domingo, 30 de novembro de 2008

Judinhas

Confesso ser um distraído autor de blogue. Afinal, só agora me apercebi que o Nos Cus de Judas já fez um ano. Quem diria. Não tenho a certeza, mas creio ter batido o record da longevidade de escrita dos blogues por onde já passei. Deve ser do efeito angolano, pois por aqui tudo é muito longilíneo. Quando escrevi isto, a 4 de Novembro de 2007, não imaginava que estaria agora a justificar ter-me esquecido do primeiro aniversário. Ou que somaria entretanto 8.500 visitas ao que aqui escrevo, tudo de pessoas que não conheço pessoalmente, tirando a minha fiel Pilar. Muito menos que teria outros autores a escancararem-me a porta e a encimarem-me pretorianamente o blogue como seguidores. O que tenho considerado ter tanto de honroso quanto de inexplicável. Agora que me lembrei de me ter esquecido do aniversário, o que fazer? Até porque sou pouco dado a festins. Quando muito, como aconteceu no último, poderia fechar o blogue. Mas não desta vez, pelo menos enquanto o gozo ainda andar por aí. Então, talvez que, em época de crise, que não apenas financeira, pudesse juntar os custos da efeméride aos do mais conhecido Anónimo da blogosfera portuguesa, que fez o favor de publicar hoje um antigo texto meu. Bora lá então comemorar com uma cowboyada. Tchim tchim, Judinhas.

sábado, 29 de novembro de 2008

Ampulheta de Natal

O ano passado, por esta altura, lembro-me de já começar a acordar com a visão difusa de uma ampulheta na minha mesa de cabeceira, à qual, ainda antes de lavar os dentes, dava imaginariamente corda, virando-a do avesso para permitir que aquela nova catarata de areia ficasse a marcar-me o resto do dia. Eram vésperas do Natal mais precoce de que me lembro, após três meses em Angola e, talvez por isso, jurava estar a antecipar-se por todo o lado em meu redor, como uma sinfonia. Agora, mesmo com um mais alargado menu de relógios, de pulso, do telemóvel, do laptop, não tenho pressentido o mesmo peso no pêndulo dos dias que vão passando. Se calhar, este ano, não haverá Natal, ou havendo, apenas o angolano. O que não será, verdadeiramente, Natal. O nosso Natal. O dos meus a testemunharem-me ser também deles, o do cocktail de cheiros e sabores que já ameaçam torturar-me, o dos afectos de cuja distância certamente me farão chorar a perda, o de tantas e tantas memórias de que me recuso a despovoar, o das ausências dos que já partiram mas insistem juntar-se-nos à mesa nessa noite, o do calor gélido da ida a pé para assistir à missa-do-galo na Matriz ou, enfim, o das pequenas coisas que fomos inaugurando juntos, como o passeio de véspera pelo frio matinal da Santa Catarina, a admirar a correria consumista das pessoas cujo Natal tem de ser sempre embrulhado, ou o almoço no calor aconchegante do Abadia, como aperitivos da ceia do dia seguinte, todos juntos, como sempre estivemos até agora, mesmo os que já partiram mas insistem em juntar-se-nos nessa noite. E é por isso que, por estes dias, não tenho visto uma ampulheta na minha mesa de cabeceira, mas antes um reles vaso de vidro carregado de areia suja que me vai caindo em torrente na cabeça. Cada vez menos fina. Cada vez mais suja.

O homem dos foguetes

Presidente condiciona data das eleições presidenciais à aprovação da nova Constituição. Mais uma vez, a festa angolana está dependente do homem dos foguetes. Que não resiste a provar ser o detentor do privilégio de acender o cigarro propulsor da máxima que o celebrizou. A de ser o único a fazer a festa, atirar os foguetes e apanhar as canas. Até um dia.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Big Ricco

Depois do petróleo e dos diamantes, Angola prepara-se para iniciar a exploração de vencedores de concursos Big Brother. Crê-se que o país tem um grande futuro à frente.

Governo sombra

Mais importante do que o anúncio dos nomes dos ministros do governo de Angola é o da composição do conselho de administração da SONANGOL. Pois foi agora anunciado. Ei-lo.

domingo, 23 de novembro de 2008

T.A.P.A.

(Para quem não saiba, um automóvel aqui conduzido por estrangeiros, que tenha estacionado num qualquer local, mesmo que ermo, sob o olhar de um indígena, mesmo que a três quilómetros de distância, passa a estar automaticamente sujeito à Tabela Angolana do Parqueamento Assistido.) Naquela noite, mal pagamos o jantar, apercebemo-nos logo do problema. A conta havia sido redonda, sem trocos, pelo que não teríamos a habitual nota de duzentos quanzas para pagar o parking, ainda por cima distante do restaurante. Chegados ao carro, a sofreguidão do nosso guarda, zarolho e com falta de três dentes na montra, logo nos lembrou do erro. Ainda basculhamos nas carteiras, a ver se conseguíamos remediar minimamente a coisa, mas não se conseguiu juntar mais do que sessenta kuanzas, muito abaixo do mínimo de cem kuanzas admitido na Tabela para um estacionamento na zona dos restaurantes da ilha de Luanda. Pôs-se o carro a trabalhar, que é como a Tabela aconselha a fazer-se para acelerar eventuais desacordos de pricing, baixou-se o vidro para pagar e adicionou-se a informação de que na próxima vez poderiam dobrar a factura. Qual quê! O homem perdeu a sofreguidão inicial e pôs-se logo a recitar uma cantilena sobre ter-estado-ali-a-trabalhar-e-não-a-brincar, que-até-nem-tinha-deixado-que-partissem-faróis-e-retrovisores e que por isso não-concordava-com-a-paga-apresentada. Sendo a cantilena tão conhecida quão a Tabela, uma e outra aliás indissociáveis da corrupção mental que lavra na Angola actual, respondeu-se-lhe com a tradução portuguesa do take it or leave it. A partir daí o zarolho pôs um ar de ofendido. Devolveu-nos as notas e avisou-nos de que poderíamos ir, mas que iria partir-nos o vidro retrovisor do jipe. E tão rápido foi a dizer isto quão a atravessar a rua para recolher um calhau do separador central. A veemência da ameaça, tanto a dita quanto a demonstrada, dera-lhe subitamente uma credibilidade que o enviezamento do olhar lhe retirava. O condutor ainda saiu do carro para tentar apaziguar ânimos com a promessa de um retorno próximo, mas o mais que conseguiu foi atrair um outro indígena arrumador, este coxo, naturalmente solidário com o colega. Fiquei a pensar que, mesmo com eventuais dirtúrbios na pontaria, duas pedras sempre teriam maior probabilidade de acertarem no vidro do jipe. E assim ficaram todos a tagarelar, durante os mais pesados cinco minutos que seguramente vivi em Luanda, até que o condutor se decidiu a pedir a intervenção de um segurança de um restaurante defronte, que assistia a tudo à distância embora sem demontsrar muita vontade de se envolver. Enquanto aguardava por uma resolução daquela assembleia-geral entre condutor, arrumadores e segurança, sentado no lugar do morto e a pensar na possibilidade de poder sê-lo no sentido literal do termo, não conseguia deixar de imaginar que só mesmo muito ceguetas e muito pernetas não conseguiriam acertar um calhau numa superfície vidrada de um metro de largura por outro meio de altura. E como já visse o vidro estilhaçado e não descortinasse os porventura maiores estragos da pedra, saí do carro com o telemóvel em punho para ameaçar o segurança de que iria chamar a polícia e protestar junto da gerência do restaurante sobre a falta de capacidade para proteger os seus clientes. Foi remédio santo. O segurança ruminou algo aos outros dois, o zarolho descobriu o sorriso mais desdentado da noite, largou o pedregulho, aceitou reverentemente os sessenta kuanzas e desejou-nos boa viagem. Saímos dali a pensar que acabáramos de ter a nossa mais importante lição sobre a T.A.P.A..

