Tal como pré-enunciado este blogue acaba aqui. Agradeço aos meus Seguidores terem-no sido. Voltarei, seguramente, à carga, num outro qualquer lugar. Copio o sábio «deve-se lavar os olhos entre cada olhar». Até lá.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
A despedida
No dia em que me despedi de Luanda dei uma volta a pé pela marginal da baía, ex-libris da cidade mais cara do mundo e, durante grande parte da minha estadia por aqui, também o local donde observei Angola. Recordei os joggings musicados às seis da matina por entre o pó, os buracos no pavimento, o lixo que forra os passeios, os maus cheiros, os slalons entre os cada vez mais globais sem-abrigo a dormitarem sob árvores rasteiras regadas a urina e adubadas pelos outros detritos, as velhas palmeiras secas e desmembradas que aguardam o render da jovem guarda que há-de chegar do Dubai, os bancos de madeira há muito arrancados do chão, a intoxicação do ar provocada pela correria dos esgotos que sprintam pelos interstícios da cidade até desaguarem na meta da foz, os pescadores que alam cardumes de peixes atordoados em linhas de anzóis nús, as estranhas algas de cucas, coca-colas, blues, sumos e tudo o que boia embalado à superfície daquela água suja e lamacenta, o martelar das evasões e das recordações do que deixei para trás e que se me surgiam sem pré-aviso a cada desfalecimento, as motas que atropelam gente nos passeios quando a avenida está engarrafada, os malucos que se passerelam descalços em gabardines coloridas de nódoas e que ali teimam em desfilar-se em poses rotas e penteados sioux, as ruidosas zaragatas que de vez em quando entrecortam o zumbido mole e quente dos dias que por aqui correm cansados, as constantes operações stop da polícia sequiosa de gasosa, os deficientes que se dividem entre a marginal e o Kinaxixi a esmolarem os membros perdidos, diminuídos, aumentados, oblíquos, a lenga-lenga dos engraxadores montados nas suas bancas de cartão de tintas deslavadas, pincéis de esponja e águas turvas, as lembranças do primeiro Natal quase Páscoa que passei aqui isolado dos meus e que seria compensado pelo podium privado da também minha primeira S. Silvestre, a sede côr de salmão do Banco Nacional de Angola que fugiu do Terreiro do Paço para ser o edifício mais bonito deste país, as dos ministérios ocupados pelos eternamente bem sucedidos empresários-parceiros locais, o Hotel Presidente que do alto dos seus vinte e seis andares muitas vezes sem elevador consegue cobrar diárias de trezentos dólares americanos, o porto e a alfândega mais lentos e desorganizados mas com os serviços mais caros do mundo, o permanente êxtase de contemplar mães-vendedoras de todas as idades a transportarem os filhos em lençóis dobrados em apêndice nas costas, as luzidias catorzinhas que anoitecem nos passeios nos intervalos de boleias com trilhos marcados pelo estrelato efémero, as milhares de cadeiras de plástico encostadas às paredes dos edifícios que sustentam seguranças em permanente coma, a majestosa trigonometria do exército de carros congelados no trâfego a que durante algum tempo me recusei a alistar muito por culpa das geleiras azuis dos omnipresentes e omnipotentes candongueiros, os arrumadores sempre atentos e fiéis no seu papel de últimos ocupantes da base da pirâmide da corrupção no país, o intermitente odor a Portugal que se percepciona no cozinhado da paisagem citadina e que perpassa também nas elites locais sempre predispostas a copiar-nos no que temos de pior, a memória das suadas convalescenças do assédio plasmódico de que fui triplamente vítima nesta terra onde as fêmeas são maioritárias, os longos períodos de autismo agarrado ao laptop a amaldiçoar a cega, surda e cara Movicel e todos os outros posts que aqui jazem desde o início do blogue e que acompanham, afinal, esta trajetória de um cada vez menor romantismo pela descoberta do que temos em comum e o cinismo que foi ficando refém do olhar sobre a realidade perceptível deste país.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Bagdad, Angola
Os bairros Iraque e Bagdad serão locais tão feios quanto a generalidade dos musseques de Luanda, com construções irregulares, em locais desordenados, desinfraestruturados e, diz-se, grandemente ilegais. No entanto, dentro destes locais existe vida. O que nem sempre parece ser do conhecimento de todos.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
A second chance
O Projecto Angola LNG, no Soyo, é o mais importante investimento de sempre da economia angolana. Dado o potencial de criação de riqueza, esta poderia ser a grande oportunidade para que o seu povo pudesse, finalmente, sentir-se dono desta sempre adiada promise land. Desbaratada a primeira, pouca gente acreditará que o LNG possa ser a segunda oportunidade para que este país se comece a resgatar. quarta-feira, 29 de julho de 2009
Mastigações
Pintura de Etona«Médico naturalista desaconselha refeições confeccionadas na rua». Eis um diagnóstico que eu, como muitos outros naturalistas por aqui, já havia há muito formulado. A bem da restauração luandense e, em abono da verdade, também da sua tesouraria.
