecortam o zumbido mole e quente dos dias que por aqui correm cansados, as constantes operações stop da polícia sequiosa de gasosa, os deficientes que se dividem entre a marginal e o Kinaxixi a esmolarem os membros perdidos, diminuídos, aumentados, oblíquos, a lenga-lenga dos engraxadores montados nas suas bancas de cartão de tintas deslavadas, pincéis de esponja e águas turvas, as lembranças do primeiro Natal quase Páscoa que passei aqui isolado dos meus e que seria compensado pelo podium privado da também minha primeira S. Silvestre, a sede côr de salmão do Banco Nacional de Angola que fugiu do Terreiro do Paço para ser o edifício mais bonito deste país, as dos ministérios ocupados pelos eternamente bem sucedidos empresários-parceiros locais, o Hotel Presidente que do alto dos seus vinte e seis andares muitas vezes sem elevador consegue cobrar diárias de trezentos dólares americanos, o porto e a alfândega mais lentos e desorganizados mas com os serviços mais caros do mundo, o permanente êxtase de contemplar mães-vendedoras de todas as idades a transportarem os filhos em lençóis dobrados em apêndice nas costas, as luzidias catorzinhas que anoitecem nos passeios nos intervalos de boleias com trilhos marcados pelo estrelato efémero, as milhares de cadeiras de plástico encostadas às paredes dos edifícios que sustentam seguranças em permanente coma, a majestosa trigonometria do exército de carros congelados no trâfego a que durante algum tempo me recusei a alistar muito por culpa das geleiras azuis dos omnipresentes e omnipotentes candongueiros, os arrumadores sempre atentos e fiéis no seu papel de últimos ocupantes da base da pirâmide da corrupção no país, o intermitente odor a Portugal que se percepciona no cozinhado da paisagem citadina e que perpassa também nas elites locais sempre predispostas a copiar-nos no que temos de pior, a memória das suadas convalescenças do assédio plasmódico de que fui triplamente vítima nesta terra onde as fêmeas são maioritárias, os longos períodos de autismo agarrado ao laptop a amaldiçoar a cega, surda e cara Movicel e todos os outros posts que aqui jazem desde o início do blogue e que acompanham, afinal, esta trajetória de um cada vez menor romantismo pela descoberta do que temos em comum e o cinismo que foi ficando refém do olhar sobre a realidade perceptível deste país.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Bagdad, Angola

Os bairros Iraque e Bagdad serão locais tão feios quanto a generalidade dos musseques de Luanda, com construções irregulares, em locais desordenados, desinfraestruturados e, diz-se, grandemente ilegais. No entanto, dentro destes locais existe vida. O que nem sempre parece ser do conhecimento de todos.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A second chance

O Projecto Angola LNG, no Soyo, é o mais importante investimento de sempre da economia angolana. Dado o potencial de criação de riqueza, esta poderia ser a grande oportunidade para que o seu povo pudesse, finalmente, sentir-se dono desta sempre adiada promise land. Desbaratada a primeira, pouca gente acreditará que o LNG possa ser a segunda oportunidade para que este país se comece a resgatar.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Mastigações

Pintura de Etona
«Médico naturalista desaconselha refeições confeccionadas na rua». Eis um diagnóstico que eu, como muitos outros naturalistas por aqui, já havia há muito formulado. A bem da restauração luandense e, em abono da verdade, também da sua tesouraria.
(Adenda: Eis o que poderá acontecer aos consumidores que não levem a sério os conselhos dos naturalistas, bloggers incluídos.)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Crescimento & Desenvolvimento

«Angola não regista progresso no combate à pobreza». Eu sugeriria que, ao invès, tentassem combater a riqueza. Talvez que, assim, obtivessem melhores resultados. Com menos trabalho. O campo de acção sempre seria bem menor.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

sábado, 18 de julho de 2009

O poder do poder

O jornalista angolano Ismael Mateus propõe-se sintetizar uma reflexão de muitos, que não apenas angolanos. «Por que razão JES quer continuar no poder?»

quinta-feira, 16 de julho de 2009

TAAG

Os responsáveis pela transportadora estão eufóricos. «Companhia aérea angolana vai regressar ao céu português». Desconhece-se a opinião do céu português.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Tratar da saúde

Há cerca de um mês uma mulher de vinte anos acabaria por morrer às portas dos estúdios da televisão estatal depois de lhe ter sido negada assistência médica no principal hospital de Luanda. Agora, após inquérito de apuramento de responsabilidades, o ministro angolano da Saúde decidiu exonerar o conselho de administração desse hospital. Para além da rapidez na investigação, também a responsabilização pronta. E óbvia. Ocorrências impensáveis, por exemplo, se em Portugal. Chapeau.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Horror

Para lá do horror na dor desta mulher, haverá um drama, porventura, bem maior, que se vai vertendo, subliminarmente, em alguns dos comentários à notícia.

sábado, 11 de julho de 2009

Club K Angola

O mais interessante blogue de angolanos para angolanos encontra-se no site Club K Angola, que se auto-define como clube dos angolanos no exterior. Muito do que expatriados vão ouvindo e apreendendo sobre o regime, a realidade informal e a mentalidade do país está neste local. Que é também uma elegia ao maior símbolo da cultura de Angola. O Pensador. Bem diferente do anódino e anónimo noticiário oficial.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A luta, afinal, continua

«Cabinda: FLEC anuncia morte de três soldados angolanos». Até aqui seca, ou a correr em surdina, a torrente de notícias sobre a guerrilha civil que se trava em Cabinda já abandonou os até aqui considerados pasquins para invadir jornais nacionais. O mau augúrio continua.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

No calor do debate

Fumo de artifício

Sem o alarido com que idêntica medida foi recebida noutros locais, em Angola o «Governo estabelece proibição de fumar em locais públicos». Num país com índices de consumo de tabaco visivelmente muito baixos parece serem os tugas os mais inconsoláveis com o final dos festejos de vingança da carestia no rectângulo.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Estendal português

«Angola reclama 700 milhões de dólares depositados em Portugal transferidos de contas na Suíça». É o próprio banco supervisor, o Banco Nacional de Angola, quem reclama a propriedade deste dinheiro. E lá terá as suas razões. Afinal, num país onde uma simples transferência de 5 mil dólares para o exterior obriga a prévio licenciamento do Ministério do Comércio e à apresentação dos justificativos da transacção subjacente, certamente que o banco central deverá ter bem documentada a origem destes 700 milhões de dólares.

Morte em directo

Nambuangongo

Entre a candura das pretensões dos actuais responsáveis de Nambuangongo e a lendária e sangrenta versão dos acontecimentos ocorridos na cidade-marco da guerra colonial navegam páginas carregadas de História de Portugal e de Angola. Nem sempre justas, claras, ou limpas. Como, porventura, também o não serão as versões que dela se fizeram.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Princesa Isabel

«Esta mulher não pára». Há mais uma aliança no portfolio de Isabel dos Santos. Desta vez é com a Sonae. Não duvido que os supermercados Continente, mais a gestão de um dos mais eficientes grupos de distribuição europeus, seriam um sucesso em Angola. País que até poderia aproveitar esta oportunidade para desenvolver alguns sectores da sua imberbe produção interna. E que a chave deste casamento, ainda que polígamo, está no facto de ser feito com quem realmente interessa. Actualmente. Resta saber o que acontecerá no futuro se a monarquia angolana falhar.

