segunda-feira, 3 de Agosto de 2009

Fim

Tal como pré-enunciado este blogue acaba aqui. Agradeço aos meus Seguidores terem-no sido. Voltarei, seguramente, à carga, num outro qualquer lugar. Copio o sábio «deve-se lavar os olhos entre cada olhar». Até lá.

A despedida

Foto Roberto Ivens
No dia em que me despedi de Luanda dei uma volta a pé pela marginal da baía, ex-libris da cidade mais cara do mundo e, durante grande parte da minha estadia por aqui, também o local donde observei Angola. Recordei os joggings musicados às seis da matina por entre o pó, os buracos no pavimento, o lixo que forra os passeios, os maus cheiros, os slalons entre os cada vez mais globais sem-abrigo a dormitarem sob árvores rasteiras regadas a urina e adubadas pelos outros detritos, as velhas palmeiras secas e desmembradas que aguardam o render da jovem guarda que há-de chegar do Dubai, os bancos de madeira há muito arrancados do chão, a intoxicação do ar provocada pela correria dos esgotos que sprintam pelos interstícios da cidade até desaguarem na meta da foz, os pescadores que alam cardumes de peixes atordoados em linhas de anzóis nús, as estranhas algas de cucas, coca-colas, blues, sumos e tudo o que boia embalado à superfície daquela água suja e lamacenta, o martelar das evasões e das recordações do que deixei para trás e que se me surgiam sem pré-aviso a cada desfalecimento, as motas que atropelam gente nos passeios quando a avenida está engarrafada, os malucos que se passerelam descalços em gabardines coloridas de nódoas e que ali teimam em desfilar-se em poses rotas e penteados sioux, as ruidosas zaragatas que de vez em quando entrecortam o zumbido mole e quente dos dias que por aqui correm cansados, as constantes operações stop da polícia sequiosa de gasosa, os deficientes que se dividem entre a marginal e o Kinaxixi a esmolarem os membros perdidos, diminuídos, aumentados, oblíquos, a lenga-lenga dos engraxadores montados nas suas bancas de cartão de tintas deslavadas, pincéis de esponja e águas turvas, as lembranças do primeiro Natal quase Páscoa que passei aqui isolado dos meus e que seria compensado pelo podium privado da também minha primeira S. Silvestre, a sede côr de salmão do Banco Nacional de Angola que fugiu do Terreiro do Paço para ser o edifício mais bonito deste país, as dos ministérios ocupados pelos eternamente bem sucedidos empresários-parceiros locais, o Hotel Presidente que do alto dos seus vinte e seis andares muitas vezes sem elevador consegue cobrar diárias de trezentos dólares americanos, o porto e a alfândega mais lentos e desorganizados mas com os serviços mais caros do mundo, o permanente êxtase de contemplar mães-vendedoras de todas as idades a transportarem os filhos em lençóis dobrados em apêndice nas costas, as luzidias catorzinhas que anoitecem nos passeios nos intervalos de boleias com trilhos marcados pelo estrelato efémero, as milhares de cadeiras de plástico encostadas às paredes dos edifícios que sustentam seguranças em permanente coma, a majestosa trigonometria do exército de carros congelados no trâfego a que durante algum tempo me recusei a alistar muito por culpa das geleiras azuis dos omnipresentes e omnipotentes candongueiros, os arrumadores sempre atentos e fiéis no seu papel de últimos ocupantes da base da pirâmide da corrupção no país, o intermitente odor a Portugal que se percepciona no cozinhado da paisagem citadina e que perpassa também nas elites locais sempre predispostas a copiar-nos no que temos de pior, a memória das suadas convalescenças do assédio plasmódico de que fui triplamente vítima nesta terra onde as fêmeas são maioritárias, os longos períodos de autismo agarrado ao laptop a amaldiçoar a cega, surda e cara Movicel e todos os outros posts que aqui jazem desde o início do blogue e que acompanham, afinal, esta trajetória de um cada vez menor romantismo pela descoberta do que temos em comum e o cinismo que foi ficando refém do olhar sobre a realidade perceptível deste país.

sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Bagdad, Angola

Os bairros Iraque e Bagdad serão locais tão feios quanto a generalidade dos musseques de Luanda, com construções irregulares, em locais desordenados, desinfraestruturados e, diz-se, grandemente ilegais. No entanto, dentro destes locais existe vida. O que nem sempre parece ser do conhecimento de todos.

quinta-feira, 30 de Julho de 2009

A second chance

O Projecto Angola LNG, no Soyo, é o mais importante investimento de sempre da economia angolana. Dado o potencial de criação de riqueza, esta poderia ser a grande oportunidade para que o seu povo pudesse, finalmente, sentir-se dono desta sempre adiada promise land. Desbaratada a primeira, pouca gente acreditará que o LNG possa ser a segunda oportunidade para que este país se comece a resgatar.

quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Mastigações

Pintura de Etona
«Médico naturalista desaconselha refeições confeccionadas na rua». Eis um diagnóstico que eu, como muitos outros naturalistas por aqui, já havia há muito formulado. A bem da restauração luandense e, em abono da verdade, também da sua tesouraria.
(Adenda: Eis o que poderá acontecer aos consumidores que não levem a sério os conselhos dos naturalistas, bloggers incluídos.)

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Crescimento & Desenvolvimento

«Angola não regista progresso no combate à pobreza». Eu sugeriria que, ao invès, tentassem combater a riqueza. Talvez que, assim, obtivessem melhores resultados. Com menos trabalho. O campo de acção sempre seria bem menor.

quinta-feira, 23 de Julho de 2009

TAAG outra vez

«INAVIC passará a TAAG a pente fino». Pois eu sugiro que seja a máquina zero.

terça-feira, 21 de Julho de 2009

Cartões de visita

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Paixão pela educação

«Coordenador do Pólo Universitário acusado de desviar 45 milhões».

domingo, 19 de Julho de 2009

Oásis ou cemitério?

«Assassino de português em Angola era polícia».

sábado, 18 de Julho de 2009

O poder do poder

O jornalista angolano Ismael Mateus propõe-se sintetizar uma reflexão de muitos, que não apenas angolanos. «Por que razão JES quer continuar no poder?»

sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Terminal Dois

quinta-feira, 16 de Julho de 2009

TAAG

Os responsáveis pela transportadora estão eufóricos. «Companhia aérea angolana vai regressar ao céu português». Desconhece-se a opinião do céu português.

quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Tratar da saúde

Há cerca de um mês uma mulher de vinte anos acabaria por morrer às portas dos estúdios da televisão estatal depois de lhe ter sido negada assistência médica no principal hospital de Luanda. Agora, após inquérito de apuramento de responsabilidades, o ministro angolano da Saúde decidiu exonerar o conselho de administração desse hospital. Para além da rapidez na investigação, também a responsabilização pronta. E óbvia. Ocorrências impensáveis, por exemplo, se em Portugal. Chapeau.

terça-feira, 14 de Julho de 2009

Horror

Para lá do horror na dor desta mulher, haverá um drama, porventura, bem maior, que se vai vertendo, subliminarmente, em alguns dos comentários à notícia.

segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Pesadelo

«Angola: Português morto em assalto»

domingo, 12 de Julho de 2009

El Doradito

«Portugueses continuam a escolher Angola, mas crise já provoca regressos antecipados»

sábado, 11 de Julho de 2009

Club K Angola

O mais interessante blogue de angolanos para angolanos encontra-se no site Club K Angola, que se auto-define como clube dos angolanos no exterior. Muito do que expatriados vão ouvindo e apreendendo sobre o regime, a realidade informal e a mentalidade do país está neste local. Que é também uma elegia ao maior símbolo da cultura de Angola. O Pensador. Bem diferente do anódino e anónimo noticiário oficial.

sexta-feira, 3 de Julho de 2009

A luta, afinal, continua

«Cabinda: FLEC anuncia morte de três soldados angolanos». Até aqui seca, ou a correr em surdina, a torrente de notícias sobre a guerrilha civil que se trava em Cabinda já abandonou os até aqui considerados pasquins para invadir jornais nacionais. O mau augúrio continua.

quinta-feira, 2 de Julho de 2009

No calor do debate

Fumo de artifício

Sem o alarido com que idêntica medida foi recebida noutros locais, em Angola o «Governo estabelece proibição de fumar em locais públicos». Num país com índices de consumo de tabaco visivelmente muito baixos parece serem os tugas os mais inconsoláveis com o final dos festejos de vingança da carestia no rectângulo.

terça-feira, 30 de Junho de 2009

Estendal português

«Angola reclama 700 milhões de dólares depositados em Portugal transferidos de contas na Suíça». É o próprio banco supervisor, o Banco Nacional de Angola, quem reclama a propriedade deste dinheiro. E lá terá as suas razões. Afinal, num país onde uma simples transferência de 5 mil dólares para o exterior obriga a prévio licenciamento do Ministério do Comércio e à apresentação dos justificativos da transacção subjacente, certamente que o banco central deverá ter bem documentada a origem destes 700 milhões de dólares.

Morte em directo

Nambuangongo

Entre a candura das pretensões dos actuais responsáveis de Nambuangongo e a lendária e sangrenta versão dos acontecimentos ocorridos na cidade-marco da guerra colonial navegam páginas carregadas de História de Portugal e de Angola. Nem sempre justas, claras, ou limpas. Como, porventura, também o não serão as versões que dela se fizeram.

segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Princesa Isabel

«Esta mulher não pára». Há mais uma aliança no portfolio de Isabel dos Santos. Desta vez é com a Sonae. Não duvido que os supermercados Continente, mais a gestão de um dos mais eficientes grupos de distribuição europeus, seriam um sucesso em Angola. País que até poderia aproveitar esta oportunidade para desenvolver alguns sectores da sua imberbe produção interna. E que a chave deste casamento, ainda que polígamo, está no facto de ser feito com quem realmente interessa. Actualmente. Resta saber o que acontecerá no futuro se a monarquia angolana falhar.

Re-ressuscitado

«Veja como seria Michael Jackson sem as plásticas» revela a brasileira Super Abril.

domingo, 28 de Junho de 2009

A estética do regime

Muita da estética do actual regime político angolano está representada nesta foto, que mostra uma reunião do Conselho de Ministros presidida pelo Presidente da República. Não se trata de um encontro normal, no sentido em que um grupo de pessoas se reúne a uma mesma mesa para discutir ou debater determinado assunto. Pelo contrário, a foto mostra uma reunião entre várias pessoas mas em duas mesas. Em redor de uma delas, subalterna, sentam-se ministros e seus representantes e, na outra, bem mais alta, abanca-se o presidente. Primus inter pares. É o que quer dizer o meio metro de altura entre as mesas de JES e dos outros. Daí a estranheza da população pelo mais conhecido argumento presidencial sempre que uma medida do governo barraca. Que «não sabia de nada». Vai-se a ver porque o palanque presidencial estará excessivamente afastado da mesa ministerial.

segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Cabinda

«Human Rights Watch denuncia violações dos direitos humanos em Cabinda». Algumas práticas aqui descritas de tortura sobre prisioneiros sugerem Guantanamo. Numa guerra surda já não contra Bin Laden e os seus seguidores mas, quiçá, ainda contra os inimigos, se não da América, da texana Chevron. Mais a sua base do Malongo, onde alberga os guardiões do mais importante poço de petróleo fora dos States.

domingo, 21 de Junho de 2009

Grande Líder finalmente

À volta da enorme mesa oval onde se reunem os, até agora, grandes deste mundo o espectáculo é desolador. Qualquer um dos presentes, sete homens e uma mulher, não consegue resolver um único dos problemas que têm em mãos. Há uma clara falta de liderança entre eles. Daí que o desânimo rapidamente vire alheamento. Sarkozy revira os olhos por um número antigo da Vogue, Medvedev aprecia um álbum de fotografias do perfil de Puttin, Brown procura com sofreguidão primeiras páginas de jornais com notícias de demissões, Berlusconi recebe SMS's a chamarem-lhe Papi, Harper folheia uma enciclopédia histórica sobre a gloriosa Frota Branca, Taro testa um novo i-phone da Sony, Obama mata moscas e Merkel boceja com tanta inactividade. Até que, de repente, o anfitrião Berlusconi anuncia. «Tenho uma ideia. Na próxima reunião, vou convidar para a presidir o único homem capaz de nos orientar». E vai daí todos os seus colegas do G-8 se irmanaram naquilo que já é um acordo histórico. «Presidente de Angola convidado para cúpula do G-8». O mundo encontra-se suspenso dos resultados dessa reunião.

quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Pepetela dixit

«Sociedade angolana é 'vulcão' em erupção», diz quem sabe. Com a certeira autoridade de ser possuidor, porventura, da maior carta de alforria deste país.

A crise já chegou ao stick?

Hóquei em patins: Angola pode falhar mundial por falta de verba.

quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Léo Ferré - Avec le temps

Ainda hoje consigo rever o instante de espanto em que fui caçado quando a TV do Portugal recentemente saído das brumas me apresentou esta chanson miada em lágrimas por este, lembro-me muito bem das imagens que o ecran divulgou, faquir de um circo ambulante de ciganos espanhóis, pirata saído do cesto da gávea de um navio capitaneado por Sir Francis Drake, pintor flamengo clássico com a cara macerada pelo químico experimentalista das tintas. Um espanto que ainda hoje persiste. Apesar do tempo.

terça-feira, 16 de Junho de 2009

Colégio Pita Bwé

Quando a pedagogia dispensa Bolonha. Vai uma voltinha, fofo?

segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Campeões, campeões, nós somos ...

Mal nos demos conta desta notícia, «Luanda manteve 1.º lugar na lista das cidades mais caras do mundo», os cerca de seis milhões de abramovichs, ronaldos, florentinos, gates, buffets, slims, geldorfs, santos e tutti-quanti que estimamos habitar em Luanda irrompemos numa festa tão incontida quão espontânea. Descemos dos nossos andares pelas escadas que serpenteiam os elevadores, quando os há, avariados ou transformados em despensas, conseguimos saltar sobre o lixo entulhado nos halls dos prédios, passamos a portaria sem portas a que deveríamos antes chamar sem-portaria, galgamos os buracos abertos nos passeios onde os chineses plantaram há anos uns canos pretos de um saneamento que nunca vimos funcionar e encontrámo-nos todos no meio da rua, festejando com a malta que, nos seus carros sem seguro, espelhos ou matrículas, já ali se concentravam num engarrafamento desde as 7 da manhã, como de resto fazem todos os dias, para festejar a conquista, como sempre bem suada, de mais este campeonato.

domingo, 14 de Junho de 2009

O arquipélago da insónia

Um destes fins-de-semana, numa sombra da praia do Cabo Ledo, dei por terminada a leitura do último livro de Lobo Antunes. No dia seguinte, recomecei a lê-lo. Do princípio.
De onde me virá a impressão que na casa, apesar de igual, quase tudo lhe falta? As divisões são as mesmas com os mesmos móveis e os mesmos quadros e no entanto não era assim, não era isto, fotografias antigas em lugar da minha mãe, do meu pai, das empregadas da cozinha e da tosse do meu avô comandando o mundo, não a presença, não ordens, a tosse, um lenço saía-lhe do bolso e desarrumava o bigode, o meu pai prendia o cavalo na argola e a seguir apenas o restolhar da erva que esse sim, mantém-se, embora seco e duro até depois da chuva, na varanda os campos que conheço e não conheço, o renque de ciprestes que conduzia ao portão e além do portão com um dos pilares tombado os sobreiros e o trigo, a vila cada vez mais distante onde as luzes acentuam o escuro, um sítio de defuntos em cujas ruas trotava abraçado ao meu pai, assustado com os postigos vazios e a certeza que nos espreitavam nos amieiros da praça no tempo em que nada faltava na casa, a minha mãe no andar de cima a perfumar baús, a chávena da minha avó no pires e ela fixando-me com um olhar de retrato que atravessava gerações vinda de um piquenique de senhoras de bandós e cavalheiros de colarinho de celulóide comigo a pensar se toda a gente continuaria aqui em conversas que o relógio de pêndulo afogava no coração pausado, uma tarde encontrei a chávena e o pires num canto da camilha e a cadeira sem ninguém, uma outra tarde os baús do andar de cima cessaram de cheirar só que dessa ocasião automóveis no pátio, senhores que me despenteavam numa lástima amiga
- O órfão
Não conheço ninguém que escreva em português tão bem quanto Lobo Antunes. Aliás, não conheço ninguém que escreva tão bem quanto Lobo Antunes.

sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Aniversário

Num comentário ao post anterior, o colega Reflexos lembrou a data. Em 12 de Junho de 1850, ou Julho, já não me lembro bem e a Wikipédia pelos vistos também não, nasceu em Ponta Delgada o grande Roberto Ivens. O verdadeiro. Que andou por estas mesmas partidas do mundo a desbravar matas e mentes. Para os mais distraídos, bora lá então a seguir o link da sua biografia na Wikipédia.



