segunda-feira, 3 de Agosto de 2009
Fim
A despedida
sexta-feira, 31 de Julho de 2009
Bagdad, Angola
Os bairros Iraque e Bagdad serão locais tão feios quanto a generalidade dos musseques de Luanda, com construções irregulares, em locais desordenados, desinfraestruturados e, diz-se, grandemente ilegais. No entanto, dentro destes locais existe vida. O que nem sempre parece ser do conhecimento de todos.
quinta-feira, 30 de Julho de 2009
A second chance
O Projecto Angola LNG, no Soyo, é o mais importante investimento de sempre da economia angolana. Dado o potencial de criação de riqueza, esta poderia ser a grande oportunidade para que o seu povo pudesse, finalmente, sentir-se dono desta sempre adiada promise land. Desbaratada a primeira, pouca gente acreditará que o LNG possa ser a segunda oportunidade para que este país se comece a resgatar. quarta-feira, 29 de Julho de 2009
Mastigações
Pintura de Etonasegunda-feira, 27 de Julho de 2009
Crescimento & Desenvolvimento
quinta-feira, 23 de Julho de 2009
terça-feira, 21 de Julho de 2009
segunda-feira, 20 de Julho de 2009
domingo, 19 de Julho de 2009
sábado, 18 de Julho de 2009
O poder do poder
sexta-feira, 17 de Julho de 2009
Terminal Dois
Está já operacional, desde sábado, 4 de Julho, o novo terminal internacional de desembarque, designado número dois, do Aeroporto 4 de Fevereiro, em Luanda, um empreendimento que custou aos cofres do Estado angolano a quantia de nove milhões de dólares. Ainda bem, digo eu, que sou um utilizador frequente desse local. Espero é que, em definitivo, eliminem também as melgas que por lá insistem em assediar os recém-chegados ao território.quinta-feira, 16 de Julho de 2009
TAAG
quarta-feira, 15 de Julho de 2009
Tratar da saúde
terça-feira, 14 de Julho de 2009
Horror
segunda-feira, 13 de Julho de 2009
domingo, 12 de Julho de 2009
sábado, 11 de Julho de 2009
Club K Angola
O mais interessante blogue de angolanos para angolanos encontra-se no site Club K Angola, que se auto-define como clube dos angolanos no exterior. Muito do que expatriados vão ouvindo e apreendendo sobre o regime, a realidade informal e a mentalidade do país está neste local. Que é também uma elegia ao maior símbolo da cultura de Angola. O Pensador. Bem diferente do anódino e anónimo noticiário oficial. sexta-feira, 3 de Julho de 2009
A luta, afinal, continua
quinta-feira, 2 de Julho de 2009
Fumo de artifício
terça-feira, 30 de Junho de 2009
Estendal português
«Angola reclama 700 milhões de dólares depositados em Portugal transferidos de contas na Suíça». É o próprio banco supervisor, o Banco Nacional de Angola, quem reclama a propriedade deste dinheiro. E lá terá as suas razões. Afinal, num país onde uma simples transferência de 5 mil dólares para o exterior obriga a prévio licenciamento do Ministério do Comércio e à apresentação dos justificativos da transacção subjacente, certamente que o banco central deverá ter bem documentada a origem destes 700 milhões de dólares.Nambuangongo
segunda-feira, 29 de Junho de 2009
Princesa Isabel
«Esta mulher não pára». Há mais uma aliança no portfolio de Isabel dos Santos. Desta vez é com a Sonae. Não duvido que os supermercados Continente, mais a gestão de um dos mais eficientes grupos de distribuição europeus, seriam um sucesso em Angola. País que até poderia aproveitar esta oportunidade para desenvolver alguns sectores da sua imberbe produção interna. E que a chave deste casamento, ainda que polígamo, está no facto de ser feito com quem realmente interessa. Actualmente. Resta saber o que acontecerá no futuro se a monarquia angolana falhar. domingo, 28 de Junho de 2009
A estética do regime
Muita da estética do actual regime político angolano está representada nesta foto, que mostra uma reunião do Conselho de Ministros presidida pelo Presidente da República. Não se trata de um encontro normal, no sentido em que um grupo de pessoas se reúne a uma mesma mesa para discutir ou debater determinado assunto. Pelo contrário, a foto mostra uma reunião entre várias pessoas mas em duas mesas. Em redor de uma delas, subalterna, sentam-se ministros e seus representantes e, na outra, bem mais alta, abanca-se o presidente. Primus inter pares. É o que quer dizer o meio metro de altura entre as mesas de JES e dos outros. Daí a estranheza da população pelo mais conhecido argumento presidencial sempre que uma medida do governo dá barraca. Que «não sabia de nada». Vai-se a ver porque o palanque presidencial estará excessivamente afastado da mesa ministerial.segunda-feira, 22 de Junho de 2009
Cabinda
«Human Rights Watch denuncia violações dos direitos humanos em Cabinda». Algumas práticas aqui descritas de tortura sobre prisioneiros sugerem Guantanamo. Numa guerra surda já não contra Bin Laden e os seus seguidores mas, quiçá, ainda contra os inimigos, se não da América, da texana Chevron. Mais a sua base do Malongo, onde alberga os guardiões do mais importante poço de petróleo fora dos States.domingo, 21 de Junho de 2009
Grande Líder finalmente
À volta da enorme mesa oval onde se reunem os, até agora, grandes deste mundo o espectáculo é desolador. Qualquer um dos presentes, sete homens e uma mulher, não consegue resolver um único dos problemas que têm em mãos. Há uma clara falta de liderança entre eles. Daí que o desânimo rapidamente vire alheamento. Sarkozy revira os olhos por um número antigo da Vogue, Medvedev aprecia um álbum de fotografias do perfil de Puttin, Brown procura com sofreguidão primeiras páginas de jornais com notícias de demissões, Berlusconi recebe SMS's a chamarem-lhe Papi, Harper folheia uma enciclopédia histórica sobre a gloriosa Frota Branca, Taro testa um novo i-phone da Sony, Obama mata moscas e Merkel boceja com tanta inactividade. Até que, de repente, o anfitrião Berlusconi anuncia. «Tenho uma ideia. Na próxima reunião, vou convidar para a presidir o único homem capaz de nos orientar». E vai daí todos os seus colegas do G-8 se irmanaram naquilo que já é um acordo histórico. «Presidente de Angola convidado para cúpula do G-8». O mundo encontra-se suspenso dos resultados dessa reunião.quinta-feira, 18 de Junho de 2009
Pepetela dixit
quarta-feira, 17 de Junho de 2009
Léo Ferré - Avec le temps
Ainda hoje consigo rever o instante de espanto em que fui caçado quando a TV do Portugal recentemente saído das brumas me apresentou esta chanson miada em lágrimas por este, lembro-me muito bem das imagens que o ecran divulgou, faquir de um circo ambulante de ciganos espanhóis, pirata saído do cesto da gávea de um navio capitaneado por Sir Francis Drake, pintor flamengo clássico com a cara macerada pelo químico experimentalista das tintas. Um espanto que ainda hoje persiste. Apesar do tempo.
terça-feira, 16 de Junho de 2009
segunda-feira, 15 de Junho de 2009
Campeões, campeões, nós somos ...
domingo, 14 de Junho de 2009
O arquipélago da insónia
Um destes fins-de-semana, numa sombra da praia do Cabo Ledo, dei por terminada a leitura do último livro de Lobo Antunes. No dia seguinte, recomecei a lê-lo. Do princípio.sexta-feira, 12 de Junho de 2009
Aniversário
Num comentário ao post anterior, o colega Reflexos lembrou a data. Em 12 de Junho de 1850, ou Julho, já não me lembro bem e a Wikipédia pelos vistos também não, nasceu em Ponta Delgada o grande Roberto Ivens. O verdadeiro. Que andou por estas mesmas partidas do mundo a desbravar matas e mentes. Para os mais distraídos, bora lá então a seguir o link da sua biografia na Wikipédia.O provincianismo português
quinta-feira, 11 de Junho de 2009
O gato e as filhóses
terça-feira, 9 de Junho de 2009
Ortografia zerada
segunda-feira, 8 de Junho de 2009
63%
sábado, 6 de Junho de 2009
Euro quê?
Nas vésperas da reflexão sobre o sentido do meu voto nas próximas eleições europeias, aprestei-me a assistir ao último debate na RTP N entre os cabeças-de-lista dos cinco maiores partidos portugueses. A ideia era decidir se valeria a pena entrar, mais a minha mala-de-cartão, na embaixada lusa em Luanda para deixar lá uma cruzinha. Quase desconjuntei a mala. O que deveria ter sido um debate esclarecedor, pelo menos para o ouvido deste emigra pontualmente impedido de desfrutar da musicalidade dos políticos da Pátria, acabaria por se transformar numa ópera bufa. A conversa seguiu num linguajar algo parecido com o futebolês, com o quinteto-de-ataque permanentemente a ameaçar com o daltonismo das suas próprias cores, puxando para temas certamente caros a empregadas domésticas, num argumentário de cassete e, quase todos, numa postura de brilhantes barítonos incompreendidos que anseiam por se atirar para a marquesa do psicanalista. Se a ideia era apresentarem-me a Europa, pois cá por mim tenho a declarar ter ficado a conhecer muito melhor o Cunene. Fica, então, decidido. Amanhã, dia de eleições para o Parlamento Europeu, vou votar nos caranguejos das areias finas do Cabo Ledo. sexta-feira, 5 de Junho de 2009
AF 447
Todas as vezes que levanto voo tento abstrair-me daquela estranha dor de rins que insiste em pregar-me ao solo e pensar em qualquer outra coisa que me retire da insustentável leveza de estar naquele momento cintado a um avião. Acabo quase sempre por me concentrar em tentar adivinhar a metodologia dos que, em meu redor, utilizam as suas próprias estratégias de diversão, procurando ausentar-se nos livros, nos auscultadores, na TV, no forcing do sono, ou, simplesmente, em rebater a cabeça no banco da frente. É nestas ocasiões que acabo por invejar os que resolvem tudo isto com um furtivo benzer de dedos nos vértices de um triângulo fantasma. Afinal, cada um cozinha a fuga com os condimentos de cada qual. Dou por mim a pensar nisto enquanto vejo na TV o pai de uma das vítimas do voo AF 447 da Air France a reclamar a ida ao local do acidente, onde acredita poder ainda haver sobreviventes. O que resgato desta esperançada reclamação paternal é, afinal, a presença daquela mesma angústia sentida aquando do levantamento dos meus voos, agora, certamente, bem mais nua, gelada, pesada, sufocante, vertiginosa, irreversível, definitiva, já sem espaço para quaisquer manobras de diversão. Porque aí, desgraçadamente, passa a ser mesmo a doer. Paz às suas almas.quinta-feira, 4 de Junho de 2009
História a escalpelizar
quarta-feira, 3 de Junho de 2009
Marcianos
terça-feira, 2 de Junho de 2009
Inquietação
A notícia desta explosão em Gouveia deixou-me preocupado. Muito embora nunca me tenha passado pela cabeça começar-a-ter um rebanho de ovelhas, ou começar-a-ter um café, confesso que começava-a-ter a ideia de vir a tirar a carta de tractor. Poderei, por isso, vir a ser motivo de inveja por parte dos meus vizinhos, mesmo dos que não saltam para a rua ainda em cuecas? Tipo virem a dinamitar-me o tractor, por exemplo? Estou deveras preocupado com essa possibilidade. Pelo sim, pelo não, vou mas-é parar de começar-a-ter a ideia de vir a tirar a carta.