Re-ressuscitado

«Veja como seria Michael Jackson sem as plásticas» revela a brasileira Super Abril.

domingo, 28 de junho de 2009

A estética do regime

Muita da estética do actual regime político angolano está representada nesta foto, que mostra uma reunião do Conselho de Ministros presidida pelo Presidente da República. Não se trata de um encontro normal, no sentido em que um grupo de pessoas se reúne a uma mesma mesa para discutir ou debater determinado assunto. Pelo contrário, a foto mostra uma reunião entre várias pessoas mas em duas mesas. Em redor de uma delas, subalterna, sentam-se ministros e seus representantes e, na outra, bem mais alta, abanca-se o presidente. Primus inter pares. É o que quer dizer o meio metro de altura entre as mesas de JES e dos outros. Daí a estranheza da população pelo mais conhecido argumento presidencial sempre que uma medida do governo barraca. Que «não sabia de nada». Vai-se a ver porque o palanque presidencial estará excessivamente afastado da mesa ministerial.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Cabinda

«Human Rights Watch denuncia violações dos direitos humanos em Cabinda». Algumas práticas aqui descritas de tortura sobre prisioneiros sugerem Guantanamo. Numa guerra surda já não contra Bin Laden e os seus seguidores mas, quiçá, ainda contra os inimigos, se não da América, da texana Chevron. Mais a sua base do Malongo, onde alberga os guardiões do mais importante poço de petróleo fora dos States.

domingo, 21 de junho de 2009

Grande Líder finalmente

À volta da enorme mesa oval onde se reunem os, até agora, grandes deste mundo o espectáculo é desolador. Qualquer um dos presentes, sete homens e uma mulher, não consegue resolver um único dos problemas que têm em mãos. Há uma clara falta de liderança entre eles. Daí que o desânimo rapidamente vire alheamento. Sarkozy revira os olhos por um número antigo da Vogue, Medvedev aprecia um álbum de fotografias do perfil de Puttin, Brown procura com sofreguidão primeiras páginas de jornais com notícias de demissões, Berlusconi recebe SMS's a chamarem-lhe Papi, Harper folheia uma enciclopédia histórica sobre a gloriosa Frota Branca, Taro testa um novo i-phone da Sony, Obama mata moscas e Merkel boceja com tanta inactividade. Até que, de repente, o anfitrião Berlusconi anuncia. «Tenho uma ideia. Na próxima reunião, vou convidar para a presidir o único homem capaz de nos orientar». E vai daí todos os seus colegas do G-8 se irmanaram naquilo que já é um acordo histórico. «Presidente de Angola convidado para cúpula do G-8». O mundo encontra-se suspenso dos resultados dessa reunião.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Léo Ferré - Avec le temps

Ainda hoje consigo rever o instante de espanto em que fui caçado quando a TV do Portugal recentemente saído das brumas me apresentou esta chanson miada em lágrimas por este, lembro-me muito bem das imagens que o ecran divulgou, faquir de um circo ambulante de ciganos espanhóis, pirata saído do cesto da gávea de um navio capitaneado por Sir Francis Drake, pintor flamengo clássico com a cara macerada pelo químico experimentalista das tintas. Um espanto que ainda hoje persiste. Apesar do tempo.

terça-feira, 16 de junho de 2009

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Campeões, campeões, nós somos ...

Mal nos demos conta desta notícia, «Luanda manteve 1.º lugar na lista das cidades mais caras do mundo», os cerca de seis milhões de abramovichs, ronaldos, florentinos, gates, buffets, slims, geldorfs, santos e tutti-quanti que estimamos habitar em Luanda irrompemos numa festa tão incontida quão espontânea. Descemos dos nossos andares pelas escadas que serpenteiam os elevadores, quando os há, avariados ou transformados em despensas, conseguimos saltar sobre o lixo entulhado nos halls dos prédios, passamos a portaria sem portas a que deveríamos antes chamar sem-portaria, galgamos os buracos abertos nos passeios onde os chineses plantaram há anos uns canos pretos de um saneamento que nunca vimos funcionar e encontrámo-nos todos no meio da rua, festejando com a malta que, nos seus carros sem seguro, espelhos ou matrículas, já ali se concentravam num engarrafamento desde as 7 da manhã, como de resto fazem todos os dias, para festejar a conquista, como sempre bem suada, de mais este campeonato.

domingo, 14 de junho de 2009

O arquipélago da insónia

Um destes fins-de-semana, numa sombra da praia do Cabo Ledo, dei por terminada a leitura do último livro de Lobo Antunes. No dia seguinte, recomecei a lê-lo. Do princípio.
De onde me virá a impressão que na casa, apesar de igual, quase tudo lhe falta? As divisões são as mesmas com os mesmos móveis e os mesmos quadros e no entanto não era assim, não era isto, fotografias antigas em lugar da minha mãe, do meu pai, das empregadas da cozinha e da tosse do meu avô comandando o mundo, não a presença, não ordens, a tosse, um lenço saía-lhe do bolso e desarrumava o bigode, o meu pai prendia o cavalo na argola e a seguir apenas o restolhar da erva que esse sim, mantém-se, embora seco e duro até depois da chuva, na varanda os campos que conheço e não conheço, o renque de ciprestes que conduzia ao portão e além do portão com um dos pilares tombado os sobreiros e o trigo, a vila cada vez mais distante onde as luzes acentuam o escuro, um sítio de defuntos em cujas ruas trotava abraçado ao meu pai, assustado com os postigos vazios e a certeza que nos espreitavam nos amieiros da praça no tempo em que nada faltava na casa, a minha mãe no andar de cima a perfumar baús, a chávena da minha avó no pires e ela fixando-me com um olhar de retrato que atravessava gerações vinda de um piquenique de senhoras de bandós e cavalheiros de colarinho de celulóide comigo a pensar se toda a gente continuaria aqui em conversas que o relógio de pêndulo afogava no coração pausado, uma tarde encontrei a chávena e o pires num canto da camilha e a cadeira sem ninguém, uma outra tarde os baús do andar de cima cessaram de cheirar só que dessa ocasião automóveis no pátio, senhores que me despenteavam numa lástima amiga
- O órfão
Não conheço ninguém que escreva em português tão bem quanto Lobo Antunes. Aliás, não conheço ninguém que escreva tão bem quanto Lobo Antunes.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Aniversário

Num comentário ao post anterior, o colega Reflexos lembrou a data. Em 12 de Junho de 1850, ou Julho, já não me lembro bem e a Wikipédia pelos vistos também não, nasceu em Ponta Delgada o grande Roberto Ivens. O verdadeiro. Que andou por estas mesmas partidas do mundo a desbravar matas e mentes. Para os mais distraídos, bora lá então a seguir o link da sua biografia na Wikipédia.



O provincianismo português

Acabo de ver o «Jornal das 9» na SIC Noticias, que iniciou e demorou 33 minutos a falar da transferência de 80 milhões de libras do futebolista Cristiano Ronaldo do Manchester United para o Real Madrid. 33 minutos. Onde coube a notícia, as repercussões na imprensa de todo o mundo e arredores, nos adeptos, tanto de ambos como de nenhum dos lados, dois repórteres a repetir em directo das portas dos clubes envolvidos quer a notícia da transferência quer as repercussões na imprensa de todo o mundo e arredores e nos adeptos de ambos os lados a quem tentavam caçar na rua os testemunhos cheios de conteúdo técnico, entrevistas gravadas ao «Melhor do Mundo» a repetir vezes sem conta que nunca abandonaria o United sem que entretanto lhe caísse a tinta do lipstick, declarações entusiasmadas de opinadores profissionais do fenómeno desportivo mas também, se lhes pagarem, de quaisquer outros fenómenos mesmo que não-desportivos, reportagens sobre o passado do craque sem que desta vez lhe juntassem, obrigado, imagens da irmã a cantar em discotecas e feiras a célebre canção-poema «Mano», até ao arrolamento, ditado por um pivot perfeitamente babado, das várias namoradas do starlette até agora CR7 mas futuramente CR-outro-número-qualquer, que incluiu um video sacado por um paparazzi de Beverly Hills a uma sua entrada às 3 da manhã, com saída 1 hora depois, na mansão de Paris Hilton. Uaauuu. Quando acabou a peça, o apresentador ainda mantinha a boca aberta. A notícia a seguir, como seria previsível, já foi uma ganda seca. Os depositantes do BPP abandonaram finalmente a vigília junto das instalações do banco que lhes ficou com as economias. Bééé, grande coisa. Lembrei-me do velho Pessoa, a quem o pivot do «Jornal das 9» certamente consideraria gá-gá, que consta não ter feito culturismo para além do cotovelo para cima, não pintava os lábios na côr strawbery, usava sempre um chapéu que não lhe deixava espaço para grandes poupas e, se fosse futebolista, seguramente que não olharia três vezes para o ecran da TV dos estádios antes de marcar os livres directos. Em contrapartida, tinha uma ironia que deixou dele a imagem de um gajo com uma pinta do caraças. Como este texto, já velho de noventa anos.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

