sábado, 14 de junho de 2008

Titanic angolano

Algumas vezes, por aqui, julgo rever uma das cenas iniciais do Titanic, o filme. Quando a velha Dorothy inicia o relato das suas memórias do embarque inaugural do barco sobre as imagens dos mergulhadores a darem com o casco afundado e a objectiva da câmara entra no interior do convés para montar um longo travelling que transforma rapidamente o frio cinzento das profundezas do mar no quente colorido do grande salão de festas do apogeu do navio. Aconteceu-me isso pela primeira vez quando visitei o Lobito. Ao olhar as praias da Restinga e imaginar a beleza da marginal pedestre de outrora, com as suas casas de veraneio apontadas para o Atlântico, a relva de flores a arrastar-se por entre as pequenas dunas, prenhes de borboletas condenadas a morrer à noite contra as luzes do hotel plantado na praia, a imagem das copas das árvores pontiagudas como cedros a contornarem as pequenas enseadas que nasciam entre os pontões de pedras, quentes fiordes de uma parcela de África que os lusitanos ali deixaram como herança. Quando relatei o que realmente vira a quem vivera esse tempo ali, o som do lado de lá do telefone tornou-se turvo e as lágrimas de uma memória ferida fizeram-me ter a certeza de que se deixou por estas terras algo do eterno sonho luso de transportar o Paraíso para o lar e certamente que também muita da nossa capacidade inata para tocar os corações e as vidas dos outros, por sermos dos poucos povos capazes de nos revermos em cada um dos demais. Como já ouvi por aqui a um atento zimbabuano, na vez dos ingleses abandonarem a Rodésia até os tapetes levaram com eles. No último fim-de-semana, numa mariscada missão a Porto Amboim, fui mais uma vez forçado a revisitar o Titanic. Um local feio, pegajozo de lixo e de pó, com as ruas inundadas pelo cimento das areias armazenadas pelas chuvas e que há muito sufocaram o velho alcatrão, que tem duas estações de serviço que disputam um estranho jogo entre a falta-de-gasolina e a avaria-na-bomba, que pode derrotar por diversas horas quem lá se atreva a abastecer-se e um hospital cuja triagem de Manchester consiste em deixar os doentes enfileirarem-se nos espaços do que já foram os seus jardins. No entanto, debaixo do lodo onde tem vivido naufragado desde há trinta e cinco anos, reconhece-se em Porto Amboim Espinho, ou Matosinhos, mais as suas avenidas cortadas a régua e esquadro para mais facilmente poderem desaguar para o mar. As ruas têm a largura de Angola, com tão lindas quão poeirentas palmeiras seivadas de verde e de amarelo que continuam plantadas nos separadores a sinalizar o trâfego, algumas velhas casas coloniais que continuam a ostentar os frescos suaves dos laranjas, dos verdes e dos rosas do nosso século XIX e cujas tintas continuam a ser importadas da metrópole, as praias bordejadas pelas omnipresentes palmeiras que tanto guardam as redes do voleibol como as pedras que balizam os jogos de futebol e o grande morro que orgulhosamente mostra ao mar as entranhas de placas de ardósia enquanto vigia os miúdos que sobem ao pontão de cimento e ferro que invade o oceano para apanharem peixes com o simples arrastar de linhas com um anzol descarnado na ponta. «Nesta terra só morre de fome quem quer», recordam-me pela enésima vez desde que cá cheguei. Vista da praia, a cidade torna-se familiar, com os rebanhos de barcos a pastarem junto à entrada do porto, cuja lota se habituou a recolher o pescado dos arrastões chineses que sugam industrialmente os fundos dos mares, os pescadores de pé na praia a contorcerem-se em lanços na linha da maré, o cheiro a grelhado que chega dos restaurantes amesentados na marginal e o batuque dos talheres que se agitam nas mesas das esplanadas viradas no sentido da praia. Do comando da cozinha, cujos cheiros nos atraíram desde Luanda, trezentos quilómetros para norte, uma portuguesa sardenta e de olhos azuis serviu-nos as lagostas duplamente avermelhadas pelo grelhado. No final, apenas a conta, em dólares, tentava enganar-nos de que aquele não tinha sido um pedaço de Portugal.

3 comentários:

yes! my love! disse...

Belo post !!!

Até fiquei com vontade de me mudar para Espinho ou Matosinhos :) e começar a fazer as minhas férias em Angola ~~

Anónimo disse...

Uma leitora de Porto Amboim saúda-o pela excelente escolha de passeio! De facto Porto Amboim é como o descreve, mas como certamente teve oportunidade de reparar: o progresso está a chegar e já se encontra mais perto do que Luanda! Bem haja e volte sempre.

Ana Cristina Corrêa Mendes disse...

Nasci no Lobito, vivi a minha infância na ponta da restinga, vim de lá cedo demais. Gostei de ter aqui caído, bem provável que volte pelo meu próprio pé. Gostei de o ler.

Ana Cristina