segunda-feira, 1 de Junho de 2009
Dia dos petizes
domingo, 31 de Maio de 2009
Deontologia-botox
Só por causa desta entrevista, em que terá divulgado o que o País que conheço há muito pensa, Marinho Pinto já mereceria ser reconduzido como bastonário da Ordem dos Advogados portugueses. Entretanto, aguarda-se a sua próxima visita a uma nova loja de porcelana.
quarta-feira, 27 de Maio de 2009
Sombras de Luanda
domingo, 24 de Maio de 2009
Luzes de Luanda
Defronte da sanita gigante em que está actualmente transformada a baía de Luanda, encontra-se instalado o mais chique SPA de Angola, de seu nome Deana. Mais propriamente, de Ana Paula dos Santos, ex-hospedeira da TAAG e actual empresária, que acumula funções com as de Primeira Dama do país. Um destes dias, por mero acaso, fui assistente de uma sua acção de promoção na marginal, uma «maratona denominada Saúde e Bem-Estar» visando «alertar as pessoas a prestarem mais atenção ao seu estado físico e mental» como noticiaria a imprensa local. Ora o que eu vi foi um grupo de três a quatro dezenas de mulheres, de todas as idades e compleições físicas mas, seguramente, do mesmo estrato social, vestindo trajes aeróbico-desportivos donde sobressaíam t-shirts, toalhas e bonés brancos do SPA, percorrerem o passeio da marginal em pose de gesticulante folia, para espanto dos inúmeros sem-abrigo que por ali mal-acordavam de mais uma noite ao relento. Porventura, por há muito eles próprios terem deixado de prestar atenção ao seu estado físico e mental. À frente do pelotão seguia, de costas, um esfusiante pastor de aeróbica e, logo a seguir, a Primeira Dama herself. A marcha formava um compacto quadrado humano, cujos vértices eram policiados por quatro mal-disfarçados seguranças que seguiam, civilmente, com as camisas libertas por fora das calças, certamente que para assegurar que cada participante continuasse a ter «mais saúde e boa disposição para assumir as tarefas do dia-a-dia». Como complemento securitário, seguiam mais à frente na marginal um polícia de trânsito montado numa moto e uma carrinha onde ia empoleirado um grupo de militares armados. Afinal, tratava-se de guardar as costas militantes da beautiful people do regime, para quem, suspeito, o SPA Deana não passará de uma extensão do palácio presidencial. Entretanto, julgo que será de prestar atenção às próximas promoções de rua deste centro de estética, que promete vir a oferecer ao público de Luanda novos métodos de massagem, bem como a introduzir no mercado novos serviços como o «Power Jump», o «Body Balance», o «Step Dance», o «Aerodance» e o «Hidrobike». Consta que o mais aguardado de todos, numa sondagem entre os párias da marginal, será a «Tatuagem das Sobrancelhas». Acelerar na recessão
sexta-feira, 22 de Maio de 2009
A variante angolana
«Luanda precisa de murro na mesa»
quinta-feira, 21 de Maio de 2009
Guerra de zeros
Habituado à orientação anglo-saxónica nestas coisas, confesso ser um recente descobridor de uma guerra que poderá ser já velha para alguns. Como se deverá ler 1.000.000.000? Um bilião? Mil milhões? Ou, como no Brasil, um bilhão? E a unidade de medida a seguir, 1.000.000.000.000? Um trilião? Um bilião? Todas estas leituras estarão correctas, daí a confusão. A qual, em Angola, tenderá a avolumar-se pela diferente origem e formação de cada leitor, resultando daí frequentes disparidades na interpretação das mesmas grandezas. Mesmo que, como esclarece Nuno Crato, a matemática até seja «uma ciência exacta». quarta-feira, 20 de Maio de 2009
terça-feira, 19 de Maio de 2009
Investimentos rasca
segunda-feira, 18 de Maio de 2009
Em busca dos posts perdidos
sexta-feira, 15 de Maio de 2009
Diz que é uma espécie de paragem
Minas em desfile
Desminados mais de quatrocentos milhões de metros quadrados. É, realmente, muita mina, ódio, traição, cobardia, desprezo pela vida humana. Não apenas de angolanos, mas também de todos os que lutaram, influenciaram, envenenaram, pilharam, hipotecaram o destino deste povo. Que continua minado em si mesmo.segunda-feira, 11 de Maio de 2009
domingo, 10 de Maio de 2009
Senescências
Imprensa Nacional
sábado, 9 de Maio de 2009
Crocodilo Dundee
Crocodilos matam nove crianças em Angola. Esta notícia, estranhamente transcrita num tom que parece vaguear entre a banalidade do acontecimento e a inevitabilidade do próprio desfecho, traz à memória documentários do National Geographic e imagens de crocodilos a banquetearem-se de gnus, impalas, zebras e outros animais que se forçam a atravessar em manada rios infestados de predadores em busca de novas pastagens. O que essas imagens terão de extraordinária demonstração de luta pela sobrevivência multiplicam-se de horror quando se imagina que as vítimas se tratam, afinal, de seres humanos. Crianças. Desgraçadamente, as dundees de um inexplicável filme macabro. sexta-feira, 8 de Maio de 2009
Hip hip hurrah!!!
Angola salva o ano aos vinicultores de Portugal. Encontra-se mais ou menos institucionalizado, por aqui, que haverá investimentos cujo retorno se duvida ser o verdadeiro motivo do respectivo arranque. Ora esta notícia parece demonstrar que, afinal, o axioma estará errado. E que a Merlot e a Sauvignon poderão vir a ameaçar a omnipresente Cuca no conteúdo dos copos dos angolanos do futuro. O que será uma verdadeira prova, afinal, do retorno do investimento em devido tempo feito nas quintas mwangolés do Douro.Estádios históricos
quinta-feira, 7 de Maio de 2009
Comícios & bebícios
quarta-feira, 6 de Maio de 2009
Um gigante desmembrado
Eis um testemunho bem mais elucidativo sobre o poder da mente do que o transcrito na literatura dos gurus de supermercado.
domingo, 3 de Maio de 2009
Aleluia
Hoje é Dia da Mãe e não tenho como festejar. Porque estou órfão. Tanto de mãe como de pai. Aliás, de mães e de pais, pois tive a sorte de ter dois de cada. A todos, acompanhei-os até ao fim, numa proximidade nem sempre fácil mas que acredito ter sido a suficiente para, também, acreditarem que nunca estiveram sós. Tal como tendo a pensar que, agora, não estou. Por isso, estou órfão, não sou órfão. Também por sentir ter, por vezes, uma esquadra a vigiar-me. No parapeito de uma mesma janela corrida. Não sei muito bem onde.
sábado, 2 de Maio de 2009
Flag Man
Afinal, parece que Scolari já não virá treinar a selecção de Angola. Mais do que os adeptos locais ainda não convencidos da falência do futebol-retranca de Filipão, são os comerciantes indianos e chineses que dominam o trading por aqui quem demonstra maior frustração. Pré-contratos e encomendas de contentores e paletes de bandeiras ter-se-ão desfeito no pó que nenhuma prece foi capaz de resgatar. O que será uma pena. Também eu gostaria de ver o efeito sobre Luanda, mais a sua falta de varandas, dos enfeites da bandeira negro-rubra rachada pela catana, pela semi-roldana e pela estrela dourada. Em Portugal, apesar de tudo, foi giro. sexta-feira, 1 de Maio de 2009
Dia do trabalhador
Hoje também faço anos, como trabalhador, pois iniciei-me a um 1º de Maio. Na verdade, dado o feriado, comecei no dia seguinte, mas é o que ficou registado no contrato. O que daria origem a algum gozo, lá em casa, por esse pormenor no arranque não abonar nada a favor da qualidade do novo trabalhador. Mais tarde, mudei uma vez de emprego num 1º de Novembro, novo feriado, o qual, para além do extra-bolso, me faria reincidir na chacota doméstica. Tantos anos entretanto passados, creio ter compensado esse absentismo precoce com muito after-hours, quantas vezes estendido aos fins-de-semana e feriados. O que, mesmo assim, jamais me deu o privilégio de poder, heroicamente, engrossar qualquer manifestação num 1º de Maio. Pelo contrário, houve sempre alguém a avisar-me de que poderia ter-me poupado ao desperdício se soubesse gerir melhor o meu tempo no trabalho. Agora, em Angola, tenho-me deparado com uma nova faceta de forçado workaholic. O que me tem trazido tanta frustração quanta infelicidade. Por não haver nada de especialmente excitante em continuar por aqui casado-com-o-trabalho. quinta-feira, 30 de Abril de 2009
Roupa suja
segunda-feira, 27 de Abril de 2009
O triunfo dos porcos?
Um casal beija-se no centro histórico da Cidade do México, com máscaras para evitar a gripe suína. Foto Alfredo Estrella/AFP - via JN domingo, 26 de Abril de 2009
Quarteirão de Abril
No 25 de Abril de 1974 estava no liceu. Os zunzuns de uma revolução em Lisboa fizeram-me temer por um irmão mais velho que nessa altura fazia recruta na base do Alfeite. Para logo depois me deixar entusiasmar pelo que me diziam ser de celebrar. De imediato, que o meu irmão já não corria o risco de ir combater para um local que diziam ser nosso mas que, lá por casa, ninguém conhecia. A seguir, fui acreditando que tudo aquilo que ia acontecendo era tão rejuvenescedor quanto o sentido do meu próprio crescimento. Depois, passei a ficar carregado de dúvidas. E até acabei por pôr os pés em África. Quanto à Revolução dos Cravos, consta que têm havido disputas entre os mordomos do Parlamento para que a flor não perca a côr original, pelo menos, no dia das comemorações anuais. E, num restaurante daqui, pareceu-me ter visto pela RPT Internacional um deputado a chorar enquanto lá discursava. Mas já não consegui perceber muito bem porquê. Se calhar foi da distância. sábado, 25 de Abril de 2009
Anopheles
Hoje, Dia Mundial da Luta contra a Malária, sei, finalmente, o nome do meu maior inimigo. Anopheles. Tem nome de guerreiro, ou filósofo, ou, simplesmente, político, grego, egípcio, talvez, também, fenício, embora toda a gente por aqui saiba que não passa de um merdas qualquer. No entanto, continua a ser o mais implacável exterminador de vidas humanas em Angola. Só em 2008 matou 9.300.Voos ao domicílio
Pepe Loco
Após o belicismo destas imagens, fico com a certeza de que, se fosse sócio do Real Madrid, exigiria que este Pepe, dito futebolista do clube espanhol, fosse de imediato despedido da equipa. Como não sou, fico na expectativa de que, pelo menos, seja expulso da selecção nacional portuguesa.
