terça-feira, 24 de junho de 2008

Kizomba

Pela primeira vez desde que cá estou assisti a uma verdadeira festa angolana, das que por aqui são consideradas de arromba, muito próximas do paraíso, porque metem jantar, bar aberto e, depois, kizomba. Saber-se que este pack do sonho local fazia parte da agenda de uma reunião de empresa, que incluía palestra de presidente e diversas apresentações de números, metas e objectivos, será dispiciendo. Tudo começou, afinal, quando os gigantescos altifalantes do recinto começaram a tremer com o som arranhado que emitiam e a ameaçar desfazerem-se ante o portento da base rítmica da primeira kizomba da noite. Ainda sentados a saborearem os primeiros whiskies post-jantar, já de pé no bar a forçarem a antecipação da festa ou em redor do enorme plasma onde uns miúdos russos cheios de garra aviavam umas estrelas holandesas a quem de repente falhara a luz, os corpos começaram por abanar-se como se um silencioso formigueiro os invadisse. Momentos depois, já todos no recinto dançavam. Todos menos este escriba, cujos dotes de dançarino, para lá de uns pré-históricos e cirúrgicos slows arrastados por discotecas às escuras, lhe deram a fama de insigne cabide dos casacos dos mais foliões. O mais impressionante da coisa ali é que toda a gente dançava com toda a gente, num ajuntamento e partilha de parceiros que tinha tanto de invulgarmente democrático quanto a minha experiência por aqui ter-me-á já demonstrado que esta sociedade será ainda mais estratificada do que qualquer uma do Ocidente que eu conheço. O motorista a dançar com a directora, a telefonista com o administrador e o presidente com todo o mulherio que se dispõe a aparecer-lhe à frente e que aproveitam o momento para lhe deixarem gravadas as impressões digitais do ondular das ancas. Aliás, os angolanos parecem preferí-las grandes, largas, bojudas e elas percebem bem isso pois são sempre as mais opulentas, de rabo, coxas, às vezes barriga e, outras tantas vezes, isto tudo junto, quem primeiramente se lança à pista, com o mesmo à-vontade de uma super-modelo no início de um desfile de Yves Saint-Laurent. E mesmo quando calha o par masculino revelar os mesmos dotes avolumados, é estranho verificar-se que nem assim eles perdem a harmonia na dança e, quer a área de 3 m2, quer os duzentos e tal quilos que ambos formam, não os impedem de se elevarem até ao nível da elegância de um pas-de-deux de um casal de bailarinos do Bolshoi. Igualmente impressionante aqui é a capacidade que todos demonstram para se transfigurarem, numa linguagem corporal que contagia todas as poses, movimentos e gestos e cujos significados são partilhados alegremente por todos, numa estranha cumplicidade que torna aquilo tudo, a meus olhos, ainda mais exótico. Todo o tipo de ajuntamentos são aqui permitidos, desde os rabos solitários que descem ao nível do chão para abanarem garrafas pousadas, passando pelas parelhas a agarrarem-se numa partilha de códigos de dança que parecem próprios, até à multidão que se movimenta a um só gesto, como se de antemão cada um soubesse exactamente o ritmo a dar a cada som que lhes chegasse. Embora juntos, cada um parece manter-se concentrado no seu próprio frenesim, num somatório que potencia exponencialmente a energia do grupo. Perante tamanha efervescência, um atento sul-africano presente não perdoaria. «Colocassem cinquenta por cento desta energia no trabalho e Angola seria o país mais produtivo do mundo». Felizmente para os kizombados, o dia seguinte era domingo.

6 comentários:

Júlia Moura Lopes disse...

:-)

não se pode ter tudo.:-)

Este seu rellato fez-me lembrar uma ida há uns anitos à discoteca "Enclave", em Lisboa. Resolvi não dançar, embora adore,mas senti-me fora do contexto-risos- mas diverti-me só ao vê-los.