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Predadores

Comecei a ler «Predadores» de Pepetela, escritor angolano que não conhecia, muito embora já detentor de um Prémio Camões. Ao fim das primeiras vinte e sete páginas, já deu para perceber que quase tudo o que se tem escrito sobre Angola, designadamente na blogosfera, é uma perda de tempo. Porque quase tudo o que é Angola, incluindo o que se escreve na blogosfera, está lá. Esperam-me 357 páginas de eufórica gazeta ao blogue.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A lei da gasosa

Uma manhã de sábado e uma tarde de domingo a conduzir e ser parado três vezes e meia pela polícia de trânsito de Luanda será obra. Ou muito empenho na gasosa. Afinal, o que tem de especial um jipe cinzento metalizado por tantos riscos, com uma letra a querer soltar-se da matrícula, o guarda-lamas amassado a atestar tantas entradas gloriosas em rotundas e retrovisores e faróis milagrosamente en su sítio, senão o facto de ser conduzido por dois brancos com aspecto de entradotes e, quem sabe, com a carteira recheada de kuanzas, quiçá até dólares? Curiosa a forma como, nestes casos, se portam os agentes das forças-da-lei. Que é como por aqui chamam aos polícias de trânsito. Apresentam-se aos automobilistas a levar a mão enluvada até à altura da orelha, a gozar uma continência, voz e gestos lentos, a manear as ancas à John Wayne, coldre ocupado pelo livro das multas e olhar tão vago quão displicente para o exterior do automóvel, como quem procura um primeiro substantivo para iniciar o texto do relatório que precederá a multa, ou a ameaça dela por bem mais lucrativa. Os documentos da viatura, nem sei se por favor. Chatice. Não os temos, algum colega lá da empresa foi autuado antes e ter-se-á esquecido de levantar os documentos logo após a liquidação da multa. Porra e então agora? Eh pá, calma lá, se o gajo se está a atirar à gasosa vai ter de suar por ela, afinal hoje até é sábado, temos tempo, vamos lá dar-lhe uma banhada. Ah ganda tuga! Resultou. Afinal, um branco com aspecto de já entradote, com uma carrada de papéis na mão, a brami-los à vez após cada nova pergunta, acabaria por cansar o agente. E certamente a fazê-lo pensar que não faltariam outros brancos com aspecto de já entradotes a quem bem poderia depenar uma gasosa sem ser obrigado a tanto esforço para lhes tentar perceber o linguajar. À segunda paragem, durante a noite, nova lenga-lenga vitoriosa sobre uma-multa-que-já-está-paga-mas-os-documentos-só-os–podemos-levantar-na-próxima-segunda-feira, com a novidade de agora haver um farol que não acende. Ai sim? Ora diga lá qual deles? Bora lá ver então! O quê? Ai há bocado estava apagado? No domingo de manhã, certamente que após a promoção por todas as esquadras de Luanda do concurso Quem Será Capaz De Cravar Uma Gasosa Aos Dois Tugas Com Aspecto De Já Entradotes Que Andam Para Aí A Pregar Uma Lenga-Lenga Sobre Uma-Multa-Que-Já-Está-Paga-Mas-Os-Documentos-Só-Os-Podemos-Levantar-Na-Próxima-Segunda-Feira, nova paragem. Só que este, mesmo que avisado do concurso, não parecia ter tido a sapiência de ler as regras. Resultado, mais um patinho fardado. Mas logo uns quilómetros a seguir à terceira paragem, surge a meia. Só que já enebriados pela inimputabilidade ante a polícia de trânsito angolana, que calça luvinhas brancas roubadas dos cartoons da Disney, nem parámos, deixando o homenzinho de braço no ar, a bufar no apito com a sofreguidão de um asmático e finalmente a gesticular no nosso retrovisor, cada vez mais pequeno, pequenino, tão insignificante quanto a natural propensão para afundar mágoas na gasosa.

domingo, 16 de novembro de 2008

Carrinhos de choque

Desde o início da minha estadia aqui que me tenho recusado a conduzir. Por assumidamente não conseguir fazê-lo neste carrocel de carrinhos de choque que é o trânsito de Luanda. Com toda a certeza, o único local do mundo onde é proibido que os automóveis circulem sem um único risco na pintura, ou um mínimo de três amolgadelas na carroçaria, ou a falha de pelo menos um dos espelhos retrovisores, ou qualquer uma das duas chapas da matrícula, onde faltam quase sempre ou um número ou uma letra, ou o pára-brisas estilhaçado em pelo menos dez por cento da superfície, ou uma das janelas tapada por um plástico preto, ou um dos pára-choques fracturado, embora colado nas pontas por uma fita-adesiva que tem uma côr diferente da da carroçaria, ou qualquer um dos tampões das jantes, quando existam tampões, ou quando existam jantes, ou qualquer uma das luzes alaranjadas que sinalizam as travagens, quando não são as brancas da marcha-atrás, ou as dos piscas, ou quando sinalizam mudanças de direcção, quando há alguma direcção, ou quando simplesmente existam luzes, de dia ou de noite, ou desviar das motos que apitam no meio do caos, como se anunciassem a chegada de uma avalanche, quando não circulam em sentido contrário, ou quando galgam dos passeios, ou simplesmente do nada, ou estancar perante a chegada monárquica das carrinhas dos candongueiros, antênticos Hell Angels do trâfego de Angola, por onde há sempre um trilho a seguir, por isso o seguem, mesmo que por fora da estrada, ou talvez por isso mesmo, porque ainda que se diga que não encartados, seriam vencedores de qualquer rally urbano no mundo, ou, finalmente, conduzir com o braço esquerdo de fora, a reluzir o relógio ou a pulseira dourada comprados meia hora antes nos semáforos do largo do Kinaxixi, onde todos os automobilistas de Luanda se costumam reunir, geralmente ao fim da tarde, para se presentearem uns aos outros com festivos toques de buzina misturadas com carícias de pára-choques, quando não de chapas batidas, enquanto compram maços de cigarros nas tabacarias ambulantes, ou o pão fresco que ficou desde a manhã a suar nos sacos de plástico dos vendedores de rua, numa confraternização a que eu assisto, obrigado, tal como a não poder conduzir nesta Luanda.

Seguidores

Reparei recentemente que tinha dois «Followers» à porta do blogue. Como sou um old fashion nestas coisas, imaginei logo que fossem uma qualquer espécie de convite para confraternizar na internet, tipo Hi5’s e quejandos, a que tenho por hábito fulminar logo com o Delete. Mesmo que ainda continue a pensar, como o tenho feito nas duas últimas semanas, que se calhar deveria antes ter reclamado aquele prémio de quinhentas mil libras esterlinas que terei ganho por não-sei-o-quê-do-meu-e-mail. Talvez por isso, desta vez não saquei o Delete do coldre e decidi-me antes a espreitar pelo ralo de vidro do manual de instruções d'«O Que Fazer Quando Há Dois Followers À Porta Do Blogue». E quem lá vejo? Dois compinchas da blogosfera daqui, o F. da Casa de Luanda e a m.Jo. do Seguindo Adiante. Abri-lhes logo a porta. Pois sejam bem-vindos.

sábado, 15 de novembro de 2008

TORANJA - «Laços»