O provincianismo português

Acabo de ver o «Jornal das 9» na SIC Noticias, que iniciou e demorou 33 minutos a falar da transferência de 80 milhões de libras do futebolista Cristiano Ronaldo do Manchester United para o Real Madrid. 33 minutos. Onde coube a notícia, as repercussões na imprensa de todo o mundo e arredores, nos adeptos, tanto de ambos como de nenhum dos lados, dois repórteres a repetir em directo das portas dos clubes envolvidos quer a notícia da transferência quer as repercussões na imprensa de todo o mundo e arredores e nos adeptos de ambos os lados a quem tentavam caçar na rua os testemunhos cheios de conteúdo técnico, entrevistas gravadas ao «Melhor do Mundo» a repetir vezes sem conta que nunca abandonaria o United sem que entretanto lhe caísse a tinta do lipstick, declarações entusiasmadas de opinadores profissionais do fenómeno desportivo mas também, se lhes pagarem, de quaisquer outros fenómenos mesmo que não-desportivos, reportagens sobre o passado do craque sem que desta vez lhe juntassem, obrigado, imagens da irmã a cantar em discotecas e feiras a célebre canção-poema «Mano», até ao arrolamento, ditado por um pivot perfeitamente babado, das várias namoradas do starlette até agora CR7 mas futuramente CR-outro-número-qualquer, que incluiu um video sacado por um paparazzi de Beverly Hills a uma sua entrada às 3 da manhã, com saída 1 hora depois, na mansão de Paris Hilton. Uaauuu. Quando acabou a peça, o apresentador ainda mantinha a boca aberta. A notícia a seguir, como seria previsível, já foi uma ganda seca. Os depositantes do BPP abandonaram finalmente a vigília junto das instalações do banco que lhes ficou com as economias. Bééé, grande coisa. Lembrei-me do velho Pessoa, a quem o pivot do «Jornal das 9» certamente consideraria gá-gá, que consta não ter feito culturismo para além do cotovelo para cima, não pintava os lábios na côr strawbery, usava sempre um chapéu que não lhe deixava espaço para grandes poupas e, se fosse futebolista, seguramente que não olharia três vezes para o ecran da TV dos estádios antes de marcar os livres directos. Em contrapartida, tinha uma ironia que deixou dele a imagem de um gajo com uma pinta do caraças. Como este texto, já velho de noventa anos.

quinta-feira, 11 de Junho de 2009

O gato e as filhóses

«Portugal empresta 500 milhões a Angola». Agora que vê posta em causa a legitimidade de decidir sobre os grandes empreendimentos estruturantes do País, Sócrates arrisca-se a que o TGV chegue mais depressa a Luanda do que a Madrid.

terça-feira, 9 de Junho de 2009

Ortografia zerada

Export Development disponibiliza um bilião de dólares para Angola. Um bilião? Com quantos zeros? 000.000.000? 000.000.000.000? Afinal, em quantos ficamos?

segunda-feira, 8 de Junho de 2009

63%

Há muito que, nas empresas modernas, os objectivos comerciais ou o desenvolvimento de desempenho são levados muito a sério. Tanto que, no final do período da avaliação, os cumpridores são premiados e os reiteradamente não-cumpridores são muitas vezes relegados para tarefas menos apetecíveis. Na política este tipo de conceitos ainda não germinou. Daí que, nas eleiçoes europeias, em Portugal como em quase todos os países do continente, um resultado de 37% na ida ás urnas não penalize os políticos incapazes de mobilizar as suas populações. Cortes em bónus, despesas de representação, cartões de crédito, plafonds automóveis, fundos de pensões, quantas vezes até salários, transferências para outras áreas na rectaguarda do «combate político», secretariado, arquivo, colar-cartazes, até, quiçá, o desemprego. Na prática, o que pode acontecer a qualquer outro trabalhador que tenha tido o azar de bater á porta de uma empresa moderna. Estou em crer que, em alguns nomes da política portuguesa, se descobririam novas vocações.

sábado, 6 de Junho de 2009

Euro quê?

Nas vésperas da reflexão sobre o sentido do meu voto nas próximas eleições europeias, aprestei-me a assistir ao último debate na RTP N entre os cabeças-de-lista dos cinco maiores partidos portugueses. A ideia era decidir se valeria a pena entrar, mais a minha mala-de-cartão, na embaixada lusa em Luanda para deixar lá uma cruzinha. Quase desconjuntei a mala. O que deveria ter sido um debate esclarecedor, pelo menos para o ouvido deste emigra pontualmente impedido de desfrutar da musicalidade dos políticos da Pátria, acabaria por se transformar numa ópera bufa. A conversa seguiu num linguajar algo parecido com o futebolês, com o quinteto-de-ataque permanentemente a ameaçar com o daltonismo das suas próprias cores, puxando para temas certamente caros a empregadas domésticas, num argumentário de cassete e, quase todos, numa postura de brilhantes barítonos incompreendidos que anseiam por se atirar para a marquesa do psicanalista. Se a ideia era apresentarem-me a Europa, pois cá por mim tenho a declarar ter ficado a conhecer muito melhor o Cunene. Fica, então, decidido. Amanhã, dia de eleições para o Parlamento Europeu, vou votar nos caranguejos das areias finas do Cabo Ledo.

sexta-feira, 5 de Junho de 2009

AF 447

Todas as vezes que levanto voo tento abstrair-me daquela estranha dor de rins que insiste em pregar-me ao solo e pensar em qualquer outra coisa que me retire da insustentável leveza de estar naquele momento cintado a um avião. Acabo quase sempre por me concentrar em tentar adivinhar a metodologia dos que, em meu redor, utilizam as suas próprias estratégias de diversão, procurando ausentar-se nos livros, nos auscultadores, na TV, no forcing do sono, ou, simplesmente, em rebater a cabeça no banco da frente. É nestas ocasiões que acabo por invejar os que resolvem tudo isto com um furtivo benzer de dedos nos vértices de um triângulo fantasma. Afinal, cada um cozinha a fuga com os condimentos de cada qual. Dou por mim a pensar nisto enquanto vejo na TV o pai de uma das vítimas do voo AF 447 da Air France a reclamar a ida ao local do acidente, onde acredita poder ainda haver sobreviventes. O que resgato desta esperançada reclamação paternal é, afinal, a presença daquela mesma angústia sentida aquando do levantamento dos meus voos, agora, certamente, bem mais nua, gelada, pesada, sufocante, vertiginosa, irreversível, definitiva, já sem espaço para quaisquer manobras de diversão. Porque aí, desgraçadamente, passa a ser mesmo a doer. Paz às suas almas.

quinta-feira, 4 de Junho de 2009

História a escalpelizar

Portugal é um dos alvos principais da guerrilha em Cabinda. Num país de que se diz ter tantos segredos quantos os contratos de petróleo, há um que é considerado o mais mal guardado de todos. O da inexistência de guerrilha em Cabinda. Tantas vezes anunciado o fim da FLEC, mesmo que por antigos militantes entretanto seduzidos pelo partido do poder, espanta-se que, afinal, a guerrilha cabinda ameace cortar cabeças aos estrangeiros que por lá cirandam. E logo privilegiando as dos tugas! Tudo por causa de um ininteligível processo de descolonização levado a cabo pelos portugueses, que entregaram esta província aos angolanos que eles referem nunca ter sido. Como desconfio que este imbróglio histórico não ficaria melhor esclarecido se fosse protagonizado por um descendente dos ex-colonos, decidi-me para já a riscar Cabinda da minha agenda mais próxima. Entretanto, fico na expectativa de que a guerrilha local passe rapidamente o cisma para os colonizadores dos tempos modernos. Os chineses. Que sempre terão a vantagem de oferecer uns escalpes bem mais maneirinhos.

quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Marcianos

Cavaco nega ter escondido compra de acções da SLN. Após ter ouvido na TV estas declarações do Presidente da República Portuguesa fiquei com a sensação de que, ultimamente, tenho vivido em Marte. O que não será verdade pois que Angola fica, apenas, a cerca de seis mil quilómetros de distância daquele pequeno rectângulo habitado por um povo, historicamente viciado na prática da auto-flagelação, que tende a minimizar a dimensão da democracia que, apesar de tudo, vai construindo. Após esta breve e fugaz percepção das virtudes do berço, resta-me aguardar que Cavaco Silva, por fim, não se deixe levar pelo neo-realismo que tem afectado o private people luso e passe também a engrossar a fila dos que estão a assaltar as instalações dos bancos que lhes descamisaram as poupanças. A bem da Nação.

terça-feira, 2 de Junho de 2009

Inquietação



A notícia desta explosão em Gouveia deixou-me preocupado. Muito embora nunca me tenha passado pela cabeça começar-a-ter um rebanho de ovelhas, ou começar-a-ter um café, confesso que começava-a-ter a ideia de vir a tirar a carta de tractor. Poderei, por isso, vir a ser motivo de inveja por parte dos meus vizinhos, mesmo dos que não saltam para a rua ainda em cuecas? Tipo virem a dinamitar-me o tractor, por exemplo? Estou deveras preocupado com essa possibilidade. Pelo sim, pelo não, vou mas-é parar de começar-a-ter a ideia de vir a tirar a carta.

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Dia dos petizes

Hoje, Dia Internacional da Criança, foi, mais uma vez, feriado nacional em Angola. Até agora, o décimo segundo. Consta que só haverá mais quatro até ao final de 2009. Num país em que se estima que 50% da população tenha menos de 18 anos, esta será uma inegável ocasião para festejar. E onde, talvez também por isso, os petizes até se atrevem a reivindicar o aumento da idade de saída da clandestinidade.

domingo, 31 de Maio de 2009

Deontologia-botox

Só por causa desta entrevista, em que terá divulgado o que o País que conheço há muito pensa, Marinho Pinto já mereceria ser reconduzido como bastonário da Ordem dos Advogados portugueses. Entretanto, aguarda-se a sua próxima visita a uma nova loja de porcelana.

Surprise!?

MPLA defende eleição directa do Presidente da República no anteprojecto de Constituição.

quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Sombras de Luanda

Foto de Roberto Ivens

A menos de duzentos metros do restaurante do Deana SPA, cujo nome, «Complexo Gastronómico Bay Side», já merecerá uma estrela no Guia Michelin, há um homem sepultado na sombra de uma árvore. Aparenta ter pouco mais de vinte anos e encontra-se mutilado na perna direita que lhe desaparece logo após a curva do joelho e acaba num toco mal cicatrizado e ainda com vestígios do osso e, também, nos braços picados por diversos golpes, irregulares, nítidos, mas espantosamente secos de sangue, cuja profundidade lhe consome a carne até ao limite de doer a quem a vê. Jaz ali os dias e, quiçá, as noites quase sempre deitado, arrastando-se no sentido da sombra da velha acácia quando ela acede em fazer-lhe companhia e rebolando sobre si mesmo na busca do biombo do tronco quando necessita de maior intimidade. Por todo aquele corpo perdido no empedrado do passeio esburacado da marginal e que parece repousar de uma batalha de que apenas se conhece os despojos, há crostas de uma urgente, embora muda, piedade que o cobrem da cabeça ao pé. Não se lhe percebe o que responde quando questionado, mantendo-se absorto nos mesmos gestos, na dor, na insanidade, ou tudo junto, antes parecendo mover-se num permanente estado de delírio, a remexer nas partes do corpo que lhe faltam ou a revirar a cabeça no sentido dos céus, quantas vezes rindo ou repetindo uma lenga-lenga imperceptível. A primeira vez que o vi, a meio de um jogging de fim-de-semana, lambia freneticamente com o indicador direito o que restaria de uma pequena embalagem de manteiga como as dos aperitivos dos restaurantes e, perante a garrafa de água fresca que lhe serviram, pareceu afogar-se na sofreguidão do longo gole, compulsivamente gesticulado como se ressuscitasse num solo de trompete. Interrogo-me se, do seu palco, conseguirá perceber a audiência que não pode deixar de o ver por ali, eu, os milhares de outras pessoas que lhe passam defronte, a pé ou de carro, os assistentes sociais que desconheço se Luanda possui, o pessoal das inúmeras ONG cujos nomes vejo profusamente pintados nos jipes, os pastores das imensas igrejas que por aqui florescem, os cidadãos cuja sensibilidade não se fica apenas pelas ofensas com quaisquer críticas a Angola, os políticos e governantes que se habituaram a jurar fidelidade aos seus. Receio bem que, tal como Simão Kapiangala, o homem-sombra seja apenas mais um entre os milhares de bastardos que deambulam por Luanda, completamente entregues ao Deus-dará. Com o senão de, neste cantinho do paraíso, Deus raramente dar alguma coisa aos que não farão parte do seu rebanho.

domingo, 24 de Maio de 2009

Luzes de Luanda

Defronte da sanita gigante em que está actualmente transformada a baía de Luanda, encontra-se instalado o mais chique SPA de Angola, de seu nome Deana. Mais propriamente, de Ana Paula dos Santos, ex-hospedeira da TAAG e actual empresária, que acumula funções com as de Primeira Dama do país. Um destes dias, por mero acaso, fui assistente de uma sua acção de promoção na marginal, uma «maratona denominada Saúde e Bem-Estar» visando «alertar as pessoas a prestarem mais atenção ao seu estado físico e mental» como noticiaria a imprensa local. Ora o que eu vi foi um grupo de três a quatro dezenas de mulheres, de todas as idades e compleições físicas mas, seguramente, do mesmo estrato social, vestindo trajes aeróbico-desportivos donde sobressaíam t-shirts, toalhas e bonés brancos do SPA, percorrerem o passeio da marginal em pose de gesticulante folia, para espanto dos inúmeros sem-abrigo que por ali mal-acordavam de mais uma noite ao relento. Porventura, por há muito eles próprios terem deixado de prestar atenção ao seu estado físico e mental. À frente do pelotão seguia, de costas, um esfusiante pastor de aeróbica e, logo a seguir, a Primeira Dama herself. A marcha formava um compacto quadrado humano, cujos vértices eram policiados por quatro mal-disfarçados seguranças que seguiam, civilmente, com as camisas libertas por fora das calças, certamente que para assegurar que cada participante continuasse a ter «mais saúde e boa disposição para assumir as tarefas do dia-a-dia». Como complemento securitário, seguiam mais à frente na marginal um polícia de trânsito montado numa moto e uma carrinha onde ia empoleirado um grupo de militares armados. Afinal, tratava-se de guardar as costas militantes da beautiful people do regime, para quem, suspeito, o SPA Deana não passará de uma extensão do palácio presidencial. Entretanto, julgo que será de prestar atenção às próximas promoções de rua deste centro de estética, que promete vir a oferecer ao público de Luanda novos métodos de massagem, bem como a introduzir no mercado novos serviços como o «Power Jump», o «Body Balance», o «Step Dance», o «Aerodance» e o «Hidrobike». Consta que o mais aguardado de todos, numa sondagem entre os párias da marginal, será a «Tatuagem das Sobrancelhas».

Acelerar na recessão

Há quem defenda que, em época de recessão, se deve estimular a economia com medidas expansionistas, do tipo baixar as taxas de juro ou os impostos, a fim de se fomentar o investimento e relançar o produto no médio prazo. Haverá outros, no entanto, que consideram este tipo de medidas anacrónicas e de excessivo academismo e que, pelo contrário, defendem decisões que possibilitem um choque térmico imediato. Soube-se hoje de um exemplo da contribuição angolana para este debate.

sexta-feira, 22 de Maio de 2009

A variante angolana

Um dos estudos pretensamente mais estimulantes nas escolas de gestão por esse mundo fora é o das variáveis que farão parte da «função empresarial», entendida, grosso modo, como as habilitações, mais ou menos inatas, que permitirão que um determinado indivíduo seja bem sucedido nos negócios. Habitualmente, nestas discussões, há um chorrilho de candidatas que saltam logo para a passerelle dos anfiteatros teóricos. Perspicácia, intuição, talento, criatividade, informação, formação, conhecimento, prático e teórico, especialização, racionalidade, know-how, know-what, dinamismo, proactividade, mentalidade, motivação, liberdade, competitividade, etc., etc. Curiosamente, tenho cada vez mais a percepção que, em Angola, nenhuma destas variáveis será, verdadeiramente, importante. Melhor ainda, que todas juntas não suplantarão a, solitária, variante angolana. Leia-se, a propósito, esta já velha sebenta.

«Luanda precisa de murro na mesa»

Entrevista interessante esta do deputado-jornalista, ou jornalista-deputado?, João de Melo ao semanário «O País». Só discordo da quantidade dos murros. Talvez não fosse má ideia distribuir, também, uns quantos upercuts por debaixo da mesa.

quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Guerra de zeros

Habituado à orientação anglo-saxónica nestas coisas, confesso ser um recente descobridor de uma guerra que poderá ser já velha para alguns. Como se deverá ler 1.000.000.000? Um bilião? Mil milhões? Ou, como no Brasil, um bilhão? E a unidade de medida a seguir, 1.000.000.000.000? Um trilião? Um bilião? Todas estas leituras estarão correctas, daí a confusão. A qual, em Angola, tenderá a avolumar-se pela diferente origem e formação de cada leitor, resultando daí frequentes disparidades na interpretação das mesmas grandezas. Mesmo que, como esclarece Nuno Crato, a matemática até seja «uma ciência exacta».

quarta-feira, 20 de Maio de 2009

A luta continua

Onde é que já vi este filme?