sexta-feira, 24 de Abril de 2009
Macas & marquesas
sexta-feira, 17 de Abril de 2009
Mentes brilhantes para exportação
quinta-feira, 16 de Abril de 2009
terça-feira, 14 de Abril de 2009
Vá para fora cá dentro
Em viagem recente a Cabinda, a inconveniência da recordação da frase-tipo do turismo interno português que titula este post tornou-se perceptível logo à chegada ao aeroporto doméstico de Luanda. O voo, marcado para as 10h da manhã, havia passado para o meio-dia sem qualquer aviso prévio. Uma interrogação tuga junto de cinco funcionários displicentemente alojados num cubículo que albergava também uma secretária e duas cadeiras e cujo arquitecto certamente idealizara para recolher baldes, vassouras e esfregonas, teria direito a um lacónico mas esclarecedor «porque não há avião». Em meu redor, o que momentos antes era fila para o check-in transformara-se num tranquilo amontoado de malas sentadas por passageiros esclarecidamente dispostos a ali passarem duas horas de suculento dolce far niente. No regresso a Luanda, dois dias depois, Dia do Pai e véspera da visita do Papa a Angola, o reconfirmado voo das 15h respeitaria os atrasos do costume. 15h15m. 15h30m. 15h45m. 16h. Ouvi alguém a meu lado, certamente candidato a vidente, bufar que o avião, se calhar, «atrasou-se ao sair de Luanda». 16h15m. 16h30m. Por esta altura o vidente aperfeiçoava a técnica, «se chegar aqui muito tarde pode já não levantar porque este aeroporto não tem luzes na pista». 16h45m. 17h. 17h15m. A partir daqui, as preocupações dos restantes passageiros, na sua maioria, aparentemente, peregrinos de Bento XVI, sintonizaram-se com as do vidente, estranhando que o mais moderno aeroporto regional de Angola não possuísse ainda luzes de sinalização na pista. 17h30m. 17h45m. Daí a pouco um avião da TAAG aterraria, indo desaguar mesmo junto às montras da sala de embarque, onde cerca de cento e cinquenta pares de olhos, sem contar com os das bagagens, já vigiavam as saídas dos passageiros e das malas que gostariam de revezar, entre o impaciente e o expectante de que essa muda se fizesse antes do ameaçador pôr-do-sol. Logo a seguir, como que para manter acesa a chama da esperança, os altifalantes do aeroporto alumiaram. «Senhores passageiros do voo para Luanda, queiram dirigir-se para a porta de embarque», o que rapidamente provocou a formação de uma fila... enfim, angolana. Mas o relógio pareceu continuar surdo. 18h. 18h15m. 18h30m. Um pouco antes das 18h45m surgiu à porta de entrada, vindo da pista, um sujeito a anunciar que «o avião levanta amanhã às 5h da manhã». Depois disto, aconteceu algo absolutamente extraordinário. Em menos de três minutos, 95% dos passageiros abandonaram a sala de embarque do aeroporto, não se incomodando em saber das razões para o cancelamento do voo que haviam comprado ou, sequer, em reclamar, exigir, insultar, pontapear, esmurrar, quiçá, garrotear, como antigamente se fazia e modernamente por vezes apetece, o mensageiro daquela desgraça. Seria, então, a um pequeno grupo de inconformados expatriados e quadros superiores de um ministério de Luanda que o mesmo corajoso controlador de voo do aeroporto, substituindo-se à tripulação ignorante da Convenção de Varsóvia, acabaria por justificar, ao fim de meia hora de contactos telefónicos, que «a senhora directora regional da TAAG não tinha instruções» para custear as despesas de hotel dos passageiros que teriam de pernoitar em Cabinda. Logo saltaria da tampa tuga uma sugestão de placard para o turismo interno angolano. Vá para o inferno cá dentro. sábado, 11 de Abril de 2009
Redacção sobre a Páscoa
Quando era miúdo detestava a Páscoa. Pelo cheiro a hóstia que parecia apoderar-se das pessoas, nas ruas mas também em casa, pela exibição non-stop de missas na TV, prolongada por transmissões directas e em latim do Vaticano, pela troca das valentes matinées de coboyadas por piedosos filmes italianos sobre os últimos dias de Jesus Cristo, em que até o carrasco chorava a meio das vergastadas, pela obrigação de comer peixe com amêndoas durante a sexta-feira santa e, basicamente, por me serem impostas nesse período regras, especiais face aos restantes dias do ano, que me eram incompreensíveis e causavam desconforto. Desde logo, a obrigação de escolher roupa nova. Agora, compreendo melhor que, vindos do Inverno, a chegada à Primavera convide à renovação de muitas coisas, inclusivè, de agasalhos. No entanto, o que poderia ter de atractiva uma ida às compras na pré-história dos shoppings dissipava-se rapidamente quando se chegava ao fatídico acto das escolhas finais. Ter dez ou doze anos e a mãe ao lado a organizar uma equipa de jurados entre os outros clientes da loja para me convencerem de que aquela camisa cheia de cornucópias e com uns colarinhos que chegavam às orelhas me ficava a matar, para além de que seria um óptimo substituto para a t-shirt coçada que levava grudada ao corpo, ainda se mantém hoje como uma recordação bem deprimente. Curiosamente, nos tempos mais recentes, finalmente tesoureiro de uma família com três mulheres, não deixo de me rever no espírito pret-a-porter da quadra, embora mantendo a azougada memória herdada da infância que me permite ser implacável a partir do terceiro ou quarto «este vestido é tão lindo, papá!» Um outro trauma vem do contexto de religiosidade bafienta em que a Páscoa se desenrolava e que originava que as duas semanas de férias de escola se transformassem quase automaticamente em frequências de igreja. A anormal concentração de missas, catequeses, confissões, vias-sacras e procissões obrigavam a uma inaudita memória para se decorar a cor das roupas dos padres ao mesmo tempo que tentava compreender como é que o meu parceiro de bilhar havia conseguido meter a preta a uma só tabela. Fugir a assistir a, pelo menos, uma via sacra durante este período era uma tarefa heróica porque as mães tendiam a julgar que só assim poderiam livrar os filhos de todos os pecados mortais originados pelos alternativos jogos de matraquilhos e snooker, pelas sangrentas e bem mais animadas matinées no cinema ou pelas futeboladas de mercurocromo jogadas no pelado de saibro do adro da igreja. Lembro-me que o castigo divino provocado pelo pecado da ausência a uma via-sacra era mais ou menos equivalente ao de apalpar as colegas durante a catequese. Mas o supremo clímax pascal dava-se após a procissão nocturna do Senhor Morto, quando o silêncio acusador de um cortejo de homens vestidos de roxo, encapuzados e armados de archotes, passando por entre filas cerradas de beatas que empunhavam terços e rezas, era interrompido pelo assustador barulho das racas de pau que me acordavam dos pesadelos onde eu me debatia com Judas Iscariotes, Pilatos, uma porrada de judeus, romanos, fariseus, escribas, centuriões e toda a sorte de demónios que tinham, nessa altura, o vício de se reunirem debaixo do meu travesseiro.quarta-feira, 8 de Abril de 2009
Não há duas sem três
O terceiro caso de assédio, provado, de que fui vítima em Angola ocorreu, muito provavelmente, em Cabinda, numa estadia programada para dois dias mas prolongada, por imposição da TAAG, cada vez mais agente promotor do turismo interno angolano, por mais um. Durante a noite, o tão temido barulho dos voos rasantes dos meus carrascos alados, a que costumo ripostar com cegos golpes de palma aberta sobre as orelhas atacadas, acordou-me por diversas vezes, obrigando-me a erguer da cama para encetar um bailado de pugilista sonâmbulo, a distribuir upercuts sobre todas as pintas existentes nas paredes e nos móveis que forravam o quarto do hotel. Pela manhã, bem que me pareceu notar sorrisos trocistas nos ferrões dos cadáveres dos dois pilotos que deixei esborrachados nos azulejos das paredes da casa-de-banho. Prenunciavam já, sei-o agora, mais uma noite de lasciva fecundação. «Um por campo» foi desta vez a sentença do juiz-de-bata-branca do costume, exactamente na véspera do meu regresso a Portugal. Por isso, conto agora vingar-me a dentadas de ovos cozidos em calda de cebola, devidamente salteados e pimentados, a amêndoas tiradas do arco-íris de taças que por aqui centram mesas, a vinhos que mudarão de cor e taninos consoante o que olhos e narizes pleonasticamente vêem e cheiram, a coelhos de chocolate de que não gosto mas ainda menos suporto fitarem-me firmes e hirtos nas suas enormes orelhas cobertas por papel prateado, a pão-de-ló recheado a LBV e a tudo o que saiba a exagero. No regresso a Angola, tenho a certeza de que vingarei com colesterol as próximas picadas. terça-feira, 7 de Abril de 2009
Post de uma morte (não) anunciada
domingo, 5 de Abril de 2009
Selagens
sábado, 4 de Abril de 2009
Pif-Asus
Depois de o ter já ameaçado, o Asus pifou mesmo. Daí que, nos últimos dez dias, algumas novidades terão passado ao lado deste blogue. Por exemplo, a terceira confirmação do meu, tão fulminante quão preocupante, sex-appeal junto das mosquitas de Angola, o anúncio antecipado, mas não publicado, da morte deste blogue e, finalmente, o regresso a Portugal mesmo a tempo de assistir a outra propalada paixão, a de Cristo. Pelo meio, passaram ainda algumas outras águas de que espero poder pontear nos próximos dias. Num outro laptop perto de mim. Finalmente. quinta-feira, 26 de Março de 2009
Quem sai aos seus...
