sábado, 29 de novembro de 2008

Ampulheta de Natal

O ano passado, por esta altura, lembro-me de já começar a acordar com a visão difusa de uma ampulheta na minha mesa de cabeceira, à qual, ainda antes de lavar os dentes, dava imaginariamente corda, virando-a do avesso para permitir que aquela nova catarata de areia ficasse a marcar-me o resto do dia. Eram vésperas do Natal mais precoce de que me lembro, após três meses em Angola e, talvez por isso, jurava estar a antecipar-se por todo o lado em meu redor, como uma sinfonia. Agora, mesmo com um mais alargado menu de relógios, de pulso, do telemóvel, do laptop, não tenho pressentido o mesmo peso no pêndulo dos dias que vão passando. Se calhar, este ano, não haverá Natal, ou havendo, apenas o angolano. O que não será, verdadeiramente, Natal. O nosso Natal. O dos meus a testemunharem-me ser também deles, o do cocktail de cheiros e sabores que já ameaçam torturar-me, o dos afectos de cuja distância certamente me farão chorar a perda, o de tantas e tantas memórias de que me recuso a despovoar, o das ausências dos que já partiram mas insistem juntar-se-nos à mesa nessa noite, o do calor gélido da ida a pé para assistir à missa-do-galo na Matriz ou, enfim, o das pequenas coisas que fomos inaugurando juntos, como o passeio de véspera pelo frio matinal da Santa Catarina, a admirar a correria consumista das pessoas cujo Natal tem de ser sempre embrulhado, ou o almoço no calor aconchegante do Abadia, como aperitivos da ceia do dia seguinte, todos juntos, como sempre estivemos até agora, mesmo os que já partiram mas insistem em juntar-se-nos nessa noite. E é por isso que, por estes dias, não tenho visto uma ampulheta na minha mesa de cabeceira, mas antes um reles vaso de vidro carregado de areia suja que me vai caindo em torrente na cabeça. Cada vez menos fina. Cada vez mais suja.

2 comentários:

Sal Ober disse...

é nestes momentos que se sente o valor por pormenores, como nunca...

saudações sentidas

http://coresemtonsdecinza.blogspot.com

Roberto Ivens disse...

Sal Ober,

É verdade. Vivemos, afinal, de pormenores...