Angola atrasa pagamentos a empresas portuguesas.

terça-feira, 19 de Maio de 2009

Investimentos rasca

Angola quer fábricas portuguesas de materiais de construção. Há uns meses, quando alguém por aqui sentenciou que a descida drástica dos preços do petróleo poderia ser benéfica para Angola, era disto que se tratava. Após o rebentar da toalha almofadada de dólares onde os governantes angolanos se estiravam enquanto decidiam o futuro airoso do país, é agora tempo de rebobinar a cassete do crescimento contínuo e sustentado e, em definitivo, assumir que o oásis poderá secar. E que, se calhar, será também tempo deste país tentar parar de importar tudo o que necessita e esforçar-se por produzir internamente o que consome. Depois desta evidência, haverá que limar outras. Como a de divulgar às famintas empresas internacionais que cá querem entrar, tugas incluídos, quais as condições para a recepção dos tão necessários investimentos. Tem de ser em joint-ventures com os locais? Mas afinal eles percebem do negócio? E como fica a distribuição do capital? Os locais terão sempre a maioria? E entram para realizar capital? Ai só entram com terrenos, licenças de construção e contratos de fornecimentos futuros? Eh pá, se calhar teremos de analisar isso melhor, porra! Restará, então, saber, se estes tugas dos materias de construção estarão tão à rasquinha para encontrar novos mercados como, aparentemente, terá estado a TV Cabo.

segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Em busca dos posts perdidos

Nos últimos tempos este blogue tem andado aos caídos. Ao que deveria acrescentar, para mal dos meus pecados, literalmente, porque, durante todo este tempo, tenho vindo a acumular bastantes. Após o coma do Asus, tenho sido obrigado a esmolar entre amigos e conhecidos por um acesso, livre, à net. Aventura que tem tanto de penoso quanto se sabe que, por estes lados, qualquer acesso é, quase que por definição, vegetativo. Tenho, então, a comunicar que, não me agradando nada esta figurinha de blogger furtivo, que já troca descansar por descançar, assim continuarei por mais algum tempo. Até que, num muito aguardado avião da TAP, embarque quem me venha resgatar. Permitindo-me, finalmente, outra vez, dar Asus aos posts perdidos.

sexta-feira, 15 de Maio de 2009

Diz que é uma espécie de paragem

O CR diz que quer descansar d'O Anónimo. Não acredito. Algo me diz que O Anónimo não o vai deixar em paz. Mais dia menos dia e aparecem aí os dois para darem o maior festival de escrita com carácter da blogosfera portuguesa. Até lá então, meu Caro.

Minas em desfile

Desminados mais de quatrocentos milhões de metros quadrados. É, realmente, muita mina, ódio, traição, cobardia, desprezo pela vida humana. Não apenas de angolanos, mas também de todos os que lutaram, influenciaram, envenenaram, pilharam, hipotecaram o destino deste povo. Que continua minado em si mesmo.

segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Os oásis também secam

Economia angolana deverá recuar 7,2 por cento em 2009, segundo a OCDE.

domingo, 10 de Maio de 2009

Senescências

Acabo de me aperceber da minha senescência ao ter de parar a máquina de lavar-roupa a meio do programa para de lá retirar os calções em cujos bolsos deixei a carta-de-condução. Agora condutor bem mais clean, resta-me esperar que, em compensação, os polícias de trânsito de Luanda esqueçam também a mesada das gasosas que costumam cobrar-me.

Imprensa Nacional

Há liberdade de imprensa em Angola, afirma o porta-voz do SJA. Ora ainda bem. Espero é que isso possa incluir a liberdade dos blogues. Algo me diz, no entanto, que tal como com a outra imprensa, se defenderia também aqui «privilegiar os quadros nacionais». Saia então um Roberto Ivens e entre um Major Kanhangulo. Imediatamente!

sábado, 9 de Maio de 2009

Crocodilo Dundee

Crocodilos matam nove crianças em Angola. Esta notícia, estranhamente transcrita num tom que parece vaguear entre a banalidade do acontecimento e a inevitabilidade do próprio desfecho, traz à memória documentários do National Geographic e imagens de crocodilos a banquetearem-se de gnus, impalas, zebras e outros animais que se forçam a atravessar em manada rios infestados de predadores em busca de novas pastagens. O que essas imagens terão de extraordinária demonstração de luta pela sobrevivência multiplicam-se de horror quando se imagina que as vítimas se tratam, afinal, de seres humanos. Crianças. Desgraçadamente, as dundees de um inexplicável filme macabro.

sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Hip hip hurrah!!!

Angola salva o ano aos vinicultores de Portugal. Encontra-se mais ou menos institucionalizado, por aqui, que haverá investimentos cujo retorno se duvida ser o verdadeiro motivo do respectivo arranque. Ora esta notícia parece demonstrar que, afinal, o axioma estará errado. E que a Merlot e a Sauvignon poderão vir a ameaçar a omnipresente Cuca no conteúdo dos copos dos angolanos do futuro. O que será uma verdadeira prova, afinal, do retorno do investimento em devido tempo feito nas quintas mwangolés do Douro.

Estádios históricos

Governante considera "histórica" edificação dos estádios. Angola ultima a organização do Campeonato Africano das Nações em futebol, a ocorrer em Janeiro de 2010. Num torneio desta envergadura, irá construir, apenas, quatro novos estádios. Muito longe, portanto, da megalomania de outros futebóis. Prova de que, pelo menos neste campo, Angola não necessitará de importar competências.

quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Comícios & bebícios

Conflito entre militantes do MPLA e UNITA resulta em oito feridos. Não será apenas em Portugal que as convicções de fé político-ideológica saltam para o púlpito das ruas mal os comícios viram bebícios.

quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Um gigante desmembrado

Eis um testemunho bem mais elucidativo sobre o poder da mente do que o transcrito na literatura dos gurus de supermercado.

domingo, 3 de Maio de 2009

Aleluia

Hoje é Dia da Mãe e não tenho como festejar. Porque estou órfão. Tanto de mãe como de pai. Aliás, de mães e de pais, pois tive a sorte de ter dois de cada. A todos, acompanhei-os até ao fim, numa proximidade nem sempre fácil mas que acredito ter sido a suficiente para, também, acreditarem que nunca estiveram sós. Tal como tendo a pensar que, agora, não estou. Por isso, estou órfão, não sou órfão. Também por sentir ter, por vezes, uma esquadra a vigiar-me. No parapeito de uma mesma janela corrida. Não sei muito bem onde.

sábado, 2 de Maio de 2009

Flag Man

Afinal, parece que Scolari já não virá treinar a selecção de Angola. Mais do que os adeptos locais ainda não convencidos da falência do futebol-retranca de Filipão, são os comerciantes indianos e chineses que dominam o trading por aqui quem demonstra maior frustração. Pré-contratos e encomendas de contentores e paletes de bandeiras ter-se-ão desfeito no pó que nenhuma prece foi capaz de resgatar. O que será uma pena. Também eu gostaria de ver o efeito sobre Luanda, mais a sua falta de varandas, dos enfeites da bandeira negro-rubra rachada pela catana, pela semi-roldana e pela estrela dourada. Em Portugal, apesar de tudo, foi giro.

sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Dia do trabalhador

Hoje também faço anos, como trabalhador, pois iniciei-me a um 1º de Maio. Na verdade, dado o feriado, comecei no dia seguinte, mas é o que ficou registado no contrato. O que daria origem a algum gozo, lá em casa, por esse pormenor no arranque não abonar nada a favor da qualidade do novo trabalhador. Mais tarde, mudei uma vez de emprego num 1º de Novembro, novo feriado, o qual, para além do extra-bolso, me faria reincidir na chacota doméstica. Tantos anos entretanto passados, creio ter compensado esse absentismo precoce com muito after-hours, quantas vezes estendido aos fins-de-semana e feriados. O que, mesmo assim, jamais me deu o privilégio de poder, heroicamente, engrossar qualquer manifestação num 1º de Maio. Pelo contrário, houve sempre alguém a avisar-me de que poderia ter-me poupado ao desperdício se soubesse gerir melhor o meu tempo no trabalho. Agora, em Angola, tenho-me deparado com uma nova faceta de forçado workaholic. O que me tem trazido tanta frustração quanta infelicidade. Por não haver nada de especialmente excitante em continuar por aqui casado-com-o-trabalho.

quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Roupa suja

Há já vários dias que a hóspede sul-africana não falava com a empregada angolana. Também, porque não sabia português, numa ignorância contra-linguística mutuamente correspondida. Diálogo de mudas, portanto, antes do tuga, who else, meter o bedelho. Para a sul-africana, era inconcebível que a empregada lhe alterásse os programas da máquina de lavar-roupa. Para a angolana, rodar o manípulo sempre que a máquina parava visava forçá-la a retomar a lavagem. Deste lado, a ignorância sobre o funcionamento dos ciclos de uma moderna máquina de lavar-roupa. Do outro, a ignorância sobre os propósitos de uma simples ajuda, ainda que tosca. Pelo meio, recriminações mútuas de racismo. Há quem chame a isto conflito cultural. Estou mais inclinado a chamar-lhe falta de bom-senso.

segunda-feira, 27 de Abril de 2009

O triunfo dos porcos?

Um casal beija-se no centro histórico da Cidade do México, com máscaras para evitar a gripe suína. Foto Alfredo Estrella/AFP - via JN


domingo, 26 de Abril de 2009

Quarteirão de Abril

No 25 de Abril de 1974 estava no liceu. Os zunzuns de uma revolução em Lisboa fizeram-me temer por um irmão mais velho que nessa altura fazia recruta na base do Alfeite. Para logo depois me deixar entusiasmar pelo que me diziam ser de celebrar. De imediato, que o meu irmão já não corria o risco de ir combater para um local que diziam ser nosso mas que, lá por casa, ninguém conhecia. A seguir, fui acreditando que tudo aquilo que ia acontecendo era tão rejuvenescedor quanto o sentido do meu próprio crescimento. Depois, passei a ficar carregado de dúvidas. E até acabei por pôr os pés em África. Quanto à Revolução dos Cravos, consta que têm havido disputas entre os mordomos do Parlamento para que a flor não perca a côr original, pelo menos, no dia das comemorações anuais. E, num restaurante daqui, pareceu-me ter visto pela RPT Internacional um deputado a chorar enquanto lá discursava. Mas já não consegui perceber muito bem porquê. Se calhar foi da distância.

sábado, 25 de Abril de 2009

Anopheles

Hoje, Dia Mundial da Luta contra a Malária, sei, finalmente, o nome do meu maior inimigo. Anopheles. Tem nome de guerreiro, ou filósofo, ou, simplesmente, político, grego, egípcio, talvez, também, fenício, embora toda a gente por aqui saiba que não passa de um merdas qualquer. No entanto, continua a ser o mais implacável exterminador de vidas humanas em Angola. Só em 2008 matou 9.300.

Voos ao domicílio

A TAAG está proibida de efectuar directamente voos para a Europa, pelo que tem os seus aviões tripulados por pilotos de outras companhias. O que é uma pena. Acabo de saber que tinha hipóteses de, um dia destes, ter viagem directa de Luanda para o Porto.

Pepe Loco

Após o belicismo destas imagens, fico com a certeza de que, se fosse sócio do Real Madrid, exigiria que este Pepe, dito futebolista do clube espanhol, fosse de imediato despedido da equipa. Como não sou, fico na expectativa de que, pelo menos, seja expulso da selecção nacional portuguesa.

sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Macas & marquesas

Brown chair - David Miller
Passadas duas semanas, aterrar em Angola é como regressar a um covil donde se espera poder continuar a disfarçar um permanente estado de infelicidade latente. A provocada pelo que, mais uma vez, se deixou para trás e a que insiste em voltar a deparar-se-nos pela frente. Algures na penumbra desta sandwich de sensações, há o barbitúrico efeito dos noticiários da RTP Internacional e dos seus cortejos de desempregados, fundo-desempregados, mal-empregados, desempregados-semi-pensionistas, colarinho-desempregados, pensionistas-empregados e toda a sorte de actuais e futuros lay-offers, numa letargia de ilustrações que jorram do ecran a conta-gotas, em news a cada dia mais velhas e menos aguadas, antes areadas como saídas de um poço prestes a secar, as quais, bem mais que o postar neste blogue, me têm ajudado a salvar da marquesa do psicanalista. Então… qual é a maca?

sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Mentes brilhantes para exportação

Desde que haja construção haverá sempre desenvolvimento, declarou um obscuro director comercial e principal candidato a ministro das Obras Públicas no próximo governo português, actualmente exilado em Angola mas já a pensar no programa ministerial aquando do regresso à mãe-Pátria, o que inclui a construção do futuro TGV, do novo aeroporto de Lisboa, da terceira ponte sobre o Tejo, da quarta sobre o Douro, de meia dúzia de IP's para as moscas poderem passear ao fim-de-semana e de mais umas quantas vias de cinturas, internas, externas e assim-assim, para que o país possa golpear-se em certeiros flic-flac's de cimento rumo ao tão desejado desenvolvimento.

quinta-feira, 16 de Abril de 2009

À atenção de Carlos Queiroz

Filho de Mabi não vai à escola há 15 dias.

terça-feira, 14 de Abril de 2009

Vá para fora cá dentro

Em viagem recente a Cabinda, a inconveniência da recordação da frase-tipo do turismo interno português que titula este post tornou-se perceptível logo à chegada ao aeroporto doméstico de Luanda. O voo, marcado para as 10h da manhã, havia passado para o meio-dia sem qualquer aviso prévio. Uma interrogação tuga junto de cinco funcionários displicentemente alojados num cubículo que albergava também uma secretária e duas cadeiras e cujo arquitecto certamente idealizara para recolher baldes, vassouras e esfregonas, teria direito a um lacónico mas esclarecedor «porque não há avião». Em meu redor, o que momentos antes era fila para o check-in transformara-se num tranquilo amontoado de malas sentadas por passageiros esclarecidamente dispostos a ali passarem duas horas de suculento dolce far niente. No regresso a Luanda, dois dias depois, Dia do Pai e véspera da visita do Papa a Angola, o reconfirmado voo das 15h respeitaria os atrasos do costume. 15h15m. 15h30m. 15h45m. 16h. Ouvi alguém a meu lado, certamente candidato a vidente, bufar que o avião, se calhar, «atrasou-se ao sair de Luanda». 16h15m. 16h30m. Por esta altura o vidente aperfeiçoava a técnica, «se chegar aqui muito tarde pode já não levantar porque este aeroporto não tem luzes na pista». 16h45m. 17h. 17h15m. A partir daqui, as preocupações dos restantes passageiros, na sua maioria, aparentemente, peregrinos de Bento XVI, sintonizaram-se com as do vidente, estranhando que o mais moderno aeroporto regional de Angola não possuísse ainda luzes de sinalização na pista. 17h30m. 17h45m. Daí a pouco um avião da TAAG aterraria, indo desaguar mesmo junto às montras da sala de embarque, onde cerca de cento e cinquenta pares de olhos, sem contar com os das bagagens, já vigiavam as saídas dos passageiros e das malas que gostariam de revezar, entre o impaciente e o expectante de que essa muda se fizesse antes do ameaçador pôr-do-sol. Logo a seguir, como que para manter acesa a chama da esperança, os altifalantes do aeroporto alumiaram. «Senhores passageiros do voo para Luanda, queiram dirigir-se para a porta de embarque», o que rapidamente provocou a formação de uma fila... enfim, angolana. Mas o relógio pareceu continuar surdo. 18h. 18h15m. 18h30m. Um pouco antes das 18h45m surgiu à porta de entrada, vindo da pista, um sujeito a anunciar que «o avião levanta amanhã às 5h da manhã». Depois disto, aconteceu algo absolutamente extraordinário. Em menos de três minutos, 95% dos passageiros abandonaram a sala de embarque do aeroporto, não se incomodando em saber das razões para o cancelamento do voo que haviam comprado ou, sequer, em reclamar, exigir, insultar, pontapear, esmurrar, quiçá, garrotear, como antigamente se fazia e modernamente por vezes apetece, o mensageiro daquela desgraça. Seria, então, a um pequeno grupo de inconformados expatriados e quadros superiores de um ministério de Luanda que o mesmo corajoso controlador de voo do aeroporto, substituindo-se à tripulação ignorante da Convenção de Varsóvia, acabaria por justificar, ao fim de meia hora de contactos telefónicos, que «a senhora directora regional da TAAG não tinha instruções» para custear as despesas de hotel dos passageiros que teriam de pernoitar em Cabinda. Logo saltaria da tampa tuga uma sugestão de placard para o turismo interno angolano. Vá para o inferno cá dentro.