quarta-feira, 25 de Março de 2009
Facas na Liga
Após cinco minutos a assistir, através da RTPi, à baboseira que vai decorrendo no Prós e Contras, atirei a almofada do sofá ao chão, vaiei o comando do televisor, pontapeei um copo de plástico e saí da sala com a frustante convicção de que o melhor e mais salutar programa desportivo da televisão portuguesa é a Liga dos Últimos.Redzinger
Bento XVI falou no tabu da corrupção. E agora? Pois, boa pergunta. Se calhar, logo seguida por uma outra, ligeiramente mais plebeia. Quem diria que este Ratzinger viria aqui armar-se em João Paulo II, o verdadeiro Papa? Quiçá seguida por um pagão acto de contrição. Vá-se lá confiar nesta gente mais na sua eclesiástica mania de protagonismo. Então, agora... vamos lá a saber quem foram os editores de jornais que se atreveram a transcrever na íntegra os discursos do Papa.terça-feira, 24 de Março de 2009
Exitosos defuntos
domingo, 22 de Março de 2009
Instâncias papais
Bento XVI insta classe dirigente a pôr fim à corrupção. E instou bem, como, certamente, o mundo inteiro terá considerado. Tal como consideraria igualmente uma outra instância, a da profilaxia do preservativo, que permitiria salvar por aqui tantas criaturas de Deus. Não se conhece, entretanto, é a resposta da corrupção à afirmação papal. O que se sabe é que, para já, irá haver, amanhã, nova tolerância de ponto em Angola. A acrescentar à da sua chegada, na última sexta-feira. Desta vez, para festejar a despedida do Papa. Em mais uma prova de que a produtividade angolana há muito foi abençoada.Compumalária
Desde a última segunda-feira que este blogue anda entupido por uma dúvida. Será que a malária também pega aos computadores? A mim, bastou-me vegetar uma tripla sessão terapêutica de dez comprimidos diários e trocar o sábado de sol e mergulhos no Cabo Ledo pelo insoso estirar no sofá de sala, a ver rugby, ténis, ciclismo e tudo o mais que recusásse fazer a pedagogia da doença. Mas aqui o Asus, o computador de Taiwan que me tem acompanhado nesta aventura africana e que me serve de muleta no blogue, parece ter ficado bem mais afectado. Começou por deixar de ver e de me mostrar nas chamadas video lá para casa, a vingar-se das sucessivas greves da Movinet com um definitivo lay-off, a não reconhecer até as pen-drives com quem costuma dormir na mala em que os transporto e, durante toda a semana, a acrescentar mazelas várias até que, ontem, finalmente, entrou em coma. A única coisa que conseguia fazer, qual soldado apanhado pelo inimigo durante uma batalha, era mostrar o próprio nome no arranque. Ainda assim, apenas a preto e branco. Hoje, estranhamente, parece ter acordado do coma. Efeitos da estadia de Bento XVI em Luanda? Bruxaria? Pelo sim pelo não, prefiro não me meter nesta conversa.segunda-feira, 16 de Março de 2009
Toque a rebate
Claro que nem toda a gente terá a possibilidade de, num determinado dia, acordar, espreguiçar-se a meio do gesto de se levantar da cama, arrastar o resto do sono até à casa-de-banho, presentear o espelho com o primeiro bocejo do dia, vigiar se as olheiras da manhã anterior lá continuam, fazer tiro ao alvo na sanita, voltar ao lavatório para limpar as mãos, reconfirmar a má imagem da mesma cara de há momentos atrás, preparar-se para a aspergir com as primeiras palmas de água do dia e resmungar mentalmente qualquer coisa antes de, maquinalmente, abrir a portazinha de plástico do móvel de inox cinzento pregado na parede de azulejos verdes e brancos enquanto sentencia em voz alta «se calhar estou com febre» e retira o termómetro a pilhas, estende-o em horizontal no sovaco esquerdo e volta ao espelho para retomar o policiamento das rugas, dos olhos remelados, do cabelo cada vez mais raro, das orelhas que insistem em não encolher e do raio dos pêlos brancos que espreitam do nariz e de que me esqueço de cortar há dias, preocupado como ando sempre com o tempo de saltar para o chuveiro, enfiar-me dentro do fato, passar a correr pelo pequeno-almoço e esquecer-me de tomar o café, mas não de travar as portas do jeep antes que alguém seja mais rápido do que eu, chegar ao escritório e anunciar à primeira secretária que encontrei, no mesmo tom solenemente pardacento como costumo pedir-lhe folhas A4 em falta na fotocopiadora, «importa-se de marcar uma consulta na clínica pois desconfio que estou com malária?» Vendo bem as coisas, esta realidade é bem mais séria do que quaisquer piadinhas sobre o sexo dos mosquitos postados no blogue de um autor momentaneamente febril.Os mosquitos tocam sempre duas vezes?
Finalmente sei o que, em malariês, quer dizer «dois por campo». As observações microscópicas sobre os diversos campos de visão numa lamela de vidro onde jaz o sangue retirado com uma guilhotina anã da ponta do meu indicador direito, urrrhh, deram conta da existência, em média, de dois bichinhos. Sendo, apesar de tudo, sinal da pouca fertilidade do solo, a leitura aqui deste lavrador é a de que houve, pelo menos, dois mosquitos que conseguiram ultrapassar a, aparentemente, vã barreira do repelente com que costumo besuntar o cocuruto, as pontas das orelhas, as costas das mãos, os braços até ao cotovelo e as mangas das camisas quando me esqueço e as desarregaço. Embora desconhecendo a longevidade média dos mosquitos angolanos, atrevo-me a considerar que não terão sido os mesmos de há nove meses atrás. Quando muito, terão sido as suas descendentes.domingo, 15 de Março de 2009
Esquecer de respirar
sábado, 14 de Março de 2009
O último excomungado
Menina violada abortou e a mãe foi excomungada. Queixas contra abusos do clero aumentaram. Duas notícias de sentido epistolarmente antagónico. Mas só aparentemente. Afinal, tanto um caso como o outro comungarão da mesma sagrada leitura. A de que o crime compensa. Valha-nos Deus. Pelo menos enquanto não o excomungarem também.quinta-feira, 12 de Março de 2009
Estado Falhado de Sucesso
O relatório do Global Witness sobre a responsabilidade da banca mundial no empobrecimento de Angola é impressionante. Tanto due dilligence para, afinal, acabar a financiar-se mais corrupção. E 1,7 mil milhões de dólares que, todos os anos, ficam por contabilizar nas contas do Tesouro angolano, é obra. A mesma que tem falhado a este país viciado em desvios. Comparado com isto, até Madoff julgará ter atenuantes.quarta-feira, 11 de Março de 2009
Um país criativo
Presidente da República pede parcerias criativas. O Presidente da República, José Eduardo dos Santos, anunciou ontem, em Lisboa, que “Angola está muito interessada em definir as parcerias com o sector privado luso que sejam criativas, que produzam resultados e que sirvam para resolver problemas dos respectivos povos”, in Jornal de Angola, hoje.terça-feira, 10 de Março de 2009
Me too
Para já, algures entre a previsível boçalidade com que a blogosfera tuga que li acompanha a visita do presidente angolano a Portugal, eis o meu post preferido.segunda-feira, 9 de Março de 2009
Catorzinhas
A primeira vez que ouvi falar de catorzinhas foi num obscuro jantar que reuniu uma mescla de colegas de trabalho e amigos de colegas de trabalho. Mantendo o mesmo tom de caserna em que o dito jantar decorrera, lembro-me que alguém afiançara que o «broche» de uma miúda de catorze anos seria o elixir do que considerava a juventude dos seus quase sessenta. Em diversas outras ocasiões e mais ou menos veladamente, assisti por aqui à repetição do testemunho do mesmo pretenso teen-rejuvenescimento, principalmente na versão do homem-casado que tem uma ou várias jovens namoradas-por-conta. Na opinião de um deles, profissionalmente próximo e por isso julgando-se isento de licença prévia para opinar, trata-se de um modelo familiar que exemplificará a reivindicada maior «felicidade» do homem africano face à monogâmica fidelidade ocidental. Sabendo-o pai de três filhas menores, fico sem saber se se referirá também aos genros. Já antes de ler Pepetela havia percebido que, por aqui, as jovens amantes tenderão a ser apetecíveis divisas que enfeitam lapelas, não apenas de generais e de todo o tipo de praças locais, mas também de expatriados facilmente seduzidos pela proverbial maior impunidade africana. A virilidade de cada um passa a medir-se pela quantidade de crianças que coleccionam, não havendo por isso, certamente, lugar a um grande rigor na selecção da idade de cada uma. O que poderá significar catorze, treze, doze, onze, dez, até menos anos, para estes felizardos? Porventura, passarem a ter de se preocupar com fraldas, chuchas ou barbies e a integrarem inesperados ménage à trois. Claro que nenhum destes homens felizes ignorará que se estará a aproveitar da miséria instalada e que o que estarão por aqui a praticar, facilitar ou fomentar é crime, mesmo que não penalizado em Angola. E que essa felicidade terá, afinal, um outro nome. Pedofilia. E que não adiantará justificarem-se com costumes ancestrais forjados na natural preponderância do número de fêmeas, com históricos hábitos da maior disponibilidade africana para os jogos corporais, ou ainda, aos propensos a uma intervalada maior intelectualidade, a defenderem-se nos valores culturais do país, pelo simples facto de que a essência de qualquer cultura está em colocar-se, sempre, as pessoas em primeiro lugar. Mas sabe-se também como, ao longo dos tempos, a hipocrisia sempre demonstrou ser o maior obstáculo da civilização.domingo, 8 de Março de 2009
Mulherio II
Mulherio
Na terra das catorzinhas e da poligamia quase constitucional, o respeito pelas mulheres é tal que até o facto do seu Dia Internacional calhar a um domingo obriga a passar-se o feriado para o dia seguinte.domingo, 1 de Março de 2009
sábado, 28 de Fevereiro de 2009
Refinação
quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009
Restos
terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009
É Carnaval ninguém leva a mal (II)
É Carnaval ninguém leva a mal (I)
domingo, 22 de Fevereiro de 2009
New Label
Numa Europa cada vez mais taralhoca, onde as esquerdas clamam pela nacionalização de tudo o que mexa, incluindo o empreendedorismo, e as direitas voltam a entoar o consabido refrão do choque fiscal, ambos insensíveis ao entendimento de que tudo terá de ser diferente daqui para a frente, uma voz parece transportar o bom-senso que tem faltado. Creio ser o caso de Gordon Brown, o até há pouco pior prime minister da história recente do Reino Unido. Acalmada a voracidade dos media perante a falta de carisma que atribuiram ao sucessor de Blair, dependerá sobretudo dele e das decisões que vier a tomar sobre o sistema bancário do país, que se diz ainda mais falido que o da Islândia, a sobrevivência da Inglaterra. Nos tempos que correm, quer-se mais gestores do que políticos. No sentido de que haverá que, sobretudo, ter a convicção de procurar ver-se para além da espuma das sondagens.sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009
Idiosincrassias
Alcácer-Quibir
Ministro angolano critica 'amiguismo' no crédito bancário. Agora que Angola tomou o lugar do Brasil no preenchimento da legenda do famoso quadro da árvore das patacas, pendurado na imaginação dos que emigraram durante grande parte do século XX, convirá que os tugas que têm ameaçado invadir Luanda com três boeings diários saibam calibrar os fundamentos da economia local, bem como os anseios do empresariado com quem estarão condenados a fazer parcerias. Como este extraordinário exemplo de inconformismo de um ministro que luta contra a discriminação de que diz ter sido alvo, tendo-a saneado apenas após a chamada à liça do regulador-mor. Com a ligeireza da bagagem de alguns tugas que vejo arribar por aqui, receio bem que Angola possa vir a tornar-se no Alcácer-Quibir de muitos projectos.sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009
Capulanas
A ideia era comprar uma capulana para matar saudades a uma tuga que já fora também angolana. De imediato, as duas jovens quitandeiras largaram, sorridentes, as montanhas embrulhadas de pano que traziam à cabeça e estenderam em leque as peças pelo chão. Quanto custa cada uma? Dois mil kwanzas? É muito caro! Compramos ainda ontem uma a setecentos e cinquenta, mentimos. Um par de sorrisos, inexpugnáveis na vontade de aumentar o pecúlio da jorna ou, quiçá, apenas no desejo de se desfazerem de mais um peso na cabeça, logo desarmariam o ímpeto regateador dos compradores. Escolha, senhora, tem aí panos muito bonitos! A mil não, que foi a quanto compramos, mas logo logo se faz um desconto. Uma luta desigual estava prestes a ser travada naquele fim de tarde junto à Baía, quando uma das mulheres, finalmente livre do peso que carregava à cabeça, espreguiçou a gravidez por debaixo do longo vestido amarelo. A partir daí, já não era o marralhar do preço de um simples pano colorido, no banalíssimo propósito de recuperar o desconto da venda como se fora a um local, que passara a ofuscar-nos naquele quente e amorfo fim de tarde, como o são todos em Luanda. Então, fica mil para si e mil para o bebé. Já não me lembro das cores estampadas na capolana, que permanece dobrada tal como foi entregue, mas recordo bem o colorido dos sorrisos que deixamos para trás.A saga continua mesmo
quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009
Fezada de projecto
quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009
O inferno em África
Quando leio o que se passa no actual Zimbabué, que desde Dezembro imprime notas de 10 mil milhões, que equivalem a menos de 20 dólares americanos, para tentar enganar uma hiper-galopante inflação anual estimada em mais de três triliões por cento, que aquele caixão de notas não dá para comprar mais do que quinze carcaças de pão e que 90% dos cerca de 15 milhões de habitantes está desempregada, interrogo-me se, alguma vez, um país que houvesse sido colonizado por portugueses poderia transformar-se num inferno como este.terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009
Jungle style
Uma das consequências desta minha passagem por Angola será, seguramente, a perda da carta de condução. Em Portugal, no regresso. Por aqui, pelo contrário, espero vir a tornar-me piloto de rallye. Hoje de manhã, pela primeira vez, galguei um lancil e conduzi quase cinquenta metros por cima de um passeio com a ajuda solícita dos peões que lá se encontravam, os quais, energicamente, mo sinalizaram mal anteciparam o congestionamento provocado na estrada pelo toque entre um camião TIR e uma carrinha. Receio bem vir a viciar-me neste tipo de condução, a que alguns colegas sul-africanos vêm, certeiramente, chamando jungle style. Mas que tem a vantagem, inquestionavelmente, de injectar adrenalina logo pela matina. domingo, 8 de Fevereiro de 2009
Empregos em bloco
Não há fome que não dê em fartura?