O gato e as filhóses

«Portugal empresta 500 milhões a Angola». Agora que vê posta em causa a legitimidade de decidir sobre os grandes empreendimentos estruturantes do País, Sócrates arrisca-se a que o TGV chegue mais depressa a Luanda do que a Madrid.

terça-feira, 9 de junho de 2009

segunda-feira, 8 de junho de 2009

63%

Há muito que, nas empresas modernas, os objectivos comerciais ou o desenvolvimento de desempenho são levados muito a sério. Tanto que, no final do período da avaliação, os cumpridores são premiados e os reiteradamente não-cumpridores são muitas vezes relegados para tarefas menos apetecíveis. Na política este tipo de conceitos ainda não germinou. Daí que, nas eleiçoes europeias, em Portugal como em quase todos os países do continente, um resultado de 37% na ida ás urnas não penalize os políticos incapazes de mobilizar as suas populações. Cortes em bónus, despesas de representação, cartões de crédito, plafonds automóveis, fundos de pensões, quantas vezes até salários, transferências para outras áreas na rectaguarda do «combate político», secretariado, arquivo, colar-cartazes, até, quiçá, o desemprego. Na prática, o que pode acontecer a qualquer outro trabalhador que tenha tido o azar de bater á porta de uma empresa moderna. Estou em crer que, em alguns nomes da política portuguesa, se descobririam novas vocações.

sábado, 6 de junho de 2009

Euro quê?

Nas vésperas da reflexão sobre o sentido do meu voto nas próximas eleições europeias, aprestei-me a assistir ao último debate na RTP N entre os cabeças-de-lista dos cinco maiores partidos portugueses. A ideia era decidir se valeria a pena entrar, mais a minha mala-de-cartão, na embaixada lusa em Luanda para deixar lá uma cruzinha. Quase desconjuntei a mala. O que deveria ter sido um debate esclarecedor, pelo menos para o ouvido deste emigra pontualmente impedido de desfrutar da musicalidade dos políticos da Pátria, acabaria por se transformar numa ópera bufa. A conversa seguiu num linguajar algo parecido com o futebolês, com o quinteto-de-ataque permanentemente a ameaçar com o daltonismo das suas próprias cores, puxando para temas certamente caros a empregadas domésticas, num argumentário de cassete e, quase todos, numa postura de brilhantes barítonos incompreendidos que anseiam por se atirar para a marquesa do psicanalista. Se a ideia era apresentarem-me a Europa, pois cá por mim tenho a declarar ter ficado a conhecer muito melhor o Cunene. Fica, então, decidido. Amanhã, dia de eleições para o Parlamento Europeu, vou votar nos caranguejos das areias finas do Cabo Ledo.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

AF 447

Todas as vezes que levanto voo tento abstrair-me daquela estranha dor de rins que insiste em pregar-me ao solo e pensar em qualquer outra coisa que me retire da insustentável leveza de estar naquele momento cintado a um avião. Acabo quase sempre por me concentrar em tentar adivinhar a metodologia dos que, em meu redor, utilizam as suas próprias estratégias de diversão, procurando ausentar-se nos livros, nos auscultadores, na TV, no forcing do sono, ou, simplesmente, em rebater a cabeça no banco da frente. É nestas ocasiões que acabo por invejar os que resolvem tudo isto com um furtivo benzer de dedos nos vértices de um triângulo fantasma. Afinal, cada um cozinha a fuga com os condimentos de cada qual. Dou por mim a pensar nisto enquanto vejo na TV o pai de uma das vítimas do voo AF 447 da Air France a reclamar a ida ao local do acidente, onde acredita poder ainda haver sobreviventes. O que resgato desta esperançada reclamação paternal é, afinal, a presença daquela mesma angústia sentida aquando do levantamento dos meus voos, agora, certamente, bem mais nua, gelada, pesada, sufocante, vertiginosa, irreversível, definitiva, já sem espaço para quaisquer manobras de diversão. Porque aí, desgraçadamente, passa a ser mesmo a doer. Paz às suas almas.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

História a escalpelizar

Portugal é um dos alvos principais da guerrilha em Cabinda. Num país de que se diz ter tantos segredos quantos os contratos de petróleo, há um que é considerado o mais mal guardado de todos. O da inexistência de guerrilha em Cabinda. Tantas vezes anunciado o fim da FLEC, mesmo que por antigos militantes entretanto seduzidos pelo partido do poder, espanta-se que, afinal, a guerrilha cabinda ameace cortar cabeças aos estrangeiros que por lá cirandam. E logo privilegiando as dos tugas! Tudo por causa de um ininteligível processo de descolonização levado a cabo pelos portugueses, que entregaram esta província aos angolanos que eles referem nunca ter sido. Como desconfio que este imbróglio histórico não ficaria melhor esclarecido se fosse protagonizado por um descendente dos ex-colonos, decidi-me para já a riscar Cabinda da minha agenda mais próxima. Entretanto, fico na expectativa de que a guerrilha local passe rapidamente o cisma para os colonizadores dos tempos modernos. Os chineses. Que sempre terão a vantagem de oferecer uns escalpes bem mais maneirinhos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Marcianos

Cavaco nega ter escondido compra de acções da SLN. Após ter ouvido na TV estas declarações do Presidente da República Portuguesa fiquei com a sensação de que, ultimamente, tenho vivido em Marte. O que não será verdade pois que Angola fica, apenas, a cerca de seis mil quilómetros de distância daquele pequeno rectângulo habitado por um povo, historicamente viciado na prática da auto-flagelação, que tende a minimizar a dimensão da democracia que, apesar de tudo, vai construindo. Após esta breve e fugaz percepção das virtudes do berço, resta-me aguardar que Cavaco Silva, por fim, não se deixe levar pelo neo-realismo que tem afectado o private people luso e passe também a engrossar a fila dos que estão a assaltar as instalações dos bancos que lhes descamisaram as poupanças. A bem da Nação.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Inquietação



A notícia desta explosão em Gouveia deixou-me preocupado. Muito embora nunca me tenha passado pela cabeça começar-a-ter um rebanho de ovelhas, ou começar-a-ter um café, confesso que começava-a-ter a ideia de vir a tirar a carta de tractor. Poderei, por isso, vir a ser motivo de inveja por parte dos meus vizinhos, mesmo dos que não saltam para a rua ainda em cuecas? Tipo virem a dinamitar-me o tractor, por exemplo? Estou deveras preocupado com essa possibilidade. Pelo sim, pelo não, vou mas-é parar de começar-a-ter a ideia de vir a tirar a carta.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dia dos petizes

Hoje, Dia Internacional da Criança, foi, mais uma vez, feriado nacional em Angola. Até agora, o décimo segundo. Consta que só haverá mais quatro até ao final de 2009. Num país em que se estima que 50% da população tenha menos de 18 anos, esta será uma inegável ocasião para festejar. E onde, talvez também por isso, os petizes até se atrevem a reivindicar o aumento da idade de saída da clandestinidade.

domingo, 31 de maio de 2009

Deontologia-botox

Só por causa desta entrevista, em que terá divulgado o que o País que conheço há muito pensa, Marinho Pinto já mereceria ser reconduzido como bastonário da Ordem dos Advogados portugueses. Entretanto, aguarda-se a sua próxima visita a uma nova loja de porcelana.

Surprise!?