sábado, 11 de Abril de 2009

Redacção sobre a Páscoa

Quando era miúdo detestava a Páscoa. Pelo cheiro a hóstia que parecia apoderar-se das pessoas, nas ruas mas também em casa, pela exibição non-stop de missas na TV, prolongada por transmissões directas e em latim do Vaticano, pela troca das valentes matinées de coboyadas por piedosos filmes italianos sobre os últimos dias de Jesus Cristo, em que até o carrasco chorava a meio das vergastadas, pela obrigação de comer peixe com amêndoas durante a sexta-feira santa e, basicamente, por me serem impostas nesse período regras, especiais face aos restantes dias do ano, que me eram incompreensíveis e causavam desconforto. Desde logo, a obrigação de escolher roupa nova. Agora, compreendo melhor que, vindos do Inverno, a chegada à Primavera convide à renovação de muitas coisas, inclusivè, de agasalhos. No entanto, o que poderia ter de atractiva uma ida às compras na pré-história dos shoppings dissipava-se rapidamente quando se chegava ao fatídico acto das escolhas finais. Ter dez ou doze anos e a mãe ao lado a organizar uma equipa de jurados entre os outros clientes da loja para me convencerem de que aquela camisa cheia de cornucópias e com uns colarinhos que chegavam às orelhas me ficava a matar, para além de que seria um óptimo substituto para a t-shirt coçada que levava grudada ao corpo, ainda se mantém hoje como uma recordação bem deprimente. Curiosamente, nos tempos mais recentes, finalmente tesoureiro de uma família com três mulheres, não deixo de me rever no espírito pret-a-porter da quadra, embora mantendo a azougada memória herdada da infância que me permite ser implacável a partir do terceiro ou quarto «este vestido é tão lindo, papá!» Um outro trauma vem do contexto de religiosidade bafienta em que a Páscoa se desenrolava e que originava que as duas semanas de férias de escola se transformassem quase automaticamente em frequências de igreja. A anormal concentração de missas, catequeses, confissões, vias-sacras e procissões obrigavam a uma inaudita memória para se decorar a cor das roupas dos padres ao mesmo tempo que tentava compreender como é que o meu parceiro de bilhar havia conseguido meter a preta a uma só tabela. Fugir a assistir a, pelo menos, uma via sacra durante este período era uma tarefa heróica porque as mães tendiam a julgar que só assim poderiam livrar os filhos de todos os pecados mortais originados pelos alternativos jogos de matraquilhos e snooker, pelas sangrentas e bem mais animadas matinées no cinema ou pelas futeboladas de mercurocromo jogadas no pelado de saibro do adro da igreja. Lembro-me que o castigo divino provocado pelo pecado da ausência a uma via-sacra era mais ou menos equivalente ao de apalpar as colegas durante a catequese. Mas o supremo clímax pascal dava-se após a procissão nocturna do Senhor Morto, quando o silêncio acusador de um cortejo de homens vestidos de roxo, encapuzados e armados de archotes, passando por entre filas cerradas de beatas que empunhavam terços e rezas, era interrompido pelo assustador barulho das racas de pau que me acordavam dos pesadelos onde eu me debatia com Judas Iscariotes, Pilatos, uma porrada de judeus, romanos, fariseus, escribas, centuriões e toda a sorte de demónios que tinham, nessa altura, o vício de se reunirem debaixo do meu travesseiro.

quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Não há duas sem três

O terceiro caso de assédio, provado, de que fui vítima em Angola ocorreu, muito provavelmente, em Cabinda, numa estadia programada para dois dias mas prolongada, por imposição da TAAG, cada vez mais agente promotor do turismo interno angolano, por mais um. Durante a noite, o tão temido barulho dos voos rasantes dos meus carrascos alados, a que costumo ripostar com cegos golpes de palma aberta sobre as orelhas atacadas, acordou-me por diversas vezes, obrigando-me a erguer da cama para encetar um bailado de pugilista sonâmbulo, a distribuir upercuts sobre todas as pintas existentes nas paredes e nos móveis que forravam o quarto do hotel. Pela manhã, bem que me pareceu notar sorrisos trocistas nos ferrões dos cadáveres dos dois pilotos que deixei esborrachados nos azulejos das paredes da casa-de-banho. Prenunciavam já, sei-o agora, mais uma noite de lasciva fecundação. «Um por campo» foi desta vez a sentença do juiz-de-bata-branca do costume, exactamente na véspera do meu regresso a Portugal. Por isso, conto agora vingar-me a dentadas de ovos cozidos em calda de cebola, devidamente salteados e pimentados, a amêndoas tiradas do arco-íris de taças que por aqui centram mesas, a vinhos que mudarão de cor e taninos consoante o que olhos e narizes pleonasticamente vêem e cheiram, a coelhos de chocolate de que não gosto mas ainda menos suporto fitarem-me firmes e hirtos nas suas enormes orelhas cobertas por papel prateado, a pão-de-ló recheado a LBV e a tudo o que saiba a exagero. No regresso a Angola, tenho a certeza de que vingarei com colesterol as próximas picadas.

terça-feira, 7 de Abril de 2009

Post de uma morte (não) anunciada

No dia em que escrevi e pretendia publicar isto o Asus pifou. A partir do próximo mês de Maio, previsivelmente, este blogue extingue-se. Ao contrário do início, haverá que dar sentido a este final. Que melhor alibi para a mudança de armas e bagagens, de que tanto autor quanto blogue estão necessitados, do que uma nova aventura em África? Acabar a comentar títulos de jornais tem sido o estertor de muitos blogues em asfixia de densidade e também este parece não conseguir fugir à regra. Bora lá então à mudança, aproveitando a boleia da outra. Afinal, em ocasiões mimeticamente anteriores, uma nova aventura determinou um novo blogue. Daí que, após ano e meio a murmurar escritos nesta caixinha, prevejo silenciá-la a partir de Maio. Como comunicar no futuro, irremediavelmente não longínquo, logo se verá. Para já, fica apenas a insustentável percepção do presente. Como, desde que me internei em África, estou cada vez mais crente no acaso, decidi não levar a sério o que escrevi. Conto, então, continuar neste trilho até nova mudança de humor. Minha ou do sucessor do Asus.

domingo, 5 de Abril de 2009

Selagens

Sócrates queria um selo com a sua foto para deixar para a posteridade o seu mandato no Governo deste país que está de tanga. Os selos são criados, impressos e vendidos. O nosso PM fica radiante! Mas em poucos dias ele fica furioso ao ouvir reclamações de que o selo não adere aos envelopes. O Primeiro-Ministro convoca os responsáveis e ordena que investiguem o assunto. Eles pesquisam as agências dos Correios de todo o país e relatam o problema. O relatório diz:"Não há nada de errado com a qualidade dos selos. O problema é que o povo está a cuspir no lado errado."

Chegou-me agora, pelo correio. Electrónico.

sábado, 4 de Abril de 2009

Pif-Asus

Depois de o ter já ameaçado, o Asus pifou mesmo. Daí que, nos últimos dez dias, algumas novidades terão passado ao lado deste blogue. Por exemplo, a terceira confirmação do meu, tão fulminante quão preocupante, sex-appeal junto das mosquitas de Angola, o anúncio antecipado, mas não publicado, da morte deste blogue e, finalmente, o regresso a Portugal mesmo a tempo de assistir a outra propalada paixão, a de Cristo. Pelo meio, passaram ainda algumas outras águas de que espero poder pontear nos próximos dias. Num outro laptop perto de mim. Finalmente.

quinta-feira, 26 de Março de 2009

Quem sai aos seus...

Magalhães estará a ser vendido no mercado negro. Este título, português, logo fez disparar na memória um outro, angolano, de há dois meses atrás. Livros de distribuição gratuita à venda. Certificação da latinidade dos dois povos?

quarta-feira, 25 de Março de 2009

Facas na Liga

Após cinco minutos a assistir, através da RTPi, à baboseira que vai decorrendo no Prós e Contras, atirei a almofada do sofá ao chão, vaiei o comando do televisor, pontapeei um copo de plástico e saí da sala com a frustante convicção de que o melhor e mais salutar programa desportivo da televisão portuguesa é a Liga dos Últimos.

Redzinger

Bento XVI falou no tabu da corrupção. E agora? Pois, boa pergunta. Se calhar, logo seguida por uma outra, ligeiramente mais plebeia. Quem diria que este Ratzinger viria aqui armar-se em João Paulo II, o verdadeiro Papa? Quiçá seguida por um pagão acto de contrição. Vá-se lá confiar nesta gente mais na sua eclesiástica mania de protagonismo. Então, agora... vamos lá a saber quem foram os editores de jornais que se atreveram a transcrever na íntegra os discursos do Papa.

terça-feira, 24 de Março de 2009

Exitosos defuntos

Um bispo sul-africano classificou como «exitosa» a organização angolana da recepção ao Papa. Suspeito que as famílias das duas jovens mortas às portas do estádio dos Coqueiros não concordarão com esta fraterna parabenização. A menos que se trate, afinal, de mais uma reedição da velha máxima católica da confissão que precede o perdão.

domingo, 22 de Março de 2009

Instâncias papais

Bento XVI insta classe dirigente a pôr fim à corrupção. E instou bem, como, certamente, o mundo inteiro terá considerado. Tal como consideraria igualmente uma outra instância, a da profilaxia do preservativo, que permitiria salvar por aqui tantas criaturas de Deus. Não se conhece, entretanto, é a resposta da corrupção à afirmação papal. O que se sabe é que, para já, irá haver, amanhã, nova tolerância de ponto em Angola. A acrescentar à da sua chegada, na última sexta-feira. Desta vez, para festejar a despedida do Papa. Em mais uma prova de que a produtividade angolana há muito foi abençoada.

Compumalária

Desde a última segunda-feira que este blogue anda entupido por uma dúvida. Será que a malária também pega aos computadores? A mim, bastou-me vegetar uma tripla sessão terapêutica de dez comprimidos diários e trocar o sábado de sol e mergulhos no Cabo Ledo pelo insoso estirar no sofá de sala, a ver rugby, ténis, ciclismo e tudo o mais que recusásse fazer a pedagogia da doença. Mas aqui o Asus, o computador de Taiwan que me tem acompanhado nesta aventura africana e que me serve de muleta no blogue, parece ter ficado bem mais afectado. Começou por deixar de ver e de me mostrar nas chamadas video lá para casa, a vingar-se das sucessivas greves da Movinet com um definitivo lay-off, a não reconhecer até as pen-drives com quem costuma dormir na mala em que os transporto e, durante toda a semana, a acrescentar mazelas várias até que, ontem, finalmente, entrou em coma. A única coisa que conseguia fazer, qual soldado apanhado pelo inimigo durante uma batalha, era mostrar o próprio nome no arranque. Ainda assim, apenas a preto e branco. Hoje, estranhamente, parece ter acordado do coma. Efeitos da estadia de Bento XVI em Luanda? Bruxaria? Pelo sim pelo não, prefiro não me meter nesta conversa.

segunda-feira, 16 de Março de 2009

Toque a rebate

Claro que nem toda a gente terá a possibilidade de, num determinado dia, acordar, espreguiçar-se a meio do gesto de se levantar da cama, arrastar o resto do sono até à casa-de-banho, presentear o espelho com o primeiro bocejo do dia, vigiar se as olheiras da manhã anterior lá continuam, fazer tiro ao alvo na sanita, voltar ao lavatório para limpar as mãos, reconfirmar a má imagem da mesma cara de há momentos atrás, preparar-se para a aspergir com as primeiras palmas de água do dia e resmungar mentalmente qualquer coisa antes de, maquinalmente, abrir a portazinha de plástico do móvel de inox cinzento pregado na parede de azulejos verdes e brancos enquanto sentencia em voz alta «se calhar estou com febre» e retira o termómetro a pilhas, estende-o em horizontal no sovaco esquerdo e volta ao espelho para retomar o policiamento das rugas, dos olhos remelados, do cabelo cada vez mais raro, das orelhas que insistem em não encolher e do raio dos pêlos brancos que espreitam do nariz e de que me esqueço de cortar há dias, preocupado como ando sempre com o tempo de saltar para o chuveiro, enfiar-me dentro do fato, passar a correr pelo pequeno-almoço e esquecer-me de tomar o café, mas não de travar as portas do jeep antes que alguém seja mais rápido do que eu, chegar ao escritório e anunciar à primeira secretária que encontrei, no mesmo tom solenemente pardacento como costumo pedir-lhe folhas A4 em falta na fotocopiadora, «importa-se de marcar uma consulta na clínica pois desconfio que estou com malária?» Vendo bem as coisas, esta realidade é bem mais séria do que quaisquer piadinhas sobre o sexo dos mosquitos postados no blogue de um autor momentaneamente febril.

Os mosquitos tocam sempre duas vezes?

Finalmente sei o que, em malariês, quer dizer «dois por campo». As observações microscópicas sobre os diversos campos de visão numa lamela de vidro onde jaz o sangue retirado com uma guilhotina anã da ponta do meu indicador direito, urrrhh, deram conta da existência, em média, de dois bichinhos. Sendo, apesar de tudo, sinal da pouca fertilidade do solo, a leitura aqui deste lavrador é a de que houve, pelo menos, dois mosquitos que conseguiram ultrapassar a, aparentemente, vã barreira do repelente com que costumo besuntar o cocuruto, as pontas das orelhas, as costas das mãos, os braços até ao cotovelo e as mangas das camisas quando me esqueço e as desarregaço. Embora desconhecendo a longevidade média dos mosquitos angolanos, atrevo-me a considerar que não terão sido os mesmos de há nove meses atrás. Quando muito, terão sido as suas descendentes.

domingo, 15 de Março de 2009

Esquecer de respirar

Um homem, conhecido por esquecido, deixou o seu bebé de nove meses dentro do carro enquanto trabalhava. Ao fim de três horas, o esquecimento transformou-se em fatalidade. À distância que esta notícia me toca, interrogo-me se também se esquecerá de sofrer.

sábado, 14 de Março de 2009

O último excomungado

Menina violada abortou e a mãe foi excomungada. Queixas contra abusos do clero aumentaram. Duas notícias de sentido epistolarmente antagónico. Mas só aparentemente. Afinal, tanto um caso como o outro comungarão da mesma sagrada leitura. A de que o crime compensa. Valha-nos Deus. Pelo menos enquanto não o excomungarem também.

quinta-feira, 12 de Março de 2009

Estado Falhado de Sucesso

O relatório do Global Witness sobre a responsabilidade da banca mundial no empobrecimento de Angola é impressionante. Tanto due dilligence para, afinal, acabar a financiar-se mais corrupção. E 1,7 mil milhões de dólares que, todos os anos, ficam por contabilizar nas contas do Tesouro angolano, é obra. A mesma que tem falhado a este país viciado em desvios. Comparado com isto, até Madoff julgará ter atenuantes.

quarta-feira, 11 de Março de 2009

Um país criativo

Presidente da República pede parcerias criativas. O Presidente da República, José Eduardo dos Santos, anunciou ontem, em Lisboa, que “Angola está muito interessada em definir as parcerias com o sector privado luso que sejam criativas, que produzam resultados e que sirvam para resolver problemas dos respectivos povos”, in Jornal de Angola, hoje.