Fundamental
A Associação 25 de Abril e a RTP inauguraram um sítio na internet onde, baseado no livro acima, pretendem dar a conhecer a Guerra Colonial que decorreu entre 1961 e 1974 na Guiné, Angola e Moçambique. Absolutamente fundamental para o conhecimento deste período da História portuguesa e, também, dos novos países africanos nascidos após o final do conflito.sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009
quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009
Provincianismo beef
O que é sobretudo irritante no soundbyte do caso Freeport não é saber se Sócrates meteu a mão na massa, se a mãe comprou o apartamento com a pensão de reforma aplicada no off-shore ou se o tio falsificou-se como testa-de-ferro do sobrinho ministro. O que é irritante é que o País inteiro se ponha de lupa em riste às ordens de uns quaisquer Bobbys de uma esquadra da polícia inglesa, tardiamente tomados por um ataque de justicialismo sobre uma ressabiada carta anónima. Que, entretanto, se encontrem outros cidadãos da União Europeia a serem pressionados para cederem aos desempregados locais os empregos que, certamente, terão sido legitimamente conquistados nas refinarias da Escócia e nas plataformas petrolíferas do Mar do Norte, já lhes parecerá uma questão de somenos. Curiosamente, esta hipocrisia tem sido replicada por tudo o que é blogue no rectângulo, confortavelmente resguardados na brisa acusadora proveniente da nobre e exemplar Inglaterra. É o regresso do raquítico provincianismo português, como certamente escreveria o blogger Fernando Pessoa.quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009
Caos com rodas
domingo, 1 de Fevereiro de 2009
Aviso à navegação
Alguém deu-se ao trabalho de cruzar o Atlântico pelos ares para vir pousar âncora perto de mim, pelo que nas próximas semanas este blogue ficará mais preguiçoso. Passarei, concerteza, a falar mais de mim, de ti, de nós, do que de todos os eles que costumam desfilar nestes posts. E a deixar de estar atento ao que se passa em redor, se é que se tem passado, verdadeiramente, alguma coisa por aqui. Passarei, então, a semicerrar a janela donde habitualmente espreito a vizinhança e a espreitar para dentro. Redescobrindo, como sempre suspeitei, que há bem mais vida para além do desterro.sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009
Um problema de escassez
quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009
A saga continua
terça-feira, 27 de Janeiro de 2009
Voto nesta
Esta petição pública chegou-me por correio electrónico. Tem-me sido difícil resistir à sua subscrição. Sobretudo por dever patriótico.Grupo armado auto-denominado "Nortada" raptou esta manhã um grupo de deputados que se encontrava nos gabinetes da Assembleia da República (como ocorreu às 11 horas não estavam lá muitos).
Estão a exigir o pagamento de 15.000.000,00 euros em troca da sua libertação.
Se não for pago dentro de 24 horas, vão regá-los com combustível e queimá-los vivos.
É imperativo organizar uma colecta para receber ajudas !!!!
Conseguiu-se até agora:
- 1580 litros de gasolina Sem Chumbo 95- 1320 litros de gasolina Sem Chumbo 98- 1250 litros de gasoleo- 175 de gasoleo agricola- 78 caixas de fosforos- 21 isqueiros- 1000 acendalhas- 337 botijas de gás
Não mandem álcool, pois o mesmo pode vir a ser consumido pelos próprios deputados.
Aceitam-se tambem barris de pólvora.
Se você apagar esta mensagem, é porque não tem coração... Por favor, leia e ajude...
PORTUGAL PRECISA DE SI !!!
segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009
Serviços de limpeza
domingo, 25 de Janeiro de 2009
Rtpi-análise
Um País de almirantes
25 de Janeiro
Tirando as dos meus, nunca fui de decorar datas de aniversários. Muito menos de cultivar essa falsa simpatia de quem coloca na agenda os dias de anos de amigos, conhecidos, vizinhos, colegas de trabalho ou, até, clientes, para lhes ligar logo às 9 horas da manhã, na azáfama do cumprimento da primeira tarefa do dia, a desejar-lhes feliz-aniversário-e-que-seja-por-muitos-anos para receber do outro lado um resmungo de obrigado-e-que-tu-possas-cá-estar-para-contá-los. O que nem sempre será verdade quando sabemos que o parabenizante, como se diz no Brasil, quer afinal continuar a sentir que aprisiona a nossa intimidade pelo menos uma vez por ano e o que nós queremos, em contrapartida, é que ele vá colher urtigas até ficar com as pontas dos dedos impróprias para folhear a agenda à procura da próxima vítima aniversariante. Dito isto, confesso, no entanto, ter, desde miúdo, uma fraqueza agendada. O dia 25 de Janeiro. Que é a data de aniversário do grande Eusébio da Silva Ferreira, o Pantera Negra, o maior futebolista de sempre, que faz 67 anos hoje. E estou bastante chateado porque desde as 9 da manhã que tenho vindo a tentar ligar-lhe e ele continua com o número interrompido.sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009
Amizade colorida
Angola já é o maior fornecedor da China, à frente da Arábia Saudita. Tenho ouvido, por aqui, a anedota de um pai angolano que entra esbaforido num consultório pediátrico levando nos braços um bebé com algumas semanas de vida. «Senhor doutor, o meu menino não abre bem os olhos praticamente desde que nasceu!» Após o exame da praxe, resposta do médico ao falso progenitor. «Meu caro, olhe que quem tem a obrigação de passar a abrir bem os olhos é você!» Há quem considere que é isto mesmo que Angola tem de fazer. Mais cedo do que mais tarde. Antes de passar a ficar com os olhos-em-bico com a oleosa sofreguidão de imaginar o seu futuro plantado por pomares de árvores das patacas que, afinal, poderão não passar de eucalíptos. quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009
Bush e o sucessor
Não deixa de ser interessante verificar que o mesmo povo que escolheu, agora, Barak Obama tenha escolhido, antes, George W. Bush. Essa será a grandeza, porventura suicidária, da América. Retenho o sentido de uma frase dita num inquérito de rua da CNN por uma cidadã anónima. A qual, se calhar, nem blog terá. «Espero que agora possamos impor-nos ao mundo pela natureza da nossa cultura como nação e não pelo nosso poderio militar». Acho boa ideia. quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009
Como funciona o mercado de acções
Estava-se no Outono e os Índios de uma reserva americana perguntaram ao novo Chefe se o Inverno iria ser muito rigoroso ou se, pelo contrário, poderia ser mais suave. Mas, como também era um líder prático e preocupado, alguns dias depois teve uma ideia. Dirigiu-se à cabine telefónica pública, ligou para o Serviço Meteorológico Nacional e perguntou: "O próximo Inverno vai ser frio?"
-"Parece que na realidade este Inverno vai ser mesmo frio!", respondeu o meteorologista de serviço.
O Chefe voltou para o seu povo e mandou que cortassem mais lenha. Uma semana mais tarde, voltou a falar para o Serviço Meteorológico:
"Vai ser um Inverno muito frio?"
"Sim", responderam novamente do outro lado, "O Inverno vai ser mesmo muito frio!".
Mais uma vez o Chefe voltou para o seu povo e mandou que apanhassem toda a lenha que pudessem sem desperdiçar sequer as pequenas cavacas. Duas semanas mais tarde voltou a falar para o Serviço Meteorológico Nacional:
"Vocês têm a certeza que este Inverno vai ser mesmo muito frio?"
"Absolutamente!", respondeu o homem. "Vai ser um dos Invernos mais frios de sempre!".
"Como podem ter tanta certeza?", perguntou o grande Chefe.
O meteorologista respondeu: "Os Índios estão a aprovisionar lenha que parecem uns doidos!"
É assim que funciona o mercado de acções.
terça-feira, 20 de Janeiro de 2009
Kissing You - Des'ree
O Anónimo (oanonimoanonimo.blogs.sapo.pt) está a publicar as canções de amor favoritas dos seus leitores. Escolhi a voz fabulosamente contida, ou contidamente fabulosa?, da Des'ree nesta música, que me parece, simplesmente, contida.
segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009
Lapsus
domingo, 18 de Janeiro de 2009
Saiu-me a lotaria!