Claro que não são melhores nem piores, são diferentes. Ter a musica dentro deles é um dom de Deus.

As melhoras, li em cima que está doente.

Roberto Ivens disse...

JML,

Acredito que ser portador de genes musicais possa ser um dom de Deus. O que me faz pensar que poderei ter sido excomungado à nascença...

Ni disse...

Olá...

...
Voltei...
Sorriso.

Ando por 'aqui' em silêncio, a lê-lo... numa 'pausa do caminho'... após uma reunião profissional 'daquelas'... loooooonnnnnnngas....

Lisboa... calor... e, de repente, mergulhei neste blog como quem descobre uma escrita de incontestável qualidade, alidada a sons, odores, paladares.... e a imagens... que nos ficam registadas no olhar... dando-lhe um brilho diferente.

Não sei quantos posts li de seguida. Muitos. Isso sei. Como quem lê avidamente um livro que nos encanta os dedos... numa dança plena de vontade de saber mais e mais... e mais...

Kizomba...

Conheci este som de um modo engraçado.
Há uns anos, quando fui com alunos ver uma peça de teatro («Felizmente Há Luar!», de Sttau Monteiro), enquanto se esperava por uns que se tinham atrasado... aprecebo-me de uma jovem de 'phones'... e ar deliciado. Mmmm... curiosa como sou... perguntei o segredo. E ela sorriu... e partilhou. E muitos outros partilharam ... e comecei a receber por mail... msn... uma selecção de Kizombas que ainda hoje guardo e ouço. Som apelativo à libertação da sensualidade... como tão bem escreve neste post.


Obrigada pela partilha.

(Espero que a 'picada da fêmea' não lhe tire a vontade de escrever. Egoísmo meu, eu sei... mea culpa... )

Roberto Ivens disse...

Ni,

É sempre bom saber que há quem goste do que lê aqui. Afinal, escreve-se sempre para os outros. Suspeito bem, entretanto, que tenha sido efeito da picada (quiçá do género) tamanha produtividade. Quatro posts em quatro dias!

Ni disse...

:(
...
Ai, ai, ai...
Reli o que escrevi e o meu rosto ficou da cor das cerejas com que me delicio agora... (É servido?! É um vício meu... cerejas...)
...
Muitos erros por teclar com pressa... após uma semana de trabalho intenso, em que dormi cerca de 1 hora por noite... e eis-me a escrever barbaridades como 'alidada', 'aprecebo-me' (Ó, valha-me...!)... desculpe. (imagine-me a ficar pequenina, com a vergonha, ainda mais do que sou... quase a desaparecer...).

....

Quanto ao gostar do que leio aqui... gosto. Gosto mesmo muito!(E não sou de elogio fácil!)... Pela escrita 'visual'... aliás, plena de sensações... este blog está a tornar-se um vício também.
...

O pratinho com as cerejas está vazio... e... (respiro fundo)... mais 3 dias de trabalho intenso pela frente, uma vez que na 2ª de manhã tudo terá que estar pronto.

Sabe o que me entristece?
A sensação de que tudo o que sempre fiz profissionalmente por e com paixão... se estar a transformar numa escravatura velada (ou quase descarada, de tão óbvia que é...).

...

Não é nada habitual fazer este tipo de comentários, muito menos virtualmente... e ainda muito menos a quem não me conhece... sorriso. Posso sempre arranjar a desculpa de também ter sido picada.... gargalhada... e afinal esta alergia aos pólens (pelo amor de todos os santinhos... ensinem às plantas outro modo de 'proliferação'... diferente da polinização!!!)... esta alergia, dizia eu... não ser alergia, mas uma picada de um insecto (macho... tenho a certeza!) que me induz a 'falar-escrever'...


....

Mais uma vez... obrigada pelos momentos que por aqui passei a ler...

Júlia Moura Lopes disse...

Roberto, não digo que tenha sido excomungado, mas pelo menos não foi escolhido :-)