A monotonia dos meus joggings matinais, no cenário igualmente monótono da calçada perigosamente esburacada da marginal, dos arbustos imundos de fezes e de gente que se habituou a pernoitar num relento de garrafas vazias, das pinceladas de urina que marcam bancos e todo o outro mobiliário que há muito deixou de ser urbano, do fétido colorido dos vários esgotos que escorrem para o mar e transformam as águas da baía de Luanda no mais pestilento arco-iris que conheço, é apenas cortada pela abstração concedida pelas músicas do MP3 que insiste também em madrugar e acompanhar-me nestas caminhadas. Como esta, dos Toranja. Já agora, um nome estúpido para a mais brilhantemente efémera banda portuguesa de sempre.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

sábado, 8 de novembro de 2008

Esquisitices

Desde o início da minha estadia neste canto do mundo que à sacramental pergunta «E então ... Angola?» habituei-me a tornar proverbial a resposta «Pois ... é um sítio bem esquisito!» E basta olhar-se para as notícias dos jornais. No mesmo dia, no mesmo jornal, há um título que diz, referindo uma fonte da ONU, que «Há tropas angolanas a combater os rebeldes congoleses» e uma outra que entretanto assegura que o Governo condena uso da força para resolução da crise na RDC. Esquisito não é? Menos esquisito, apesar de tudo, de que uma outra, ainda no mesmo jornal, referindo-se ao julgamento conhecido como «Angolagate», o tal que não tem um único angolano no banco dos réus. Os milhões de Eduardo dos Santos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Cervantes 4 - Camões 2

Quatrocentos professores cubanos vão para Angola. Surpreendentemente, enquanto em S. Salvador Sócrates abria as portas do atrelado, colocava o microfone tapado com um lenço branco ao pescoço e inaugurava o primeiro lanço da noite com um promoção de um jogo de edredons na compra de um Magalhães, a vizinha Cuba preferia encher um barco de professores impacientes por pôr os candongueiros de Luanda a insultar toda a gente na língua de Cervantes. E, no jogo da influência linguística que nos fartamos de considerar decisiva para reganhar Angola, Cuba até bate Portugal por 4 a 2. Mil.

sábado, 1 de novembro de 2008

Anonimato da História

De vez em quando, por entre o caldo sufocante da rotina acelerada que é Luanda, irrompe a frescura de uma história surpreendente. Como a contada por aquele taxista, ex-electricista, de cuja cartola biográfica faz sair um personagem que parece ter fugido de um romance de Garcia Marquez. Sem demonstrar qualquer cansaço pela travessia do Atlântico e com a fulminante metralha de uma memória polvilhada de pormenores, conta ele que, durante a guerra civil angolana, teria sido raptado pela UNITA. Cujo intuito seria o de evitar a sua permanente requisição pelo MPLA para remendar os apagões que precediam os ataques dos rebeldes aos postos governamentais. O rapto duraria 15 anos. Mas, aparentemente, não lhe terá criado grande infelicidade, pois chegaria a casar-se com uma das filhas de Sabimbi. Assegura que, no entanto, teria sido capaz de abandonar o séquito do doutor ainda antes de lhe ser declarado o óbito. E enquanto continua a carregar no pedal e a empurrar a manete da caixa de velocidades como quem vai acelerando a memória de um tempo que ficou para trás, dá o testemunho de uma página do livro da História que nunca viria a ser escrita. Como a do atraso da chegada ao Andulo das bombas químicas que a UNITA teria adquirido em desespero na Ucrânia e que, se chegadas a tempo, evitariam que o MPLA vencesse a guerra. «Pelo menos tão cedo», recorda quem sabe. Imagino quantas outras folhas vividas de romances anónimos não andarão a esvoaçar por esta Angola que continua a cheirar a petróleo e diamantes.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Virtudes

Curiosamente, os bancos portugueses que recentemente premiaram o know-how dos seus parceiros angolanos com 49,9% no seu capital social, são os mesmos que agora surgem associados às transacções do Angolagate. E ainda há quem duvide que a poupança seja uma virtude.

domingo, 26 de outubro de 2008

Aeroporto Presidencial

Consta que em 2010 estará pronto um aeroporto em Luanda. Para já e como sempre nestas coisas das inaugurações, há quem tente a habitual proeza de se pôr a adivinhar-lhe o nome e o chame «Novo». Outros, igualmente pródigos em viajar nas nuvens, referem-se-lhe também como «Internacional». Confesso a minha estranheza perante o léxico utilizado. A menos que, como já me tenho interrogado com os meus botões, alguém queira assumir que já existe um aeroporto, eventualmente internacional, em Luanda. Curiosamente, os meus botões têm-se mostrado impenitentes na resposta. «Não passaria pela cabeça de ninguém», balbuciam eles pelos buracos por onde passam as linhas de coser e que eles usam como olhos mas às vezes também como bocas, «que se considerásse um aeroporto a actual pista onde atracam os aviões que chegam a Luanda». E não deixarão de ter alguma razão quando se referem ao actual 4 de Fevereiro. Daí as expectativas que o aeroporto esteja já a criar entre os estrangeiros que residem actualmente em Angola. Restará agora saber o preço dos bilhetes dos aviões nos vôos que sairão do «terminal para a presidência».

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Geração jindungo

Dezenas de crianças num quarto, fechado, com uma fogueira onde era queimado Jindungo (malagueta) era um dos métodos usados para libertar do "mal" as "crianças feiticeiras" que foram resgatadas esta quinta-feira pela Polícia Nacional na capital angolana. Ao ler esta notícia, revoltante sobretudo pela ignorante selvajaria travestida de religião que decepa crianças, lembrei-me do que me dissera certa vez uma angolana muito convicta dos valores que individualizariam o seu país no contexto regional. Que o caos dos vendedores de rua que agora ocupam o centro da capital, tal como os hábitos de deitar lixo para o chão, cozinhar às portas de casa ou passear descalços pelas ruas, se devem à invasão de Luanda pelas populações vizinhas do Congo mal findou a colonização portuguesa. Não sei se isto terá sido mesmo assim mas, para alguns estratos da sociedade angolana, aparentemente, o valor do jindungo ainda ameaçará o do petróleo.

Blue Eyes

A Júlia ML, detentora dos olhos mais belos e familiares da blogosfera que conheço, distinguiu o NOS CUS DE JUDAS com um prémio cujo significado não me interessa por aí além, a não ser o próprio significado que a Júlia ML implicitamente lhe deu, i.e., ela lê-me! E isso, sim, interessa-me, desde logo porque o blogue dela é tão bonito como os olhos com que ela escreve o que lá se lê. Sendo eu avesso a confraternizações, não vou respeitar minimamente as regras do tal prémio. Fico-me, então, por um «Obrigado, Blue Eyes».

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

PEDRO ABRUNHOSA / ILUMINA-ME

Uns consideram o português, de Portugal, um língua difícil para se ouvir. Talvez porque, como dirão outros, comamos as sílabas. Uns e outros apontam assim o so-le-trar do português, de Portugal, como o maior obstáculo à difusão da nossa música. E dão o exemplo de um outro português, o do Brasil, que é, desde há muito, um sucesso à escala planetária. Por mim, desde este meu auditório privativo que são os joggings corridos a MP3 de música portuguesa na marginal da baía de Luanda, tenho descoberto que tudo isso afinal não passa de mais um logro de viciados desde o berço em negar o génio do que é português. Se não, ouça-se este Pedro Abrunhosa. Cuja luz consegue transformar o fétido da baía luandense numa ilusão da maresia que o mesmo Atlântico recupera tantos milhares de quilómetros a norte.

