domingo, 1 de março de 2009

Amor,
Vejo-te na cama, a rebolar de êxtase com o Lobo Antunes que finalmente conseguiste acabar de ler, a perseguir com uma ameaçadora tesoura minúscula as unhas dos meus pés roídos de medo, a pedir que te esfregue pela enésima vez o creme nas costas salgadas pelo sol, a chamar-me para ti naqueles convites gestuais que fazes com o corpo e aos quais me habituaste a não resistir. Vejo-te sentada no pequeno cadeirão onde o Messenger permite caberem também as nossas filhas com quem continuas o jogo de confidências que diminui as distâncias, a levantar de lá o nariz com os óculos roxos de ver-ao-perto içados a meio para me lançares um comentário qualquer que facilmente esqueço por me ser sempre mais fácil fixar-te os gestos, a dobrar a minha roupa interior cada vez mais esburacada pelo queimar do sabão que dizes ter de enxaguar melhor antes de a pôr a secar. Vejo-te à janela a apreciar Luanda e a dizeres-me que pareces estar no paraíso simplesmente porque estás comigo, ouço-te calar pela jaula em que ficas todo o dia e que transformas em biblioteca até ao meu regresso ao final da tarde, sinto o conforto de me assegurares não querer depois sair à rua por não nos interessar a noite dos outros. Vejo-te a substituir-me no lavatório das peúgas e das t-shirts dos meus joggings matinais subitamente cheirosas e rejuvenescidas, no chuveiro a tomar o meu lugar a puxar a cortina de plástico para evitar que os espirros da água contaminem o chão, a segurar a emergência do toalheiro de arame que insiste em despregar-se da parede. Vejo-te em sítios de que não me lembro de te ter visto, dentro do guarda-fatos, do frigorífico, do televisor, no comando do ar-condicionado, na chaleira que deixou de ser usada, nas cruzetas das camisas que dependuravas passadas e espaçadas e que agora voltaram ao reboliço do tudo-ao-molho, vejo-te no corredor, na espera do elevador, na contagem dos degraus das escadas, nas pessoas que já não me sorriem porque tu já não as cumprimentas, vejo-te a meu lado a rir-te do trôpego do trâfego e da patética pressão dos arrumadores, a confortares com o olhar o de todos os pedintes e estropiados que nos cercam nas ruas, a alinhares comigo as pegadas na areia quente e fina do Cabo Ledo e do Mussulo, a calcorrearmos juntos as linhas da maré perante o espanto dos caranguejos que se transformam em bólides de aceleração lateral rumo à vazante, a deixarmos as ondas tirar-nos as roupas para podermos nadar nus naquela praia quase deserta, a sentir que o teu corpo continua a querer refugiar-se no meu para lá dos efeitos de todas as correntes que já atravessámos juntos e a desejar fazer amor contigo naquela barraca de canas que agora me parece um palácio.

3 comentários:

Anónimo disse...

Lindo!!!!

Maria

Vap disse...

Lindo???
MARAVILHOSO!
Um novo "ALA" nesse Cus de Judas?
Parabéns!

Maresia disse...

Lindo! É o amor..