MPLA defende eleição directa do Presidente da República no anteprojecto de Constituição.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sombras de Luanda

Foto de Roberto Ivens

A menos de duzentos metros do restaurante do Deana SPA, cujo nome, «Complexo Gastronómico Bay Side», já merecerá uma estrela no Guia Michelin, há um homem sepultado na sombra de uma árvore. Aparenta ter pouco mais de vinte anos e encontra-se mutilado na perna direita que lhe desaparece logo após a curva do joelho e acaba num toco mal cicatrizado e ainda com vestígios do osso e, também, nos braços picados por diversos golpes, irregulares, nítidos, mas espantosamente secos de sangue, cuja profundidade lhe consome a carne até ao limite de doer a quem a vê. Jaz ali os dias e, quiçá, as noites quase sempre deitado, arrastando-se no sentido da sombra da velha acácia quando ela acede em fazer-lhe companhia e rebolando sobre si mesmo na busca do biombo do tronco quando necessita de maior intimidade. Por todo aquele corpo perdido no empedrado do passeio esburacado da marginal e que parece repousar de uma batalha de que apenas se conhece os despojos, há crostas de uma urgente, embora muda, piedade que o cobrem da cabeça ao pé. Não se lhe percebe o que responde quando questionado, mantendo-se absorto nos mesmos gestos, na dor, na insanidade, ou tudo junto, antes parecendo mover-se num permanente estado de delírio, a remexer nas partes do corpo que lhe faltam ou a revirar a cabeça no sentido dos céus, quantas vezes rindo ou repetindo uma lenga-lenga imperceptível. A primeira vez que o vi, a meio de um jogging de fim-de-semana, lambia freneticamente com o indicador direito o que restaria de uma pequena embalagem de manteiga como as dos aperitivos dos restaurantes e, perante a garrafa de água fresca que lhe serviram, pareceu afogar-se na sofreguidão do longo gole, compulsivamente gesticulado como se ressuscitasse num solo de trompete. Interrogo-me se, do seu palco, conseguirá perceber a audiência que não pode deixar de o ver por ali, eu, os milhares de outras pessoas que lhe passam defronte, a pé ou de carro, os assistentes sociais que desconheço se Luanda possui, o pessoal das inúmeras ONG cujos nomes vejo profusamente pintados nos jipes, os pastores das imensas igrejas que por aqui florescem, os cidadãos cuja sensibilidade não se fica apenas pelas ofensas com quaisquer críticas a Angola, os políticos e governantes que se habituaram a jurar fidelidade aos seus. Receio bem que, tal como Simão Kapiangala, o homem-sombra seja apenas mais um entre os milhares de bastardos que deambulam por Luanda, completamente entregues ao Deus-dará. Com o senão de, neste cantinho do paraíso, Deus raramente dar alguma coisa aos que não farão parte do seu rebanho.

domingo, 24 de maio de 2009

Luzes de Luanda

Defronte da sanita gigante em que está actualmente transformada a baía de Luanda, encontra-se instalado o mais chique SPA de Angola, de seu nome Deana. Mais propriamente, de Ana Paula dos Santos, ex-hospedeira da TAAG e actual empresária, que acumula funções com as de Primeira Dama do país. Um destes dias, por mero acaso, fui assistente de uma sua acção de promoção na marginal, uma «maratona denominada Saúde e Bem-Estar» visando «alertar as pessoas a prestarem mais atenção ao seu estado físico e mental» como noticiaria a imprensa local. Ora o que eu vi foi um grupo de três a quatro dezenas de mulheres, de todas as idades e compleições físicas mas, seguramente, do mesmo estrato social, vestindo trajes aeróbico-desportivos donde sobressaíam t-shirts, toalhas e bonés brancos do SPA, percorrerem o passeio da marginal em pose de gesticulante folia, para espanto dos inúmeros sem-abrigo que por ali mal-acordavam de mais uma noite ao relento. Porventura, por há muito eles próprios terem deixado de prestar atenção ao seu estado físico e mental. À frente do pelotão seguia, de costas, um esfusiante pastor de aeróbica e, logo a seguir, a Primeira Dama herself. A marcha formava um compacto quadrado humano, cujos vértices eram policiados por quatro mal-disfarçados seguranças que seguiam, civilmente, com as camisas libertas por fora das calças, certamente que para assegurar que cada participante continuasse a ter «mais saúde e boa disposição para assumir as tarefas do dia-a-dia». Como complemento securitário, seguiam mais à frente na marginal um polícia de trânsito montado numa moto e uma carrinha onde ia empoleirado um grupo de militares armados. Afinal, tratava-se de guardar as costas militantes da beautiful people do regime, para quem, suspeito, o SPA Deana não passará de uma extensão do palácio presidencial. Entretanto, julgo que será de prestar atenção às próximas promoções de rua deste centro de estética, que promete vir a oferecer ao público de Luanda novos métodos de massagem, bem como a introduzir no mercado novos serviços como o «Power Jump», o «Body Balance», o «Step Dance», o «Aerodance» e o «Hidrobike». Consta que o mais aguardado de todos, numa sondagem entre os párias da marginal, será a «Tatuagem das Sobrancelhas».

Acelerar na recessão

Há quem defenda que, em época de recessão, se deve estimular a economia com medidas expansionistas, do tipo baixar as taxas de juro ou os impostos, a fim de se fomentar o investimento e relançar o produto no médio prazo. Haverá outros, no entanto, que consideram este tipo de medidas anacrónicas e de excessivo academismo e que, pelo contrário, defendem decisões que possibilitem um choque térmico imediato. Soube-se hoje de um exemplo da contribuição angolana para este debate.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A variante angolana

Um dos estudos pretensamente mais estimulantes nas escolas de gestão por esse mundo fora é o das variáveis que farão parte da «função empresarial», entendida, grosso modo, como as habilitações, mais ou menos inatas, que permitirão que um determinado indivíduo seja bem sucedido nos negócios. Habitualmente, nestas discussões, há um chorrilho de candidatas que saltam logo para a passerelle dos anfiteatros teóricos. Perspicácia, intuição, talento, criatividade, informação, formação, conhecimento, prático e teórico, especialização, racionalidade, know-how, know-what, dinamismo, proactividade, mentalidade, motivação, liberdade, competitividade, etc., etc. Curiosamente, tenho cada vez mais a percepção que, em Angola, nenhuma destas variáveis será, verdadeiramente, importante. Melhor ainda, que todas juntas não suplantarão a, solitária, variante angolana. Leia-se, a propósito, esta já velha sebenta.

«Luanda precisa de murro na mesa»

Entrevista interessante esta do deputado-jornalista, ou jornalista-deputado?, João de Melo ao semanário «O País». Só discordo da quantidade dos murros. Talvez não fosse má ideia distribuir, também, uns quantos upercuts por debaixo da mesa.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Guerra de zeros

Habituado à orientação anglo-saxónica nestas coisas, confesso ser um recente descobridor de uma guerra que poderá ser já velha para alguns. Como se deverá ler 1.000.000.000? Um bilião? Mil milhões? Ou, como no Brasil, um bilhão? E a unidade de medida a seguir, 1.000.000.000.000? Um trilião? Um bilião? Todas estas leituras estarão correctas, daí a confusão. A qual, em Angola, tenderá a avolumar-se pela diferente origem e formação de cada leitor, resultando daí frequentes disparidades na interpretação das mesmas grandezas. Mesmo que, como esclarece Nuno Crato, a matemática até seja «uma ciência exacta».