domingo, 19 de outubro de 2008

Charada do costume

Uma vez, no Lobito, depois de um jantar fora, chegamos ao hotel onde estávamos hospedados e parámos o carro junto de uma tabuleta que informava da proibição do estacionamento defronte, «excepto clientes do hotel». Tão óbvia me parecia a situação que saí displicentemente do lugar do morto para afastar os quatro pinos de plástico pintados às riscas vermelhas e brancas que guardavam os lugares. E não é que me sai disparado da porta do hotel um velho paquete vestido com uma jaqueta de figurante de filme épico aos berros de «Alto aí»?! Recordo o colarinho mais estrilhaçado que já vi na vida, com milhentos rios de fios a escorrerem-lhe para o peito da camisa borolenta que já há muito deixara de ser branca, uma catarata de riscos vermelhos saídos da gravata muito larga que fazia um chumaço de nódoas no lugar do que pretenderia ser um nó e que acabava num rabo de bacalhau que soçobrava muito antes de chegar ao umbigo e a encimar a figura um chapéu azul e vermelho roído nas pontas que teriam sido debroadas a dourado, num quadro cujas pinceladas lhe davam um ar de almirante que há muito perdera as graças do mar. «Quem lhe deu autorização para mexer nisso?» Com o maior dos desassombros informei-o que estávamos hospedados no hotel, aquele mesmo hotel. Qual quê!? A informação parecia não ter esmorecido minimamente a fúria fardada do homem, pelo que continuou a entoá-la numa crescente estridência de gritos e gestos. «Mas você não devia ter mexido nessas coisas, pois esse é o meu trabalho!» Após mais alguns esforços, inglórios, para criar alguma luz naquela escuridão, concluí que, não sendo um problema de língua, poderia muito bem sê-lo de linguagem e decidi então deixar o caminho aberto para a entrada naquela liça cada vez mais surrealista do meu colega, angolano, condutor do automóvel. Sem qualquer sucesso. O homem continuou a repetir até à exaustão o nonsense do refrão da sua exclusividade de guardião dos mecos, pelo que daí a minutos o carro já estava estacionado a cinquenta metros daquele local. Ainda perguntei aos funcionários da recepção, que presenciaram o incidente na rua, se havia por ali um livro de reclamações, mas olharam-me como se fosse chinês, não sei se o livro ou se a reclamação. Durante a posterior conversa no bar com o grupo de colegas que me acompanhavam, interroguei-me sobre o sentido, sociológico que fosse, do sucedido. Resquícios de algum tipo de funcionalismo? Excesso de zelo militante? Falta de formação no serviço ao cliente? Mera senilidade? Seria um angolano a decidir a charada. Uma gasosa e tudo teria ficado logo resolvido.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Pistolas de água

As anedotas continuam no julgamento do «Angolagate» em Paris. Segundo os jornais, Pierre Falcone terá argumentado que, afinal, foram «razões humanitárias» que o terão levado, mais o sócio, a guardar metade dos quase 800 milhões de dólares envolvidos no negócio da venda de armas ao regime angolano durante a guerra civil. E quem imaginava que os fornecimentos que caíam de pára-quedas no território seriam de material bélico está rotundamente enganado. Eram, afinal, de «água». Vai-se a ver e ainda se concluirá que tudo não terá passado de um simples engano de notas de encomenda.

Antípodas

Enquanto o mundo outrora conhecido por civilizado vai lambendo as feridas deixadas a nu pela selvajaria do sub-prime, Angola resiste e continua a imaginar-se a viver nos antípodas.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Coro do Judas

Uma opinião inserta num poste aqui publicado há uma semana atrás foi transcrita na blogosfera internacional. A que se diz empenhada em amplificar o que os «other media» tenderão a não altifalar. Como será o caso, refere Clara Onofre, do Angolagate. Num primeiro momento, fiquei algo receoso com os efeitos destas luzes da ribalta, principalmente com eventuais pilhas vigilantes no meu contador de visitas. Num segundo momento, olhei para os sponsors do Global Voices como quem se alivia na protecção tutorial. Desde a Harvard School, até à Fundação MacArthur e à Reuters, todos se esforçam globalmente por me assegurar de que a minha voz será ouvida. Como dizer-lhes, entretanto, que não sei cantar?

domingo, 12 de outubro de 2008

Diabinho

A força da crise na finança internacional é cada vez mais despudorada, com bancos, seguradoras e inclusivè países a declararem falência. Tal como no passado havia especialistas a explicarem a bonomia das políticas do crédito fácil e barato para todos, também há agora especialistas que explicam que a salvação do mundo está afinal na poupança. Vai-se a ver e serão os mesmos especialistas. Por mim, tudo isto fez-me descobrir que tenho um diabinho a habitar na cabeça. E que costuma passear-se algures entre a minha cada vez mais calva fronte e as traseiras da orelha esquerda. Um destes dias meteu-se à fala comigo, o estafermo. Para me dizer que, depois disto tudo, bem que queria saber como é que a nossa vizinha cabeleireira, que costuma passear-se num espada, que todas as segundas-feiras enche de amigas, igualmente suequíssimas, para comprarem pizzas congeladas no supermercado, irá continuar a pagar a renda do leasing do seu BMW.

Olho por olho, dente por dente

Consta que, esta semana, em Lisboa, alguns cidadãos angolanos em trânsito foram impedidos de entrar no País porque o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras terá desconfiado da sua capacidade de sobrevivência em Portugal. Logo de seguida, num sinal da fulminância com que a diplomacia angolana costuma actuar, foi suspensa a emissão de qualquer tipo de vistos a cidadãos portugueses com viagens marcadas para Angola. No Consulado do Porto, todos os processos, que obrigatoriamente incluíam cópias de cartões de crédito, foram recusados. Uma folha A4 colocada de urgência na porta da recepção dos pedidos passa a exigir que, a partir de agora, os candidatos a visto tenham de apresentar prova da compra de divisas, à razão de 200 USD por dia de estadia prevista em Angola. Depois da cena das cartas de condução, a dos cartões de crédito. É a imagem de marca da diplomacia angolana. Olho por olho, dente por dente.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Morais, vintages & LBV's

Logo após a divulgação da lista dos membros do novo governo angolano, fartei-me de perscrutar no Google o nome de José Pedro Morais, consagrado ministro das Finanças do elenco cessante e não reconduzido no cargo. Que lhe teria acontecido? Afinal, a circunspecta imprensa angolana limitava-se a reportar os nomes e, quando muito, os curriculuns dos novos eleitos do presidente Eduardo dos Santos e parecia esquecer os anteriores estafetas. Encontrei, agora, a justificação para a substituição de José Pedro, que passa a presidente da futura Bolsa de Valores de Luanda. Foi numa entrevista ao seu substituto, Severim, até aqui vice-ministro das Finanças. E, também, seu sobrinho. Fico a aguardar que o «génio» dos vintages angolanos se possa replicar nos LBV's.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Angolagate

«O julgamento do "Angolagate", ligado ao caso de presumível tráfico de armas para Angola nos anos 90, começa na segunda-feira num tribunal de Paris, envolvendo dezenas de políticos e empresários franceses.» Não haver neste processo um único arguido angolano não deixa de ser curioso. Que todo o material de guerra, tanques, navios, helicópteros, obuzes, minas, tivesse entrado em Angola sem que ninguém o houvesse solicitado faz pensar que, afinal, poderá ter havido uma ... invasão estrangeira?!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Poema à Mãe