(Adenda: Eis o que poderá acontecer aos consumidores que não levem a sério os conselhos dos naturalistas, bloggers incluídos.)
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Crescimento & Desenvolvimento
«Angola não regista progresso no combate à pobreza». Eu sugeriria que, ao invès, tentassem combater a riqueza. Talvez que, assim, obtivessem melhores resultados. Com menos trabalho. O campo de acção sempre seria bem menor.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
terça-feira, 21 de julho de 2009
segunda-feira, 20 de julho de 2009
domingo, 19 de julho de 2009
sábado, 18 de julho de 2009
O poder do poder
O jornalista angolano Ismael Mateus propõe-se sintetizar uma reflexão de muitos, que não apenas angolanos. «Por que razão JES quer continuar no poder?»
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Terminal Dois
Está já operacional, desde sábado, 4 de Julho, o novo terminal internacional de desembarque, designado número dois, do Aeroporto 4 de Fevereiro, em Luanda, um empreendimento que custou aos cofres do Estado angolano a quantia de nove milhões de dólares. Ainda bem, digo eu, que sou um utilizador frequente desse local. Espero é que, em definitivo, eliminem também as melgas que por lá insistem em assediar os recém-chegados ao território.quinta-feira, 16 de julho de 2009
TAAG
Os responsáveis pela transportadora estão eufóricos. «Companhia aérea angolana vai regressar ao céu português». Desconhece-se a opinião do céu português.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Tratar da saúde
Há cerca de um mês uma mulher de vinte anos acabaria por morrer às portas dos estúdios da televisão estatal depois de lhe ter sido negada assistência médica no principal hospital de Luanda. Agora, após inquérito de apuramento de responsabilidades, o ministro angolano da Saúde decidiu exonerar o conselho de administração desse hospital. Para além da rapidez na investigação, também a responsabilização pronta. E óbvia. Ocorrências impensáveis, por exemplo, se em Portugal. Chapeau.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Horror
Para lá do horror na dor desta mulher, haverá um drama, porventura, bem maior, que se vai vertendo, subliminarmente, em alguns dos comentários à notícia.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
domingo, 12 de julho de 2009
sábado, 11 de julho de 2009
Club K Angola
O mais interessante blogue de angolanos para angolanos encontra-se no site Club K Angola, que se auto-define como clube dos angolanos no exterior. Muito do que expatriados vão ouvindo e apreendendo sobre o regime, a realidade informal e a mentalidade do país está neste local. Que é também uma elegia ao maior símbolo da cultura de Angola. O Pensador. Bem diferente do anódino e anónimo noticiário oficial. sexta-feira, 3 de julho de 2009
A luta, afinal, continua
«Cabinda: FLEC anuncia morte de três soldados angolanos». Até aqui seca, ou a correr em surdina, a torrente de notícias sobre a guerrilha civil que se trava em Cabinda já abandonou os até aqui considerados pasquins para invadir jornais nacionais. O mau augúrio continua.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
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