terça-feira, 19 de maio de 2009

Investimentos rasca

Angola quer fábricas portuguesas de materiais de construção. Há uns meses, quando alguém por aqui sentenciou que a descida drástica dos preços do petróleo poderia ser benéfica para Angola, era disto que se tratava. Após o rebentar da toalha almofadada de dólares onde os governantes angolanos se estiravam enquanto decidiam o futuro airoso do país, é agora tempo de rebobinar a cassete do crescimento contínuo e sustentado e, em definitivo, assumir que o oásis poderá secar. E que, se calhar, será também tempo deste país tentar parar de importar tudo o que necessita e esforçar-se por produzir internamente o que consome. Depois desta evidência, haverá que limar outras. Como a de divulgar às famintas empresas internacionais que cá querem entrar, tugas incluídos, quais as condições para a recepção dos tão necessários investimentos. Tem de ser em joint-ventures com os locais? Mas afinal eles percebem do negócio? E como fica a distribuição do capital? Os locais terão sempre a maioria? E entram para realizar capital? Ai só entram com terrenos, licenças de construção e contratos de fornecimentos futuros? Eh pá, se calhar teremos de analisar isso melhor, porra! Restará, então, saber, se estes tugas dos materias de construção estarão tão à rasquinha para encontrar novos mercados como, aparentemente, terá estado a TV Cabo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Em busca dos posts perdidos

Nos últimos tempos este blogue tem andado aos caídos. Ao que deveria acrescentar, para mal dos meus pecados, literalmente, porque, durante todo este tempo, tenho vindo a acumular bastantes. Após o coma do Asus, tenho sido obrigado a esmolar entre amigos e conhecidos por um acesso, livre, à net. Aventura que tem tanto de penoso quanto se sabe que, por estes lados, qualquer acesso é, quase que por definição, vegetativo. Tenho, então, a comunicar que, não me agradando nada esta figurinha de blogger furtivo, que já troca descansar por descançar, assim continuarei por mais algum tempo. Até que, num muito aguardado avião da TAP, embarque quem me venha resgatar. Permitindo-me, finalmente, outra vez, dar Asus aos posts perdidos.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Diz que é uma espécie de paragem

O CR diz que quer descansar d'O Anónimo. Não acredito. Algo me diz que O Anónimo não o vai deixar em paz. Mais dia menos dia e aparecem aí os dois para darem o maior festival de escrita com carácter da blogosfera portuguesa. Até lá então, meu Caro.

Minas em desfile

Desminados mais de quatrocentos milhões de metros quadrados. É, realmente, muita mina, ódio, traição, cobardia, desprezo pela vida humana. Não apenas de angolanos, mas também de todos os que lutaram, influenciaram, envenenaram, pilharam, hipotecaram o destino deste povo. Que continua minado em si mesmo.

domingo, 10 de maio de 2009

Senescências

Acabo de me aperceber da minha senescência ao ter de parar a máquina de lavar-roupa a meio do programa para de lá retirar os calções em cujos bolsos deixei a carta-de-condução. Agora condutor bem mais clean, resta-me esperar que, em compensação, os polícias de trânsito de Luanda esqueçam também a mesada das gasosas que costumam cobrar-me.

Imprensa Nacional

Há liberdade de imprensa em Angola, afirma o porta-voz do SJA. Ora ainda bem. Espero é que isso possa incluir a liberdade dos blogues. Algo me diz, no entanto, que tal como com a outra imprensa, se defenderia também aqui «privilegiar os quadros nacionais». Saia então um Roberto Ivens e entre um Major Kanhangulo. Imediatamente!

sábado, 9 de maio de 2009

Crocodilo Dundee

Crocodilos matam nove crianças em Angola. Esta notícia, estranhamente transcrita num tom que parece vaguear entre a banalidade do acontecimento e a inevitabilidade do próprio desfecho, traz à memória documentários do National Geographic e imagens de crocodilos a banquetearem-se de gnus, impalas, zebras e outros animais que se forçam a atravessar em manada rios infestados de predadores em busca de novas pastagens. O que essas imagens terão de extraordinária demonstração de luta pela sobrevivência multiplicam-se de horror quando se imagina que as vítimas se tratam, afinal, de seres humanos. Crianças. Desgraçadamente, as dundees de um inexplicável filme macabro.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Hip hip hurrah!!!

Angola salva o ano aos vinicultores de Portugal. Encontra-se mais ou menos institucionalizado, por aqui, que haverá investimentos cujo retorno se duvida ser o verdadeiro motivo do respectivo arranque. Ora esta notícia parece demonstrar que, afinal, o axioma estará errado. E que a Merlot e a Sauvignon poderão vir a ameaçar a omnipresente Cuca no conteúdo dos copos dos angolanos do futuro. O que será uma verdadeira prova, afinal, do retorno do investimento em devido tempo feito nas quintas mwangolés do Douro.

Estádios históricos

Governante considera "histórica" edificação dos estádios. Angola ultima a organização do Campeonato Africano das Nações em futebol, a ocorrer em Janeiro de 2010. Num torneio desta envergadura, irá construir, apenas, quatro novos estádios. Muito longe, portanto, da megalomania de outros futebóis. Prova de que, pelo menos neste campo, Angola não necessitará de importar competências.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Comícios & bebícios

Conflito entre militantes do MPLA e UNITA resulta em oito feridos. Não será apenas em Portugal que as convicções de fé político-ideológica saltam para o púlpito das ruas mal os comícios viram bebícios.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um gigante desmembrado

Eis um testemunho bem mais elucidativo sobre o poder da mente do que o transcrito na literatura dos gurus de supermercado.

domingo, 3 de maio de 2009

Aleluia

Hoje é Dia da Mãe e não tenho como festejar. Porque estou órfão. Tanto de mãe como de pai. Aliás, de mães e de pais, pois tive a sorte de ter dois de cada. A todos, acompanhei-os até ao fim, numa proximidade nem sempre fácil mas que acredito ter sido a suficiente para, também, acreditarem que nunca estiveram sós. Tal como tendo a pensar que, agora, não estou. Por isso, estou órfão, não sou órfão. Também por sentir ter, por vezes, uma esquadra a vigiar-me. No parapeito de uma mesma janela corrida. Não sei muito bem onde.

sábado, 2 de maio de 2009

Flag Man

Afinal, parece que Scolari já não virá treinar a selecção de Angola. Mais do que os adeptos locais ainda não convencidos da falência do futebol-retranca de Filipão, são os comerciantes indianos e chineses que dominam o trading por aqui quem demonstra maior frustração. Pré-contratos e encomendas de contentores e paletes de bandeiras ter-se-ão desfeito no pó que nenhuma prece foi capaz de resgatar. O que será uma pena. Também eu gostaria de ver o efeito sobre Luanda, mais a sua falta de varandas, dos enfeites da bandeira negro-rubra rachada pela catana, pela semi-roldana e pela estrela dourada. Em Portugal, apesar de tudo, foi giro.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Dia do trabalhador

Hoje também faço anos, como trabalhador, pois iniciei-me a um 1º de Maio. Na verdade, dado o feriado, comecei no dia seguinte, mas é o que ficou registado no contrato. O que daria origem a algum gozo, lá em casa, por esse pormenor no arranque não abonar nada a favor da qualidade do novo trabalhador. Mais tarde, mudei uma vez de emprego num 1º de Novembro, novo feriado, o qual, para além do extra-bolso, me faria reincidir na chacota doméstica. Tantos anos entretanto passados, creio ter compensado esse absentismo precoce com muito after-hours, quantas vezes estendido aos fins-de-semana e feriados. O que, mesmo assim, jamais me deu o privilégio de poder, heroicamente, engrossar qualquer manifestação num 1º de Maio. Pelo contrário, houve sempre alguém a avisar-me de que poderia ter-me poupado ao desperdício se soubesse gerir melhor o meu tempo no trabalho. Agora, em Angola, tenho-me deparado com uma nova faceta de forçado workaholic. O que me tem trazido tanta frustração quanta infelicidade. Por não haver nada de especialmente excitante em continuar por aqui casado-com-o-trabalho.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Roupa suja

Há já vários dias que a hóspede sul-africana não falava com a empregada angolana. Também, porque não sabia português, numa ignorância contra-linguística mutuamente correspondida. Diálogo de mudas, portanto, antes do tuga, who else, meter o bedelho. Para a sul-africana, era inconcebível que a empregada lhe alterásse os programas da máquina de lavar-roupa. Para a angolana, rodar o manípulo sempre que a máquina parava visava forçá-la a retomar a lavagem. Deste lado, a ignorância sobre o funcionamento dos ciclos de uma moderna máquina de lavar-roupa. Do outro, a ignorância sobre os propósitos de uma simples ajuda, ainda que tosca. Pelo meio, recriminações mútuas de racismo. Há quem chame a isto conflito cultural. Estou mais inclinado a chamar-lhe falta de bom-senso.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O triunfo dos porcos?