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha – queres ouvir-me? –
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas – tu sabes – a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade, «Os Amantes sem Dinheiro»

domingo, 28 de setembro de 2008

Congeminações de lounge

Aeroportos. Durante muitos anos não conheci nenhum. Nunca precisei. A morar no norte de Portugal, junto ao mar, que interesse maior haveria para procurar o que quer que fosse fora dessas latitudes que me obrigasse a atravessar a fronteira? Tirando os chocolates de Tuy, o marisco de Bayona, o bacalhau de Santa Tecla, os hipers de Vigo ou as sereias de Sanxenxo e Portonovo? De repente, a coisa mudou. Não o Norte Litoral ou a Galiza, claro, apenas o sentido da minha vida. Carreira, quero dizer. Se é que carreira alguma vez seja vida. E se é que esta, também, tenha, ou faça, algum sentido. Afinal, agora, visito um aeroporto, lá fora, pelo menos, cada três meses. Se não mais. Em Angola, mais. Porque, por aqui, ninguém faz mil quilómetros de carro. Seguidos. Nem haverá gasolineira para abastecer tanta estrada. Mesmo que se conduza num dos mais renomados reinos do petróleo. É só ver as filas, às vezes de centenas de metros, aos domingos de manhã, junto à estação de abastecimento da Sonangol, na marginal de Luanda. Fora aos outros dias da semana. Para se ir da capital a Benguela, por exemplo, há que usar o avião. A menos que se queira perder quase meio dia na viagem. Como já fiz. Arriscando a vida numa curva apertada durante a subida de um monte, porque o condutor se assustou com um autocarro que lhe surgiu repentinamente na frente. «Repentinamente», justificava-se ele, mas eu bem que o senti a carregar no pedal da embraiagem, em vez do dos travões, quando o autocarro nos surgiu no final, da curva e da subida. Que foi o que nos valeu. A subida. Tivesse sido numa descida e o atravessar da estrada com o slide tipo rocket da pedalada embraiagem bem que seria o nosso fim. É o melhor que têm os aeroportos. Enquanto se espera, no privilégio do lounge com cheiro a croquete e a sovaco de turista, até que se tem tempo para congeminar sobre a morte. Mesmo se num acidente de carro.

sábado, 27 de setembro de 2008

Dulce Pontes - Fado Português

Ouvir isto por ouvidos de tuga, em África, assaltado das rotinas da distância por um longínquo nevoeiro de frames que disparam impiedosamente lembranças de cheiros, sabores, sussurros, prazeres, sensações mal amanhadas e outros signos igualmente mal decifrados, equivale a ser apanhado pela silenciosa explosão de um vulcão, que se diz ser galináceo e cuja lava se espalha deliciosamente pela epiderme. E que dura, precisamente, quatro minutos e vinte e dois segundos, num magma onde a memória dos sentidos se confunde com os sentidos da memória. Há quem chame a isto saudade. Seja. E enquanto desvio os olhos para o local onde arrumo a mala-de-cartão, apetece-me dizer, como se um magala a sonhar com rabanadas. «Adeus e até ao meu regresso.»

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

E já vão três

Em plena crise na banca internacional, com os gigantes norte-americanos a caírem como búfalos em dia de inauguração do caminho-de-ferro, Angola dá mostras da pujante saúde do seu sistema financeiro. Em apenas uma semana, os accionistas maioritários de mais dois bancos decidiram reconhecer o esforço participativo dos seus parceiros locais e convidaram-nos para reforçarem para 49,9% a sua posição. Depois do líder BFA, chegou agora a vez do Banco Totta de Angola e do Millennium. Intervenientes na operação, para além dos omnipresentes Sonangol e Isabel dos Santos, mais dois outros conhecidos empresários, já accionistas em bancos locais. Sinal de que a pirâmide da distribuição da riqueza que floresce por estas bandas se arrisca a tombar ante a magreza do sopé. Dúvidas sobre o axioma da economia angolana? That’s politics, stupid!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Génios em garrafas de vintage

Por estes dias, tenho recordado o que me disseram uma vez, um pouco antes da minha partida à descoberta de Angola. Que não deveria esperar encontrar por aqui muita «gente de qualidade», mas que, ainda assim, sempre haveria alguns «génios». Tirando o habitual exagero das sumarizações, ainda para mais vindas de um yuppie angolano que decidiu arriscar a carreira no regresso à pátria de que aparentemente não tem em grande consideração, julgo ter percebido o sentido do aviso. O de que o mais difícil desafio, por estes lados, é o de não se deixar levar pelo status reinante e prescindir de certos standards de actuação. Talvez por isso o primeiro génio de Angola possa ser José Pedro Morais, ministro das Finanças revelação e personalidade do ano em diversas apreciações internacionais. Apreciações que ele próprio não hesita em fazer em defesa, por exemplo, da lusitanidade. E talvez que o segundo génio possa ser um sul-africano, também ministro das Finanças e detentor de nome luso, Trevor Manuel, por sinal o mais antigo detentor deste cargo no mundo inteiro. Na manhã em que anunciou resignar, junto com outros dez ministros do governo do ex-presidente Mbeki, o rand desvalorizou 30 cêntimos contra o dólar e a Bolsa de Joanesburgo ameaçou cair a pique. Manuel teve então de interromper uma reunião com o FMI em Nova Iorque para esclarecer que a resignação era deste mas não do próximo governo para que tudo voltasse outra vez aos trilhos. Quem sabe se, em África, os génios não vivem, afinal, em garrafas de Porto vintage?

sábado, 20 de setembro de 2008

Globalização natural?

Depois de ter passado uns dias isolado nos arredores de Joanesburgo, num lodge que pretende vender packages de horas de ensinamentos em ambiente bucólico, na vizinhança de um parque público que oferece a quem por lá anda longos espaços relvados, canteiros de flores cirurgicamente escolhidas desenhados a picotado no terreno cheio de árvores e sombras, um lago que se espraia entre pequenos diques de rochas e até uma pequena montanha que esguicha uma catarata duvidosamente natural, tudo vigiado por cisnes, patos, pássaros e patrulhas de polícias que tentam evitar o surto de violações que ocorrem naquele espaço, enfiado numa sala com outras pessoas a assistir a um curso sobre liderança de equipas, em que Alec Ferguson, o coach do Tiger Woods e o treinador da selecção sul-africana campeã de mundo de rugby eram a santíssima trindade do grupo de monitores, eles próprios a não desprezarem o sonho de chegarem a gurus de alguma coisa que lhes fizesse luzir o sorriso na capa de um best-seller exibido nas pancartas dos supermercados, passeei-me uma tarde num shopping em Eastgate, que será três a quatro vezes maior que o português Colombo e acabei a interrogar-me se a globalização não estará a matar as salutares diferenças que sempre houve entre pessoas, povos e culturas e se o que consideramos evolução natural não estará afinal a transformar-nos em rebanhos de consumidores famintos que pastam nos mesmos prados de cartão de crédito e ar condicionado das mesmas lojas que a Zara, a Nike, o MacDonalds ou o Woolworths mantêm abertas para que possamos ter a sensação de que somos livres de lá sair.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Máxima velha e relha

Dizia-se à boca cheia em alguns cantos que muita coisa iria mudar depois das eleições. Designadamente que seria o fim da mobilidade dos candongueiros no centro de Luanda, que o governo fixaria o dolar a valer bem menos que 70 kwanzas, que diversos musseques desapareceriam do mapa de um dia para o outro, que centenas de milhares das pessoas que deambulam na capital acordariam um dia bem no interior do país e que seria enfim liberalizado o mercado dos licenciamentos, desde a construção de hoteis e shoppings até à exploração mineira. Mais importante que tudo, passaria a privilegiar-se os investimentos na agricultura, facto extraordinário num país que tem tanto de deficitário de produtos e know-how nos sectores da produção alimentar quanto de superavitário em terrenos férteis não cultivados e na propaganda a slogans do tipo «em solo angolano estrangeiro não mexe» com que as autoridades vêm preferindo manter o capim a saciar a fome de tantos. Mas, afinal, o primeiro acto simbólico da anunciada mudança acabou por ser a compra de 49,9% do Banco de Fomento de Angola, líder do mercado e filial do português BPI. Nova postura do regime? Nah, trata-se da mesma velha postura parasitária de sempre. A de sugar o tutano dos investimentos rentáveis e cruciais no desenvolvimento da economia angolana e sem que os accionistas locais acrescentem verdadeiramente alguma coisa, para lá da velada ameaça da Sonangol em retirar depósitos e secar tesourarias aos renegados. Sobra então a velha e relha máxima de que não é Angola quem precisa do mundo mas, sim, este daquela.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Genocídio à hora do lanche