A semana passada, ao chegar ao trabalho, verifiquei que o jipe com que nos últimos meses me tenho arrastado pelo trâfego de Luanda tinha o pneu traseiro do lado direito vazio. Depois de levado à oficina com quem mantemos uma parceria para as reparações da frota automóvel, devolveram-mo, «pronto», no próprio dia. Hoje ao fim da tarde, à chegada a casa, reparei que tinha o pneu dianteiro do lado direito vazio. Não é por nada, mas receio bem que este possa ser um exemplo das tais parcerias criativas.

terça-feira, 10 de Março de 2009

Me too

Para já, algures entre a previsível boçalidade com que a blogosfera tuga que li acompanha a visita do presidente angolano a Portugal, eis o meu post preferido.

segunda-feira, 9 de Março de 2009

Catorzinhas

A primeira vez que ouvi falar de catorzinhas foi num obscuro jantar que reuniu uma mescla de colegas de trabalho e amigos de colegas de trabalho. Mantendo o mesmo tom de caserna em que o dito jantar decorrera, lembro-me que alguém afiançara que o «broche» de uma miúda de catorze anos seria o elixir do que considerava a juventude dos seus quase sessenta. Em diversas outras ocasiões e mais ou menos veladamente, assisti por aqui à repetição do testemunho do mesmo pretenso teen-rejuvenescimento, principalmente na versão do homem-casado que tem uma ou várias jovens namoradas-por-conta. Na opinião de um deles, profissionalmente próximo e por isso julgando-se isento de licença prévia para opinar, trata-se de um modelo familiar que exemplificará a reivindicada maior «felicidade» do homem africano face à monogâmica fidelidade ocidental. Sabendo-o pai de três filhas menores, fico sem saber se se referirá também aos genros. Já antes de ler Pepetela havia percebido que, por aqui, as jovens amantes tenderão a ser apetecíveis divisas que enfeitam lapelas, não apenas de generais e de todo o tipo de praças locais, mas também de expatriados facilmente seduzidos pela proverbial maior impunidade africana. A virilidade de cada um passa a medir-se pela quantidade de crianças que coleccionam, não havendo por isso, certamente, lugar a um grande rigor na selecção da idade de cada uma. O que poderá significar catorze, treze, doze, onze, dez, até menos anos, para estes felizardos? Porventura, passarem a ter de se preocupar com fraldas, chuchas ou barbies e a integrarem inesperados ménage à trois. Claro que nenhum destes homens felizes ignorará que se estará a aproveitar da miséria instalada e que o que estarão por aqui a praticar, facilitar ou fomentar é crime, mesmo que não penalizado em Angola. E que essa felicidade terá, afinal, um outro nome. Pedofilia. E que não adiantará justificarem-se com costumes ancestrais forjados na natural preponderância do número de fêmeas, com históricos hábitos da maior disponibilidade africana para os jogos corporais, ou ainda, aos propensos a uma intervalada maior intelectualidade, a defenderem-se nos valores culturais do país, pelo simples facto de que a essência de qualquer cultura está em colocar-se, sempre, as pessoas em primeiro lugar. Mas sabe-se também como, ao longo dos tempos, a hipocrisia sempre demonstrou ser o maior obstáculo da civilização.

domingo, 8 de Março de 2009

Mulherio II

Excomunga-se uma criança de nove anos de idade por ter sido violada, toda a equipa médica que lhe fez o aborto, mas não o violador. Por isso não estar previsto nas regras da casa, segundo o homem (?) do momento no Brasil, o bispo de Olinda e Recife. E não se pode exterminá-lo?

Mulherio

Na terra das catorzinhas e da poligamia quase constitucional, o respeito pelas mulheres é tal que até o facto do seu Dia Internacional calhar a um domingo obriga a passar-se o feriado para o dia seguinte.

domingo, 1 de Março de 2009

Amor,
Vejo-te na cama, a rebolar de êxtase com o Lobo Antunes que finalmente conseguiste acabar de ler, a perseguir com uma ameaçadora tesoura minúscula as unhas dos meus pés roídos de medo, a pedir que te esfregue pela enésima vez o creme nas costas salgadas pelo sol, a chamar-me para ti naqueles convites gestuais que fazes com o corpo e aos quais me habituaste a não resistir. Vejo-te sentada no pequeno cadeirão onde o Messenger permite caberem também as nossas filhas com quem continuas o jogo de confidências que diminui as distâncias, a levantar de lá o nariz com os óculos roxos de ver-ao-perto içados a meio para me lançares um comentário qualquer que facilmente esqueço por me ser sempre mais fácil fixar-te os gestos, a dobrar a minha roupa interior cada vez mais esburacada pelo queimar do sabão que dizes ter de enxaguar melhor antes de a pôr a secar. Vejo-te à janela a apreciar Luanda e a dizeres-me que pareces estar no paraíso simplesmente porque estás comigo, ouço-te calar pela jaula em que ficas todo o dia e que transformas em biblioteca até ao meu regresso ao final da tarde, sinto o conforto de me assegurares não querer depois sair à rua por não nos interessar a noite dos outros. Vejo-te a substituir-me no lavatório das peúgas e das t-shirts dos meus joggings matinais subitamente cheirosas e rejuvenescidas, no chuveiro a tomar o meu lugar a puxar a cortina de plástico para evitar que os espirros da água contaminem o chão, a segurar a emergência do toalheiro de arame que insiste em despregar-se da parede. Vejo-te em sítios de que não me lembro de te ter visto, dentro do guarda-fatos, do frigorífico, do televisor, no comando do ar-condicionado, na chaleira que deixou de ser usada, nas cruzetas das camisas que dependuravas passadas e espaçadas e que agora voltaram ao reboliço do tudo-ao-molho, vejo-te no corredor, na espera do elevador, na contagem dos degraus das escadas, nas pessoas que já não me sorriem porque tu já não as cumprimentas, vejo-te a meu lado a rir-te do trôpego do trâfego e da patética pressão dos arrumadores, a confortares com o olhar o de todos os pedintes e estropiados que nos cercam nas ruas, a alinhares comigo as pegadas na areia quente e fina do Cabo Ledo e do Mussulo, a calcorrearmos juntos as linhas da maré perante o espanto dos caranguejos que se transformam em bólides de aceleração lateral rumo à vazante, a deixarmos as ondas tirar-nos as roupas para podermos nadar nus naquela praia quase deserta, a sentir que o teu corpo continua a querer refugiar-se no meu para lá dos efeitos de todas as correntes que já atravessámos juntos e a desejar fazer amor contigo naquela barraca de canas que agora me parece um palácio.

sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Refinação

Banco da CGD e Totta em Angola avança em breve em parceria com a SONANGOL, decididamente, o mais refinado grupo bancário local.

quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Restos

Direitos Humanos: Angola apresenta pior registo entre países africanos de Língua Portuguesa. Uma das mais elevadas taxa de crescimento do PIB no mundo? Estabilidade da moeda face ao dólar? Maior produtor sub-sahariano de petróleo? Investimentos bancários no exterior? Então e o resto?

terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

É Carnaval ninguém leva a mal (II)

Surto de raiva estará controlado «dentro de dias». Não se percebe como, mas o bastonário da Ordem dos Médicos de Angola decretou que a raiva, que até aqui oficialmente matou quase uma centena de crianças em Luanda, será irradicada «dentro de dias». Como esta irradicação estará a ser feita a golpes de seringa em tudo o que é canídeo vadio acusado de «mordedura», crê-se que bastarão mais algumas delações da vizinhança até se acabar com o «surto epidémico».

É Carnaval ninguém leva a mal (I)

Presidente do Partido Liberal Democrático filia-se no MPLA. O fundador, desde 1980, deste partido, anunciou agora, 29 anos depois, que, finalmente, «enchi-me de coragem» e, vai daí, passou-se para o «único partido onde perdura a democracia, liberdade e o respeito para com os militantes e cidadãos angolanos». Isto é o que se chama um acto de perseverante fidelidade ideológica.

domingo, 22 de Fevereiro de 2009

New Label

Numa Europa cada vez mais taralhoca, onde as esquerdas clamam pela nacionalização de tudo o que mexa, incluindo o empreendedorismo, e as direitas voltam a entoar o consabido refrão do choque fiscal, ambos insensíveis ao entendimento de que tudo terá de ser diferente daqui para a frente, uma voz parece transportar o bom-senso que tem faltado. Creio ser o caso de Gordon Brown, o até há pouco pior prime minister da história recente do Reino Unido. Acalmada a voracidade dos media perante a falta de carisma que atribuiram ao sucessor de Blair, dependerá sobretudo dele e das decisões que vier a tomar sobre o sistema bancário do país, que se diz ainda mais falido que o da Islândia, a sobrevivência da Inglaterra. Nos tempos que correm, quer-se mais gestores do que políticos. No sentido de que haverá que, sobretudo, ter a convicção de procurar ver-se para além da espuma das sondagens.

sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Idiosincrassias

Caritas do Cunene denuncia fome na província. Há uns meses atrás, em conversa com empresários tugas que procuravam locais para produzir citrinos como o faziam no Algarve, fiquei a saber que na província de Benguela haveria condições para fazer-se até quatro colheitas por ano. Num país assim, custa a crer que haja pessoas com fome.

Alcácer-Quibir

Ministro angolano critica 'amiguismo' no crédito bancário. Agora que Angola tomou o lugar do Brasil no preenchimento da legenda do famoso quadro da árvore das patacas, pendurado na imaginação dos que emigraram durante grande parte do século XX, convirá que os tugas que têm ameaçado invadir Luanda com três boeings diários saibam calibrar os fundamentos da economia local, bem como os anseios do empresariado com quem estarão condenados a fazer parcerias. Como este extraordinário exemplo de inconformismo de um ministro que luta contra a discriminação de que diz ter sido alvo, tendo-a saneado apenas após a chamada à liça do regulador-mor. Com a ligeireza da bagagem de alguns tugas que vejo arribar por aqui, receio bem que Angola possa vir a tornar-se no Alcácer-Quibir de muitos projectos.

sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Capulanas

A ideia era comprar uma capulana para matar saudades a uma tuga que já fora também angolana. De imediato, as duas jovens quitandeiras largaram, sorridentes, as montanhas embrulhadas de pano que traziam à cabeça e estenderam em leque as peças pelo chão. Quanto custa cada uma? Dois mil kwanzas? É muito caro! Compramos ainda ontem uma a setecentos e cinquenta, mentimos. Um par de sorrisos, inexpugnáveis na vontade de aumentar o pecúlio da jorna ou, quiçá, apenas no desejo de se desfazerem de mais um peso na cabeça, logo desarmariam o ímpeto regateador dos compradores. Escolha, senhora, tem aí panos muito bonitos! A mil não, que foi a quanto compramos, mas logo logo se faz um desconto. Uma luta desigual estava prestes a ser travada naquele fim de tarde junto à Baía, quando uma das mulheres, finalmente livre do peso que carregava à cabeça, espreguiçou a gravidez por debaixo do longo vestido amarelo. A partir daí, já não era o marralhar do preço de um simples pano colorido, no banalíssimo propósito de recuperar o desconto da venda como se fora a um local, que passara a ofuscar-nos naquele quente e amorfo fim de tarde, como o são todos em Luanda. Então, fica mil para si e mil para o bebé. Já não me lembro das cores estampadas na capolana, que permanece dobrada tal como foi entregue, mas recordo bem o colorido dos sorrisos que deixamos para trás.

A saga continua mesmo

quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Fezada de projecto

Governo projecta nova cidade a norte de Luanda. Esta projecção assenta no pressuposto de que, a continuar este ritmo de crescimento, a população da capital duplicará em vinte anos. Tal como antecipa a impossibilidade de se criarem condições para que muitos regressem aos locais donde fugiram. Também, que sectores como a agricultura, a indústria transformadora ou o turismo, serão inviáveis como absorventes de mão-de-obra a deslocar para fora de Luanda. E, finalmente, na convicção de que ainda haverá petróleo em 2030. Pois a mim parece-me que este projecto se arrisca a ser apenas uma ganda fezada.

quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

O inferno em África

Quando leio o que se passa no actual Zimbabué, que desde Dezembro imprime notas de 10 mil milhões, que equivalem a menos de 20 dólares americanos, para tentar enganar uma hiper-galopante inflação anual estimada em mais de três triliões por cento, que aquele caixão de notas não dá para comprar mais do que quinze carcaças de pão e que 90% dos cerca de 15 milhões de habitantes está desempregada, interrogo-me se, alguma vez, um país que houvesse sido colonizado por portugueses poderia transformar-se num inferno como este.

terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Jungle style

Uma das consequências desta minha passagem por Angola será, seguramente, a perda da carta de condução. Em Portugal, no regresso. Por aqui, pelo contrário, espero vir a tornar-me piloto de rallye. Hoje de manhã, pela primeira vez, galguei um lancil e conduzi quase cinquenta metros por cima de um passeio com a ajuda solícita dos peões que lá se encontravam, os quais, energicamente, mo sinalizaram mal anteciparam o congestionamento provocado na estrada pelo toque entre um camião TIR e uma carrinha. Receio bem vir a viciar-me neste tipo de condução, a que alguns colegas sul-africanos vêm, certeiramente, chamando jungle style. Mas que tem a vantagem, inquestionavelmente, de injectar adrenalina logo pela matina.

domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Empregos em bloco

Nos dias de hoje, os políticos e os bloggers têm cada vez mais em comum. Desde logo, a necessidade de dizerem e escreverem coisas, que se esforçam por parecer novas, a fim de manterem a atenção dos respectivos fregueses. Basta uma cibernáutica e dominical leitura dos placards informativos que habitualmente utilizam para se perceber isso. Uma das técnicas, necessariamente de vendas, é apostarem em frases emblemáticas, como o fez Louçã com a dos coelhinhos reprodutores, numa figura de retórica, como bem refere Ferreira Fernandes no «Público» de hoje, de duvidosa fertilidade. Uma outra, já velha em deputados do PCP e do CDS e agora recuperada por bloggers apostados em projectar-se no universo da adivinhação, é a «de avivar a memória das pessoas». No «Delito de Opinião», por exemplo, demonstra-se que, afinal, a culpa da crise económico-financeira que abala presentemente o mundo não terá sido iniciada pelo sub-prime na América mas com uma promessa pré-eleitoral de um azougado candidato a primeiro-ministro de Portugal há quatro anos atrás. Mas, em definitivo, a baboseira da semana continua a pertencer a Louçã, professor de Economia e cada vez mais profeta nas horas vagas, que não resiste a cavalgar o que vem anunciando como a derrocada do sistema capitalista. Vai daí defende «a proibição de despedimentos em empresas que apresentem resultados positivos». O que não deixaria de ser uma excelente fórmula para criar mais empregos num Portugal bloquista. Colocava-se um comissário ao lado de cada contabilista, director financeiro ou gestor de cada empresa privada, se estas ainda fossem autorizadas a exercer a actividade, zelando para que mantivessem a todo o custo o rumo dos lucros. Numa orientação de gestão que visaria defender já não a óptica dos coelhinhos-patrões, que só pensam no lucro pelo lucro, mas a dos coelhinhos-trabalhadores e o seu legítimo direito ao emprego. E quando algum daqueles quadros propusesse investir-se numa nova linha de produção, no desenvolvimento de um novo produto ou em establecer-se num novo mercado... pimba! Recusava-se logo a proposta, dado o pernicioso dos custos associados que poderiam pôr em risco os insofismáveis lucros e o emprego de todos. Viva o Bloco do Emprego.

Não há fome que não dê em fartura?

Angola, novo Eldorado para a saída da crise. Percebe-se bem, por aqui, que os novos imigrantes são cada vez mais jovens. Com a crise a alastrar-se a Ocidente, já não serão apenas os mais maduros e experientes a conformarem-se com a inevitabilidade da mudança. E o que, dantes, poderia até parecer um desterro é, agora, encarado como uma imensa oportunidade. Que ninguém quer perder. Resta saber se esta nova e cada vez mais jovem invasão não porá em causa o propósito das autoridades angolanas em ver formados os seus próprios profissionais.