sábado, 17 de Janeiro de 2009
Um grande romance
Angola tem tudo para grandes enredos romanescos. Um país que procura recuperar das suas duas identidades, da subalterna, tecida nas várias décadas da colonização e da autónoma, retalhada por trinta anos de guerra civil. Um povo de várias tribos que sempre mostraram fraca resistência à integração numa só, por obra e graça globalizadora de uma pequena esquadra de marinheiros tugas que por aqui amarou há séculos atrás. Um sistema político ocupado pelos vencedores das várias guerras, batalhas e guerrilhas em que o país se viu envolvido, algumas delas fomentadas por eles mesmos. Uma economia controlada pelos mesmos generais, políticos, praças e paisanos, que se viciaram em ocupar os tempos livres em jogos com regras cada vez mais parecidas com as do Monopoly. A extrema desigualdade entre as minorias, uma elite predadora de ricos, influentes e poderosos e o mais que maioritário cocktail de remediados, gasosados, pobres, analfabetos, miseráveis e tudo-junto. A posse de um maná muito procurado e de outros ainda escondidos ou inexplorados, que lhe tem permitido ocupar o espaço de um pequeno oásis de fartura num universo faminto e em reboliço. A invasão, nalguns casos ameaçadoramente gulosa, de gente dos quatro cantos do mundo, trazendo na bagagem hábitos, ritmos e perspectivas de vida pertencentes a um século que por aqui nunca passou. Os caldos, de pedra, de carne, de letras, de todas estas vivências e percursos, paralelos, transversais, oblíquos, que acabam por entrecruzar as pessoas e as suas expectativas, sonhos, afectos. E os sucessivos cortes no tempo e no espaço que tudo isto provoca nas vidas e nos destinos destes personagens em potência, que somos afinal todos os que por aqui andamos, que habitam este romance ainda não escrito, por aguardar alguém que traga no olhar a sagacidade de sentir este enredo e o saiba afiar na pena.quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009
Ausente & passado
O que se faz quando nos interrompem as conversas, nos deixam a falar sozinhos, gaguejam quando os contactamos, hesitam quando nos atendem, não nos levam aonde queremos ir ou, simplesmente, nos largam no escuro? E ainda por cima insistem que estão sempre connosco. Dois dias seguidos sem acesso à net? E ainda se atrevem a dizer que estão sempre presentes? Irra. Bora movinet para outro lado.quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009
Uma história mal contada
A globalização tem destas coisas. O que num canto do mundo é visto como discriminação, num outro pretende ser nivelador. A maioria das deputadas portuguesas, por exemplo, considerou discriminatória a fixação de quotas femininas no Parlamento. Por aqui, olha-se como niveladora a obrigatoriedade de empregar angolanos em todas as estruturas directivas das empresas petrolíferas. Como se as empresas privadas ganhassem alguma coisa em empregar expatriados ao dobro, triplo, quadruplo, ou até mais, do custo de um trabalhador local se com produtividade idêntica. Não há dúvida de que é sempre mais fácil decretar estas coisas do que investir na exigência. Mundos. Separados, creio, apenas pelo tempo. O que as mulheres tugas recusam por sexista, os angolanos aproveitam como esmola. Para, porventura, passarem a sonhar com mais um daqueles espadas em segunda mão importados dos Emiratos que fazem morrer de inveja os vizinhos. Os que não terão leis proteccionistas para salvaguar a evolução na carreira. Ou no desemprego.domingo, 11 de Janeiro de 2009
Apendicite luandense

Luanda é a cidade mais cara do mundo. Nunca pensei ter o privilégio de viver na cidade mais cara do mundo. Muito embora já me tenha imaginado, no passado, a trabalhar em Wall Street, em Cannary Wharf ou em La Defense. Jamais em Luanda. Uma partida pregada por uma globalização que se tem mostrado danada para a brincadeira. Talvez, também, por isso, consta que nova-iorquinos, londrinos e parisienses estarão estupefactos com esta ultrapassagem luandense pela direita. Hábitos de desrespeito por regras de trânsito à parte, há quem afiance que o regime angolano and
ará satisfe
ito com mais esta ascenção ao que julgam ser o podium mundial. Depois da mais bonita bandeira e do mais lindo hino, agora, a cidade mais cara. Pena o tropeção nos preços do crude. E o trambolhão na candidatura à mais alta taxa de crescimento do PIB. Entretanto, depois da surpresa, sobreveio a curiosidade. Consta já que, franceses, compararão a Torre Eiffel à do prédio inacabado do Kinaxixi, ingleses, o bairro de Kensington ao da Samba e, americanos, a Estátua da
Liberdade ao
mausoléu de Agostinho Neto. E, também, que o mundo inteiro se interrogará agora sobre o sentido de um velho ditado tuga. «O que é barato sai caro e o que é bom custa dinheiro». E, apêndice angolano, também muita gasosa pelo meio.sábado, 10 de Janeiro de 2009
Vidas em cacos
Cento e trinta e cinco feridos com cacos de garrafas foram atendidos nos Bancos de Urgência dos hospitais do Prenda, Josina Machel e Américo Boavida, em Luanda, no primeiro dia de 2009. Uma das mais letais armas de ataque em Luanda, logo a seguir às de fogo, são as garrafas partidas, vulgo local cacos de garrafa. Há-os de todos os modelos e para todos os gostos. Desde os populares castanhos e made in Portugal tamanhos médios, Sagres, Cristal e Superbock, que apresentam a finura dos recortes tipicamente latinos, dada a irregularidade dos bordos quando partidos contra a parede mais próxima. Passando pelos verdes alemães, o Heineken na versão mais pequena mas mais maneirinha e facilmente disfarçável, por exemplo, no bolso de trás das calças e o Grolsch, um modelo mais avantajado e tilintante pelo badalo da rolha de porcelana, sendo ambos extremamente fiáveis pelo rigor e disciplina nos cortes dos seus vértices de vidro. Até à mais-à-mão oferta local, onde a Cuca lidera, muito embora mais pelo contributo na fase de pré-preparação da luta, aquecida pelo menor preço e maior consumo, do que pelo tamanho atarrancado e vidro adelgaçante, que lhe retirarão a acutilância dos mais pontiagudos da concorrência. De acordo com especialistas do sector, o mais longilínio Superbock será a referência deste mercado, pelo equilíbrio entre tamanho e textura, o que permitirá ao utilizador uma acrescida destreza no acto de transfornar a bebida em cutelo. Diversas carótidas examinadas nas morgues locais têm confirmado isto mesmo.quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009
O meio
Indubitavelmente, o meio faz o homem. Também, o escritor. Talento e inventiva à parte, escreve-se mais e, quase sempre, melhor quando o meio apela. Foi assim na Europa berço-da-civilização-ocidental, antes, durante e depois das grandes matanças, na Rússia pré e post gulag, na América Latina, durante a longa noite dos generais, na sempre hiper-activa América farol-do-mundo e um pouco por cada canto do planeta onde os ratos não têm permissão para invadir bibliotecas e, de alguma forma, o meio se faz à escrita. Actualmente, por exemplo, Angola. Este meio, este povo, esta vida, outros povos, outras vidas, esta pressão dos contrastes. Tivera eu tempo e disponibilidade para me internar neste enredo e era menino para começar hoje mesmo a escrever um romance.Saudades do rectângulo
Se receberes esta carta, é porque chegou. Se ela não chegar, avisa-me que eu mando-te outra.
Tê pai leu no jornal que a maioria dos acidentes ocorrem a 1km de casa. Assim, mudámo-nos para mais longe.
Sobre o casaco que querias, o tê tio disse que seria muito caro mandar-to pelo correio por causa dos botões de ferro que pesam muito. Assim arranquei os botões e puse-os no bolso. Quando chegar aí, prega-os de novo.
No outro dia, houve uma explosão na botija de gás aqui na cozinha. O pai e eu fomos atirados pelo ar e saímos fora de casa. Que emoção: foi aprimeira vez em muitos anos que o tê pai e eu saímos juntos.
Sobre o nosso cão, o Joli, anteontem foi atropelado e tiveram de lhe cortar o rabo, por isso toma cuidado quando atravessares a rua.
Na semana passada, o médico veio visitar-me e colocou na minha boca um tubo de vidro. Disse para ficar com ele por duas horas sem falar. O teu pai ofereceu-se para comprar o tubo.
Tua irmã Maria vai ser mãe, mas ainda não sabemos se é menino ou menina, portanto não sei se vais ser tio ou tia.
O teu irmão António deu-me muito trabalho hoje. Fechou o carro e deixou as chaves lá dentro. Tive que ir a casa, pegar a suplente para a abrir. Por sorte, cheguei antes de começar a chuva, pois a capota estava em baixo.
Se vires a Dona Esmeralda, diz-lhe que mando lembranças. Se não a vires, não digas nada.
Tua Mãe Marta
segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009
A realidade da ficção
Sensação estranha esta de se ser testemunha da fuga de um personagem de um livro que se leu e que, de repente, se apresenta, de carne e osso, à nossa frente. Ou, como neste caso, a nossos pés. Com a carne e com os ossos descritos no livro donde descarnou. Aconteceu isso um destes dias, próximo da praça do Kinaxixi. O personagem era Simão Kapiangala, saído do livro de Pepetela, «Predadores». Ex-guerrilheiro das FAPLA, vitimado na guerra civil por uma mina, nunca perdoou ao médico cubano a amputação das pernas e do braço direito. «...Porquê não me deixaste morrer, bastava fumares um cigarro a mais... bastava mesmo só acabares a ponta de cigarro que tinhas nos dedos, para a mina ter completado a sua obra, muito melhor que ficar agora assim...». Sobrevivia, sobrevive?, de esmolas na rotunda do Kinaxixi, quando não vinha, virá?, a polícia com preocupações sanitárias e o levava, levará ainda?, e a outras vítimas de poliemielites, minas e mutilações várias, até «...umas barracas longe do centro, onde davam rações de combate para comerem durante dois dias e depois os esqueciam para morrerem mais depressa.» Demorava depois a regressar às ruas de Luanda, era até o último a chegar, mas chegava sempre, «...se enrolando para rebolar sobre o asfalto incandescente». E quando as dores lhe invadiam o corpo, «... um relâmpago lancinante que lhe atravessava a cabeça como rasto de bazooka», Simão toureava os carros a meio da via «...levantava o braço esquerdo no ar, gritava para os motoristas, me mata já, passa por cima de mim...» e «...por vezes se punha mesmo um pouco mais para o lado, suicida, obrigando os carros a fazer um desvio pronunciado, esquivando o corpo oferecido em redenção.» O Simão que agora encontrei não se põe a meio da via, antes fica estacionado no separador central, junto ao semáforo que controla uma das entradas na praça, à espera que os carros parem para lhes bater na porta com os nós dos dedos sobrantes e para obrigar os motoristas distraídos a abrirem o vidro e a baixarem os olhos para o barulho fantasma. Perante este e outros tantos quadros que se vêem expostos por aqui, nem sempre previamente emolduráveis por letras, é difícil racionalizar o esmolar da consciência, pelo que me tenho limitado a poupar de seguranças, arrumadores, paquetes, polícias e outros pedintes mais reivindicativos.domingo, 4 de Janeiro de 2009