Os milhares de civis em fuga, na sua maioria idosos, doentes, mulheres e crianças, haviam-se refugiado naquela cidade por saberem que eles estavam lá estacionados e lhes dariam protecção e segurança. Que é precisamente o objectivo número um dos capacetes azuis das forças de manutenção de paz da Organização das Nações Unidas. No entanto, depois de um cerco cerrado de vários dias, o exército invasor exigia que o batalhão da ONU abandonásse a cidade para mais facilmente poderem desarmar o que consideravam elementos da guerrilha local infiltrados na população civil. Reforçaram a negociação dessa retirada contra a entrega de alguns soldados tomados como reféns. E os capacetes azuis fizeram-no. Concedendo aos invasores o espaço, o tempo e a liberdade para a matança de todos os homens com idades entre os 12 e os 77 anos, num total de sete mil e quinhentas vítimas. Este genocídio não ocorreu no Chade, no Ruanda, na Somália, no Darfur ou noutro qualquer lugar da África suspeita do costume, mas sim na mui europeia Bósnia e sob os olhares, televisivos de todas as refeições, da ainda mais civilizada Europa Comunitária. Hoje, pelos vistos, ilibámo-nos. O que poderá querer dizer que, no presente, tudo poderia voltar a ocorrer da mesma forma e, se calhar, continuaríamos todos a lanchar em frente ao televisor.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Regresso à normalidade

Depois da intensidade dos últimos dias, o regresso à normalidade. Um amigo meu, que conduzia sozinho o seu carro em Luanda, foi mandado parar pela polícia após ter-se internado numa rua supostamente de sentido proibido. O facto da tabuleta com a dita proibição se encontrar afinal cravada no chão do passeio, cerca de vinte centímetros acima do solo, por detrás de outros automóveis estacionados na berma e, portanto, sem ser visível a qualquer condutor, foi considerado um pormenor perfeitamente dispiciendo. Como contra-argumentar a irracionalidade de ver assim servida uma multa acaba inevitavelmente por ser o intercurso para o regateio do montante da gasosa-salvadora-de-outros-gastos-e-canseiras, o condutor decidiu-se por copiar o que se lembrava de ter já ouvido relatar a amigos e conhecidos envolvidos em semelhantes sarilhos e estendeu uma nota ao polícia. Erro crasso. A dura reprimenda da autoridade foi imediata. Ficou então este meu amigo a saber, mais os meus, concerteza que os outros dele e assim como quaisquer eventuais interessados, que a gasosa deve, preferentemente, ser servida dentro das folhas do livrete do veículo. Por mim, até concordo que não se deva ferir susceptibilidades alheias.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Afinal nem tudo será assim tão feio

Entre os títulos «Angola: eleições estão a ser "um verdadeiro desastre"», estrondosamente difundido por todos os noticiários durante o escrutínio eleitoral e «Missão europeia considera eleições em Angola como "transparentes"», timidamente divulgado após a contagem das urnas, parece ir a diferença do famoso «Prognósticos? Só depois do jogo!»

domingo, 7 de setembro de 2008

Memória de uma frase batida

Confesso não ter muita motivação para fazer análise sobre as eleições em Angola, estas, as próximas e as que se lhes vierem, se vierem, a seguir. Por correr o risco de não acertar com as pinceladas certas num quadro que se parece com os de Noronha da Costa. Também por ter noção de transportar no olhar, como sobre tudo o que vejo por aqui, a inevitável sombra de um certo eurocentrismo e, assim, recear não poder cumprir, como me esforço sempre por fazer, a recomendação de Mizoguchi. «Deve lavar-se os olhos entre cada olhar». Daí preferir continuar a fixar-me na paisagem emotiva do filme do meu dia-a-dia em Angola e na relação com os seus principais actores. As pessoas. Quanto às eleições angolanas, como de resto ao déjà-vu da vida política local, fazem-me sempre vir à memória uma frase batida. «O caminho faz-se caminhando». Acrescentando eu ao poema de António Machado. E ao de cada um no seu próprio ritmo.

sábado, 6 de setembro de 2008

Charada do funcionalismo

Em quase tudo o que é local produtor de um serviço ou acto administrativo com o trade mark de Angola cresce o bichinho do funcionalismo. Que poderá ser definido como a tentativa de apropriação da realidade por parte dos detentores de uma determinada função pública. Trata-se de uma charada em que os próprios autores se mostram habitualmente disponíveis para esmiuçarem a racionalidade das barreiras do que eles próprios criaram, para mais facilmente depois as ultrapassarem, não raras vezes, a saltos de gasosa. O mais inocente dossier entregue numa qualquer repartição angolana, que inclua a habitual e interminável bateria de atestados, certidões, requerimentos, comprovativos, quer nas versões originais quer nas de cópias certificadas, só será finalmente aceite se lá estiverem toooodos os papéis. Se faltar um qualquer documento, haja um carimbo fora do lugar, veja-se um selo com a côr errada, note-se uma assinatura suspeita, apanhe-se um erro ortográfico, vislumbre-se uma diferente grafia qualquer, conclua-se por uma mancha invisível, volta tudo para trás. A lógica é que um processo completo a 99% continua a ser um processo incompleto. Num insofismável diktat que os guardiões do edifício burocrático angolano, aliás sustentado nos alicerces da administração que os portugueses aqui deixaram há quarenta anos atrás, não ousam sequer sonhar que se possa pôr em causa. Lembro-me da gravidade do erro cometido no meu primeiro pedido de visto para entrar em Angola. Teve como destinatário o Consulado Geral do Porto da República de Angola quando deveria ter sido dirigido ao Consulado Geral da República de Angola no Porto. Diferenças? Devolução imediata de todo o dossier de cerca de duas dezenas de documentos e mais três semanas de espera.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Incomodados

Para lá do circunspecto das notícias sobre as eleições angolanas, que o Ocidente vigia como se estivesse em causa o último suspiro da democracia no mundo, há todo um país que deixou de trabalhar para se banhar nos comícios do último dia da campanha eleitoral. Para atingir o score dos 2 milhões na festa de encerramento do MPLA e assim cilindrar a concorrência, o governo teve de decretar tolerância de ponto. Afinal, por melhor que seja o bebício, não se ganha um comício sem os figurantes do 9 to 5. No dia seguinte, vésperas de eleições e também conhecido por período de reflexão, metade dos luandenses permaneceram em casa. «Incomodados». Que é como se justificam por aqui as faltas ao trabalho por doença. Seja lá ela qual for.

domingo, 31 de agosto de 2008

Frescura

Detidos sete agentes da polícia suspeitos de "massacre do Sambizanga". Ouvi uma vez dizer a um habitante de Luanda. «Tenho mais medo dos polícias do que dos ladrões. Ambos andam armados, mas ao menos com os ladrões sabe-se o que querem.» Talvez que depois de notícias como a desta acusação se passe a saber melhor o que querem os polícias angolanos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Impenitente Cantinho

Férias alargadas em Portugal são ocasião propícia para as interpelações de amigos e conhecidos que mantêm a impenitência sobre Angola. «Consta que aquilo por lá é bastante inseguro, não?» Convoco todos os exemplos de insegurança que conheço, desde os miseráveis roubos de telemóveis, aos mais astutos esticões de bolsas e carteiras, os tiroteios entre gangues, as altercações entre vizinhos do mesmo bairro que são resolvidas a tiros de zagalote e shotgun, os descarados carjacking, os assaltos diários a gasolineiras, ATM’s e bancos, até a coqueluche de já se dinamitarem carrinhas de transporte de valores e respondo numa tranquilidade falsa. «Haverá sítios bem piores!»