Fundamental

A Associação 25 de Abril e a RTP inauguraram um sítio na internet onde, baseado no livro acima, pretendem dar a conhecer a Guerra Colonial que decorreu entre 1961 e 1974 na Guiné, Angola e Moçambique. Absolutamente fundamental para o conhecimento deste período da História portuguesa e, também, dos novos países africanos nascidos após o final do conflito.

sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Destino traquino

Mãe acorrenta filho em Luanda.

quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Provincianismo beef

O que é sobretudo irritante no soundbyte do caso Freeport não é saber se Sócrates meteu a mão na massa, se a mãe comprou o apartamento com a pensão de reforma aplicada no off-shore ou se o tio falsificou-se como testa-de-ferro do sobrinho ministro. O que é irritante é que o País inteiro se ponha de lupa em riste às ordens de uns quaisquer Bobbys de uma esquadra da polícia inglesa, tardiamente tomados por um ataque de justicialismo sobre uma ressabiada carta anónima. Que, entretanto, se encontrem outros cidadãos da União Europeia a serem pressionados para cederem aos desempregados locais os empregos que, certamente, terão sido legitimamente conquistados nas refinarias da Escócia e nas plataformas petrolíferas do Mar do Norte, já lhes parecerá uma questão de somenos. Curiosamente, esta hipocrisia tem sido replicada por tudo o que é blogue no rectângulo, confortavelmente resguardados na brisa acusadora proveniente da nobre e exemplar Inglaterra. É o regresso do raquítico provincianismo português, como certamente escreveria o blogger Fernando Pessoa.

quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

Caos com rodas

Mais de um ano após me ter estabelecido aqui, comecei a conduzir em Luanda. E, até agora, estranhamente, tenho sobrevivido ao caos. Dos hell angels dos candongueiros mais as suas loucas investidas por todas as faixas de rodagem existentes e a existir, como os inventados corredores prioritários que convencionaram ser os dos seus Bus, na realidade, bermas e passeios que por aqui deixaram há muito de ser exclusivo dos peões. Do acompanhamento furtivo do enxame de motas e motorizadas, cuja inimputabilidade perante regras de trânsito ou qualquer sinalização existente, incluindo semáforos e sinaleiros, os transforma em invisíveis vítimas assassinas. Das regulares inversões de marcha em quaisquer ruas, ruelas, descampados ou avenidas, mesmo se apenas com um, dois, ou mais sentidos, que por aqui são os que apetecem a cada um em cada momento. Do constante assédio de arrumadores, que podem variar para seguranças, guardas, nocturnos e diurnos, polícias ou simples transeuntes, à chegada ou à saída de qualquer lugar, todos especialistas em avaliação patrimonial dos terrenos que o automóvel pisa, aqui são cem kuanzas, ali duzentos, para sair daqui nunca menos de quinhentos. A forma como tenho conduzido, confesso, em constantes relatos como se na transmissão radiofónica de um jogo de futebol, será um inferno para quem me acompanha, principalmente se no lugar-do-morto. «Cuidado!», «sai da frente, pá!» e «olha-me este caramelo!» serão dos mais simpáticos e traduzíveis momentos da antena. Os restantes mimos já serão mais do universo dos comentários de balneário.

domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Aviso à navegação

Alguém deu-se ao trabalho de cruzar o Atlântico pelos ares para vir pousar âncora perto de mim, pelo que nas próximas semanas este blogue ficará mais preguiçoso. Passarei, concerteza, a falar mais de mim, de ti, de nós, do que de todos os eles que costumam desfilar nestes posts. E a deixar de estar atento ao que se passa em redor, se é que se tem passado, verdadeiramente, alguma coisa por aqui. Passarei, então, a semicerrar a janela donde habitualmente espreito a vizinhança e a espreitar para dentro. Redescobrindo, como sempre suspeitei, que há bem mais vida para além do desterro.

sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Um problema de escassez

Governo pede cautelas na utilização dos "escassos" recursos do Estado. Talvez que não fosse má ideia que a população angolana passasse a discutir porque é que estes recursos serão, agora, assim tão escassos.

quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

A saga continua

'Angolagate': 500 mil euros gastos em acompanhantes. Podiam não saber tocar piano ou falar francês mas os gatos angolanos do Angolagate sabiam reconhecer os pergaminhos da nobre arte de servir café e chá. Daí terem premiado as meninas francesas que os ajudaram a descobrir no Louvre o prazer da observação do formalismo das linhas das esculturas etruscas do século VI a.c., a decifrar o mimetismo do túmulo de Tutankamon ou a pôr legendas nas molduras dos quadros dos velhos pintores flamengos com a oferta de automóveis e de apartamentos afiançados. Creio bem que terá sido esta sua conhecia veia artística que os livrou do banco dos réus. Chapeau.

terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Voto nesta

Esta petição pública chegou-me por correio electrónico. Tem-me sido difícil resistir à sua subscrição. Sobretudo por dever patriótico.

ASSUNTO: URGENTE - RAPTO DE DEPUTADOS
A Todos os PORTUGUESES
Precisamos da sua ajuda!!!
Grupo armado auto-denominado "Nortada" raptou esta manhã um grupo de deputados que se encontrava nos gabinetes da Assembleia da República (como ocorreu às 11 horas não estavam lá muitos).
Estão a exigir o pagamento de 15.000.000,00 euros em troca da sua libertação.
Se não for pago dentro de 24 horas, vão regá-los com combustível e queimá-los vivos.
É imperativo organizar uma colecta para receber ajudas !!!!
Conseguiu-se até agora:
- 1580 litros de gasolina Sem Chumbo 95- 1320 litros de gasolina Sem Chumbo 98- 1250 litros de gasoleo- 175 de gasoleo agricola- 78 caixas de fosforos- 21 isqueiros- 1000 acendalhas- 337 botijas de gás
Não mandem álcool, pois o mesmo pode vir a ser consumido pelos próprios deputados.
Aceitam-se tambem barris de pólvora.
Se você apagar esta mensagem, é porque não tem coração... Por favor, leia e ajude...
PORTUGAL PRECISA DE SI !!!

segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

Serviços de limpeza

Tribunal Constitucional extingue formalmente vinte partidos. A democracia angolana acaba de eliminar todas as forças políticas que obtiveram menos de 0,5% dos votos nas últimas eleições. Curiosamente, a filosofia deste serviço de limpeza assenta mais nos alicerces de Darwin do que nas estacas de Marx. Numa prova de que o regime actual crê nas virtudes da evolução e aposta, assim, na selecção natural dos futuros membros.

domingo, 25 de Janeiro de 2009

Rtpi-análise

Do programa que acabei de ver na RTP Internacional, «As Escolhas de Marcelo», que tinha a particularidade de o ter em Luanda, retive três coisas. Que a entrevista foi pré-gravada de tarde. Que Marcelo se referiu ao regime democrático angolano como não estando «ainda consolidado». Que a energia falhou uma vez durante a transmissão. Enfim, pouca coisa para merecer um post. Azar. Logo hoje que eu me preparava para parecer um blogue de primeira linha e fazer a análise das análises do prof. Marcelo.

Um País de almirantes

De vez em quando, o Terceiro Mundo ocupa o convés de uma piroga e faz-se ao mar, seguindo em encruzilhada as correntes frias que sabe fazerem-no subir pelo Atlântico em direcção a um local cujos indígenas se habituaram a chamar Europa. De quando em vez, lá chegado, a sua conhecida capacidade de dissimulação facilmente o faz confundir-se com um seu parente afastado que, habitualmente, faz gala de uma aristocrática e falsa superioridade. Daí que não espante lerem-se títulos como este na primeira página dos jornais de Portugal. Marinha tem mais almirantes que navios.

25 de Janeiro

Tirando as dos meus, nunca fui de decorar datas de aniversários. Muito menos de cultivar essa falsa simpatia de quem coloca na agenda os dias de anos de amigos, conhecidos, vizinhos, colegas de trabalho ou, até, clientes, para lhes ligar logo às 9 horas da manhã, na azáfama do cumprimento da primeira tarefa do dia, a desejar-lhes feliz-aniversário-e-que-seja-por-muitos-anos para receber do outro lado um resmungo de obrigado-e-que-tu-possas-cá-estar-para-contá-los. O que nem sempre será verdade quando sabemos que o parabenizante, como se diz no Brasil, quer afinal continuar a sentir que aprisiona a nossa intimidade pelo menos uma vez por ano e o que nós queremos, em contrapartida, é que ele vá colher urtigas até ficar com as pontas dos dedos impróprias para folhear a agenda à procura da próxima vítima aniversariante. Dito isto, confesso, no entanto, ter, desde miúdo, uma fraqueza agendada. O dia 25 de Janeiro. Que é a data de aniversário do grande Eusébio da Silva Ferreira, o Pantera Negra, o maior futebolista de sempre, que faz 67 anos hoje. E estou bastante chateado porque desde as 9 da manhã que tenho vindo a tentar ligar-lhe e ele continua com o número interrompido.

sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

Amizade colorida

Angola já é o maior fornecedor da China, à frente da Arábia Saudita. Tenho ouvido, por aqui, a anedota de um pai angolano que entra esbaforido num consultório pediátrico levando nos braços um bebé com algumas semanas de vida. «Senhor doutor, o meu menino não abre bem os olhos praticamente desde que nasceu!» Após o exame da praxe, resposta do médico ao falso progenitor. «Meu caro, olhe que quem tem a obrigação de passar a abrir bem os olhos é você!» Há quem considere que é isto mesmo que Angola tem de fazer. Mais cedo do que mais tarde. Antes de passar a ficar com os olhos-em-bico com a oleosa sofreguidão de imaginar o seu futuro plantado por pomares de árvores das patacas que, afinal, poderão não passar de eucalíptos.

quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

Bush e o sucessor

Não deixa de ser interessante verificar que o mesmo povo que escolheu, agora, Barak Obama tenha escolhido, antes, George W. Bush. Essa será a grandeza, porventura suicidária, da América. Retenho o sentido de uma frase dita num inquérito de rua da CNN por uma cidadã anónima. A qual, se calhar, nem blog terá. «Espero que agora possamos impor-nos ao mundo pela natureza da nossa cultura como nação e não pelo nosso poderio militar». Acho boa ideia.

quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

Como funciona o mercado de acções

Estava-se no Outono e os Índios de uma reserva americana perguntaram ao novo Chefe se o Inverno iria ser muito rigoroso ou se, pelo contrário, poderia ser mais suave.
Tratando-se de um Chefe Índio mas da era moderna, ele não conseguia interpretar os sinais que lhe permitissem prever o tempo, no entanto, para não correr muitos riscos, foi dizendo que sim senhor, deveriam estar preparados e cortar a lenha suficiente para aguentar um Inverno frio.
Mas, como também era um líder prático e preocupado, alguns dias depois teve uma ideia. Dirigiu-se à cabine telefónica pública, ligou para o Serviço Meteorológico Nacional e perguntou: "O próximo Inverno vai ser frio?"
-"Parece que na realidade este Inverno vai ser mesmo frio!", respondeu o meteorologista de serviço.
O Chefe voltou para o seu povo e mandou que cortassem mais lenha. Uma semana mais tarde, voltou a falar para o Serviço Meteorológico:
"Vai ser um Inverno muito frio?"
"Sim", responderam novamente do outro lado, "O Inverno vai ser mesmo muito frio!".
Mais uma vez o Chefe voltou para o seu povo e mandou que apanhassem toda a lenha que pudessem sem desperdiçar sequer as pequenas cavacas. Duas semanas mais tarde voltou a falar para o Serviço Meteorológico Nacional:
"Vocês têm a certeza que este Inverno vai ser mesmo muito frio?"
"Absolutamente!", respondeu o homem. "Vai ser um dos Invernos mais frios de sempre!".
"Como podem ter tanta certeza?", perguntou o grande Chefe.
O meteorologista respondeu: "Os Índios estão a aprovisionar lenha que parecem uns doidos!"

É assim que funciona o mercado de acções.

Tinha esta história depositada no meu e-mail. Como não a considero especulativa, decidi publicá-la aqui.

terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

Kissing You - Des'ree

O Anónimo (oanonimoanonimo.blogs.sapo.pt) está a publicar as canções de amor favoritas dos seus leitores. Escolhi a voz fabulosamente contida, ou contidamente fabulosa?, da Des'ree nesta música, que me parece, simplesmente, contida.

segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Lapsus

Sistema de Governo “claro” é o mais certo para Angola. A língua portuguesa é mesmo muito traiçoeira.

domingo, 18 de Janeiro de 2009

Saiu-me a lotaria!

You emerged a winner in UK NATIONAL LOTTERY held on the 14th Jan 2009 and therefore entitled to a substantial amount of £250,000 GPounds, Dell Pentium 4 Laptop, company T-shirt, Face cap from the U.K. National Online Sweepstakes Promo, provide the datas. Name: Address: Age: Occupation: Country: Tel: to claim your prize. Confesso-me. Sou um mãos largas. Acabo de recusar receber a Lotaria Nacional do Reino Unido. Que venci mesmo sem ter qualquer cautela, ou bilhete, ou de ter andado a fazer cruzinhas num papel. O prémio, que me foi secretamente anunciado via e-mail, é de 250 mil libras esterlinas. Equivalente a 280 mil euros, 360 mil dólares, 27 milhões de kwanzas. Convenhamos que é dinheiro. O que somado ao Pentium e ao restante pack têxtil permitir-me-ia umas boas férias em Portugal. Quiçá, até esquiar nas ruas do Porto. Mandei-os às malvas. Trash. Se calhar fiz mal. Espero que o anunciante, PRMO, não se chateie. E volte à carga com um prémio verdadeiramente irresistível. Sei lá, um lipstick igual ao do Cristiano Ronaldo, por exemplo.

sábado, 17 de Janeiro de 2009

Um grande romance

Angola tem tudo para grandes enredos romanescos. Um país que procura recuperar das suas duas identidades, da subalterna, tecida nas várias décadas da colonização e da autónoma, retalhada por trinta anos de guerra civil. Um povo de várias tribos que sempre mostraram fraca resistência à integração numa só, por obra e graça globalizadora de uma pequena esquadra de marinheiros tugas que por aqui amarou há séculos atrás. Um sistema político ocupado pelos vencedores das várias guerras, batalhas e guerrilhas em que o país se viu envolvido, algumas delas fomentadas por eles mesmos. Uma economia controlada pelos mesmos generais, políticos, praças e paisanos, que se viciaram em ocupar os tempos livres em jogos com regras cada vez mais parecidas com as do Monopoly. A extrema desigualdade entre as minorias, uma elite predadora de ricos, influentes e poderosos e o mais que maioritário cocktail de remediados, gasosados, pobres, analfabetos, miseráveis e tudo-junto. A posse de um maná muito procurado e de outros ainda escondidos ou inexplorados, que lhe tem permitido ocupar o espaço de um pequeno oásis de fartura num universo faminto e em reboliço. A invasão, nalguns casos ameaçadoramente gulosa, de gente dos quatro cantos do mundo, trazendo na bagagem hábitos, ritmos e perspectivas de vida pertencentes a um século que por aqui nunca passou. Os caldos, de pedra, de carne, de letras, de todas estas vivências e percursos, paralelos, transversais, oblíquos, que acabam por entrecruzar as pessoas e as suas expectativas, sonhos, afectos. E os sucessivos cortes no tempo e no espaço que tudo isto provoca nas vidas e nos destinos destes personagens em potência, que somos afinal todos os que por aqui andamos, que habitam este romance ainda não escrito, por aguardar alguém que traga no olhar a sagacidade de sentir este enredo e o saiba afiar na pena.

quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

Ausente & passado

O que se faz quando nos interrompem as conversas, nos deixam a falar sozinhos, gaguejam quando os contactamos, hesitam quando nos atendem, não nos levam aonde queremos ir ou, simplesmente, nos largam no escuro? E ainda por cima insistem que estão sempre connosco. Dois dias seguidos sem acesso à net? E ainda se atrevem a dizer que estão sempre presentes? Irra. Bora movinet para outro lado.

quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

Uma história mal contada

A globalização tem destas coisas. O que num canto do mundo é visto como discriminação, num outro pretende ser nivelador. A maioria das deputadas portuguesas, por exemplo, considerou discriminatória a fixação de quotas femininas no Parlamento. Por aqui, olha-se como niveladora a obrigatoriedade de empregar angolanos em todas as estruturas directivas das empresas petrolíferas. Como se as empresas privadas ganhassem alguma coisa em empregar expatriados ao dobro, triplo, quadruplo, ou até mais, do custo de um trabalhador local se com produtividade idêntica. Não há dúvida de que é sempre mais fácil decretar estas coisas do que investir na exigência. Mundos. Separados, creio, apenas pelo tempo. O que as mulheres tugas recusam por sexista, os angolanos aproveitam como esmola. Para, porventura, passarem a sonhar com mais um daqueles espadas em segunda mão importados dos Emiratos que fazem morrer de inveja os vizinhos. Os que não terão leis proteccionistas para salvaguar a evolução na carreira. Ou no desemprego.

domingo, 11 de Janeiro de 2009

Viajar de cuecas no Metro - No Pants

Sociologia de cuecas.

Apendicite luandense

Luanda é a cidade mais cara do mundo. Nunca pensei ter o privilégio de viver na cidade mais cara do mundo. Muito embora já me tenha imaginado, no passado, a trabalhar em Wall Street, em Cannary Wharf ou em La Defense. Jamais em Luanda. Uma partida pregada por uma globalização que se tem mostrado danada para a brincadeira. Talvez, também, por isso, consta que nova-iorquinos, londrinos e parisienses estarão estupefactos com esta ultrapassagem luandense pela direita. Hábitos de desrespeito por regras de trânsito à parte, há quem afiance que o regime angolano andará satisfeito com mais esta ascenção ao que julgam ser o podium mundial. Depois da mais bonita bandeira e do mais lindo hino, agora, a cidade mais cara. Pena o tropeção nos preços do crude. E o trambolhão na candidatura à mais alta taxa de crescimento do PIB. Entretanto, depois da surpresa, sobreveio a curiosidade. Consta já que, franceses, compararão a Torre Eiffel à do prédio inacabado do Kinaxixi, ingleses, o bairro de Kensington ao da Samba e, americanos, a Estátua da Liberdade ao mausoléu de Agostinho Neto. E, também, que o mundo inteiro se interrogará agora sobre o sentido de um velho ditado tuga. «O que é barato sai caro e o que é bom custa dinheiro». E, apêndice angolano, também muita gasosa pelo meio.

sábado, 10 de Janeiro de 2009

Vidas em cacos

Cento e trinta e cinco feridos com cacos de garrafas foram atendidos nos Bancos de Urgência dos hospitais do Prenda, Josina Machel e Américo Boavida, em Luanda, no primeiro dia de 2009. Uma das mais letais armas de ataque em Luanda, logo a seguir às de fogo, são as garrafas partidas, vulgo local cacos de garrafa. Há-os de todos os modelos e para todos os gostos. Desde os populares castanhos e made in Portugal tamanhos médios, Sagres, Cristal e Superbock, que apresentam a finura dos recortes tipicamente latinos, dada a irregularidade dos bordos quando partidos contra a parede mais próxima. Passando pelos verdes alemães, o Heineken na versão mais pequena mas mais maneirinha e facilmente disfarçável, por exemplo, no bolso de trás das calças e o Grolsch, um modelo mais avantajado e tilintante pelo badalo da rolha de porcelana, sendo ambos extremamente fiáveis pelo rigor e disciplina nos cortes dos seus vértices de vidro. Até à mais-à-mão oferta local, onde a Cuca lidera, muito embora mais pelo contributo na fase de pré-preparação da luta, aquecida pelo menor preço e maior consumo, do que pelo tamanho atarrancado e vidro adelgaçante, que lhe retirarão a acutilância dos mais pontiagudos da concorrência. De acordo com especialistas do sector, o mais longilínio Superbock será a referência deste mercado, pelo equilíbrio entre tamanho e textura, o que permitirá ao utilizador uma acrescida destreza no acto de transfornar a bebida em cutelo. Diversas carótidas examinadas nas morgues locais têm confirmado isto mesmo.

quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

O meio

Indubitavelmente, o meio faz o homem. Também, o escritor. Talento e inventiva à parte, escreve-se mais e, quase sempre, melhor quando o meio apela. Foi assim na Europa berço-da-civilização-ocidental, antes, durante e depois das grandes matanças, na Rússia pré e post gulag, na América Latina, durante a longa noite dos generais, na sempre hiper-activa América farol-do-mundo e um pouco por cada canto do planeta onde os ratos não têm permissão para invadir bibliotecas e, de alguma forma, o meio se faz à escrita. Actualmente, por exemplo, Angola. Este meio, este povo, esta vida, outros povos, outras vidas, esta pressão dos contrastes. Tivera eu tempo e disponibilidade para me internar neste enredo e era menino para começar hoje mesmo a escrever um romance.