Um casal beija-se no centro histórico da Cidade do México, com máscaras para evitar a gripe suína. Foto Alfredo Estrella/AFP - via JN


domingo, 26 de abril de 2009

Quarteirão de Abril

No 25 de Abril de 1974 estava no liceu. Os zunzuns de uma revolução em Lisboa fizeram-me temer por um irmão mais velho que nessa altura fazia recruta na base do Alfeite. Para logo depois me deixar entusiasmar pelo que me diziam ser de celebrar. De imediato, que o meu irmão já não corria o risco de ir combater para um local que diziam ser nosso mas que, lá por casa, ninguém conhecia. A seguir, fui acreditando que tudo aquilo que ia acontecendo era tão rejuvenescedor quanto o sentido do meu próprio crescimento. Depois, passei a ficar carregado de dúvidas. E até acabei por pôr os pés em África. Quanto à Revolução dos Cravos, consta que têm havido disputas entre os mordomos do Parlamento para que a flor não perca a côr original, pelo menos, no dia das comemorações anuais. E, num restaurante daqui, pareceu-me ter visto pela RPT Internacional um deputado a chorar enquanto lá discursava. Mas já não consegui perceber muito bem porquê. Se calhar foi da distância.

sábado, 25 de abril de 2009

Anopheles

Hoje, Dia Mundial da Luta contra a Malária, sei, finalmente, o nome do meu maior inimigo. Anopheles. Tem nome de guerreiro, ou filósofo, ou, simplesmente, político, grego, egípcio, talvez, também, fenício, embora toda a gente por aqui saiba que não passa de um merdas qualquer. No entanto, continua a ser o mais implacável exterminador de vidas humanas em Angola. Só em 2008 matou 9.300.

Voos ao domicílio

A TAAG está proibida de efectuar directamente voos para a Europa, pelo que tem os seus aviões tripulados por pilotos de outras companhias. O que é uma pena. Acabo de saber que tinha hipóteses de, um dia destes, ter viagem directa de Luanda para o Porto.

Pepe Loco

Após o belicismo destas imagens, fico com a certeza de que, se fosse sócio do Real Madrid, exigiria que este Pepe, dito futebolista do clube espanhol, fosse de imediato despedido da equipa. Como não sou, fico na expectativa de que, pelo menos, seja expulso da selecção nacional portuguesa.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Macas & marquesas

Brown chair - David Miller
Passadas duas semanas, aterrar em Angola é como regressar a um covil donde se espera poder continuar a disfarçar um permanente estado de infelicidade latente. A provocada pelo que, mais uma vez, se deixou para trás e a que insiste em voltar a deparar-se-nos pela frente. Algures na penumbra desta sandwich de sensações, há o barbitúrico efeito dos noticiários da RTP Internacional e dos seus cortejos de desempregados, fundo-desempregados, mal-empregados, desempregados-semi-pensionistas, colarinho-desempregados, pensionistas-empregados e toda a sorte de actuais e futuros lay-offers, numa letargia de ilustrações que jorram do ecran a conta-gotas, em news a cada dia mais velhas e menos aguadas, antes areadas como saídas de um poço prestes a secar, as quais, bem mais que o postar neste blogue, me têm ajudado a salvar da marquesa do psicanalista. Então… qual é a maca?

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Mentes brilhantes para exportação

Desde que haja construção haverá sempre desenvolvimento, declarou um obscuro director comercial e principal candidato a ministro das Obras Públicas no próximo governo português, actualmente exilado em Angola mas já a pensar no programa ministerial aquando do regresso à mãe-Pátria, o que inclui a construção do futuro TGV, do novo aeroporto de Lisboa, da terceira ponte sobre o Tejo, da quarta sobre o Douro, de meia dúzia de IP's para as moscas poderem passear ao fim-de-semana e de mais umas quantas vias de cinturas, internas, externas e assim-assim, para que o país possa golpear-se em certeiros flic-flac's de cimento rumo ao tão desejado desenvolvimento.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Vá para fora cá dentro

Em viagem recente a Cabinda, a inconveniência da recordação da frase-tipo do turismo interno português que titula este post tornou-se perceptível logo à chegada ao aeroporto doméstico de Luanda. O voo, marcado para as 10h da manhã, havia passado para o meio-dia sem qualquer aviso prévio. Uma interrogação tuga junto de cinco funcionários displicentemente alojados num cubículo que albergava também uma secretária e duas cadeiras e cujo arquitecto certamente idealizara para recolher baldes, vassouras e esfregonas, teria direito a um lacónico mas esclarecedor «porque não há avião». Em meu redor, o que momentos antes era fila para o check-in transformara-se num tranquilo amontoado de malas sentadas por passageiros esclarecidamente dispostos a ali passarem duas horas de suculento dolce far niente. No regresso a Luanda, dois dias depois, Dia do Pai e véspera da visita do Papa a Angola, o reconfirmado voo das 15h respeitaria os atrasos do costume. 15h15m. 15h30m. 15h45m. 16h. Ouvi alguém a meu lado, certamente candidato a vidente, bufar que o avião, se calhar, «atrasou-se ao sair de Luanda». 16h15m. 16h30m. Por esta altura o vidente aperfeiçoava a técnica, «se chegar aqui muito tarde pode já não levantar porque este aeroporto não tem luzes na pista». 16h45m. 17h. 17h15m. A partir daqui, as preocupações dos restantes passageiros, na sua maioria, aparentemente, peregrinos de Bento XVI, sintonizaram-se com as do vidente, estranhando que o mais moderno aeroporto regional de Angola não possuísse ainda luzes de sinalização na pista. 17h30m. 17h45m. Daí a pouco um avião da TAAG aterraria, indo desaguar mesmo junto às montras da sala de embarque, onde cerca de cento e cinquenta pares de olhos, sem contar com os das bagagens, já vigiavam as saídas dos passageiros e das malas que gostariam de revezar, entre o impaciente e o expectante de que essa muda se fizesse antes do ameaçador pôr-do-sol. Logo a seguir, como que para manter acesa a chama da esperança, os altifalantes do aeroporto alumiaram. «Senhores passageiros do voo para Luanda, queiram dirigir-se para a porta de embarque», o que rapidamente provocou a formação de uma fila... enfim, angolana. Mas o relógio pareceu continuar surdo. 18h. 18h15m. 18h30m. Um pouco antes das 18h45m surgiu à porta de entrada, vindo da pista, um sujeito a anunciar que «o avião levanta amanhã às 5h da manhã». Depois disto, aconteceu algo absolutamente extraordinário. Em menos de três minutos, 95% dos passageiros abandonaram a sala de embarque do aeroporto, não se incomodando em saber das razões para o cancelamento do voo que haviam comprado ou, sequer, em reclamar, exigir, insultar, pontapear, esmurrar, quiçá, garrotear, como antigamente se fazia e modernamente por vezes apetece, o mensageiro daquela desgraça. Seria, então, a um pequeno grupo de inconformados expatriados e quadros superiores de um ministério de Luanda que o mesmo corajoso controlador de voo do aeroporto, substituindo-se à tripulação ignorante da Convenção de Varsóvia, acabaria por justificar, ao fim de meia hora de contactos telefónicos, que «a senhora directora regional da TAAG não tinha instruções» para custear as despesas de hotel dos passageiros que teriam de pernoitar em Cabinda. Logo saltaria da tampa tuga uma sugestão de placard para o turismo interno angolano. Vá para o inferno cá dentro.