domingo, 24 de agosto de 2008

Férias de Angola III

Calcorrear em Agosto o Porto, que decidiu há tempos deixar de ser Feliz, é reencontrar os fantasmas de que persistimos em julgar ter sido salvos. Afinal, eles continuam lá. Nos bancos dos poucos jardins, nas esquinas das muitas ruelas, nas paredes de casas e muros desertos, nos abrigos imundos de lugar nenhum, a um canto dos enormes ventres urbanos que são a rotunda da Boavista, os Aliados, o Marquês, o Carregal, as Antas, os Poveiros, a Lapa, enfim, em todos os locais onde haja carros para arrumar uma moedinha. Continuam a olhar-nos com a mesma passividade adormecida de sempre, como se todos não passássemos, afinal, de algibeiras andantes que de vez em quando se lhes estacam para tilintar um remorso qualquer. Quando se lhes olha de frente percebem-se os rostos magníficos, para lá das pupilas que há muito deixaram de ver, das orelhas que já só escutam o que o vício lhes grita, das vozes roucas por tanto chamarem a liberdade que se foi, dos gestos da face que jazem mortos nas rugas, tudo assim camuflado numa penumbra de humanidade. Creio que jamais se filmou isto tão bem como aqui.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Férias de Angola II

Reentro, após alguns anos fora, no Centro Comercial Brasília e o que é que vejo? Quase vazio, de lojas e de clientes. Mas a abarrotar de pedintes nos corredores, aparentemente imperturbáveis com a falência dos lojistas ou com a fuga dos portuenses para férias sem os avisarem. Procurei, sem encontrar, o lugar onde tantas vezes almocei ao ritmo da leitura do jornal do dia, a montra que me obrigou a coleccionar camisas e gravatas, a livraria onde vira tantos títulos a que achava graça e que me obrigavam a entrar para folhear livros, jornais e revistas, o balcão onde me abastecia de after-shave, mais os cremes que as meninas me vendiam sem que eu chegasse a descobrir a que se destinavam e tantas outras lojas que durante tanto tempo me forneceram tantas coisas menos a capacidade de as guardar na memória. Dizem os entendidos nestas coisas que o velhinho Brasília, que há 30 anos atrás inaugurou o conceito no Porto, pertence à primeira geração dos shoppings e que o seu declínio é um sinal de mudança nos hábitos dos consumidores. Custa-me a acreditar. Acaso deixaram os portuenses de comer? Ou de tratar da aparência? Ou de vestir? Ou de ler? Ou de ...? Bem, afinal sempre há lá agora uma «Eros-Shop». Vá-se lá entender estes entendidos.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Férias de Angola

«India. Menina de 10 anos assassinada por causa de um iPod.» Há uns anos atrás, para não parecer que recusávamos a prenda de aniversário oferecida à nossa filha, tivemos de telefonar para a mãe da amiga que se apresentou na festa-de-anos com um embrulho contendo um telemóvel topo-de-gama que custaria mais de seiscentos euros. Com muito pouca imaginação para justificar o que só consideramos bom-senso, o argumento decisivo para recusar o nao-faz-mal-não-me-custou-nada-pois-comprei-o-numa-promoção-leve-dois-pague-um acabaria por ser o real. Uma criança de 10 anos não precisa de um telemóvel. Ou de um i-pod.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Engraxadores da memória

Um dos mais seguros e confiáveis negócios em Luanda é o dos engraxadores de sapatos. Falta de passeios, ruas esventradas, torrentes de água e esgotos a deambularem pela arqueologia das calçadas, automóveis a pastarem em bermas de estradas de terra batida, outros a abrirem no trâfego quase sempre parado da capital, fazendo renascer redemoínhos daquela poeira avermelhada que é uma exclusividade africana, tudo permanentemente embrulhado num nevoeiro de sujidades, são as condições óptimas para o exercício desta actividade. Depois, putos ladinos e sempre atentos às biqueiras alheias dão ao ramo a agressividade comercial e a proximidade com o cliente que muitos outros sectores da economia angolana não têm. Reparei isso mesmo quando um miúdo, armado de um banquinho com um tampo do tamanho de uma caixa de sapatos e umas pernas que não mederiam mais de trinta centímetros de altura, um pedaço de pau que trazia agarrado uma meia duzia de cerdas de nylon a que ele pretendia dar o destino de escova e uma garrafa de plástico que antes teria albergado 0,25 l de água natural mas agora fora substituída por um cocktail de tinta e lama recolhida dos charcos mais próximos, apontou com ar reprovador para o lugar onde as baínhas das minhas calças tocavam num par de pálidos e outrora castanhos sapatos de vela. Comecei por rechaçá-lo com o olhar, menos porque ele não tivesse razão na acusação ou na sentença da oportunidade de negócio, mas mais pelo embaraço que me criou. De repente, apercebi-me que tinha, calçados, um par de sapatos com 10 anos de idade. O que equivaleria a dizer que estava mais velho outro tanto tempo desde que usei aqueles Rockport pela primeira vez, na Expo 98, comprados numa loja no Colombo, donde saí logo com eles nos pés para calcorrear o nosso segundo dia de vigília á exposição universal, num 10 de Junho que meteu visitas rápidas aos pavilhões do mundo exposto, mais com o intuito de sacar vistos no passaporte que ofereciam às crianças, após espera em longas filas de horas, como as quase três para conseguir almoçar hamburgers & colas no mais enlatado MacDonalds de sempre, assistir ao concerto dos Xutos & Pontapés na praça Sony, antecipadamente pago com a audição do discurso do presidente Sampaio e, sem levantar o rabo do chão, ver no ecran gigante o início do Campeonato do Mundo de Futebol de França, com o Brasil a ganhar 2-1 à Escócia. Dez anos é, realmente, muito tempo para calçarmos. E porque todo aquele tempo tivesse passado ali em pegadas de segundos, algures entre a expressão interrogativa do miúdo e a abstração do meu retorno sem passaporte ao passado, lá acedi a benzer os sapatos coçados que outrora foram castanhos com aquela água benta de tinta e lama nascida nos charcos de Luanda.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Pescarias

A melhor imagem sobre o tipo de colonização que os portugueses fizeram em África foi-me dada, há já algum tempo atrás, por esta anedota. Um português e um inglês foram pescar na margem de um grande rio e, para os ajudar, levaram um criado africano. Durante quase todo o tempo que durou a pesca, o criado africano teve ocasião de mostrar toda a sua inabilidade para o acto. Desde os iscos que caíam dos anzóis ainda antes da linha atirada pelas canas de pesca chegarem à água, aos cortes na linha e às perdas dos anzóis pela falta de jeito em retirá-los da boca dos peixes, até à perda dos próprios peixes que escapavam ao cesto e deslizavam para o rio quando eram agarrados pelo rabo. O português, crescentemente irritado por tamanha inabilidade, descarregava a sua fúria através de um chorrilho de insultos básicos. «Malandro», «incompetente», «calaceiro», «miserável», etc. Tudo intermediado pelo conclusivo «preto». Durante este mesmo tempo, o inglês manteve-se perfeitamente mudo e impassível, aparentando ignorar a presença do criado. De repente, as águas revoltas do rio galgaram a margem e levaram o africano. Pergunta: qual dos dois pescadores se lançou de imediato à água para o salvar?