Saudades do rectângulo

Carta de mãe (alentejana)
Mê querido filho,
Ponho-te estas poucas linhas para saberes que estou viva. Escrevo devagar porque sei que não gostas de ler depressa.
Se receberes esta carta, é porque chegou. Se ela não chegar, avisa-me que eu mando-te outra.
Tê pai leu no jornal que a maioria dos acidentes ocorrem a 1km de casa. Assim, mudámo-nos para mais longe.
Sobre o casaco que querias, o tê tio disse que seria muito caro mandar-to pelo correio por causa dos botões de ferro que pesam muito. Assim arranquei os botões e puse-os no bolso. Quando chegar aí, prega-os de novo.
No outro dia, houve uma explosão na botija de gás aqui na cozinha. O pai e eu fomos atirados pelo ar e saímos fora de casa. Que emoção: foi aprimeira vez em muitos anos que o tê pai e eu saímos juntos.
Sobre o nosso cão, o Joli, anteontem foi atropelado e tiveram de lhe cortar o rabo, por isso toma cuidado quando atravessares a rua.
Na semana passada, o médico veio visitar-me e colocou na minha boca um tubo de vidro. Disse para ficar com ele por duas horas sem falar. O teu pai ofereceu-se para comprar o tubo.
Tua irmã Maria vai ser mãe, mas ainda não sabemos se é menino ou menina, portanto não sei se vais ser tio ou tia.
O teu irmão António deu-me muito trabalho hoje. Fechou o carro e deixou as chaves lá dentro. Tive que ir a casa, pegar a suplente para a abrir. Por sorte, cheguei antes de começar a chuva, pois a capota estava em baixo.
Se vires a Dona Esmeralda, diz-lhe que mando lembranças. Se não a vires, não digas nada.

Tua Mãe Marta
PS: Era para te mandar os 100 euros que me pediste, mas quando me lembrei já tinha fechado o envelope.

segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

A realidade da ficção

Sensação estranha esta de se ser testemunha da fuga de um personagem de um livro que se leu e que, de repente, se apresenta, de carne e osso, à nossa frente. Ou, como neste caso, a nossos pés. Com a carne e com os ossos descritos no livro donde descarnou. Aconteceu isso um destes dias, próximo da praça do Kinaxixi. O personagem era Simão Kapiangala, saído do livro de Pepetela, «Predadores». Ex-guerrilheiro das FAPLA, vitimado na guerra civil por uma mina, nunca perdoou ao médico cubano a amputação das pernas e do braço direito. «...Porquê não me deixaste morrer, bastava fumares um cigarro a mais... bastava mesmo só acabares a ponta de cigarro que tinhas nos dedos, para a mina ter completado a sua obra, muito melhor que ficar agora assim...». Sobrevivia, sobrevive?, de esmolas na rotunda do Kinaxixi, quando não vinha, virá?, a polícia com preocupações sanitárias e o levava, levará ainda?, e a outras vítimas de poliemielites, minas e mutilações várias, até «...umas barracas longe do centro, onde davam rações de combate para comerem durante dois dias e depois os esqueciam para morrerem mais depressa.» Demorava depois a regressar às ruas de Luanda, era até o último a chegar, mas chegava sempre, «...se enrolando para rebolar sobre o asfalto incandescente». E quando as dores lhe invadiam o corpo, «... um relâmpago lancinante que lhe atravessava a cabeça como rasto de bazooka», Simão toureava os carros a meio da via «...levantava o braço esquerdo no ar, gritava para os motoristas, me mata já, passa por cima de mim...» e «...por vezes se punha mesmo um pouco mais para o lado, suicida, obrigando os carros a fazer um desvio pronunciado, esquivando o corpo oferecido em redenção.» O Simão que agora encontrei não se põe a meio da via, antes fica estacionado no separador central, junto ao semáforo que controla uma das entradas na praça, à espera que os carros parem para lhes bater na porta com os nós dos dedos sobrantes e para obrigar os motoristas distraídos a abrirem o vidro e a baixarem os olhos para o barulho fantasma. Perante este e outros tantos quadros que se vêem expostos por aqui, nem sempre previamente emolduráveis por letras, é difícil racionalizar o esmolar da consciência, pelo que me tenho limitado a poupar de seguranças, arrumadores, paquetes, polícias e outros pedintes mais reivindicativos.

domingo, 4 de Janeiro de 2009

Esquemáticos

CGD. Dois altos quadros reformados por invalidez estão na concorrência. Nos meus primeiros tempos de Angola, assisti a uma apresentação da realidade do país a um grupo de investidores estrangeiros feita por um consultor sul-africano há muito aqui estabelecido. Estranhei que, depois de referir que o velho edifício jurídico-administrativo era herdado da colonização portuguesa, afiançasse que a prática generalizada de esquemas para contornar a legalidade tinha igual apadrinhamento. Gravei isso como uma caluniosa injustiça, convicto da proverbial dor-de-corno sul-africana. Confesso que, de quando em quando, vou perdendo a fé.

sábado, 3 de Janeiro de 2009

Maior que o Nobel

Um atípico dia em Cabo Ledo, nublado, chuvoso, fresco, ventoso, grandemente passado sob um toldo de palha a experimentar-se como guarda-chuva, a ida à água para molhar apenas os tornozelos e o «Livro de Crónicas» que sai, pela enésima vez, do meu saco de praia para que possa mergulhar no reconfortante oceano de palavras de António Lobo Antunes. Não conheço ninguém que escreva tão bem quanto Lobo Antunes. E que acrescente às palavras, às frases, à narração, ao ritmo, aos personagens, ao quotidiano deles, aos sentimentos, às figuras de retórica, aos sentidos de tudo isto junto, duplos, triplos, a plasticidade que faz com que o que escreve nos surja, afinal, como um filme projectado. Leio Lobo Antunes desde «Memória de Elefante», isto é, desde o início e, curiosamente, nunca retive uma história a qualquer um dos seus cinco primeiros livros, que li, ao tempo, seguidos. Pelo contrário, fiquei sempre com o tal filme, o mesmo filme, como se fora autor de uma obra só, um grande romance editado em vários capítulos com nomes próprios. Já nos «Livro de Crónicas», que tem três edições, é possível isolar histórias, pessoas e enredos. Os personagens, algumas vezes confundidos com o narrador, tornam-se mais precisos, absurdamente humanos, como o são as pessoas e os ambientes em Lobo Antunes, seguindo o mundo e a geografia donde vivem, quase sempre nos arredores de Lisboa. Leio o «Livro de Crónicas» como se diz dever ler a Bíblia. Pousado na cabeceira, recomeço a ler do princípio quando chego ao final. Tenho reencontrado o mesmo prazer da surpresa da leitura inicial e continuo a soltar as mesmas gargalhadas, agora nas praias quentes da África onde, curiosamente, ele começou a escrever. Há quem diga que Lobo Antunes já seria Nobel se tivesse namorado uma jornalista literária. Diz-se também que trabalha mais de doze horas por dia, assumindo que um escritor é um trabalhador das palavras. Talvez por isso não tenha tempo para namorar. O que é pena, pois o Nobel só teria a ganhar com isso.

sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

A minha São Silvestre de Luanda

Como eu já previra, tudo foi feito para que não pudesse vencer a prova. Já antes, mal foi soprada a minha inscrição, foram convocados os melhores atletas do mundo. A frase-de-ordem era clara. O Tuga não pode ganhar. Por uma vez, senti-me na pele dos representantes portugueses no Festival Eurovisão da Canção. Mas nem assim desfaleci na minha firme intenção de ir à luta. Besuntei os pés de creme gordo, troquei as palmilhas das sapatilhas, calcei um par de peúgas rotas para melhor ventilação e apresentei-me já equipado no local de partida. Mas logo aí me apercebi de que já estava montada a marosca. Começaram por me perguntar se estava inscrito na prova principal dos 15 quilómetros ou na Corrida das Famílias, como se fosse possível a um atleta do meu gabarito ficar-se por uma voltinha de 4,5 quilómetros. Depois, recusaram-se a deixar-me partir na linha da frente com a justificação de que eu não era um «atleta credenciado». Perguntei-lhes onde deveria ter tirado a tal credencial e não souberam responder-me. Senti-me vingado quando ouvi os altifalantes anunciarem que os tais atletas credenciados seriam obrigados a usar um chip, certamente que para evitar que fizessem a conhecida batota de atalhar caminhos. Pelo contrário, fiquei isento de tal controle, no que assumi o reconhecimento do meu estatututo de atleta cumpridor integral das distâncias que faço. Quando ouvi o sinal de partida, lá bem no meio do pelotão de concorrentes, encontrava-me ainda a apertar o segundo nó nos atilhos, pelo que, quando parti, os da frente já teriam sobre mim, seguramente, uma vantagem de mil metros. Mas, ao final do terceiro quilómetro, eu já dominava a corrida. Na esteira da escola de atletismo que perfilho, a melhor forma de se aquilatar das condições em que decorre uma prova, ter a melhor percepção dos adversários e, mais, das diferenças de tempo entre cada um, é vê-la de trás. Foi o que fiz. Deixei-me então ficar numa posição de rectaguarda, donde podia dominar toda a corrida. Ao quilómetro sexto, passei por um grupo de atletas algo heterogéneo mas com futuro garantido noutras modalidades. Primeiro, um indivíduo que corria apenas de calções de lycra, bem enterrados no rabo, a que agarrava uma corda que entrelaçava nas ancas e nos ombros e que acabava numa coleira que trazia ao pescoço, donde saía depois um trela que mostrava à assistência, em brasa de riso e aplausos, mal se punha a caminhar com os braços estendidos para a frente, os pulsos para baixo e a língua de fora, a simular uma cadela na companhia de um dono imaginário. Mais à frente, um par igualmente com futuro promissor, com as carapinhas pintadas de amarelo e vermelho, simulando streep-teases contínuos, com as camisas de alças a rodopiarem no ar e a fazerem levantamentos furtivos dos calções, mostrando à assistência em delírio ora uma, ora outra, bochecha do rabo peludo. A partir do décimo segundo quilómetro, já diluída a Gay Parade, o meu domínio da corrida passou a ser quase absoluto, Foi quando detectei ter o carro-vassoura a pouco mais de quinhentos metros. A partir daí e até à meta, situada em pleno Estádio da Cidadela, foi um sprint contínuo. Beneficei também nessa altura da companhia de um mascarado, equipado com um fato de treino completo e capuz enterrado até ao pescoço, que trazia enrolado a tiracolo um pedaço de alcatifa que lhe dava um ar de deslocado explorador da Antártida. Foi então sob uma chuva de aplausos da vasta assistência, que passou mimosamente a incentivar-me com gritos de «Pula», que encetei a minha recuperação, passando por uma multidão de adversários, creio que três, que haviam parado entretanto por causa das bolhas nos pés. Quando entrei no estádio, já com as bancadas vazias, ainda cheguei a tempo de receber os parabéns de um desconhecido, que se interessou pelo meu par de sapatilhas mal as descalcei no relvado. Valeu-me um dos Ninjas presentes, desportivamente armado até aos caninos na guarda da tenda da enfermagem, sem o qual regressaria certamente a casa descalço. Quanto à minha classificação na corrida, ninguém foi capaz de me informar, nem nada saiu na comunicação social angolana. Um boicote absolutamente inexplicável. «Para o ano há mais», dizia-me alguém no final, no que não tenho podido deixar de concordar. E, nessa altura, doa a quem doer, terei já um histórico pergaminho a defender na prova.

quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Post aberto à Movicel

Exmos. Senhores,

Serve o presente para protestar, se entretanto esta conexão não fôr abaixo, contra o péssimo serviço de internet oferecido pela Movicel. Ando a pagar religiosa e mudamente uma mensalidade de 50 dólares pela utilização, tantas vezes inútil, de um plástico em forma de cilindro-rectângulo a que chamam MoviNet, o qual, para além de gago, tem demonstrado ser mentiroso. Auto intitula-se High Speed mas há muito que descobri ter a velocidade de um cágado. Quantas vezes, regressado do trabalho, quero utilizá-lo para abrir um blog, por exemplo, dos meus ilustres followers e acabo por adormecer durante o loading. Ou quero escrever um post directamente neste blog e entretanto falha a conexão antes de o conseguir publicar. Ou sou proibido de me apresentar na parada diária com os meus porque o Windows Live Messenger falhou. Ou, finalmente, quero publicar uma música tirada do You Tube e tenho de esperar horas para a conseguir ouvir de princípio a fim. Meus Senhores, sei bem que a Movicel faz parte da operadora estatal Angola Telecom, a qual, pese a recente gestão chinesa, tem capitais maioritariamente nacionais e, como tal, estará prioritariamente ao serviço do povo angolano. Sem pretender, mero expatriado, ultrapassar a fila dos, certamente, milhões de utilizadores de internet que vivem nos musseques, não posso deixar de me insurgir quanto à baixíssima qualidade deste acesso. Mesmo que lhes reconheça a atenuante de que será tão desordenado, lento e confuso quanto qualquer outra espécie de trâfego em Luanda. Mas como, entretanto, a conexão foi-se mesmo abaixo, receio bem que este post nunca lhes chegue ao conhecimento. O que é uma pena. Até porque me haviam afiançado que estariam sempre comigo.

terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

É já amanhã

Inscrições para São Silvestre de Luanda até à véspera da prova. É curioso que, no reino da gasosa, eu ainda não tenha sido contactado para perder esta corrida.

domingo, 28 de Dezembro de 2008

Amores,


Não foi Natal porque vocês não estiveram aqui. Fisicamente. Recebi convites de colegas para me juntar a eles, mais às famílias, na ceia e recusei. E acabei por ter dificuldades em justificar-me. Mais por eles e pela insistente cegueira da simpatia e solidariedade do que por mim. Como dizer-lhes que uma família não se substitui? Muito menos no Natal? E, bem pior, que preferi trocá-los pelo Live Messenger? A minha estreia nesta orfandade seria assim concluída numa ceia-buffet de hotel, numa bóia que acabei por partilhar com um outro náufrago igualmente perdido das graças da quadra, a mastigar um insosso bacalhau angolano da Noruega, a ruminar sobre a estranha técnica, certamente indiana ou chinesa, de fazer com que um bolo-rei saiba a pão-ralado e a ansiar, inutilmente, que o tinto do Douro conseguisse o milagre de apaziguar sabores tão falsos e a devolver-me a memória dos meus gostos. Mas, na verdade, juro-vos que nunca saí do canto de cá da longa mesa de quase 6.000 quilómetros, com epicentro na nossa sala de jantar, onde permaneci durante toda a noite, em silêncio, imóvel, a cumprir a minha pena de pai desta vez mal-comportado e a olhar sobretudo para vocês, proibido de vos tocar, ou de vos falar, mas não de me sentir próximo de certas memórias. Do vosso perfume natural, agora de jovens cada-vez-mais-mulheres, cujos cheiros por vezes imagino sentir ainda de quando bebés. Dos vossos lindos olhos azuis, estranhamente herdados em linha directa dos vossos avós, que assim decidiram perpetuar-se à nossa mesa e cuja forforescência rivaliza com a das lâmpadas chinesas que polvilham a árvore guardadora dos presentes e das memórias de todos. Da ondulação dos vossos corpos em reboliço no meu colo, que com o tempo subiu do chão para os sofás da sala, as vozes, os cabelos, os braços, as ancas, os joelhos, os pés, a crescerem mais depressa do que a minha capacidade para os segurar. Do que, enfim, acordamos os quatro passar a fazer erguer como tradição nossa, do passeio de véspera pela Santa Catarina, a divertirmo-nos com a azáfama do prendismo-obrigatório, do de antes da ceia pelo vento fresco da marginal, embalados na noção de que o mundo acaba dois passos em nosso redor, ou da fria peregrinação até à Missa-do-Galo, deixando para trás a doçura da ceia a que costumamos voltar, num semi-sacrifício concedido às tais tradições que juramos valer a pena manter. Tenho pena de não ter podido rever convosco, desta vez, alguns dos registos filmados do nosso passado, de não ter participado no nosso concurso de adivinhar quem-é-quem de vocês dentro daquela touca azul-turquesa ou daquele vestido côr-de-rosa que compramos naquela loja durante aquela viagem que fizemos todos juntos aquele sítio, ou de não ter feito parte dos sketches que depois reveremos com gosto nas reuniões seguintes. Tal como lamento não ter assistido agora ao relato dos vossos trilhos de caloiras, seguramente as mais belas, na Universidade e no teatro, mais as outras confidências de que ainda poderei ser depositário, antes da chegada do tempo em que naturalmente tenderão a afunilar-se. Talvez que depois sobrasse ainda tempo para vos falar do que me têm ensinado estas partidas da vida, e de que os sonhos existem para se perseguirem, embora com os pés bem assentes no chão, e de que, suspeito, o futuro ameaça vir a alterar-se mais rapidamente do que o fazia no passado, e de que nem sempre deveremos esperar pela onda óptima mas, antes, surfar a mais próxima, e... Talvez que então acabassem por me interromper, na vossa clarividência de teen-agers, para confirmar que o vosso velhote não terá, afinal, atributos de surfista e que talvez comece a repetir o que outros antes dele já afiançavam, numa renovação de testemunhos, temores, anseios e desejos de que o Natal será, também, feito. Gosto de acreditar que esta nossa separação, fortuita e involuntária, apenas antecipará outras que, certamente, haveremos de fazer no futuro, cada vez mais longínquas e demoradas mas, espero também, jamais definitivas. Tal como acredito que, embora por caminhos diferentes, serão sempre feitas pelos mesmos passos.

sábado, 27 de Dezembro de 2008

Nasce uma estrela?

