domingo, 7 de dezembro de 2008

Hoje há conquilhas, amanhã...

Um dos hábitos em Luanda, de que primeiro se estranha e depois se entranha, é o de nunca se saber qual a marca do próximo after-shave, sabonete, pasta-de-dentes, papel higiénico, leite ou cerveja que iremos comprar no supermercado. Sequer se haverá para a semana peras, bananas, laranjas ou maçãs, starking, fuji, golden, reineta, red delicious ou local. Depois do primeiro trimestre a beber Schweppes e do segundo uma marca com um nome polaco, os últimos tempos trouxeram a novidade de não se beber simplesmente águia tónica por falta de comparência de qualquer marca. O mesmo para os yogurtes, que tanto podem trazer aromas, sabores ou pedaços de fruta como não trazer coisa nenhuma, incluindo a embalagem. Meia dúzia de anos depois do final da guerra civil angolana, o racionamento continua válido. Como já desconfiava, as razões são estas. A Alfândega de Luanda passa por ser a mais desorganizada do mundo. 150 mil contentores, correspondente a dois meses de descargas, permanecem estacionados no interior do porto, para desespero de distribuidores famintos de cifrões e consumidores ansiosos por despachar kwanzas. Daí que me encontre há uma semana a penar na companhia de umas argentinas de que nunca decorarei o nome, dada a ausência das bem mais reconhecíveis e apetecíveis cervejas da Cuca. Pena e nostalgia muito mais pesadas quando se está de perna alçada na esplanada de um dos muitos restaurantes da ilha com vista para a entrada do porto, permanentemente engarrafado de navios prenhes de tudo, a imaginar um porão inundado de loiras descaradamente borbulhentas e húmidas de frescas.

8 comentários:

fernando baião disse...

Pois é, já é um hábito antigo, Angola importa tudo, não fabrica nada, tirando o alcool, ( e mesmo este não chega para afogar as mágoas),o petróleo compra tudo lá fora: agulha para as costureiras, o pente e a tesoura para os barbeiros, a cola para os sapateiros e a graxa para os engraxadores. Até já importamos peixe!!! Só não importamos a água do mar porque tem muita ali mesmo em frente.Vá sofrendo , meu caro, pois a maioria dos angolanos já anda a sofrer há quinhentos e trinta e três longos anos.

Roberto Ivens disse...

Fernando Baião,

A ser assim será, realmente, muito tempo...

JM Coutinho Ribeiro disse...

Ó, homem, então anda para aí envolvido com argentinas e nem sequer lhes sabe o nome?
:-)

Roberto Ivens disse...

CR,

Sabe como é, quando são passageiras e não se está fidelizado...

m.Jo. disse...

Fidelidade, pelo visto, não faz parte do cenário angolano. Até a Cuca faz forfait.

Anónimo disse...

Pois, não é completamente verdade...Ainda hoje encontrei 4 Cucas num bar! Não havia mais, mas sabe-se lá se a inundaçao de Cucas vai ser uma determinação do partido do cucação ( foi um lapso) ou uma determinação do conselho de ministros ( à falta de assuntos mais importantes) para alegrar os luandenses no natal e darem por bem empregados os votos...

Roberto Ivens disse...

m.Jo.,

Touchè...

Roberto Ivens disse...

Anónimo,

Sorte a sua...