sábado, 3 de maio de 2008

Estória de melgas

Dez dias, felizmente uteis e por isso com equivalência a mais de duas utilitárias semanas à espera de um visto de regresso a Angola, que praticamente foram usados a acampar nos menus dos restaurantes lusos. A novidade, para quem já desfalecia por temer perder a memória de alguns gostos, é que as tripas do Abadia, os rissóis do Galiza, o cabrito do António, as massadas de peixe do Praia-Mar, as empadas do Natário, os assados do Manel e toda a caça do Recanto se mantêm deliciosas. E até mesmo a Super Bock, que me desculpe a Cuca pela breve traição, mantém os seus elevados padrões de tolerância. Como sempre, no regresso, relembro a primeira chegada a Luanda. Sem os polícias de agora, à porta do aeroporto, restringindo os acessos a todo o género de melgas, principalmente aos que logo apareciam junto ao tapete rolante que faz de passerelle às malas dos recém-chegados e que se faziam de chauferes dos carrinhos de mão levando as bagagens como reféns. Há um pouco mais de seis meses atrás foi assim. Depois do autocarro nos deixar aterrados naquela sauna de gente de todas as cores, línguas e credos que procuravam saber a origem de tantas filas que se entrecruzavam para desaguar em nenhum posto visível, malas a marcar lugar enquanto se vai algures a um balcão buscar mais um impresso para provar ter as vacinas das doenças tropicais em dia não vá desvirtuar-se a pureza dos genes da malária local, voltar a procurar a fila legítima saltando por cima do bowling das bagagens, retomar a que segue um letreiro que diz Cidadãos CPLP, helàs, mas afinal inundada por uma mistura de trabalhadores russos e indianos e responder vir de Portugal como consultor de uma empresa local ao funcionário do posto de controlo de passaportes enquanto ele se mantinha vidrado no ecran do computador para logo depois sair da abstração, procurar com a mão o martelo e trespassar a folha virgem do meu passaporte com o borrão preto de um carimbo barulhento. A partir daí, virei paizinho. Que era o que me sussurrava quase ao ouvido, com o intuito de estrear em Angola os poucos dolares que eu comprara novinhos no banco, o mesmo melga da passerelle das malas, ao mesmo tempo que tentava controlar a rumo do carrinho onde eu trazia as minhas duas, mais a do laptop a tiracolo. Assumindo um semblante de vai-chamar-pai-a-outro, dispus-me a recusar a interesseira ajuda e a empurrar a minha carga dali para fora. Mas eram demasiadas as fardas fronteiriças, pelo que ainda tive de parar para mostrar o passaporte, o bilhete do avião e o tal impresso sanitário mais umas três ou quatro vezes, tantas quantos os flic-flac que tive de inventar ao convocar todos os documentos exigidos ao mesmo tempo que rechaçava as investidas do melga. Saído finalmente da área internacional do Aeroporto 4 de Fevereiro, que é o nome por que é conhecido aquele amontoado de pavilhões raquíticos e sem ar condicionado ao lado de uma pista de aviação, tentei logo verificar em que esvoaçante folha A-4 constava o meu nome junto ao da empresa responsável pela minha vinda e que ali deveria ter um motorista mais uma corrida para um outro porto mais seguro. Nada. Uma ligeira (para afastar suspeições de insegurança) reconfirmação pelos placards da suspeita da minha fraca cotação sócio-profissional por aquelas paragens fez-me decidir avançar até à esquina mais próxima. A partir desse momento, abandonei-me ao melga e acabei por deixá-lo tomar o controlo do carrinho das malas. Afinal, ele até estava a conseguir afugentar com golpes de eu-fui-o-primeiro-a-chegar outros tantos que se atropelavam para oferecerem aqui ao paizinho diversos serviços de guarda, pessoal, das malas e certamente também da minha carteira. Finalmente apareceu-me o motorista, que inaugurou ali mesmo o refrão de uma cantilena que a memória destes meus seis meses de Angola já registaram por milhares de vezes: atrasei-me por causa do trâfego. Bagagem posta no carro, já sentado no lugar do morto, vi o motorista sair para pagar o parking deixando atrás de si a porta aberta. Foi a minha desgraça. Um grupo de assistentes, poucos momentos antes, da cerimónia de recompensa do esforçado melga condutor de carrinhos, acercou-se de mim com o claro intuito de testar a minha solidez financeira. Confesso que seis olhares famintos de liquidez, dez mãos a tocarem os vidros e duas outras já alojadas na pega da porta de trás do carro onde repousava uma das minhas malas convenceram-me. Ao motorista regressado do pagamento do ticket jamais lhe poderia ocorrer que acabara de perder a gorjeta da corrida. Chegado ao hotel, desfazer as malas e separar as roupas pelos armários do quarto ainda seriam tarefas bem sucedidas. Já a água saída para um duche a conta-gotas e shampoo retirado à toalhada, os três elevadores avariados, a frenética descida de vinte e um andares por uma escadaria rançosamente molhada e o ingresso no último minuto previsto para o horário de encerramento de um pequeno almoço continental já amesentado para almoço e por isso já só a albergar umas poucas e muito mirradas peças de fruta, sumos industriais e ovos mexidos à fartazana dariam ao meu primeiro dia de trabalho em Luanda o tom tão colorido quão pastelado com que a minha vida tem vindo a ser pintada por estas bandas do mundo. Tudo o resto será, certamente como tem sido, estória.

7 comentários:

Júlia Moura Lopes disse...

corrija aí: os rissóis são concerteza do Capa negra, um pouco mais acima :-)

Roberto Ivens disse...

Julia,

Conheço de há muito o sisma tripeiro relativo aos melhores rissóis. Como sou fiel à memória dos meus gostos, limito-me a revisitar a primeira marisqueira onde entrei para festejar o meu ingresso no propedêutico, já lá vão muitos rissóis de marisco...

Laura disse...

Gostava imenso de o ver comentar as últimas do Bob Gedolf.
Ou, se o quiser fazer a propósito da pergunta que o Francisco José Viegas aqui deixa...em
http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/828063.html

Menina de Angola disse...

Olá,

Sou brasileira e cheguei a Luanda a pouco mais de 1 mês. Esse relato do aeroporto é ótimo, tirando a parte da luta para ver quem toma conta do carrinho, diria que a minha chegada foi igualzinha.. rs

um abraço

Roberto Ivens disse...

M. de A.,

Pois! Vai-se a ver e até fará parte do pack das companhias de viagens...

Júlia Moura Lopes disse...

:-)

mas no Nordeste do Brasil não é muito diferente!

Júlia Moura Lopes disse...

sobre o sisma, já não está aqui quem falou ;-)