Desde há cerca de duas semanas que me encontro inscrito na S. Silvestre de Luanda. Tanto quanto me apercebo, até aí ninguém se havia queixado do percurso mas, agora, certamente que depois de alguém ter difundido a minha participação na competição, já há quem considere haver necessidade de mudar o piso em várias artérias por onde a corrida irá passar. Ora venham lá convencer-me de que não haverá aqui mão de algum meu adversário repentinamente mais nervoso. Pois isto cheira-me a golpe de secretaria. Veja-se lá que até já estão a implicar com o ferro-velho dos carros abandonados nas bermas das ruas. Tornar o espaço mais fluido, dizem eles. Como se eu não percebesse que o que querem, verdadeiramente, é deixar o caminho livre para me obstarem a passagem com algum camião TIR e assim impedirem-me de chegar à vitória. Receio, medo, pavor mesmo, é o que revelam ter os meus adversários, nesta minha primeira participação em Luanda. Que será, por sinal, a minha primeira S. Silvestre. A bem dizer, também, a primeira prova de atletismo em que alguma vez entrei.

quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

Natal de restos

Parte das famílias angolanas vive de restos. À custa do Natal e do espírito natalício, exclusivo prisioneiro desta quadra e aparentemente intranferível para outra época do ano ou da vida, há muita xaropada moral que se vai vertendo nesta época. Não irei cair nessa armadilha a propósito desta notícia. Desde logo, por não ser propriamente uma novidade para quem se habituou a vê-la cirandar por aqui. Mas não deixa de causar arrepios a permissividade que o surpreendente indicador «nível médio de pobreza» antecipa. Tal como o facto de se conseguir medi-lo. Haverá, mesmo, realidades bem mais fortes que qualquer ficção.


Desejo, a todos os que aqui costumam ler-me, um Feliz Natal.

segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

Gasoso espírito natalício

Ainda sou do tempo em que o adorável estafeta que entregava as prendas que eu recebia no Natal, cumprindo o trajecto da chaminé até ao sapato colocado em cima do fogão da cozinha, se chamava Menino Jesus. De que me recordo sobretudo pelo facto de não saber português e por isso nunca conseguir acertar com os pedidos que lhe escrevia. Anos mais tarde passaria a chamar-se Pai Natal, numa mudança de nome a que nunca aderi ou concordei por sempre ter desconfiado que visou sobretudo acabar com as minhas ilusões de um dia acertar com os pedidos. Tive a certeza disso quando me sugeriram que as renas que lhe puxavam o trenó se recusavam, afinal, a cortar as hastes para poderem entrar na chaminé lá de casa. Já adulto e agora a ver no barrigudo benfiquista de barbas um perigoso fomentador do consumismo infantil, capaz de transformar pacíficos chefes de família em tesoureiros compulsivos, passei a olhá-lo como uma espécie a merecer extinção. E a imaginar que, mais tarde ou mais cedo, poderia bem ser substituído por qualquer coisa parecida com a DHL. Agora, afinal, aqui, descobri que foi substituído pelo Paizinho. E que o Paizinho sou eu! Extraordinariamente eleito durante as duas últimas semanas, através de um concentracionário sufrágio de arrumadores, seguranças, polícias, engraxadores, vendedores, empregados de mesa, paquetes, indistintos passantes anónimos e outros tantos inconfessados profissionais da gasosa, todos repentinamente imbuídos de espírito natalício. Tenho agora uma multidão que me deseja, de mão estendida e voz melosa, «Boas festas, Paizinho», ficando eu sem me lembrar onde pus a lista das prendas desta gente toda, crianças grandes num mundo sem chaminés, nem fogões debaixo, nem sapatos em cima. E, desgraçadamente para eles, também sem um Paizinho generoso e sorridente a arrastar um saco vermelho cheio de kwanzas. Safa!

domingo, 21 de Dezembro de 2008

Trânsito proibido

Em Angola todos os caminhos vão dar a Eduardo dos Santos. Consta que será uma verdade muito jornalística o que refere o português Jornal de Negócios. Mesmo que esta constatação de GPS há muito tivesse sido já feita pela bem menos tecnológica mas mais certeira lupa de Pepetela. Com a vantagem da sua ascendência, dada a proximidade e reconhecimento cardados nas lutas ainda no mato, perante a certamente maioria dos integrantes da actual guarda pretoriana do regime. Leia-se «Predadores» e perceba-se porque é que este livro deveria fazer parte, ao lado do boletim de vacinas e dos repelentes de mosquitos, do kit de viagem de qualquer expatriado com destino marcado para Angola. Talvez que depois se passásse a perceber melhor por que razão, pese as evidências do sentido do trâfego, aqueles caminhos continuarão a estar minados.

sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

Faça-se luz

Já lá vai o tempo em que, quase sempre, os grandes empresários eram velhos, barrigudos, vestiam fraques coçados, usavam cartola, fumavam grandes charutos por debaixo dos bigodes espigados e divertiam-se a fazer no ar desenhos de cifrões com o fumo. Agora, os tempos são outros. Daí que uma jovem de 35 anos, licenciada em engenharia electrotécnica, reconhecidamente pouco dada a fumaças e, a avaliar pelas fotos, elegante, seja a mais importante empresária do mundo lusófono. É preciso ter galo. Ou, simplesmente, ter o pai a mandar na capoeira.

quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Pedagogia avaliada

Inquérito: Quase 75% dos professores mudava de profissão. Já suspeitava disto. Depois de os ver, através da RTP Internacional, em tantas manifestações, concentrações e greves. Vai-se a ver e, se calhar, 75% deles até prefeririam ser manifestantes. Ou grevistas. Ou outra coisa qualquer, desde que não fossem sujeitos a avaliações. Entretanto, deste lado do mundo, onde a grande frustração das pessoas, professores incluídos, não será propriamente o cansaço da própria profissão, existe o objectivo de se atingir um milhão de alfabetizados em 2009. Com este tipo de realidade, Angola seria certamente o local ideal para que a Plataforma Sindical dos Professores de Portugal exportasse o seu discurso. A existir, o pedagógico. Não o outro, o do coordenador sindical. O qual, pelos vistos, já serviu para desincentivar o que se julgava ser vocação.

terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

Pink Floyd - Wish You Were Here

No meu dia preferido, a minha música favorita.

domingo, 14 de Dezembro de 2008

Em Roma... sê romano?

Sábado de algumas horas de praia em Cabo Ledo, como têm sido os últimos, o calor adocicantemente húmido da habitual estufa angolana, as cócegas da areia fina que finalmente se substitui às peúgas na massagem dos pés, o livro aberto sobre uma sopa de letras que por uma vez não mete números, gráficos ou uma síntese dos dois, os óculos a proteger o olhar da fulminante luminosidade dos personagens que Pepetela desfia, os mergulhos seguidos naquele mar cuja temperatura parece ter saído do mesmo sonho, tudo neste asfixiante reconforto dos fins de semana de Angola sem trabalho eight-to-eight. Certamente vindos de um dos bungalows ali existentes, em fatos de banho e toalhas a tiracolo, um casal entra na areia quente a caminho da maré. Ele é branco, ela é negra, ele bem mais velho que ela, diferença a parecer de vinte anos, certamente a idade dela, que lhe agarra a mão esquerda, onde ele transporta também uma máquina fotográfica, enquanto ele vai mantendo a direita ocupada por um cigarro nervoso. Ao passarem perto de mim, pareceu-me reconhecer, mais no vigilante e incomodado olhar dele do que no sorriso abstraído de menina dela, o enredo de muitas histórias que se contam por aqui. Chegados à maré, os inevitáveis shots seguidos disparados pela máquina digital dele sobre ela, a encher o olho daquele momento e posições para a posteridade e para o que mais for. Daí a algumas horas talvez que a foto dela já circulásse pela internet de amigos e conhecidos dele, como mais um troféu ganho com uma promessa de um fim-de-semana de revista. Vi há já muito tempo na TV um filme, que creio dos seventies, chamado «The lord of the land», cujo argumento girava em torno de um costume europeu da Idade Média conhecido por «droit de seigner», o que se traduziria por «direito à primeira noite». Na prática, um privilégio dos senhores feudais em disporem das noivas dos vassalos na noite do casamento. O que tenho depositado na memória deste filme é o drama da hesitação de um suserano, até aí apostado em acabar com esse costume, que se vê enamorado de uma aldeã durante uma visita a uma pequena povoação situada num território recentemente conquistado a um rival. Ele próprio casado, passa a debater-se com a atração pela exigência dos costumes locais mal descobre que a jovem está noiva. A mensagem do filme era afinal dada pelo noivo aldeão, que apelava à consciência do seu senhor perante os costumes da própria terra donde vinha, recordando-lhe que aquele acto seria lá considerado crime. Pois por diversas vezes me tenho lembrado deste enredo por aqui. O que está vedado nuns lados poderá muito bem ser permitido, quando não incentivado, noutros. E não me refiro aos crimes, decididamente não locais, de deitar lixo para o chão, fumar em restaurantes, ou urinar directamente para a Baía.

sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

Quilmes é o nome

Após um recente post aqui, alguns comentaristas demonstraram estranheza por eu ter confessado ter estado na companhia de umas argentinas de que não sabia o nome. «Descarada falta de cavalheirismo», terão pensado uns. «Marialvismo tuga já com reminiscências de Angola», terão pensado outros. «Espera-o o rolo da massa», certamente todos. Pois bem, decidi assumi-las. Para que não se pense que ando por aqui a beber pela calada. Eis uma delas espraiada na foto. Só não sei se a última ou se a próxima.

quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Speakers corner

O oficial Jornal de Angola Online alberga no seu site um estranho espaço a que chama Discursos dos Presidentes. Os dois únicos que teve em trinta anos de independência, Agostinho Neto e Eduardo dos Santos. Ouvidos os primeiros discursos do último, à distância do futuro que é hoje, parecem proferidos de uma espécie de speakers corner, onde os espectadores tendem a parar apenas na ânsia de ouvir algumas excentricidades. E este presidencial cantinho não deixará, certamente, ninguém defraudado. A sorte dos angolanos é que estes discursos-exemplos de desdentada arqueologia ideológica são, apesar de tudo, curtos. Fossem do impedernido camarada presidente cubano e haveria que acrescentar ao site alguns hard drive extra.

terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

Conversas de homens

Faleceu este fim-de-semana, com 81 anos, o escritor português António Alçada Baptista. Devo tê-lo lido, seguramente, em não mais do que vinte páginas. Embora tivesse gravado o título do único livro dele que folheei. «Peregrinação Interior - Reflexões sobre Deus". Ainda hoje, se tivesse de responder a um inquérito de rua, considerá-lo-ia o mais chato de tudo o que já li. Incluindo compêndios técnicos e relatórios de trabalho. Curiosamente, no entanto, decorei-lhe uma frase de uma entrevista que deu a um jornal, julgo que no início dos anos oitenta. «Nunca tive uma conversa de homens». Depois passava a filosofar sobre isto, partindo da experiência de vida de amigas suas, que muito embora considerásse inteligentes, não percebia porque se deixavam tratar mal pelos companheiros e não se separavam deles. Lembro-me de não ter percebido o que é que o cú tinha a ver com as calças. Se calhar, a resposta estaria nas restantes seiscentas e tal páginas do livro de que apenas li menos de vinte.

domingo, 7 de Dezembro de 2008

Hoje há conquilhas, amanhã...

Um dos hábitos em Luanda, de que primeiro se estranha e depois se entranha, é o de nunca se saber qual a marca do próximo after-shave, sabonete, pasta-de-dentes, papel higiénico, leite ou cerveja que iremos comprar no supermercado. Sequer se haverá para a semana peras, bananas, laranjas ou maçãs, starking, fuji, golden, reineta, red delicious ou local. Depois do primeiro trimestre a beber Schweppes e do segundo uma marca com um nome polaco, os últimos tempos trouxeram a novidade de não se beber simplesmente águia tónica por falta de comparência de qualquer marca. O mesmo para os yogurtes, que tanto podem trazer aromas, sabores ou pedaços de fruta como não trazer coisa nenhuma, incluindo a embalagem. Meia dúzia de anos depois do final da guerra civil angolana, o racionamento continua válido. Como já desconfiava, as razões são estas. A Alfândega de Luanda passa por ser a mais desorganizada do mundo. 150 mil contentores, correspondente a dois meses de descargas, permanecem estacionados no interior do porto, para desespero de distribuidores famintos de cifrões e consumidores ansiosos por despachar kwanzas. Daí que me encontre há uma semana a penar na companhia de umas argentinas de que nunca decorarei o nome, dada a ausência das bem mais reconhecíveis e apetecíveis cervejas da Cuca. Pena e nostalgia muito mais pesadas quando se está de perna alçada na esplanada de um dos muitos restaurantes da ilha com vista para a entrada do porto, permanentemente engarrafado de navios prenhes de tudo, a imaginar um porão inundado de loiras descaradamente borbulhentas e húmidas de frescas.

quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

O nosso 1º afinal é 6º

Não acredito nisto. Então um gajo que é mais velho do que eu, não será concerteza mais dinâmico e seguro do que sou, eu que já não fumo, no avião ou noutro sítio qualquer, que não tenho torcicolos e por isso até não me importo de dar o braço a torcer, que, a acreditar nas amostras da meia-maratoan de Lisboa na TV, fico bem mais elegante a correr para as camaras e vêm agora dizer-me que ficou à minha frente como o sexto homem mais elegante de 2008? Estes políticos! Pudera eu substituir os meus Massimo Dutti pelos Armani dele e não haveria demagogia que o safasse.

quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

Vitorino | Queda do Império

Estranhamente, neste meu cosmopolitismo angolano, tem-me dado mais para ouvir música portuguesa durante os joggings matinais. Após recente fuga a Portugal, reforcei o alforje da sonoridade tuga com o grande Vitorino, certamente o mais barato músico português de sempre. O triplo «Tudo» custou-me na FNAC 9,95 euros, menos de vinte cêntimos por cada uma das cinquenta canções. Realidade pobretana quando comparada com o pimbalhão Tony Carreira, que acabo de ouvir no Telejornal da RTP Internacional ter ganho um disco de platina em apenas três dias. Os tugas preferirão «O homem que sou» à «Menina estás à janela», o que me tem deixado preocupado com o regresso. Por mim, creio que nunca alinharia num jogging na marginal com o Tony a miar-me nas orelhas. Para esgoto já bastarão os da baía de Luanda. E até acho que a bóina do Vitorino tem bem mais pinta que o manjerico do Carreira.