sábado, 11 de abril de 2009

Redacção sobre a Páscoa

Quando era miúdo detestava a Páscoa. Pelo cheiro a hóstia que parecia apoderar-se das pessoas, nas ruas mas também em casa, pela exibição non-stop de missas na TV, prolongada por transmissões directas e em latim do Vaticano, pela troca das valentes matinées de coboyadas por piedosos filmes italianos sobre os últimos dias de Jesus Cristo, em que até o carrasco chorava a meio das vergastadas, pela obrigação de comer peixe com amêndoas durante a sexta-feira santa e, basicamente, por me serem impostas nesse período regras, especiais face aos restantes dias do ano, que me eram incompreensíveis e causavam desconforto. Desde logo, a obrigação de escolher roupa nova. Agora, compreendo melhor que, vindos do Inverno, a chegada à Primavera convide à renovação de muitas coisas, inclusivè, de agasalhos. No entanto, o que poderia ter de atractiva uma ida às compras na pré-história dos shoppings dissipava-se rapidamente quando se chegava ao fatídico acto das escolhas finais. Ter dez ou doze anos e a mãe ao lado a organizar uma equipa de jurados entre os outros clientes da loja para me convencerem de que aquela camisa cheia de cornucópias e com uns colarinhos que chegavam às orelhas me ficava a matar, para além de que seria um óptimo substituto para a t-shirt coçada que levava grudada ao corpo, ainda se mantém hoje como uma recordação bem deprimente. Curiosamente, nos tempos mais recentes, finalmente tesoureiro de uma família com três mulheres, não deixo de me rever no espírito pret-a-porter da quadra, embora mantendo a azougada memória herdada da infância que me permite ser implacável a partir do terceiro ou quarto «este vestido é tão lindo, papá!» Um outro trauma vem do contexto de religiosidade bafienta em que a Páscoa se desenrolava e que originava que as duas semanas de férias de escola se transformassem quase automaticamente em frequências de igreja. A anormal concentração de missas, catequeses, confissões, vias-sacras e procissões obrigavam a uma inaudita memória para se decorar a cor das roupas dos padres ao mesmo tempo que tentava compreender como é que o meu parceiro de bilhar havia conseguido meter a preta a uma só tabela. Fugir a assistir a, pelo menos, uma via sacra durante este período era uma tarefa heróica porque as mães tendiam a julgar que só assim poderiam livrar os filhos de todos os pecados mortais originados pelos alternativos jogos de matraquilhos e snooker, pelas sangrentas e bem mais animadas matinées no cinema ou pelas futeboladas de mercurocromo jogadas no pelado de saibro do adro da igreja. Lembro-me que o castigo divino provocado pelo pecado da ausência a uma via-sacra era mais ou menos equivalente ao de apalpar as colegas durante a catequese. Mas o supremo clímax pascal dava-se após a procissão nocturna do Senhor Morto, quando o silêncio acusador de um cortejo de homens vestidos de roxo, encapuzados e armados de archotes, passando por entre filas cerradas de beatas que empunhavam terços e rezas, era interrompido pelo assustador barulho das racas de pau que me acordavam dos pesadelos onde eu me debatia com Judas Iscariotes, Pilatos, uma porrada de judeus, romanos, fariseus, escribas, centuriões e toda a sorte de demónios que tinham, nessa altura, o vício de se reunirem debaixo do meu travesseiro.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Não há duas sem três

O terceiro caso de assédio, provado, de que fui vítima em Angola ocorreu, muito provavelmente, em Cabinda, numa estadia programada para dois dias mas prolongada, por imposição da TAAG, cada vez mais agente promotor do turismo interno angolano, por mais um. Durante a noite, o tão temido barulho dos voos rasantes dos meus carrascos alados, a que costumo ripostar com cegos golpes de palma aberta sobre as orelhas atacadas, acordou-me por diversas vezes, obrigando-me a erguer da cama para encetar um bailado de pugilista sonâmbulo, a distribuir upercuts sobre todas as pintas existentes nas paredes e nos móveis que forravam o quarto do hotel. Pela manhã, bem que me pareceu notar sorrisos trocistas nos ferrões dos cadáveres dos dois pilotos que deixei esborrachados nos azulejos das paredes da casa-de-banho. Prenunciavam já, sei-o agora, mais uma noite de lasciva fecundação. «Um por campo» foi desta vez a sentença do juiz-de-bata-branca do costume, exactamente na véspera do meu regresso a Portugal. Por isso, conto agora vingar-me a dentadas de ovos cozidos em calda de cebola, devidamente salteados e pimentados, a amêndoas tiradas do arco-íris de taças que por aqui centram mesas, a vinhos que mudarão de cor e taninos consoante o que olhos e narizes pleonasticamente vêem e cheiram, a coelhos de chocolate de que não gosto mas ainda menos suporto fitarem-me firmes e hirtos nas suas enormes orelhas cobertas por papel prateado, a pão-de-ló recheado a LBV e a tudo o que saiba a exagero. No regresso a Angola, tenho a certeza de que vingarei com colesterol as próximas picadas.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Post de uma morte (não) anunciada

No dia em que escrevi e pretendia publicar isto o Asus pifou. A partir do próximo mês de Maio, previsivelmente, este blogue extingue-se. Ao contrário do início, haverá que dar sentido a este final. Que melhor alibi para a mudança de armas e bagagens, de que tanto autor quanto blogue estão necessitados, do que uma nova aventura em África? Acabar a comentar títulos de jornais tem sido o estertor de muitos blogues em asfixia de densidade e também este parece não conseguir fugir à regra. Bora lá então à mudança, aproveitando a boleia da outra. Afinal, em ocasiões mimeticamente anteriores, uma nova aventura determinou um novo blogue. Daí que, após ano e meio a murmurar escritos nesta caixinha, prevejo silenciá-la a partir de Maio. Como comunicar no futuro, irremediavelmente não longínquo, logo se verá. Para já, fica apenas a insustentável percepção do presente. Como, desde que me internei em África, estou cada vez mais crente no acaso, decidi não levar a sério o que escrevi. Conto, então, continuar neste trilho até nova mudança de humor. Minha ou do sucessor do Asus.

domingo, 5 de abril de 2009

Selagens

Sócrates queria um selo com a sua foto para deixar para a posteridade o seu mandato no Governo deste país que está de tanga. Os selos são criados, impressos e vendidos. O nosso PM fica radiante! Mas em poucos dias ele fica furioso ao ouvir reclamações de que o selo não adere aos envelopes. O Primeiro-Ministro convoca os responsáveis e ordena que investiguem o assunto. Eles pesquisam as agências dos Correios de todo o país e relatam o problema. O relatório diz:"Não há nada de errado com a qualidade dos selos. O problema é que o povo está a cuspir no lado errado."

Chegou-me agora, pelo correio. Electrónico.

sábado, 4 de abril de 2009

Pif-Asus

Depois de o ter já ameaçado, o Asus pifou mesmo. Daí que, nos últimos dez dias, algumas novidades terão passado ao lado deste blogue. Por exemplo, a terceira confirmação do meu, tão fulminante quão preocupante, sex-appeal junto das mosquitas de Angola, o anúncio antecipado, mas não publicado, da morte deste blogue e, finalmente, o regresso a Portugal mesmo a tempo de assistir a outra propalada paixão, a de Cristo. Pelo meio, passaram ainda algumas outras águas de que espero poder pontear nos próximos dias. Num outro laptop perto de mim. Finalmente.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Quem sai aos seus...

Magalhães estará a ser vendido no mercado negro. Este título, português, logo fez disparar na memória um outro, angolano, de há dois meses atrás. Livros de distribuição gratuita à venda. Certificação da latinidade dos dois povos?

quarta-feira, 25 de março de 2009

Facas na Liga

Após cinco minutos a assistir, através da RTPi, à baboseira que vai decorrendo no Prós e Contras, atirei a almofada do sofá ao chão, vaiei o comando do televisor, pontapeei um copo de plástico e saí da sala com a frustante convicção de que o melhor e mais salutar programa desportivo da televisão portuguesa é a Liga dos Últimos.

