domingo, 13 de janeiro de 2008

Uma questão de ascendentes

Momento 1: A mulher passava na rua, transportando à cabeça uma enorme bacia de plástico colorida e apinhada de coisas que decifrei como comida. Às costas, transportava também um sonolento bebé de meses amarrado num lençol igualmente colorido e que até aí me habituara a ver unicamente em reportagens sobre África. Para lá da montra de vidro com os estores corridos, reparei que o homem fardado de bege que guardava o edifício onde me encontrava lhe lançou um assobio. Ela parou, olhou-o sem alterar o semblante ausente, abeirou-se e fez uma vénia a fim de baixar a bacia colorida de plástico ao nível do alcance do braço dele. O guarda retirou-lhe de cima uma coisa parecida com um pastel e levou-o à boca. Ela desfez a vénia e partiu em silêncio, tal como se havia acercado, sem esperar por qualquer paga. Momento 2: Um miúdo, dos seus treze ou catorze anos, maltrapilho, descalço, transportava numa mão um pequeno banco de madeira e, na outra, uma caixa de papelão do formato das de sapatos, onde albergava panos sujos, diversas latas e uma escova. Para lá da montra de vidro com os estores corridos, reparei que o homem fardado de bege que guardava o edifício onde me encontrava lhe lançou um assobio. Ele parou, olhou-o sem alterar o semblante ausente, abeirou-se e fez uma vénia a fim de poder pousar no chão o pequeno banco de madeira e a caixa de papelão com os panos sujos, as latas e a escova. O guarda esticou o pé sobre o banco e o miúdo começou a engraxar-lhe os sapatos em silêncio. No final do trabalho não pago, retirar-se-ia no mesmo silêncio com que se aproximara. Estes dois momentos serão meras ilustrações fugidias da realidade da Angola do presente. Onde cada ascendente, assim como a sua falta, é assumido sem mácula por toda uma sociedade, de baixo a cima. A farda daquele guarda, um simples e mal remunerado segurança civil privado, dar-lhe-à o poder de se servir dos produtos e dos serviços destes tão iletrados quão inseguros camponeses transformados em vendedores ambulantes na selva de Luanda.

4 comentários:

Adryka disse...

Ora isso é o que se chama Angola livre...E os exploradores eram os Portugueses...Tamos falados.

JM Coutinho Ribeiro disse...

A única vantagem, é que aí fuma-se à vontade :-)

Roberto Ivens disse...

Adryka,

Pois...

Roberto Ivens disse...

CR,

Também nisso será a Terra Prometida...