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Pornografia

Sou de um tempo em que à evidência do que era excessivo e ao excesso do que era evidente se dava o nome de pornografia. Talvez por isso, neste blogue angolano, se evite escrever sobre política. Por razões, acrescentaria, excessivamente evidentes. Mas, de vez em quando, lá vem a tentação. Como esta notícia, justificando o burburinho que tem antecipado as próximas eleições legislativas em Angola. Juro não perceber o temor de alguns. No deserto político que tem sido este país e com o exercício do poder dos actuais ministros da UNITA a demonstrar não terem qualquer diferença dos demais do MPLA, para além do NIB, será de esperar que tudo fique, evidentemente, na mesma. Ou seja, qualquer coisa como isto. Problemas ocorrerão, certamente, depois das eleições, quando o actual regime for obrigado a desmobilizar os enormes custos que vem suportando com a angariação maciça de seguranças privados e sua incorporação nas várias polícias. O que fazer no futuro com o actual excedente de patrulheiros da ordem pública, sim, será um problema. Desconfio também do discurso presidencial, de que nem «todos sem excepção consentiram sacrifícios», a avaliar pelos cerca de 25 biliões de dolares de contas angolanas em off-shores que ficaram por reclamar no aperto que as autoridades americanas fizeram no post 11 de Setembro. A sugerir que tais sacrifícios seriam facilmente compensados. Bem mais genuína, finalmente, será a confidência que um empresário estrangeiro, que construiu toda a sua vida em Angola, me fez há tempos. «Rezo todos os dias para que o presidente não abandone o poder». Convicção e expectativa que não teriam nada de anormal se não se desse o caso do empresário, indiano, ser ateu.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Diferenças entre os 1º e 3º mundos

Cenário 1. Luanda, capital de Angola. As sete e meia daquela tarde pareceram-me uma boa hora para dar por concluído o trabalho, chamar o motorista e tomar o caminho de regresso ao hotel, num percurso que habitualmente demora cerca de um quarto de hora mas que acabaria por se estender por mais duas horas e meia, porque o presidente desta República decidiu ir visitar o centro da cidade e, já se sabe, a sua guarda pretoriana fez parar o mundo num raio de vários quilómetros terrestres, marítimos e aéreos. Como o pobre do motorista lamentásse mais um outro tempo de espera até chegar ao gindungo que, certamente, o esperaria à mesa de casa, convidei-o para jantar num restaurante perto da marginal e do meu destino. Amesentados na esplanada, numa noite inundada de motoristas esfomeados e na expectativa dos dois pregos-à-moda-da-casa, conseguiu-se uma cerveja ao fim de vinte e cinco minutos. Pão? Manteiga? Azeitonas? Nickles! Das três idas ao balcão para incentivar a cozinha, regressava-se com o infrutífero já-tá-memo-a-sair da praxe. Ao fim de mais 1h15m sai o inesperado cardápio: «Não vamos poder servir batatas fritas porque o funcionário do economato levou com ele a chave ao sair do serviço». Boa, ficamos a saber que a despensa acumulava com o economato. E então o prego-sem-batatas-fritas-mas-com-o-bife-e-o-ovo sai? Sai, mas inicia o cozinhado agora mesmo. Felizmente que Sua Excelência já havia regressado aos reais aposentos e o trâfego na marginal melhorara a olhos vistos. Bora lá então pagar o gole da cerveja e atacar já ali o primeiro ovo montado num bitoque da Portugália. Foi o que nos valeu, pilecas de fome e cansaço. Por volta da meia-noite, o motorista lá conseguiria regressar a casa, se calhar ainda a tempo de malhar no gindungo. Cenário 2. Corunha, norte da Galiza, Espanha. Passeio pelo extenso relvado sobranceiro ao mar, florido e arborizado por esculturas e estatuetas alusivas a lendas gregas. De repente, uma morrinha esfriada pelos ventos do Mar do Norte aparece com o intuto de ensopar as t-shirts daquele par de turistas que, mesmo assim, decide estoicamente prosseguir a odisseia de chegar e subir à Torre de Hércules. Mas mais meia hora de uma oblíqua e cada vez mais forte chuva fazem-nos desistir e entrar no primeiro restaurante aberto nas proximidades. Que se manja? Lo que quieren. Fica-se então pelo ensopado de mero. Enquanto se espera o cozinhado na hora, fique-se com o pão artesanal mais a indissociável mantequilla, espécie de manual de sobrevivência da restauração europeia, enquanto o polvo galego não faz a sua entrada. Entretanto, o dono acrescentaria ao repasto uma botelha de um vinho igualmente artesão, da sua quinta na fronteira com as Astúrias mas ainda com sabor a Ribeiro e que o cefalópode acabaria por também aprovar. Muy, muy bien. Logo a seguir chega o mero, a nadar num molho espesso de azeite e de tão deliciosas quão indecifráveis especiarias, tudo escoltado por pimentos verdes e vermelhos para melhor cativar os tugas. No final, uns docíssimos postres caseiros ajudariam a secar a roupa no corpo e deixaram-nos prontos, não apenas para escalar a Torre de Hércules mas igualmente, se necessário, para a conquistar. Também se vêem, assim, as diferenças entre os mundos.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Anonimatos, Gughenheim & Saravás

Sempre fui um bloguer anónimo, quer aqui quer nos outros lados por onde já vagueei, mesmo naquele onde assinava com o meu nome no fim, muito embora apenas com a inicial do apelido. Contrariamente aos que são contra os autores anónimos e que fazem questão em içar-se nos nomes próprios, em actos que sobranceiramente tendem a confundir com coragem, eu tenho-o feito pela maior liberdade e abrangência de escrita que o anonimato permite. Escrevo o que, sobre o que, e da forma que, me apetecem. Em tempos, um meu conhecido assinante de um blogue de referência confidenciou-me não ter escrito sobre um acto de violência gratuita que presenciara à porta de sua casa por recear a hostilidade do vizinho prevaricador, num exemplo de auto-censura com que, por exemplo, um anónimo não teria de se confrontar. Tal como com o risco de lhe serem relembrados os dotes de sapateiro à primeira nota dissonante no rabecão ou, quem sabe, como se a um vulgar aprendiz de pedreiro pudesse estar vedada a idealização da arquitectura do Gughenheim. Não fazendo eu, então, qualquer esforço para me anunciar a amigos e conhecidos, em tornar-me comentador assíduo e notado em blogues de referência, em ser actual nos temas escolhidos ou consensual nos comentários aos comentadores, não sofrer da sofreguidão das postagens ou dos contadores de visitas, fico, no entanto, reconhecido quando me incluem nas galerias linkadas de outros. Apercebi-me que foi o que terão feito o Diário da África e o Casa de Luanda, blogues de brasileiros e angolanos que decidiram adoptar na irmandade este diário, cada vez mais semanário, de um tuga em terras de Angola. Saravá a ambos.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Porreiro, pá!

Consta que terá sido por culpa dele que não consegui arranjar lugar em executiva e tive de me conformar em viajar em económica, numa benesse tão repentinamente anunciada quão lentamente custosa me foi a engolir. Basta lembrar-me dos saltos em altura que tive de fazer sobre a vizinhança da coxia em coma de sono durante todo o percurso de oito horas. Afinal, até que o homem tomou finalmente uma decisão acertada. Daí que eu já me tenha esquecido de que não me serviram o habitual champanhe à entrada, que passa perfeitamente por Möet & Chandon quando sei que é Gancia, não me trocaram os sapatos pelas super peúgas com que galhardamente costumo enfrentar os glaciares da altitude, não me perguntaram pelos alternativos dois pratos de carne ou de peixe, da autoria daqueles cozinheiros especialmente escolhidos pela TAP para tratarem das vertigens gastronómicas dos seus passageiros frequentes, não me ligaram à exibição da edição não-sei-quantas do Senhor dos Aneis, em que um chimpanzé animado insiste em morrer escalfado por causa de uma aliança e já nem sequer me lembro de ter perdido o conforto do banco rapidamente transformado em cama por efeitos da reclinada magia do Monte Velho tinto. Não. O acerto na decisão de enviar 200 professores para Angola em 2009 merece que eu esqueça o que afinal perdi por causa da coincidência de termos regressado no mesmo avião. Até porque, ao que consta, para se evitarem os seus mui temidos tremores no avião, se viajou a mais de 2 mil metros da altitude normal dos vôos de rotas comerciais comuns. As dos que não levam primeiro-ministros a bordo, já se vê. Gaste-se lá, pois, uns bidons de gasóleo a mais do que será costume e mande-se uma carta a pedir desculpas pelo abuso ao ozono, que Sócrates merece, por uma vez, a falta de sobressaltos. Porreiro, pá!