Redzinger

Bento XVI falou no tabu da corrupção. E agora? Pois, boa pergunta. Se calhar, logo seguida por uma outra, ligeiramente mais plebeia. Quem diria que este Ratzinger viria aqui armar-se em João Paulo II, o verdadeiro Papa? Quiçá seguida por um pagão acto de contrição. Vá-se lá confiar nesta gente mais na sua eclesiástica mania de protagonismo. Então, agora... vamos lá a saber quem foram os editores de jornais que se atreveram a transcrever na íntegra os discursos do Papa.

terça-feira, 24 de março de 2009

Exitosos defuntos

Um bispo sul-africano classificou como «exitosa» a organização angolana da recepção ao Papa. Suspeito que as famílias das duas jovens mortas às portas do estádio dos Coqueiros não concordarão com esta fraterna parabenização. A menos que se trate, afinal, de mais uma reedição da velha máxima católica da confissão que precede o perdão.

domingo, 22 de março de 2009

Instâncias papais

Bento XVI insta classe dirigente a pôr fim à corrupção. E instou bem, como, certamente, o mundo inteiro terá considerado. Tal como consideraria igualmente uma outra instância, a da profilaxia do preservativo, que permitiria salvar por aqui tantas criaturas de Deus. Não se conhece, entretanto, é a resposta da corrupção à afirmação papal. O que se sabe é que, para já, irá haver, amanhã, nova tolerância de ponto em Angola. A acrescentar à da sua chegada, na última sexta-feira. Desta vez, para festejar a despedida do Papa. Em mais uma prova de que a produtividade angolana há muito foi abençoada.

Compumalária

Desde a última segunda-feira que este blogue anda entupido por uma dúvida. Será que a malária também pega aos computadores? A mim, bastou-me vegetar uma tripla sessão terapêutica de dez comprimidos diários e trocar o sábado de sol e mergulhos no Cabo Ledo pelo insoso estirar no sofá de sala, a ver rugby, ténis, ciclismo e tudo o mais que recusásse fazer a pedagogia da doença. Mas aqui o Asus, o computador de Taiwan que me tem acompanhado nesta aventura africana e que me serve de muleta no blogue, parece ter ficado bem mais afectado. Começou por deixar de ver e de me mostrar nas chamadas video lá para casa, a vingar-se das sucessivas greves da Movinet com um definitivo lay-off, a não reconhecer até as pen-drives com quem costuma dormir na mala em que os transporto e, durante toda a semana, a acrescentar mazelas várias até que, ontem, finalmente, entrou em coma. A única coisa que conseguia fazer, qual soldado apanhado pelo inimigo durante uma batalha, era mostrar o próprio nome no arranque. Ainda assim, apenas a preto e branco. Hoje, estranhamente, parece ter acordado do coma. Efeitos da estadia de Bento XVI em Luanda? Bruxaria? Pelo sim pelo não, prefiro não me meter nesta conversa.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Toque a rebate

Claro que nem toda a gente terá a possibilidade de, num determinado dia, acordar, espreguiçar-se a meio do gesto de se levantar da cama, arrastar o resto do sono até à casa-de-banho, presentear o espelho com o primeiro bocejo do dia, vigiar se as olheiras da manhã anterior lá continuam, fazer tiro ao alvo na sanita, voltar ao lavatório para limpar as mãos, reconfirmar a má imagem da mesma cara de há momentos atrás, preparar-se para a aspergir com as primeiras palmas de água do dia e resmungar mentalmente qualquer coisa antes de, maquinalmente, abrir a portazinha de plástico do móvel de inox cinzento pregado na parede de azulejos verdes e brancos enquanto sentencia em voz alta «se calhar estou com febre» e retira o termómetro a pilhas, estende-o em horizontal no sovaco esquerdo e volta ao espelho para retomar o policiamento das rugas, dos olhos remelados, do cabelo cada vez mais raro, das orelhas que insistem em não encolher e do raio dos pêlos brancos que espreitam do nariz e de que me esqueço de cortar há dias, preocupado como ando sempre com o tempo de saltar para o chuveiro, enfiar-me dentro do fato, passar a correr pelo pequeno-almoço e esquecer-me de tomar o café, mas não de travar as portas do jeep antes que alguém seja mais rápido do que eu, chegar ao escritório e anunciar à primeira secretária que encontrei, no mesmo tom solenemente pardacento como costumo pedir-lhe folhas A4 em falta na fotocopiadora, «importa-se de marcar uma consulta na clínica pois desconfio que estou com malária?» Vendo bem as coisas, esta realidade é bem mais séria do que quaisquer piadinhas sobre o sexo dos mosquitos postados no blogue de um autor momentaneamente febril.

Os mosquitos tocam sempre duas vezes?

Finalmente sei o que, em malariês, quer dizer «dois por campo». As observações microscópicas sobre os diversos campos de visão numa lamela de vidro onde jaz o sangue retirado com uma guilhotina anã da ponta do meu indicador direito, urrrhh, deram conta da existência, em média, de dois bichinhos. Sendo, apesar de tudo, sinal da pouca fertilidade do solo, a leitura aqui deste lavrador é a de que houve, pelo menos, dois mosquitos que conseguiram ultrapassar a, aparentemente, vã barreira do repelente com que costumo besuntar o cocuruto, as pontas das orelhas, as costas das mãos, os braços até ao cotovelo e as mangas das camisas quando me esqueço e as desarregaço. Embora desconhecendo a longevidade média dos mosquitos angolanos, atrevo-me a considerar que não terão sido os mesmos de há nove meses atrás. Quando muito, terão sido as suas descendentes.

domingo, 15 de março de 2009

Esquecer de respirar

Um homem, conhecido por esquecido, deixou o seu bebé de nove meses dentro do carro enquanto trabalhava. Ao fim de três horas, o esquecimento transformou-se em fatalidade. À distância que esta notícia me toca, interrogo-me se também se esquecerá de sofrer.

sábado, 14 de março de 2009

O último excomungado

Menina violada abortou e a mãe foi excomungada. Queixas contra abusos do clero aumentaram. Duas notícias de sentido epistolarmente antagónico. Mas só aparentemente. Afinal, tanto um caso como o outro comungarão da mesma sagrada leitura. A de que o crime compensa. Valha-nos Deus. Pelo menos enquanto não o excomungarem também.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Estado Falhado de Sucesso

O relatório do Global Witness sobre a responsabilidade da banca mundial no empobrecimento de Angola é impressionante. Tanto due dilligence para, afinal, acabar a financiar-se mais corrupção. E 1,7 mil milhões de dólares que, todos os anos, ficam por contabilizar nas contas do Tesouro angolano, é obra. A mesma que tem falhado a este país viciado em desvios. Comparado com isto, até Madoff julgará ter atenuantes.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Um país criativo

Presidente da República pede parcerias criativas. O Presidente da República, José Eduardo dos Santos, anunciou ontem, em Lisboa, que “Angola está muito interessada em definir as parcerias com o sector privado luso que sejam criativas, que produzam resultados e que sirvam para resolver problemas dos respectivos povos”, in Jornal de Angola, hoje.

A semana passada, ao chegar ao trabalho, verifiquei que o jipe com que nos últimos meses me tenho arrastado pelo trâfego de Luanda tinha o pneu traseiro do lado direito vazio. Depois de levado à oficina com quem mantemos uma parceria para as reparações da frota automóvel, devolveram-mo, «pronto», no próprio dia. Hoje ao fim da tarde, à chegada a casa, reparei que tinha o pneu dianteiro do lado direito vazio. Não é por nada, mas receio bem que este possa ser um exemplo das tais parcerias criativas.