Esquemáticos
CGD. Dois altos quadros reformados por invalidez estão na concorrência. Nos meus primeiros tempos de Angola, assisti a uma apresentação da realidade do país a um grupo de investidores estrangeiros feita por um consultor sul-africano há muito aqui estabelecido. Estranhei que, depois de referir que o velho edifício jurídico-administrativo era herdado da colonização portuguesa, afiançasse que a prática generalizada de esquemas para contornar a legalidade tinha igual apadrinhamento. Gravei isso como uma caluniosa injustiça, convicto da proverbial dor-de-corno sul-africana. Confesso que, de quando em quando, vou perdendo a fé.sábado, 3 de Janeiro de 2009
Maior que o Nobel
Um atípico dia em Cabo Ledo, nublado, chuvoso, fresco, ventoso, grandemente passado sob um toldo de palha a experimentar-se como guarda-chuva, a ida à água para molhar apenas os tornozelos e o «Livro de Crónicas» que sai, pela enésima vez, do meu saco de praia para que possa mergulhar no reconfortante oceano de palavras de António Lobo Antunes. Não conheço ninguém que escreva tão bem quanto Lobo Antunes. E que acrescente às palavras, às frases, à narração, ao ritmo, aos personagens, ao quotidiano deles, aos sentimentos, às figuras de retórica, aos sentidos de tudo isto junto, duplos, triplos, a plasticidade que faz com que o que escreve nos surja, afinal, como um filme projectado. Leio Lobo Antunes desde «Memória de Elefante», isto é, desde o início e, curiosamente, nunca retive uma história a qualquer um dos seus cinco primeiros livros, que li, ao tempo, seguidos. Pelo contrário, fiquei sempre com o tal filme, o mesmo filme, como se fora autor de uma obra só, um grande romance editado em vários capítulos com nomes próprios. Já nos «Livro de Crónicas», que tem três edições, é possível isolar histórias, pessoas e enredos. Os personagens, algumas vezes confundidos com o narrador, tornam-se mais precisos, absurdamente humanos, como o são as pessoas e os ambientes em Lobo Antunes, seguindo o mundo e a geografia donde vivem, quase sempre nos arredores de Lisboa. Leio o «Livro de Crónicas» como se diz dever ler a Bíblia. Pousado na cabeceira, recomeço a ler do princípio quando chego ao final. Tenho reencontrado o mesmo prazer da surpresa da leitura inicial e continuo a soltar as mesmas gargalhadas, agora nas praias quentes da África onde, curiosamente, ele começou a escrever. Há quem diga que Lobo Antunes já seria Nobel se tivesse namorado uma jornalista literária. Diz-se também que trabalha mais de doze horas por dia, assumindo que um escritor é um trabalhador das palavras. Talvez por isso não tenha tempo para namorar. O que é pena, pois o Nobel só teria a ganhar com isso.sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009
A minha São Silvestre de Luanda
Como eu já previra, tudo foi feito para que não pudesse vencer a prova. Já antes, mal foi soprada a minha inscrição, foram convocados os melhores atletas do mundo. A frase-de-ordem era clara. O Tuga não pode ganhar. Por uma vez, senti-me na pele dos representantes portugueses no Festival Eurovisão da Canção. Mas nem assim desfaleci na minha firme intenção de ir à luta. Besuntei os pés de creme gordo, troquei as palmilhas das sapatilhas, calcei um par de peúgas rotas para melhor ventilação e apresentei-me já equipado no local de partida. Mas logo aí me apercebi de que já estava montada a marosca. Começaram por me perguntar se estava inscrito na prova principal dos 15 quilómetros ou na Corrida das Famílias, como se fosse possível a um atleta do meu gabarito ficar-se por uma voltinha de 4,5 quilómetros. Depois, recusaram-se a deixar-me partir na linha da frente com a justificação de que eu não era um «atleta credenciado». Perguntei-lhes onde deveria ter tirado a tal credencial e não souberam responder-me. Senti-me vingado quando ouvi os altifalantes anunciarem que os tais atletas credenciados seriam obrigados a usar um chip, certamente que para evitar que fizessem a conhecida batota de atalhar caminhos. Pelo contrário, fiquei isento de tal controle, no que assumi o reconhecimento do meu estatututo de atleta cumpridor integral das distâncias que faço. Quando ouvi o sinal de partida, lá bem no meio do pelotão de concorrentes, encontrava-me ainda a apertar o segundo nó nos atilhos, pelo que, quando parti, os da frente já teriam sobre mim, seguramente, uma vantagem de mil metros. Mas, ao final do terceiro quilómetro, eu já dominava a corrida. Na esteira da escola de atletismo que perfilho, a melhor forma de se aquilatar das condições em que decorre uma prova, ter a melhor percepção dos adversários e, mais, das diferenças de tempo entre cada um, é vê-la de trás. Foi o que fiz. Deixei-me então ficar numa posição de rectaguarda, donde podia dominar toda a corrida. Ao quilómetro sexto, passei por um grupo de atletas algo heterogéneo mas com futuro garantido noutras modalidades. Primeiro, um indivíduo que corria apenas de calções de lycra, bem enterrados no rabo, a que agarrava uma corda que entrelaçava nas ancas e nos ombros e que acabava numa coleira que trazia ao pescoço, donde saía depois um trela que mostrava à assistência, em brasa de riso e aplausos, mal se punha a caminhar com os braços estendidos para a frente, os pulsos para baixo e a língua de fora, a simular uma cadela na companhia de um dono imaginário. Mais à frente, um par igualmente com futuro promissor, com as carapinhas pintadas de amarelo e vermelho, simulando streep-teases contínuos, com as camisas de alças a rodopiarem no ar e a fazerem levantamentos furtivos dos calções, mostrando à assistência em delírio ora uma, ora outra, bochecha do rabo peludo. A partir do décimo segundo quilómetro, já diluída a Gay Parade, o meu domínio da corrida passou a ser quase absoluto, Foi quando detectei ter o carro-vassoura a pouco mais de quinhentos metros. A partir daí e até à meta, situada em pleno Estádio da Cidadela, foi um sprint contínuo. Beneficei também nessa altura da companhia de um mascarado, equipado com um fato de treino completo e capuz enterrado até ao pescoço, que trazia enrolado a tiracolo um pedaço de alcatifa que lhe dava um ar de deslocado explorador da Antártida. Foi então sob uma chuva de aplausos da vasta assistência, que passou mimosamente a incentivar-me com gritos de «Pula», que encetei a minha recuperação, passando por uma multidão de adversários, creio que três, que haviam parado entretanto por causa das bolhas nos pés. Quando entrei no estádio, já com as bancadas vazias, ainda cheguei a tempo de receber os parabéns de um desconhecido, que se interessou pelo meu par de sapatilhas mal as descalcei no relvado. Valeu-me um dos Ninjas presentes, desportivamente armado até aos caninos na guarda da tenda da enfermagem, sem o qual regressaria certamente a casa descalço. Quanto à minha classificação na corrida, ninguém foi capaz de me informar, nem nada saiu na comunicação social angolana. Um boicote absolutamente inexplicável. «Para o ano há mais», dizia-me alguém no final, no que não tenho podido deixar de concordar. E, nessa altura, doa a quem doer, terei já um histórico pergaminho a defender na prova. quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008
Post aberto à Movicel
Exmos. Senhores,Serve o presente para protestar, se entretanto esta conexão não fôr abaixo, contra o péssimo serviço de internet oferecido pela Movicel. Ando a pagar religiosa e mudamente uma mensalidade de 50 dólares pela utilização, tantas vezes inútil, de um plástico em forma de cilindro-rectângulo a que chamam MoviNet, o qual, para além de gago, tem demonstrado ser mentiroso. Auto intitula-se High Speed mas há muito que descobri ter a velocidade de um cágado. Quantas vezes, regressado do trabalho, quero utilizá-lo para abrir um blog, por exemplo, dos meus ilustres followers e acabo por adormecer durante o loading. Ou quero escrever um post directamente neste blog e entretanto falha a conexão antes de o conseguir publicar. Ou sou proibido de me apresentar na parada diária com os meus porque o Windows Live Messenger falhou. Ou, finalmente, quero publicar uma música tirada do You Tube e tenho de esperar horas para a conseguir ouvir de princípio a fim. Meus Senhores, sei bem que a Movicel faz parte da operadora estatal Angola Telecom, a qual, pese a recente gestão chinesa, tem capitais maioritariamente nacionais e, como tal, estará prioritariamente ao serviço do povo angolano. Sem pretender, mero expatriado, ultrapassar a fila dos, certamente, milhões de utilizadores de internet que vivem nos musseques, não posso deixar de me insurgir quanto à baixíssima qualidade deste acesso. Mesmo que lhes reconheça a atenuante de que será tão desordenado, lento e confuso quanto qualquer outra espécie de trâfego em Luanda. Mas como, entretanto, a conexão foi-se mesmo abaixo, receio bem que este post nunca lhes chegue ao conhecimento. O que é uma pena. Até porque me haviam afiançado que estariam sempre comigo.
terça-feira, 30 de Dezembro de 2008
É já amanhã
Inscrições para São Silvestre de Luanda até à véspera da prova. É curioso que, no reino da gasosa, eu ainda não tenha sido contactado para perder esta corrida. domingo, 28 de Dezembro de 2008
sábado, 27 de Dezembro de 2008
Nasce uma estrela?
Desde há cerca de duas semanas que me encontro inscrito na S. Silvestre de Luanda. Tanto quanto me apercebo, até aí ninguém se havia queixado do percurso mas, agora, certamente que depois de alguém ter difundido a minha participação na competição, já há quem considere haver necessidade de mudar o piso em várias artérias por onde a corrida irá passar. Ora venham lá convencer-me de que não haverá aqui mão de algum meu adversário repentinamente mais nervoso. Pois isto cheira-me a golpe de secretaria. Veja-se lá que até já estão a implicar com o ferro-velho dos carros abandonados nas bermas das ruas. Tornar o espaço mais fluido, dizem eles. Como se eu não percebesse que o que querem, verdadeiramente, é deixar o caminho livre para me obstarem a passagem com algum camião TIR e assim impedirem-me de chegar à vitória. Receio, medo, pavor mesmo, é o que revelam ter os meus adversários, nesta minha primeira participação em Luanda. Que será, por sinal, a minha primeira S. Silvestre. A bem dizer, também, a primeira prova de atletismo em que alguma vez entrei. quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008
Natal de restos
Parte das famílias angolanas vive de restos. À custa do Natal e do espírito natalício, exclusivo prisioneiro desta quadra e aparentemente intranferível para outra época do ano ou da vida, há muita xaropada moral que se vai vertendo nesta época. Não irei cair nessa armadilha a propósito desta notícia. Desde logo, por não ser propriamente uma novidade para quem se habituou a vê-la cirandar por aqui. Mas não deixa de causar arrepios a permissividade que o surpreendente indicador «nível médio de pobreza» antecipa. Tal como o facto de se conseguir medi-lo. Haverá, mesmo, realidades bem mais fortes que qualquer ficção.Desejo, a todos os que aqui costumam ler-me, um Feliz Natal.
segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008
Gasoso espírito natalício
Ainda sou do tempo em que o adorável estafeta que entregava as prendas que eu recebia no Natal, cumprindo o trajecto da chaminé até ao sapato colocado em cima do fogão da cozinha, se chamava Menino Jesus. De que me recordo sobretudo pelo facto de não saber português e por isso nunca conseguir acertar com os pedidos que lhe escrevia. Anos mais tarde passaria a chamar-se Pai Natal, numa mudança de nome a que nunca aderi ou concordei por sempre ter desconfiado que visou sobretudo acabar com as minhas ilusões de um dia acertar com os pedidos. Tive a certeza disso quando me sugeriram que as renas que lhe puxavam o trenó se recusavam, afinal, a cortar as hastes para poderem entrar na chaminé lá de casa. Já adulto e agora a ver no barrigudo benfiquista de barbas um perigoso fomentador do consumismo infantil, capaz de transformar pacíficos chefes de família em tesoureiros compulsivos, passei a olhá-lo como uma espécie a merecer extinção. E a imaginar que, mais tarde ou mais cedo, poderia bem ser substituído por qualquer coisa parecida com a DHL. Agora, afinal, aqui, descobri que foi substituído pelo Paizinho. E que o Paizinho sou eu! Extraordinariamente eleito durante as duas últimas semanas, através de um concentracionário sufrágio de arrumadores, seguranças, polícias, engraxadores, vendedores, empregados de mesa, paquetes, indistintos passantes anónimos e outros tantos inconfessados profissionais da gasosa, todos repentinamente imbuídos de espírito natalício. Tenho agora uma multidão que me deseja, de mão estendida e voz melosa, «Boas festas, Paizinho», ficando eu sem me lembrar onde pus a lista das prendas desta gente toda, crianças grandes num mundo sem chaminés, nem fogões debaixo, nem sapatos em cima. E, desgraçadamente para eles, também sem um Paizinho generoso e sorridente a arrastar um saco vermelho cheio de kwanzas. Safa!domingo, 21 de Dezembro de 2008
Trânsito proibido
Em Angola todos os caminhos vão dar a Eduardo dos Santos. Consta que será uma verdade muito jornalística o que refere o português Jornal de Negócios. Mesmo que esta constatação de GPS há muito tivesse sido já feita pela bem menos tecnológica mas mais certeira lupa de Pepetela. Com a vantagem da sua ascendência, dada a proximidade e reconhecimento cardados nas lutas ainda no mato, perante a certamente maioria dos integrantes da actual guarda pretoriana do regime. Leia-se «Predadores» e perceba-se porque é que este livro deveria fazer parte, ao lado do boletim de vacinas e dos repelentes de mosquitos, do kit de viagem de qualquer expatriado com destino marcado para Angola. Talvez que depois se passásse a perceber melhor por que razão, pese as evidências do sentido do trâfego, aqueles caminhos continuarão a estar minados. sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008
Faça-se luz
Já lá vai o tempo em que, quase sempre, os grandes empresários eram velhos, barrigudos, vestiam fraques coçados, usavam cartola, fumavam grandes charutos por debaixo dos bigodes espigados e divertiam-se a fazer no ar desenhos de cifrões com o fumo. Agora, os tempos são outros. Daí que uma jovem de 35 anos, licenciada em engenharia electrotécnica, reconhecidamente pouco dada a fumaças e, a avaliar pelas fotos, elegante, seja a mais importante empresária do mundo lusófono. É preciso ter galo. Ou, simplesmente, ter o pai a mandar na capoeira.quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008
Pedagogia avaliada
Inquérito: Quase 75% dos professores mudava de profissão. Já suspeitava disto. Depois de os ver, através da RTP Internacional, em tantas manifestações, concentrações e greves. Vai-se a ver e, se calhar, 75% deles até prefeririam ser manifestantes. Ou grevistas. Ou outra coisa qualquer, desde que não fossem sujeitos a avaliações. Entretanto, deste lado do mundo, onde a grande frustração das pessoas, professores incluídos, não será propriamente o cansaço da própria profissão, existe o objectivo de se atingir um milhão de alfabetizados em 2009. Com este tipo de realidade, Angola seria certamente o local ideal para que a Plataforma Sindical dos Professores de Portugal exportasse o seu discurso. A existir, o pedagógico. Não o outro, o do coordenador sindical. O qual, pelos vistos, já serviu para desincentivar o que se julgava ser vocação.terça-feira, 16 de Dezembro de 2008
domingo, 14 de Dezembro de 2008
Em Roma... sê romano?
Sábado de algumas horas de praia em Cabo Ledo, como têm sido os últimos, o calor adocicantemente húmido da habitual estufa angolana, as cócegas da areia fina que finalmente se substitui às peúgas na massagem dos pés, o livro aberto sobre uma sopa de letras que por uma vez não mete números, gráficos ou uma síntese dos dois, os óculos a proteger o olhar da fulminante luminosidade dos personagens que Pepetela desfia, os mergulhos seguidos naquele mar cuja temperatura parece ter saído do mesmo sonho, tudo neste asfixiante reconforto dos fins de semana de Angola sem trabalho eight-to-eight. Certamente vindos de um dos bungalows ali existentes, em fatos de banho e toalhas a tiracolo, um casal entra na areia quente a caminho da maré. Ele é branco, ela é negra, ele bem mais velho que ela, diferença a parecer de vinte anos, certamente a idade dela, que lhe agarra a mão esquerda, onde ele transporta também uma máquina fotográfica, enquanto ele vai mantendo a direita ocupada por um cigarro nervoso. Ao passarem perto de mim, pareceu-me reconhecer, mais no vigilante e incomodado olhar dele do que no sorriso abstraído de menina dela, o enredo de muitas histórias que se contam por aqui. Chegados à maré, os inevitáveis shots seguidos disparados pela máquina digital dele sobre ela, a encher o olho daquele momento e posições para a posteridade e para o que mais for. Daí a algumas horas talvez que a foto dela já circulásse pela internet de amigos e conhecidos dele, como mais um troféu ganho com uma promessa de um fim-de-semana de revista. Vi há já muito tempo na TV um filme, que creio dos seventies, chamado «The lord of the land», cujo argumento girava em torno de um costume europeu da Idade Média conhecido por «droit de seigner», o que se traduziria por «direito à primeira noite». Na prática, um privilégio dos senhores feudais em disporem das noivas dos vassalos na noite do casamento. O que tenho depositado na memória deste filme é o drama da hesitação de um suserano, até aí apostado em acabar com esse costume, que se vê enamorado de uma aldeã durante uma visita a uma pequena povoação situada num território recentemente conquistado a um rival. Ele próprio casado, passa a debater-se com a atração pela exigência dos costumes locais mal descobre que a jovem está noiva. A mensagem do filme era afinal dada pelo noivo aldeão, que apelava à consciência do seu senhor perante os costumes da própria terra donde vinha, recordando-lhe que aquele acto seria lá considerado crime. Pois por diversas vezes me tenho lembrado deste enredo por aqui. O que está vedado nuns lados poderá muito bem ser permitido, quando não incentivado, noutros. E não me refiro aos crimes, decididamente não locais, de deitar lixo para o chão, fumar em restaurantes, ou urinar directamente para a Baía. sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008
Quilmes é o nome
Após um recente post aqui, alguns comentaristas demonstraram estranheza por eu ter confessado ter estado na companhia de umas argentinas de que não sabia o nome. «Descarada falta de cavalheirismo», terão pensado uns. «Marialvismo tuga já com reminiscências de Angola», terão pensado outros. «Espera-o o rolo da massa», certamente todos. Pois bem, decidi assumi-las. Para que não se pense que ando por aqui a beber pela calada. Eis uma delas espraiada na foto. Só não sei se a última ou se a próxima.quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008
Speakers corner
O oficial Jornal de Angola Online alberga no seu site um estranho espaço a que chama Discursos dos Presidentes. Os dois únicos que teve em trinta anos de independência, Agostinho Neto e Eduardo dos Santos. Ouvidos os primeiros discursos do último, à distância do futuro que é hoje, parecem proferidos de uma espécie de speakers corner, onde os espectadores tendem a parar apenas na ânsia de ouvir algumas excentricidades. E este presidencial cantinho não deixará, certamente, ninguém defraudado. A sorte dos angolanos é que estes discursos-exemplos de desdentada arqueologia ideológica são, apesar de tudo, curtos. Fossem do impedernido camarada presidente cubano e haveria que acrescentar ao site alguns hard drive extra.terça-feira, 9 de Dezembro de 2008
Conversas de homens
Faleceu este fim-de-semana, com 81 anos, o escritor português António Alçada Baptista. Devo tê-lo lido, seguramente, em não mais do que vinte páginas. Embora tivesse gravado o título do único livro dele que folheei. «Peregrinação Interior - Reflexões sobre Deus". Ainda hoje, se tivesse de responder a um inquérito de rua, considerá-lo-ia o mais chato de tudo o que já li. Incluindo compêndios técnicos e relatórios de trabalho. Curiosamente, no entanto, decorei-lhe uma frase de uma entrevista que deu a um jornal, julgo que no início dos anos oitenta. «Nunca tive uma conversa de homens». Depois passava a filosofar sobre isto, partindo da experiência de vida de amigas suas, que muito embora considerásse inteligentes, não percebia porque se deixavam tratar mal pelos companheiros e não se separavam deles. Lembro-me de não ter percebido o que é que o cú tinha a ver com as calças. Se calhar, a resposta estaria nas restantes seiscentas e tal páginas do livro de que apenas li menos de vinte.domingo, 7 de Dezembro de 2008
Hoje há conquilhas, amanhã...
Um dos hábitos em Luanda, de que primeiro se estranha e depois se entranha, é o de nunca se saber qual a marca do próximo after-shave, sabonete, pasta-de-dentes, papel higiénico, leite ou cerveja que iremos comprar no supermercado. Sequer se haverá para a semana peras, bananas, laranjas ou maçãs, starking, fuji, golden, reineta, red delicious ou local. Depois do primeiro trimestre a beber Schweppes e do segundo uma marca com um nome polaco, os últimos tempos trouxeram a novidade de não se beber simplesmente águia tónica por falta de comparência de qualquer marca. O mesmo para os yogurtes, que tanto podem trazer aromas, sabores ou pedaços de fruta como não trazer coisa nenhuma, incluindo a embalagem. Meia dúzia de anos depois do final da guerra civil angolana, o racionamento continua válido. Como já desconfiava, as razões são estas. A Alfândega de Luanda passa por ser a mais desorganizada do mundo. 150 mil contentores, correspondente a dois meses de descargas, permanecem estacionados no interior do porto, para desespero de distribuidores famintos de cifrões e consumidores ansiosos por despachar kwanzas. Daí que me encontre há uma semana a penar na companhia de umas argentinas de que nunca decorarei o nome, dada a ausência das bem mais reconhecíveis e apetecíveis cervejas da Cuca. Pena e nostalgia muito mais pesadas quando se está de perna alçada na esplanada de um dos muitos restaurantes da ilha com vista para a entrada do porto, permanentemente engarrafado de navios prenhes de tudo, a imaginar um porão inundado de loiras descaradamente borbulhentas e húmidas de frescas.quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008
O nosso 1º afinal é 6º
Não acredito nisto. Então um gajo que é mais velho do que eu, não será concerteza mais dinâmico e seguro do que sou, eu que já não fumo, no avião ou noutro sítio qualquer, que não tenho torcicolos e por isso até não me importo de dar o braço a torcer, que, a acreditar nas amostras da meia-maratoan de Lisboa na TV, fico bem mais elegante a correr para as camaras e vêm agora dizer-me que ficou à minha frente como o sexto homem mais elegante de 2008? Estes políticos! Pudera eu substituir os meus Massimo Dutti pelos Armani dele e não haveria demagogia que o safasse. quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008
Vitorino | Queda do Império
Estranhamente, neste meu cosmopolitismo angolano, tem-me dado mais para ouvir música portuguesa durante os joggings matinais. Após recente fuga a Portugal, reforcei o alforje da sonoridade tuga com o grande Vitorino, certamente o mais barato músico português de sempre. O triplo «Tudo» custou-me na FNAC 9,95 euros, menos de vinte cêntimos por cada uma das cinquenta canções. Realidade pobretana quando comparada com o pimbalhão Tony Carreira, que acabo de ouvir no Telejornal da RTP Internacional ter ganho um disco de platina em apenas três dias. Os tugas preferirão «O homem que sou» à «Menina estás à janela», o que me tem deixado preocupado com o regresso. Por mim, creio que nunca alinharia num jogging na marginal com o Tony a miar-me nas orelhas. Para esgoto já bastarão os da baía de Luanda. E até acho que a bóina do Vitorino tem bem mais pinta que o manjerico do Carreira.



